Fascínio

19 Parte III - "Primas"


Notas iniciais
Boa leitura!

A casa do Conde era um palácio. Todo de pedra, janelas com cortinas negras fechadas, um chafariz como recepcionista com um anjo no centro fazendo água surgir de suas mãos unidas. Eu não fiquei impressionada por ser um pequeno castelo – pequeno para um castelo, mas o lugar era imenso – mas porque tudo parecia muito sinistro. Enquanto descia do cavalo um arrepio transpassava minha espinha. Eu não devia estar ali! Eu devia dar meia volta imediatamente. Rápido! Antes que alguém me visse... Tarde demais.

A porta da frente se abriu. Uma mulher morena com um lindo vestido decotado cor de vinho sorriu para mim. Ilona, eu me lembrava dela. Tinha sempre um sorriso com segundas intenções e um olhar frio, ao mesmo tempo em que sensual.

– Meu senhor aguarda por você. – Ela sorriu como se eu fosse um doce delicioso e ela estivesse faminta.

– Tudo bem...

Eu entrei na casa e Ilona bateu a porta atrás de mim, me assustando com o som alto. Por dentro a casa tinha uma decoração de bom gosto. Apesar de tudo ser muito negro, dourado e bordô. As paredes de pedra eram negras, os tapetes, poltronas e cortinas cor de vinho com detalhes dourados.

As outras “primas” do conde estavam lá também. A outra morena de olhos bem negros chamada Dábria e a loira de olhos verdes chamada Lanore.

Elas sorriram, um pouco mais gentis do que Ilona.

– Seja bem vinda Anne. Espero que não se importe de te chamarmos assim. – Disse Lanore.

– Eu não me importo.

– Dábria. – Ordenou Ilona. – vá chamar o conde. Diga a ele que sua visita chegou.

A morena assentiu e se dirigiu a uma grande porta que dava em um corredor escuro. A porta se fechou atrás dela sozinha e lentamente.

– Então... – Ilona se aproximou de mim. Ela era ameaçadora, e obviamente não era muito com a minha cara. – O que a trouxe aqui? Seu coração foi ferido? Sente falta de sua mãe ou apenas está interessada no conde?

– Deixe a menina Ilona...

Ilona ergueu uma mão calando Lanore. Deixava bem claro quem é que mandava ali. Ela olhou para mim.

– Você não me respondeu.

– Eu... – Não sabia o que dizer.

Sorri ao ver o conde surgindo. Ele me salvou.

– Minha querida. – Ele me abraçou me surpreendendo. Seu cheiro era doce e embriagante. Não tive escolha a não ser corresponder ao aperto e fechar os olhos absorvendo o máximo de seu cheiro e aconchego. – Eu sabia que você viria. Conte-me o que aconteceu. – Ele se afastou e segurou meu rosto limpando algumas lágrimas minha com os polegares. Só então me dei conta de que chorava.

– Venha cá comigo. – Ele pegou minha mão e passou a me guiar para outro cômodo onde ficaríamos sozinhos. Uma sala com lareira. Sentamos em um sofá largo, de frente um para o outro. Ele ficou me encarando esperando que eu começasse.

– Você disse... Que se eu precisasse de um amigo...

– Eu sou seu amigo. Pode ter plena confiança em mim. – Ele me garantiu.

– Tudo bem.

Eu contei a ele tudo que me feria. Tive coragem e lhe contei sobre Finnick, sobre meu pai estar me forçando a me casar, e sobre minha mãe me atacar no cemitério. Eu não queria lhe dizer nada disso! Mas quando me dei conta já havia dito. Temi que ele risse de mim, me chamasse de louca ou vadia. Mas ele permaneceu sério e acreditou em tudo. Até me deu conselhos sobre Finn, dizendo que eu deveria esquecer aquele garoto:

– Você não o ama Anne. Você pensa que sim, mas não é verdade. Atração e amor são duas coisas extremamente diferentes.

Eu parei para pensar nas palavras dele. Talvez ele tivesse razão. Eu sempre me forcei a acreditar que amava Finn, mas na verdade eu sempre gostei de sua aparência. Achava ele tão diferente, tão belo... Aquilo não era amor, era atração, fantasia! Eu criei um mundo onde eu o amava e pensava que vivia e existia somente por causa dele, mas era mentira. Foi tudo coisa minha.

Eu me inclinei para frente, encostando minha testa no ombro de Vlad. Agora que havia lhe contado tudo eu me sentia tão leve... Mas ainda faltava uma coisa que eu gostaria que ele soubesse. Eu senti suas mãos passando no meio dos meus cabelos e uma paz deliciosa me preencheu, fazendo-me fechar os olhos e aproveitar o seu toque.

– Tem um sonho. – Eu disse sem mal me sentir.

– Conte-o para mim.

Eu suspirei. – Nele eu... Salto de algum lugar alto. Não dá para ver o que é, mas eu caio na água e acabo me afogando.

