Fascínio
27 O professor
Notas iniciais
Aquela foi uma noite terrível. Eu não conseguia dormir, parecia que alguma coisa estava me chamando para o lado de fora do meu quarto. Desde que Finn havia me feito enxergar o que de fato acontecia eu trancava bem a minha janela, as portas da casa e a do meu quarto. Ren havia ido lá aquela tarde me levar uma carta que eu me recusei ler. Estava com medo e insônia. Eu estava péssima.
Não suportava mais ficar na cama e me levantei. Suava, mas sentia frio. Sentia-me cansada também e a sensação de que queria desesperadamente estar do lado de fora para sentir o ar fresco da noite, mesmo eu estando tremendo de frio e febre, era esmagadora.
Sentei-me embaixo da janela abraçando meu corpo para não abri-la. Isso só podia ser ele, me controlando para lhe dar uma abertura. Eu seria forte, eu resistiria. Fechei os olhos e comecei a me balançar. Para frente e para trás como se estivesse me embalando para dormir. Mas não deu certo, minha tormenta aumentava a cada segundo. Minha respiração estava presa quando eu me levantei, sem saber para onde ir.
Quando me dei conta estava na cozinha segurando a porta aberta. A brisa forte da rua me fez estremecer e eu bati a porta com força;
O que está dando em mim? – Comecei a chorar, na cozinha, sozinha e no escuro. Recompus-me e tranquei a porta novamente. Corri direto para o meu quarto.
Ele estava lá, sentado na minha cama.
– Anne... – O conde disse em tom inocente, meu coração paralisado. – Estava preocupado... Por que não respondeu minhas cartas? O que está havendo? Eu te fiz alguma coisa?
Ele havia se levantado da minha cama e se aproximado de mim. Eu permaneci paralisada enquanto ele envolvia minha cintura com seus braços, trancando a porta do meu quarto atrás de mim, jogando a chave longe e me puxando para perto do seu corpo. Eu fechei os olhos. Ele estava me tocando, ele estava ali e eu me segurava para não vomitar.
Ao mesmo tempo... Eu o queria desesperadamente. Era como se eu pudesse sentir o que ele sentia, seus desejos eram transferidos para mim multiplicados por cem. Consegui lembrar aos meus pulmões como se respirava e por ficar muito tempo segurando a respiração, agora ela era desregular.
– Converse comigo Anne... – Ele pediu com a voz rouca que eu adorava, tão atraente... Tão...
Senti seus dedos tocando meu queixo e o levantando forçando meu rosto a ficar voltado para o dele.
– Abra os olhos. – Ele mandou e eu obedeci imediatamente. Seu cavanhaque estava mais ralo, eu não podia enxergar seu rosto direito no escuro, mas sabia que ele estava com raiva agora. – Fale comigo. – Seu tom de voz não era mais atraente e desejoso, era ríspido, me deixou com medo e sem voz. – Fale Marianne!
– Eu... – Tentei forçar minha fala. Ele estava ficando bravo! Lembrei-me da minha mãe, se não fosse Finn arrancar a cabeça dela eu estaria morta agora. Eu estava sozinha, se eu gritasse será que alguém viria por mim?
– Me diga o que sabe. – Ele sussurrou no meu ouvido, voltando à voz rouca e sensual.
– Você matou a minha mãe. – Disse sem pensar. – Assim como está me matando.
Credo! Será que ele também havia a seduzido? Meu estômago revirou mais ainda.
Ele permaneceu em silêncio e paralisado, seus lábios frios roçando a minha orelha.
– Não fui eu. – Ele finalmente disse. – E não pretendo matar você. – O conde se afastou de repente. Ele foi até a janela onde abriu as cortinas espessas deixando a luz da noite entrar no meu quarto e iluminá-lo também.
– Mas estou muito chateado por você pensar isto de mim. – Ele se virou novamente para mim. – Chateado não. Com raiva. Acha que eu não fui sincero quando disse que me importava com você?
– Você se importa?
– Você não entenderia meus sentimentos por ti. Pelo menos não agora.
Ele continuava avançando. Eu senti a ameaça nos seus passos.
– O que vai fazer comigo? – Eu dei um passo instintivamente para trás e acabei batendo com as costas na porta. A chave estava longe... perto da janela que ficava do outro lado do quarto, não conseguiria alcançar, para isso teria que passar por ele. Estava presa.
