Fascínio
30 A Toca do Diabo
Notas iniciais
Finn correra para casa após a cena que viu, fazendo bilhões de promessas de morte para o maldito conde. Antes de chegar em casa se apoiou em uma árvore quando seu corpo se curvou para frente e ele não conseguiu conter o vômito. Pôs tudo para fora, sua raiva, sua repulsa. Mas ainda havia esperança para Anne. Se o conde morresse ela retornaria a ser humana...
Mas para isso teria que esperar que a transição dela se completasse. Ou, se ele tinha mesmo compaixão por ela a salvaria antes mesmo. Ele só teria que cravar uma estaca no peito dela ainda no túmulo. Ele tinha quase certeza que Anne preferiria morrer a que se tornar um monstro assassino. – Ou não, Anne sabia ser bem egoísta quando queria.
Assim que ele se recompôs deu alguns passos antes de cair de joelhos. Ele teria coragem de matá-la? Não... Claro que não.
– Finn! – Caroline surgiu correndo na sua direção. Ela parou quando viu sua expressão de raiva e dor. Não ousou se aproximar sequer mais um passo.
– Eu já soube. – Ela disse. – Sinto muito.
Finn balançou a cabeça em sinal negativo.
– Está tudo bem. – Ele se levantou. Estava decidido. Não mataria Anne mataria o conde, mas precisava de uma estratégia melhor do que um machado. Talvez se usasse o sol a seu favor. O professor havia dito que um banho de sol resolveria.
– Você precisa de ajuda, eu sei. – Ela insistiu. – Venha comigo, vou lhe preparar um chá.
– Carol. – Ele falou o nome dela alto de mais, quase pareceu um xingamento e por isso abaixou a voz para continuar. – Obrigado, mas não precisa.
Ela assentiu, escondendo a mágoa e foi embora o deixando sozinho.
Finn não tinha escolha a não ser trabalhar por enquanto.
Puxava com um ancinho a palha suja do galpão quando outro empregado apareceu para ajudar ele. Finn continuava em silêncio, tramando como atacaria o maldito. Se iria à casa do infeliz durante o dia teria que sair do sítio sem ser visto. E o que aconteceria não podia ser premeditado. Mesmo durante o dia aquela coisa podia ser perigosa. Ele pegaria aquela arma com balas de madeira, assim teria como atacar o conde à distância. Estava pensando em outras coisas que poderia fazer quando o outro empregado começou a falar com ele:
– Só quero ver agora que a garota também morreu.
– Como? – Finn não entendeu de imediato.
– A senhorita. – O homem explicou. – Ela também está morta e o senhor Foster está sozinho.
Finn assentiu. Continuava puxando a palha não prestando muita atenção no que o homem dizia:
– Sabe – continuava o homem. – Aquele casamento às pressas foi arranjado pelo senhor Foster porque o homem estava doente e devia para o duque. Ele achou que casando sua filha com o duque a deixaria em bons lençóis quando morresse e ao mesmo tempo quitaria sua divida.
Finn franziu a testa. Não sabia que o casamento de Anne com o duque tinha aquele propósito.
– Enfim. – O empregado que ajudava Finn deu de ombros. – Acabou que a esposa e a filha morreram antes dele.
Finn não tinha palavras. Continuou seu serviço tentando se distrair.
À noite tentou dormir enquanto decidia se iria sair antes ou depois que todos acordassem. Porém toda vez que fechava os olhos ele a via. Quando criança, tocando piano, na estufa conversando com ele... Finn ainda não podia acreditar que ela havia partido. Era como se ele pudesse subir a árvore ao lado do quarto dela e pudesse observá-la dormindo. Ou ir à noite para o estábulo onde a encontraria e conversariam. Ela ainda pertencia à vida – ao menos à vida dele.
O que ele sentia não podia ser expresso em palavras. Talvez fosse esperança, ceticismo? Não tente entendê-lo, pois nem ele se compreendia. Mas ele ainda não desistiria dela.
