Fascínio
43 Desequilíbrio
Notas iniciais
Depois de tantas coisas acabamos ali. Nós dois contra quatro vampiros muito mais velhos e por isso, muito mais poderosos. Eu ainda não havia desistido, Finn podia sair dali, ele podia tocar o sol. Ele estava livre para decidir o que quisesse. Mas eu teria que ficar. Tinha tantas opções, as duas que mais martelavam na minha cabeça era me render ou lutar até o último instante. Era uma luta perdida, mas quem disse que só devemos lutar quando tivermos certeza da vitória?
Ilona e Dábria estavam deixando os seus caixões com sorrisos maliciosos no rosto. Lanore, como sempre, era a mais insegura das três, apesar de também sorrir, porém sem mostrar os dentes.
Estava escuro e Finn não podia ver o que eu via: três vampiras assumindo suas formas de monstro. A pele delas parecia se contorcer, suas veias no corpo inteiro pareciam inflar e seus dentes ficavam pontiagudos.
– Finn. – Eu disse. – Acho que é hora de você ir.
– Eu já disse que não vou sem você.
Aquela atitude idiota dele estava começando a me irritar... De que adianta bancar o herói apaixonado, se vai morrer junto com quem está tentando salvar? Já dizia o senhor Henry, meu pai: Antes de pensar em salvar alguém, salve a si próprio.
O conde sorriu para mim. Ele não estava se transformando como as três vampiras, ele mantinha sua aparência “humana”, apesar de suas roupas estarem rasgadas e sujas. Sua camisa branca devia ter um furo e uma mancha enorme de sangue no local onde eu cravei a estaca mais cedo nele, e suas calças pretas pareciam claras de tanta poeira. Resultados da luta que tivemos antes de parar aqui embaixo. Tanto Finn quanto eu também já estivemos em melhor estado.
– Eu não sei se vai lembrar algum dia Anne. – Dizia o conde. – Mas na sua outra vida, eu era um rei, que lutava e administrava meu povo como nenhum outro. Durante nossas vidas aconteceram coisas terríveis, mas também boas. Tínhamos momentos bons e não importávamos com ninguém e nada além da nossa felicidade. Mas após aquela batalha... Após Isabela ter cometido suicídio pareceu que tudo desandou. Eu fui traído e preso, eu fui forçado a fazer coisas... – Ele olhou de esguelho para Ilona e não terminou a frase. Ele voltou a me encarar. – Mas acredito que tenha valido à pena. Mesmo que eu perca você hoje... Eu ainda não perdi tudo.
Minha cabeça começou a doer. A dor veio sem avisar e com muita intensidade – maldita hora para isso acontecer.
– Anne? – Escutei Finn falando comigo, mas tudo o que eu podia fazer era apertar a cabeça com as duas mãos, tentando amenizar a dor.
Um turbilhão de imagens invadiu minha mente, mas não eram visões do passado, de Isabela... Eram visões do meu passado. De mim brincando com minhas primas, brincando com Finn. Eu me vi mais uma vez ao piano com minha mãe, e rindo com as piadas do meu pai. Então me vi mais velha fazendo cócegas com minhas primas no meu quarto, na loja com Ali e Kate escolhendo uma joia, me vi discutindo com elas no cais e sendo abandonada para mais tarde fazermos as pazes. Também vi os momentos doces e azedos com Finn à noite. E no final tudo que passei com o conde, ao menos os momentos bons como dançar com ele no baile de Alan, ser salva por ele daquele cachorro, ser recebida em sua casa, e ver seu sorriso todas as vezes que fizemos amor.
Quando a dor passou, eu olhei para Vlad e ele sorriu carinhosamente respondendo minha pergunta. Ele havia me feito enxergar aquilo para me mostrar que ele não me faria somente mal. Era uma promessa. Ele ainda tentava me convencer de ficar com ele ao invés de Finn. Mas eu não queria ser como aquelas três criaturas que caminhavam lentamente em direção à Finn e eu, aproveitando minha breve distração com a dor de cabeça.
