Fascínio
1 Prólogo
Naquele dia o céu brando foi tomado por nuvens vorazes. O som dos trovões concretizava a maldição. A chuva batia na pele como pedras arredondadas. Mas ele nada ouvia, nada sentia do lado de fora. A dor castigava seu coração, ela só podia ser sentida na alma, sua pele externa mais nada valia.
Ele estava no topo daquele morro quando o anjo caiu. O anjo bravo e honrado que lutou até o último suspiro. Orgulhoso demais para se entregar, lúdico demais para aceitar a morte de seu amado. O anjo se jogou do alto da torre ciente de que não tinha asas e ele, que assistia impotente, gritou quando seu corpo atingiu a água.
Ela caiu para o abismo eterno da morte, ela afogou-se em seu suicídio. Naquele momento ele também morreu. Ele se quebrou em milhões de fragmentos que jamais se reconstituiriam. Ele sentiu-se vazio, inútil, maldito. Mas o que ele poderia ter feito?
No ódio culpou aquele que não pôde mais nomeá-lo a partir de então. Aquele que deveria ter sido seu guardião, aquele por qual lutara disposto a entregar a vida. Aquele por qual amara desde seu nascimento por achar que este o amaria também, mesmo depois da morte. Mas aquele o abandonou quando mais precisava.
Em juramentos cretinos virou-se para àquele lugar nunca mais retornar. Uma de suas piores e irrevogáveis promessas foi a de que viveria eternamente tentando encontrá-la: o anjo que caiu por amor.
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