Fascínio

45 Epílogo


Notas iniciais
Atendendo últimos desejos... Obrigada à todos que chegaram até aqui. PS.: Não me matem.

Anne caminhava, ou melhor, se arrastava pela floresta à noite. Qualquer pessoa normal ficaria com medo daquele lugar meio pantanoso, cheio de sons ameaçadores e uma névoa que escondia perigos inimagináveis. Mas ela não era uma pessoa normal, ela mal sabia se era considerada uma pessoa. Seu estado devia-se ao fato de que havia deixado tudo para trás e decidido partir para lugar nenhum. Apenas se afastar das pessoas que amava para a segurança delas. Eram pouquíssimas, apenas três que restaram: seu pai, sua prima Alicia e Finn. Ela tentava não pensar em nenhum dos três, apenas continuar andando de mente vazia, arrastando uma mala consigo.

Mas algo a alertou. Seus instintos a avisavam de uma ameaça, ou pior, avisavam dele.

Ela esperava encontrá-lo uma hora, só temia tal momento. Ele havia escapado pelos túneis, e podia localizá-la graças ao elo de ligação que os dois tinham após trocarem sangue. Assim como ele podia senti-la, ela também o sentia e naquele instante, muito perto.

Ela se virou cautelosamente observando o caminho por qual veio. Tudo era muito escuro, qualquer ser humano não enxergaria um centímetro à sua frente naquela penumbra. Mas como ela não era exatamente humana agora, sua visão era até melhor no escuro.

Ela respirou fundo tentando controlar suas emoções, não queria ficar com medo, mas era inútil. Ele estava ali, ela tinha certeza. Ela o sentia perigosamente perto.

Um vulto passou às suas costas com extrema velocidade e Anne se virou imediatamente, mas não a tempo de vê-lo. Ela olhava para todos os lados agora tentando enxergá-lo no menos provável esconderijo. A raiva do sujeito que a observava era palpável. Ela podia sentir o ódio dele pairando ao redor dela, sendo direcionado completamente a ela. Ele a olhava fixamente e Anne agora sabia exatamente de onde.

Quando ela se virou para encará-lo algo a atingiu no peito, a empurrando até prensá-la contra uma árvore.

Uma árvore! Ele jogou um tronco nela! – Anne estava assustada. Com toda sua força empurrou o tronco para ter espaço para se mover. Avistou sua mala não muito longe que havia largado quando foi atingida pelo tronco. Não havia tempo para pegá-la. Assim que se viu livre começou a correr a toda velocidade, sem olhar para trás. Seus cabelos negros e soltos batiam nas suas costas e galhos de árvores baixas rasgavam sua pele.

Anne correu até dar de cara com uma pessoa que a segurou pelos braços a impedindo de continuar fugindo.

– Olá querida. – Sorriu Vlad.

Vlad não pode esconder o sorriso quando viu nos olhos de Anne o quanto ela estava desesperada. Era isso o que ele mais queria, tê-la nas mãos. Enquanto a rastreava ficava imaginando mil maneiras de se vingar dela. Ele ainda estava com uma aparência terrível, suas roupas rasgadas e sujas de sangue, mas havia melhorado um pouco após ele ter se alimentado mais cedo. Agora Anne estava exatamente onde ele a queria, mas ele não fazia ideia do que fazer primeiro.

Quais as maneiras mais deliciosas de causar-lhe dor, de lhe ensinar uma lição. Ele precisaria ensinar direito desta vez, para que ela não tentasse escapar, para que se submetesse a ele para sempre.

Então olhando fundo nos olhos arregalados dela sentiu algo se mexer desconfortavelmente dentro de seu peito. Os olhos dela eram lindos, verdes que dependendo de suas emoções, do clima ou da hora do dia, ficavam mais claros ou mais escuros, à ponto de irem da cor da esmeralda ao verde dourado. Eram os mesmos olhos de Isabela, e ele jamais teria coragem de ferir sua doce Isa.

Ele rosnou e apertou com força os braços de Marianne. Estava com raiva mais de si por ser fraco diante daquela pirralha dos infernos. Aquela vadia não era Isabela! Então porque ele não conseguia deixar de querê-la?

