Fascínio

2 Parte I - O princípio


Notas iniciais
Sim, Finnick tem haver com a triologia Jogos Vorazes, mas é só o nome. A aparência e a personalidade não têm nada a ver, só pequei o nome emprestado mesmo.

Bem, até então tudo o que eu sabia sobre demônios e coisas ruins era o que eu lia nos livros, o que eram completamente fantasiados e mentirosos, bem, não completamente. Por trás de todo mito existe uma lenda e por trás de toda lenda uma verdade. Mas graças ao meu amigo Jonathan, que irão conhecer somente muito mais tarde, estas fantasias se aprofundaram ainda mais.

Mas chega de enrolação! Vou começar pela minha história, desde quando eu era a doce e inocente Anne – acho que exagerei um pouco, nunca fui doce e inocente, mas é bom sonhar um pouquinho, certo?

Para mim minha vida só teve sentido depois que conheci meu querido Finn. É um apelido já que ele não gosta do nome dele que é muito esquisito. Perguntei quem tivera a ideia daquele nome doido e ele me respondeu que seus pais eram doidos e por isso criavam coisas doidas, o que me fez rir já que ele era uma criação de seus pais. Conheci Finn quando tinha nove anos. Estava brincando com minhas primas Alicia e Katharine no jardim quando o vi podando os espinhos das rosas. Ele sempre foi bonito e conforme os anos passavam ele ficava melhor, mas a primeira imagem é sempre a mais impressionante. Finn tinha a pele morena, cachos graúdos e olhos dão doces quanto os dos meus ursinhos de pelúcia. O único defeito dele era que era um empregado e eu, parcialmente, a patroa.

Minhas primas repararam quando eu parei de brincar com elas de... (Nem lembro do que a gente brincava, só sei que não era apropriado para meninas, corríamos e suávamos mais do que os moleques camponeses) para admirá-lo.

Alicia pigarreou ao meu lado para chamar minha atenção.

– Acho que alguém está apaixonada. – Cantarolou e aquilo me deixou vermelha de raiva. Como ela podia dizer uma coisa daquelas? Eu? Apaixonada por um... Por um... Jardineiro!

Revirei os olhos para não puxar seus perfeitos cabelos ruivos. E se ele nos escutasse?

– Sério? – Kate se intrometeu. Ela e Ali eram gêmeas, mas não se pareciam nadinha. Kate era mais baixa, magra e tinha sardas em todo o rosto e nos braços. Ali, por outro lado... Era perfeita desde que nascera. Lembro que quando eu era mais moça não importava muito com aparências, eu nem reparava no quanto a vida havia sido injusta com Kate transferindo toda a beleza hereditária para sua irmã e a deixando sem nada. Naquele instante então... Finn era o mais bonito no local. – Ele nem é tudo isso. – Kate deu de ombros.

– Escutem suas enxeridas! – estourei e me arrependi. Meu grito fez Finn virar o rosto na nossa direção. – Deviam cuidar das suas saias. – Falei mais baixo, mas tive certeza que ele ouviu, seu sorriso tímido foi incrível.

Ótimo, agora ele sabia que falávamos dele.

Eu empurrei Alicia ao passar por ela e corri para dentro de casa, deixando bem claro que a brincadeira estava encerrada.

Mais tarde minhas primas e meus tios foram embora e fiquei sozinha no meu quarto. À noite não consegui dormir por causa do ruído do vento nas janelas, o que me fez levantar e dar um passeio do lado de fora. Adorava sair escondida dos meus pais, ficar fazendo arte de criança. Naquela noite dei uma corridinha até os estábulos, meu cavalo favorito, Argos, Estava acordado e relinchou ao me ver. Argos hoje está morto, ele já era velho naquela época, imagina agora. Gostava daquele bicho porque ele era branco lembrando-me os cavalos dos príncipes nos contos que minha mãe lia para mim. Fiquei um tempo fazendo carinho no seu focinho. Não queria dormir, o barulho do vento me incomodava, me trazia pesadelos, sempre relacionados com chuva, raios e um rio que podia observar de um lugar muito alto. Talvez esses sonhos fossem a razão de eu ter tanto medo de altura.

– Então você não gosta de gente enxerida. – A voz dele me assustou. Não vi quando tinha entrado ali.

– O que... O que está fazendo aqui?

Finn, que eu ainda não sabia seu nome, deu de ombros. Ele era bem mais alto do que eu o que me fez pensar que também bem mais velho. Mas depois descobri que eram apenas três anos de diferença. Depois que fiz quinze, estes anos pareceram menos ainda.

– Eu saio às vezes... Quando vi uma sombra correndo para cá pensei em vir ver o que era.

Eu queria sorrir, estávamos conversando pela primeira vez, mas não poderia deixar que ele pensasse que podia ser meu amigo.

– Bem, agora você já sabe. Deixe-me sozinha.