Reparei que a cada passo que elas davam na nossa direção era se afastando cada vez mais uma da outra. Elas estavam fazendo um círculo, ou melhor, uma meia lua à nossa volta. Ilona no meio e as outras duas aos lados. Finn poderia fugir, mas eu estava cercada.
– Vocês sabem que não têm a menor chance. – Disse Ilona.
– A gente ainda quer pagar para ver. – Respondi.
Ilona riu, mas logo interrompeu a risada se pondo em posição de ataque. Estava com as pernas flexionadas, braços afastados e presas à mostra. Eu estava na frente de Finn, com um braço atravessado diante dele, tentaria ser seu escudo já que eu tinha mais chances de sobreviver ali do que ele.
Eu vi pelo canto do olho Dábria dar o primeiro passo, mas foi somente uma distração. Lanore saltou primeiro e não pegou Finn porque consegui me pôr na frente dela. Eu caí com as costas no chão com Lanore por cima de mim. Ela cravou suas unhas compridas e negras nos meus ombros, fazendo sangue escapar pelos seus dedos e manchar toda a minha roupa.
Finn estava desprotegido agora, tinha apenas uma estaca de madeira em mãos. Dábria se aproximou dele rindo como uma criança brincalhona. Ela desviou dos golpes que ele investiu, e lhe deu a volta ficando atrás dele. Eu percebi qual era o plano. Agarrar suas mãos para trás, ele ficaria imóvel enquanto Ilona vinha e fazia o que quisesse.
– Não! – Gritei e tentei chutar Lanore de cima de mim, mas já era tarde.
Dábria havia puxado os braços de Finn para trás e torcia as mãos dele para que soltasse a estaca que segurava. Ilona se aproximou com cuidado, rindo da cara que Finn tinha por causa da dor. Dábria acabaria quebrando os pulsos dele até que soltasse a estaca.
Ilona parou diante dele o observando e decidindo o que deveria fazer. Então cravou as cinco unhas de uma mão no centro do peito dele arrancando um grito agoniado de Finn. Ela continuou enfiando a mão, faria aquilo até tocar seu coração.
A raiva que eu estava sentindo me deu força o bastante para segurar Lanore pelos ombros e puxar o pescoço dela direto para minha boca. Eu a mordi com vontade, arrancando um generoso pedaço de pele. Surpresa ela se afastou, o bastante para que eu saísse de baixo dela e corresse até Finn com velocidade sobrenatural.
Eu fui direto para Ilona, envolvendo seu pescoço com os dois braços e a puxando de cima de Finn. Ilona cravou suas unhas sujas com o sangue de Finn no meu braço, mas ao invés de soltá-la eu a apertei ainda com mais força.
Dábria ainda segurava Finn. Eu sabia que ela queria usá-lo como refém. A vida dele era mais frágil que a de Ilona, uma hora eu teria que ceder.
– Me solta sua vadiazinha de quinta! – Gritava Ilona com voz de demônio.
– Solta ela, ou eu quebro o pescoço dele. – Avisou Dábria.
Lanore ainda se recuperava do enorme buraco que abri no seu pescoço.
Eu sorri, sentia meus dentes pegajosos por causa do sangue de Lanore, assim como minha boca toda suja. Dábria fez exatamente como eu havia imaginado.
– Você ouviu, coelha. – Ilona sorriu para mim.
Eu respirei fundo e a soltei devagar. Foi eu só dar uma brecha que Ilona se virou e socou meu estômago com toda força, me fazendo cair de joelhos diante dela. Ela puxou meu cabelos no topo da cabeça erguendo meu rosto e me forçando encará-la. Ela tinha um sorriso triunfante e sua aparência “humana” voltava lentamente.
– Viu só? Não é difícil se colocar no seu lugar.
Eu a xinguei em vários palavrões em todas as línguas que eu conhecia. Não era justo ser humilhada daquele jeito. É preferível morrer a que ficar de joelhos diante da pessoa que mais odeia no mundo.