Vlad empurrou Anne para longe de si com toda força, ela tropeçou nos próprios pés e acabou caindo sentada. Ainda com medo observou cada passo dele, esperando por sua reação, esperando que ele se voltasse para ela há qualquer momento. Mas Vlad, ao invés disso, foi até uma árvore e a socou com toda força, rasgando sua mão e também rachando o tronco.

– Você é patética! – Ele gritou com ela quando desejou gritar consigo mesmo. – O que tinha na cabeça quando fez todas aquelas coisas? Eu poderia ter te matado e todo este tempo que eu passei procurando você teria sido em vão.

– Quantas vezes eu tenho que dizer que eu não sou quem você pensa! – Anne respondeu, também gritando.

Ele a encarou ciente de que seus olhos estavam vermelhos por causa da raiva que os inflamavam. Como ela tinha a ousadia de responder daquela maneira a ele.

– Você não faz ideia do que está fazendo, não é? – Ele sorriu de forma ameaçadora.

– Eu só quero ficar em paz! Você me tirou quase tudo que eu amava, será que pode me esquecer!

Vlad gargalhou alto.

Tudo que eu amava... – Repetiu o que ela disse. – Você nem sabe o que é amor. Você nunca o sentiu por ninguém. Você é tão repulsiva quanto... o demônio, ou até mais, porque o Demônio caiu por amar Deus a ponto de querer ser como ele, e você nem sabe o que é isso. – Vlad caminhou até Anne e a puxou pelo braço a colocando de pé. A sacudiu até que ela olhasse nos seus olhos, e Anne o fez. O encarou com o mesmo desprezo que ele falava dela. – Você não tem direito de me dizer que eu tirei pessoas que eram importantes para você, porque ninguém é mais importante para ti do que você mesma. Deixou Finnick com a desculpa de que o amava? Mentira. Você o deixou porque não o quer atrapalhando o caminho que resolveu seguir, não quer dar satisfação à ninguém das coisas que escolher fazer. É por isso.

– Você sim não sabe o que é amor. – Ela cuspiu as palavras na cara dele. – Você confundiu obsessão por paixão. São coisas bem diferentes.

Vlad a jogou novamente contra uma árvore batendo sua cabeça com força. Ela gritou por causa da dor da pancada. O cheiro de sangue o deixou contente por saber que havia a ferido. Depois a sacudiu novamente para que voltasse a encará-lo nos olhos.

– Eu vou lhe explicar o que é amor. – A voz de Vlad de repente ficou tão calma que surpreendeu até mesmo ele. – Você não o sente com o coração que é de carne e um dia vai morrer e desaparecer com a terra. O coração, também, é tolo e sentimental, ele muda de ideia o tempo inteiro. Num dia você pensa que está loucamente apaixonada por alguém, mas no outro surge algo melhor, que encanta mais o seu coração e você muda de planos. Não... Amor se sente com a alma imortal. Sem “até que a morte os separe” e sim “para além da eternidade”. Amor é desespero, coisa que você nunca sentiu por alguém de fato. Amor é dor, é alegria, é confusão, é clareza, é sofrimento e paz. É um turbilhão de emoções incontroláveis e indecifráveis, não há explicação. Mas você não se importará de senti-las ainda assim. Porque no final, mesmo que não valha à pena, você quer sempre acreditar que vá valer algum dia.

Vlad esperou por um momento Anne absorver todas as suas palavras. Observava a expressão no seu rosto enquanto aos poucos ela se rendia às palavras dele, aos poucos admitia a si mesma seus erros e acertos. Ele também percebia o que falara, e aos lentamente toda a raiva que sentia por ela foi se desfazendo em cansaço. Ele a soltou devagar e deu um longo suspiro.

– Isso é amor. – Disse antes de se virar e começar a ir embora.

Surpresa, Anne olhou para as costas de Vlad. Jamais esperou que ele fosse embora.

– Ei! O que está fazendo?

Ele parou, mas não olhou para ela antes de responder.

– Eu acabei de perceber que é inútil te ter à força. Um dia você virá com suas próprias pernas. – Vlad voltou a caminhar quando ela não respondeu, achou que ela não diria mais nada quando Anne resolveu quebrar o silêncio:

– Deve esperar sentado!

Ele sorriu para si. Antes de sumir nas sombras e névoa da floresta também disse:

– Esperarei o tempo que for preciso.

Notas finais
QUE TAL???? Obrigada a todos novamente!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!