A risada dele me surpreendeu.

– É o que vocês fazem, não é?

Minhas sobrancelhas se uniram revelando minha confusão.

– Vocês vestem uma máscara, fingem ser coisas que não são. – Ele se explicou.

– Não estou fingindo ser coisa alguma!

– É claro que está! Finge querer estar sozinha quando tudo o que mais quer é um amigo.

Fiquei sem palavras. Minha limitada mente de criança não soube criar uma resposta imediata. Queria xingá-lo, como ele tinha coragem de falar daquele jeito comigo, mas no fundinho sabia que ele estava certo.

Dei de ombros, triste por admitir aquilo. – Talvez seja isso mesmo...

Ele sorriu, sabe aquele sorriso que é tão verdadeiro que chega a ser contagiante? Só de vê-lo tive vontade de sorrir também. Este era Finn, verdadeiro e de bom coração, diferente das pessoas que eu conhecia que estavam sempre com máscaras como Finn descrevera.

Ele estendeu sua mão para que eu apertasse, percebi que estava cheia de pequenas feridas por cuidar das flores e plantas.

– Meu nome é Finnick.

Depois de um longo momento de hesitação apertei a mão dele.

– Marianne.

E então teve início nossa amizade que a cada dia tornava-se um sentimento mais intenso para mim, cada vez mais difícil de afugentar.

Agora – oito anos depois – estávamos na estufa de minha mãe. Lá ficavam as flores favoritas dela, principalmente as tulipas roxas. Finn sempre tinha mais cuidado com estas, pois sabia o quanto minha mãe as adorava.

– Você guardaria um segredo? – Ele me perguntou de repente. Tinha o seu habitual sorriso no rosto enquanto colocava terra preta em um vaso para plantar flores novas.

– Sim, claro!

– Ontem à noite eu vi uma coisa estranha envolta da mansão. – Me encarou, sabia que iria contar uma piada.

– Que coisa?

– Não faço a menor ideia, mas me pareceu um vulto. Até pensei que fosse você e então o segui, mas quando pensei que o encontraria... Havia desaparecido.

Ele falava sério.

– Talvez sejam coisas da sua cabeça.

Ele riu. – Acha que estou ficando maluco?

– Com certeza...

– Sim, claro. Afinal, eu sou seu amigo.

Soquei seu braço e senti o quanto era forte. Claro que Finn fazia outras coisas além de cuidar dos jardins e tanto trabalho deixava seu corpo bonito. Não que eu já tivesse o visto nu e não que eu o imaginasse...

Ficamos um tempo em silêncio, eu senti meu rosto esquentar por tentar imaginá-lo sem roupa, mas, graças à Deus, ele nem reparou. Estava bastante concentrado no que fazia.

– Você já está tempo demais aqui comigo, seus pais não irão sentir sua falta? – Ele finalmente quebra o silêncio.

– Está querendo se livrar de mim? – Sorri sugestivamente.

– Não! – Ele riu. – Claro que não. Só estou preocupado, seus pais são...

– Chatos? Impossíveis? Insuportavelmente controladores? – Três sugestões já eram o bastante para mim.

– É... Acho que você tem por quem puxar.

Reviro os olhos. – Meu pai saiu para tratar de finanças e minha mãe está tendo o seu “sono de beleza”, então estou livre por um tempinho.

Ele sorriu satisfeito. – Ótimo. – Ele colocou o vaso pronto sobre uma das muitas bancadas que tinha na estufa. Juntou suas coisas em uma caixa e chutou para o lado e depois de limpar suas mãos de terra no macacão me estendeu uma mão. – Então venha comigo.

Pego sua mão e deixo que ele me guie pelo caminho.

Sempre somos muito cuidadosos quando estamos de mãos dadas para que ninguém nos veja, o que é tolice. Se alguém nos visse eu o confrontaria, mesmo que fosse meu pai.

Ele me levou até sua casa que ficava em um lugar distante da mansão, mas ainda pertencente as nossas terras. Era uma casa bem pequena para os jardineiros e outros homens que trabalhassem também com os animais. A casa estava vazia naquela hora, pois todos deveriam estar trabalhando. Finn me levou até seu quarto o que fez meu coração acelerar. Seu quarto era pequeno e abafado, mas ainda bem organizado e havia três camas além da dele.

Ele se sentou na sua e de baixo dela puxou uma caixa. De lá tirou um cordão com um pingente de madeira. O desenho de uma tulipa estava gravado nele. Ele me entregou.

– Para mim?

– Sim, fiquei a noite toda fazendo. Foi difícil achar a madeira perfeita.

Sentei-me ao seu lado. – Muito obrigada. – Queria poder lhe dizer mais, mas não tinha palavras. Era um presente simples, porém lindo. Jamais esqueceria aquilo.

– Você coloca em mim?