Quando amanheceu Finn saiu antes que todo mundo acordasse. Quando levantassem concluiriam que ele já havia ido para o trabalho, depois ele daria um jeito de fazer perceberem que nunca havia deixado o sítio e sim estado ocupado com alguma tarefa.
Demorou até encontrar a casa do conde, sabia em que região ficava, mas não onde exatamente. No fim até que foi fácil. A casa dele era a mais afastada, a mais obscura ficando em meio muitas árvores. Era um castelo, não dos maiores, mas também não dos menores. E diferente das outras casas, parecia estar vazia.
A antiga mansão dos Lavigne estava quase irreconhecível. Antes do conde se mudar para lá, alguns meses antes assim que comprou a mansão, ele havia mandado reformar o local, tanto por fora quanto por dentro. Adicionou salas novas, mudou totalmente a decoração. Um dos homens que trabalhara nas obras da casa havia espalhado pela cidade o quanto achou estranho quando o conde deu a ordem de tirarem todos os espelhos da casa. Para Finn a ordem não parecia tão estranha assim, já que ele sabia o que o conde era.
O sol já estava alto o suficiente, devia ser umas oito horas da manhã. Finn deixou o cavalo que estava em um local seguro, se aproximou da casa imaginando que a porta estaria trancada e por isso procuraria outra entrada, talvez uma janela que foi esquecida aberta... Ele girou a maçaneta da porta de entrada somente por fazer e deu a sorte da porta estar aberta.
Ele não achou tanta sorte assim, achou que talvez o conde estivesse esperando por ele... Mas Finn tinha certeza de que vampiros não ficavam acordados durante o dia. Ele entrou tomando todo o cuidado. Dentro a casa era escura por causa das espessas cortinas nas janelas e muito silenciosa. Ele continuou mantendo-se sempre à luz do sol, que vinha da porta aberta e cobria toda suas costas.
Ele sabia que teria de procurar pelos vampiros daquela casa e matá-los enquanto dormiam. Eles deveriam estar em algum lugar subterrâneo, sem um raio de luz solar.
Finn encontrou um corredor e teve um pouco de hesitação antes de continuar. Naquele corredor ele estaria totalmente no escuro. Seguiu mesmo assim. Abrindo toda porta que encontrava. Até que chegou numa sala com escada que devia dar para os quartos. A sala era bem acolhedora, com lareira, mesa para comer, um tapete enorme e felpudo. Sua intuição dizia que ele estava no caminho certo, mas não deveria subir as escadas. Encontrou uma porta escondida embaixo das escadas, quase não se podia enxergá-la.
Ele abriu a porta e descobriu escadas que seguiam para baixo da terra. Seu coração acelerava com o medo que aumentava. Sua cabeça começava a doer. Puxou do bolso alguns fósforos e os riscou para que tivesse um pouco de luz. Desceu. Enquanto descia o cheiro de morte o nauseava. Era mesmo terrível. Não dava para enxergar muito além com aqueles fósforos, mas já era o bastante para ele não tropeçar.
Quando finalmente chegou ao andar de baixo continuou andando até encontrar as paredes. O cheiro acabaria o matando, não poderia ficar ali por muito tempo. Quando encontrou uma parede tomou um susto. Havia muito sangue nela, recente por cima de sangue seco e antigo, o que explicava o cheiro. Também havia algemas e correntes presas às paredes. Finn continuou procurando no escuro, a luz do fósforo iluminava pouco. Ele encontrou a fonte do cheiro:
Uma mulher nua, algemada e com germes começando a comer sua pele. Os olhos opacos da mulher o encaravam de forma assustadora. Parecia que ela pedia ajuda mesmo depois de morta.
– Procurando alguma coisa senhor? – Uma voz soou no pé da escada.
%MCEPASTEBIN%
Fale com o autor