– Eu estive pensando... E descobri que eu ainda não te tive por completo. – Ele sorriu maldosamente.
– O que quer dizer com isso? – Medo... Medo! MEDO! MEDO!
O conde havia chegado em mim e batido com as palmas das mãos na porta aos lados da minha cabeça, ficando com um braço esticado, um de cada lado meu. Nunca me senti tão presa na minha vida. Ele aproximava seu rosto lentamente do meu.
– Você sabe o que eu sou?
Relutante, assenti.
– Diga.
– Um... Um vampiro.
Ele sorriu, na verdade estava segurando uma risada.
– Vampiros são assassinos, monstros sem sentimentos e perigosíssimos. – Ele disse, como se tentasse me ensinar algo.
Eu assenti.
– Você não confia em mim.
Ele não havia feito uma pergunta, mas eu assenti.
– Que pena... – Ele soou decepcionado. – Infelizmente não posso fazer nada quanto a isso.
Sem aviso ele me agarrou. Girando-me de forma que bati com as costas contra seu peito. Ele segurou minha boca para que eu não gritasse e tampou meu nariz, de forma que ao invés de gritar eu estava ocupada procurando uma forma de respirar. Meu grito de dor saiu abafado quando ele me mordeu. Sentia meu sangue saindo de mim e correndo direto para a sua boca, a sensação era agoniante e eu não podia fazer nada além de esperar até que ele estivesse satisfeito. Quando estava prestes a desmaiar por causa da falta de ar ele parou e me jogou na minha cama.
Eu tentei engatinhar para longe dele, mas assim que cai sobre o colchão ele já estava em cima de mim, segurando apenas com uma mão meus pulsos atrás, nas minhas costas.
Eu me debatia e gritava, mas ninguém apareceu. Ninguém me ouviu! Estava chorando, desesperada. Queria começar a gritar pela piedade de Deus, mas toda vez que tentava pronunciar a palavra “Deus” ou “Jesus” eu me engasgava.
– Essa sensação é ruim, não? – Disse Vlad enquanto se livrava das próprias calças e levantava a saia da minha camisola. – Ser amaldiçoado a ponto de nem ter chance de misericórdia.
– Não... – Eu choramingava.
– Sim querida. Nem Ele pode ouvir você.
Vlad enfiou sem membro com força, desta vez por trás. A dor foi horrorosa. Eu não pensava em mais nada além do fato de que estava sendo rasgada ao meio. Ele continuou me estocando raivosamente, como se estivesse me punindo. Enquanto ele me cravava, mordeu minhas costas bem no vão onde começava a nuca, no centro.
Eu não suportava mais. Minhas forças estavam sendo sugadas enquanto ele fodia a minha bunda. A dor estava me dominando. Eu me entreguei à sua escuridão.
– // -
Acordei gritando.
Henry batia na porta desesperado.
– Anne! O que está acontecendo? Marianne!
Eu olhei em volta atordoada. Estava no meu quarto, aquilo havia sido um pesadelo?
Levei as mãos nas minhas costas, procurando por uma marca dolorida e recente de mordida. Gemi aliviada quando não a encontrei. Havia sido um sonho.
– Calma pai... – Minha voz embargada me humilhou mostrando que eu estava chorando. Levantei-me e abri as cortinas. O sol me atingiu em cheio e a ardência não foi bem recebida, mas ainda era suportável.
Abri a porta do quarto e quase fui derrubada quando meu pai me abraçou. Vovó estava atrás dele no corredor, e também meus primos. Todos me olhavam com preocupação. Sequei as lágrimas quando meu pai se afastou.
– O que aconteceu? Por que estava gritando?
– Acho que eu tive um pesadelo... Nada de mais pai. Eu estou bem agora. – Sorri para tentar convencê-lo.
– Você está muito pálida, e seus olhos estão lá no fundo. Você não está nada bem.
– É que eu não dormi direito. Mas logo vou melhorar. Prometo.
– Talvez eu devesse chamar o doutor...
– Pai, não será necessário. – Um médico não ajudou minha mãe e não me ajudaria também. O que ele iria poder fazer por mim? Ah! Mas naquela manhã Finn e eu encontraríamos com alguém que realmente entendesse do assunto. O tal do professor Gulliver Helsing.