Ele parou com a carícia abruptamente. Ele estava tenso por alguns segundos, mas logo voltou a me fazer carinho e relaxou como se nada tivesse acontecido.

– O que houve? – Olhei para ele. Seus olhos evitavam os meus por alguma razão. Ele estava pensando.

– Nada eu... Tenho sonhos parecidos.

– Sério?

Seus olhos castanhos avermelhados conectaram-se aos meus. Eu já havia ficado tão próximo assim deles antes. Tão próximo a ponto de beijá-lo. Meu coração ficou pesado – o que eu estava pensando? Eu nunca o beijara na vida. E nunca nos encaramos desta forma antes. Aquelas sensações de DéjaVu eram apenas sensações. Não eram reais.

Ele segurou meu rosto como se pensasse o mesmo que eu. Seu olhar era tão triste. Como era possível um homem jovem como ele sentir tamanha tristeza? Será que pensava em sua esposa ainda? Ou coisa pior havia ocorrido a ele...

Ele se levantou se afastando de mim e me fazendo sentir-me como uma tola. O que alguém como ele iria querer comigo? Eu não passava de um brinquedo, um joguinho de criança. Finn percebera isso antes de mim.

Fechei os olhos para conter as lágrimas. Não pensaria mais no maldito do Finnick na minha vida. Quando abri os olhos vi que o conde estava perto da janela, observando a escuridão do lado de fora.

– Nos meus sonhos eu a observo cair. Sem poder fazer nada. – Ele diz.

Lembro-me da voz masculina em meu sonho. Ela é desesperada, sufocante. Um homem chorando e gritando como se sua vida estivesse sendo tomada sem piedade.

– Você vê?

– Sim. – Ele olha para mim. Mais uma vez vejo uma profunda tristeza em seus olhos. Avassaladora. – Eu vejo você. Não tem ideia de como foi para mim vê-la na festa do Alan. A mulher com que sonho atirando-se de uma torre praticamente toda minha existência.

Suas palavras ficaram ecoando em minha mente. Uma frase é capaz de te derrubar. Aquela me fez em pedaços.

– Eu... Não sei o que dizer.

Ele sorriu e voltou a se sentar ao meu lado. Depois beijou minha testa com ternura.

– Não precisa dizer nada. Apenas fique comigo.

Olhei para ela de sobrancelhas arqueadas. Ele permanecia sério.

Não tive tempo de fazer nada quando ele se aproximou e selou meus lábios com os seus.

– // -

Meu coração transbordava de felicidade. Aquilo era amor! Eu queria aquilo mais do que tudo e para sempre. As pessoas passavam a vida procurando por algo como aquilo e maioria nunca encontravam. Mas eu tive a sorte de conhecer!

Seus lábios se afastaram de mim e eu senti uma forte vontade de rir. Ele ria também. Quando abri meus olhos e vi os seus castanhos e brilhosos. Tão lindos. Eu jamais deixaria de amá-lo.

– Eu nem acredito que você aceitou! – O menino diante de mim disse. Seus cabelos estavam soltos e emaranhados o fazendo parecer ainda mais jovem e travesso.

– E eu não acredito que você finalmente me pediu isso.

Suas sobrancelhas se abaixaram com ternura. Ele riu mais uma vez antes de voltar a me beijar.

– // -

Eu empurrei o conde como se seu beijo tivesse me dado um choque.

– O que houve! – Ele perguntou surpreso.

Eu me levantei e caminhei até a janela em busca de ar. O que havia sido aquilo? O que eu vi? Foi como uma visão, ou uma lembrança. O conde e eu já havíamos nos beijado antes? Mas eu nunca o vira daquele jeito. Ainda mais jovem. Com os cabelos longos soltos e mais claros. Eu nunca o vi sorrir com uma alegria de dar inveja. Aquela que ele beijou não poderia ser eu! Mas como eu enxergara aquilo?

– Você está bem? – Ele tocou meu ombro com cuidado. Olhei para ele, não acreditando que o vira daquele jeito. Eu devia ter imaginado aquilo tudo, mas... Como?

– Eu preciso voltar para casa.

Ele assentiu.

– Eu acompanho você até a porta.

Ele me guiou até a saída. Desceu as escadas que davam até o chafariz no lado de fora e parou comigo ao lado do meu cavalo. Antes de eu subir ele pegou minhas mãos e beijou minha testa com delicadeza. Ele estava gelado como um cadáver.

– Eu amei você ter vindo.

Sorri para ele. Queria ir embora logo, estava muito confusa. Toda vez que olhava para ele...

– Me contentaria se viesse outras vezes.

– Está bem. – Minha voz saiu bem fraca.

Ele me ajudou a montar no cavalo. Sorri mais uma vez para ele antes de dar o fora dali.

Notas finais
Comente!!!