Ele assentiu e depois que lhe entreguei o cordão ele o amarrou ao redor do meu pescoço. Não foi necessário segurar o cabelo que já estava preso.

– Obrigada Finn. – Disse depois que ele terminou. Me virei de forma a ficar de frente para ele. Peguei suas mãos, ainda maiores e mais firmes do que era quando as peguei pela primeira vez. – Você é incrível.

Em casa escondi o colar que Finn fizera para mim dentro do vestido. Quando subia as escadas para meu quarto a voz de minha mãe me paralisou.

Virei-me para encará-la no pé da escada.

– Querida, onde você estava?

– Caminhando. Fiquei entediada. – A resposta veio automaticamente.

– Isso não é importante agora. Deve se aprontar para amanhã à noite. Fomos convidadas para uma festa que terá na casa do Duque. Ele disse que deseja nos apresentar um convidado especial e faz questão que você vá.

– Eu? Por que eu?

– Ora querida. Não seja tão ingênua... Já tem dezessete anos, já atraí muitos olhares. Talvez o Duque esteja interessado na sua pessoa.

Minha risada de escárnio veio sem eu sentir e isso irritou minha mãe. Lembrava do Duque, nas últimas semanas ele andava muito na nossa casa. Um homem alto e magrelo, com cabelos loiros e olhos negros que me davam náuseas. Havia algo de ruim naquele homem, algo que não me agradava nem um pouco. Alan Jakes é o seu nome, mas prefere ser chamado somente de Duque. Ele nem era daqui, era de algum lugar insignificante da Europa e como todo europeu que conheço era arrogante e egocêntrico.

– Mãe, perdoe-me, mas eu não estou interessada na pessoa dele.

Recomecei a subir as escadas.

– E desde quando você tem escolha? – voltei a encarar minha mãe e ela sorria vitoriosa. – Seu pai já conversou com o homem e assim que se sucederá. Agora, é melhor começar a se organizar.

Depois disso saiu da minha vista, caminhando como se fosse a rainha Vitória.

Subi até meu quarto pisando forte. Imaginava que cada degrau era o rosto da minha mãe, ou do meu pai, ou do Duque. Eles não poderiam me forçar a me casar. Há! Eu daria um jeito de dispensar o Alan, se necessário eu o faria me dispensar e que se dane o que os outros pensariam de mim.

À noite o ruído na janela não me deixava dormir e também não conseguia me concentrar o bastante para isso. Não podia deixar de pensar na ousadia de meus pais em tramar um casamento pelas minhas costas. Amanhã, quando ou se o Duque pedisse a minha mão eu negaria. Ele se arrependeria amargamente por ter armado aquilo sem que eu soubesse.

Sentei na cama. Pensei ter ouvido algo do lado de fora. Fui até a janela e bem a tempo vi uma sobra cruzar a escuridão de uma árvore à outra.

Finn não estava brincando, tem alguém estranho aqui. – Ou talvez seja ele tentando me pregar uma peça.

Sai do quarto decidida a chamar os meus pais, mas então vi minha mãe parada diante da escada. Olhava para baixo, de costas para mim não podia ver seu rosto, mas sabia que aquilo não era normal. Ela estava imóvel demais, fitando o nada, ou talvez houvesse algo lá embaixo. Fui até ela e segui a direção que seus olhos apontavam, mas não havia nada.

– Mãe? – Seu rosto estava sem expressão alguma, aquilo era assustador. – Mãe. – Passei minha mão na frente dela, mas seu olhar não se moveu. – Mãe! – A sacudi e então ela piscou, pareceu surpresa ao me encarar, parecia que só agora tinha despertado.

– Anne... O quê...?

Papai saiu de seu quarto.

– O que está havendo?

Olhei para ele sem poder formular uma resposta. Mamãe estava...

– Ah... Nada Henry, pode voltar a dormir. – Minha mãe levou uma mão a cabeça. – Todos nós devíamos fazer isso. – Ela se referiu a mim.

Assenti. Fui para o meu quarto, esperei o som de porta fechando para sair em seguida. Alguma coisa estava errada. Mamãe tinha visto algo, ou sido atraída por algo.

Desci as escadas descalça para não fazer nenhum som. Lá fora o vento dizia para que eu voltasse para a minha cama quente e aconchegante, mas minha curiosidade era maior. Eu vi aquela sombra e precisava saber o que era.

– Finn? – Chamei nos jardins. Com certeza não era ele. Nessa hora, até mesmo ele, já está dormindo. Caminhei para a ala leste, onde havia visto a sombra da minha janela, mas no caminho vi que os portões negros que delimitavam as terras de meu pai estavam abertos. Corri para lá com esperança de ver alguma coisa. Quando cheguei nos portões tudo que pude ver foi escuridão e ouvir o som do galope de um cavalo.

Notas finais
Espero que tenha gostado do primeiro capítulo, continue lendo e, por favor, comente?Beijos?