Henry assentiu relutante. – Vamos comer alguma coisa então.
– Tudo bem... Só vou trocar de roupa.
Ele assentiu mais uma vez e me deixou sozinha. Fechei a porta com alívio.
Mais tarde Finn e eu estávamos diante da tal universidade. Conseguimos entrar por minha causa, o homem que guardava o local sabia quem era meu pai. Encontramos a sala onde o professor daria a tal palestra e escolhemos lugares bem afastados.
Era um lugar bonito e amplo. Com cadeiras colocadas como escadas, uma fileira acima da outra. O palco era pequeno, mas o bastante para um professor dar sua aula. Entrava sol pelas janelas altas deixando o local bem iluminado.
Pensei em entrar para a universidade uma vez, mas receber aulas em casa pareceu muito mais conveniente para meu pai. Aprendi tudo que devia bem antes das outras pessoas, estando livre agora de tais tarefas. De vez em quando eu ainda pegava um livro para ler. Nos últimos dias não tive a oportunidade. Muita coisa havia acontecido.
Um homem alto e magro, com cabelos castanhos curtos e olhos bem negros subiu ao palco logo que chegamos. Ele se apresentou como sendo o professor que procurávamos.
– Bom dia gente! Eu sou Gulliver Helsing, professor e historiador. Alguém sabe por que estou aqui? – Ele não deu espaço para que respondessem. – Exatamente, para apresentar minhas descobertas no Egito. Lugar encantador, à propósito.
Uma hora e meia depois ele havia terminado e nos dirigimos ao seu encontro. Ele fez uma cara estranha ao me ver. Eu fingi não perceber.
– Senhor. – Finn conseguiu chegar até ele. – Meu nome é Finnick Carter e esta é Marianne Foster. Nós procuramos o padre João ontem e ele nos disse que era um velho amigo seu.
– Sim... Estava pensando em lhe fazer uma visita. Mas o que querem de mim? – Mais uma vez ele me encarou de forma estranha, como se tentasse entender o que via, uma pintura abstrata, um desenho bizarro... Ele ergueu as sobrancelhas quando finalmente compreendeu. – Venham comigo.
Ele nos levou até a biblioteca da universidade. Era grande e bagunçada e naquele horário vazia.
– Sabe... – Ele dizia todo empolgado enquanto nos guiava para uma mesa no local. – Na minha última viagem ao Egito, eu fui com um grupo de arqueólogos à procura de algumas tumbas perdidas. Mas na verdade eu estava interessado em encontrar com um feiticeiro. Há muitos feiticeiros na África, mas nenhum como o que vive no Egito. Ele mexe com magias dos deuses antigos da região. Eu consegui encontrá-lo e descobri que ele era um imortal.
– Um imortal? – Perguntei.
– Sim querida. – Ele piscou um olho para mim.
Entendi o que ele falava. O tal feiticeiro era um vampiro.
– Um ser como ele, não deveria se envolver com este tipo de coisa já que não tem uma alma para sacrificar nos seus feitiços. Ainda assim ele o faz e descobriu uma forma de proteger os imortais do sol.
– Mas não estamos interessados nisso, senhor. – Finn revirou os olhos impaciente.
– Não? – O professor olhou para mim. Já estávamos sentados. Finn ao meu lado e o professor na minha frente.
– Não. – Disse Finn. – Nós estamos enfrentando certos problemas com... Como o senhor disse, imortais. E o padre João disse que o senhor podia nos ajudar.
– Hum... – Gulliver se inclinou para trás até encostar as costas no encosto da cadeira. – Pretendem caçar vampiros? Eu não te aconselho rapaz. Primeiramente porque eles são muito mais rápidos e fortes do que nós. Segundo porque, tais criaturas não devem ser perturbadas. Quando são perturbadas elas são incontroláveis. Se deixar para lá... Elas irão embora quando estiverem satisfeitas e...
– Senhor, há um cara na cidade muito perigoso. – Finn estava mesmo determinado.
Gulliver suspirou parecendo mais velho.
– Minha família... A maioria deles são caçadores de vampiros e outros monstros que vagam nas sombras da Terra. Eu não sou como eles porque eu vi meus irmãos e pais morrendo por causa disso. Você tem mesmo certeza de que é o que quer?
Finn assentiu.
– Então é o seguinte. – Ele se inclinou para frente, parecia que ia nos contar um segredo. Quando falou sua voz era baixa e prática, não parecia mais um professor falando, porém um estrategista. – Vampiros podem ser mandados para o inferno de várias maneiras. A mais tradicional: madeira no coração. Estacas são as mais comuns. Também há métodos tão práticos quanto: decapitação, mutilação, cremação, e... Banho de sol. Eles viram cinzas em poucos segundos à luz do sol. A não ser que já tenham topado com o tal feiticeiro... – Ele resmungou por fim.
– Falando parece tão fácil... – Resmunguei.
– Não, querida, principalmente se você topar com o original.
– Original? – Finn e eu perguntamos.
O professor revirou os olhos. – Vocês não sabem de nada e querem sair matando vampiros?
– Na verdade... Não matando, mais se prevenindo. – Eu disse.
– Bem, o original é o primeiro de todos os vampiros e por ser o mais velho é o mais poderoso. Muitos dos métodos de que acabei de falar não funcionam com ele. Dizem que ele pode até tocar crucifixos, beber água benta... Enfim, ele não morre tão fácil.
Meu coração começou a bater mais rápido. O original, quem quer que fosse, eu jamais iria querer topar com ele.
– E tem mais. – Continuou Gulliver. – Dizem que quando o original morrer, todos os vampiros morrerão com ele. É uma lei bem estranha... Quando um vampiro morre todos aqueles que vieram a partir dele voltam a ser humanos. E dependendo da idade dele, ele vira farinha instantaneamente.
– Só por curiosidade... – Disse Finn. – Como se mata o original?
Gulliver riu.
– Dizem que somente uma pessoa pode fazer isso. E nem se sabe se ela existe ou existirá algum dia.
– Que pessoa seria esta? – Agora fui eu que fiquei curiosa.
O professor me lançou um olhar tão intenso que eu tive quase certeza de que ele podia ver minha alma.
– A pessoa que é a causa de tudo isso ora. Foi por causa dela que a alma foi tomada, e será ela a devolver-te ou destruí-la para sempre. – Ele citou a frase como um poema ou profecia.
– Tenso... – Disse Finn. Tive que concordar com ele.
– Em geral – prosseguiu Gulliver. – usem crucifixos, dentes de alho...
– Era somente isso? Duvido que não sabiam destas coisas.
– Na verdade... Tínhamos a esperança de que o senhor nos ajudasse. – Admitiu Finn.
– Bem, eu não sou caçador, mas acredito que logo as coisas que acontecem nesta cidade chegará aos ouvidos de um e ele virá para cá imediatamente.
– Tem mais uma coisa. – Finn e Gulliver olharam para mim com expectativas. – Como se transforma uma pessoa em vampiro?
– O processo é bem chatinho. O sangue da pessoa é drenado aos poucos e não tudo de uma vez. Alguns dias depois que ela morre ela volta e tem um dia para beber sangue humano e completar a transação. Se não ela morre.
Parei para pensar no que aconteceu com mamãe e acontecia comigo.
– E tem como impedir o processo?
– Anne... – Começou Finn. – Eu...
– Não. – O professor o interrompeu. – Não tem como reverter isso, a não ser que o vampiro que esteja transformando esta pessoa morra. – Gulliver se levantou mostrando que a conversa havia terminado.
Nós dois nos levantamos desanimados. Sentia que a viagem havia sido quase inútil. Tirando o fato de que havíamos descoberto sobre o tal original, que era muito pior do que um vampiro comum.
Apertamos a mão do professor. Finn saía na frente quando Gulliver me puxou de canto.
– Quando você for uma vampira, fuja. Não fique na região... Você parece ser uma boa pessoa.
– O senhor sabe que eu... – Me espantei.
– Sim. Infelizmente você está num estágio que já não pode ser revertido. Apenas lembre-se do que eu te disse. – Ele me deu um sorriso bondoso e apertou meus ombros, uma última despedida antes de eu ir.
Caminhava com desanimo atrás de Finn.
– Acha que o tal conde pode ser o original? – Perguntou Finn quando já estávamos do lado de fora da escola.
Somente o pensamento me deixou aterrorizada.
– Espero que não. – Respondi.
Fale com o autor