Enquanto eu pensava no que fazer, Finn agiu com rapidez. Ele conseguiu soltar suas mãos de Dábria e cravou a estaca no abdômen dela. Ela gritou horrorizada. Ilona me soltou para atacar Finn, mas quando ficou diante dele, Finn já havia se virado novamente arrancando a estaca do abdômen de Dábria e cravando no peito de Ilona. Ela o encarou com olhos arregalados.
– Não! – Escutei o conde gritar atrás de mim.
Lembrei-me das palavras do professor Helsing: “Vampiros podem ser mandados para o inferno de várias maneiras. A mais tradicional: madeira no coração”.
A pele de Ilona pareceu murchar. Ela tropeçou para trás, Finn soltou a estaca deixando Ilona cair com ela. O baque que Ilona deu com as costas no chão levantou uma nuvem de poeira. O corpo dela já estava duro como a de um morto, ela murchou, a pele ficou cinza, ela morreu.
Finn, com o ferimento no peito causado por Ilona, também não se manteve de pé por muito tempo. Ele caiu ao lado dela.
– Maldito! – O conde avançou na direção de Finn. Eu me levantei e corri. Atingi o conde antes que ele atingisse Finnick, o empurrando para o lado. Nós dois caímos no chão. Eu tentei segurá-lo contra o chão, mas ele sempre seria mais forte do que eu.
– Você vai se arrepender. – Os olhos de Vlad enegreciam. Ele estava se transformando naquele monstro novamente e eu estava começando a me sentir fraca. Qual foi a última vez que eu havia bebido sangue? Não havia feito muito tempo. Então...
Escutei algo sendo arrastado no chão de cimento. Finn devia estar tentando fugir, mas não me desconcentrei. Era o que eu queria. As outras duas vampiras haviam desaparecido.
Ainda tentava manter o conde no chão. Pressionava seus ombros para baixo, e envolvia sua cintura com minhas pernas. Não consegui manter a mesma posição por muito tempo. Vlad agarrou meus pulsos e girou ficando por cima de mim. Ele manteve meus pulsos segurados somente com uma mão. A outra ele ergueu, pronto para me acertar um soco. Eu virei o rosto esperando pela surra, quando senti um líquido quente e pegajoso espirrar em mim.
Abri os olhos com cuidado. Havia algo saindo do peito de Vlad, a rasão de sangue ter espirrado no meu rosto. Era uma estaca cravada desde suas costas, atravessando seu coração.
Vlad me olhou confuso, então abaixou a mão com cuidado para acariciar meu rosto deixando uma trilha de sangue por onde seus dedos passaram. Logo em seguida ele tombou para o lado, revelando Finn, de joelhos diante de mim.
Finn estendeu uma mão para mim. Antes de pegá-la eu olhei mais uma vez para o conde. Diferente de Ilona, minha mãe e o padre na capela, ele não estava murchando, só estava parado, deitado de bruços encarando o vazio. Peguei a mão de Finn e me pus de joelhos na frente dele também.
– Como...?
– Eu peguei a de Ilona. – Finn apontou para a vampira morta. Por onde ele havia se arrastado até nós havia um rastro de sangue, o sangue dele. Apertei seu peito e Finn gemeu por causa do ferimento.
– E onde estão as outras duas? – Olhei em volta. Não havia nenhum sinal delas.
– Acho que fugiram pelos túneis. – Ele respirou por causa da dor. – Ficaram apavoradas quando Ilona morreu.
– Ou viram uma oportunidade de fugir também. – Olhei para o conde ainda deitado, encarando o vazio. Sua expressão era de decepção e sofrimento, e até assim ele era lindo. Sentia meu coração pequeno por vê-lo daquela forma. Entendia que as duas vampiras haviam fugido porque se viram livre dele em anos. Ilona era a única que estava ali por vontade própria, e ela devia ajudar o conde a manter as garotas ali. Com a morte dela, não havia mais nada que as impedisse de escapar.
– Você precisa sair daqui, está muito ferido.
Ele sorriu e pôs sua mão em cima da minha que pressionava seu ferimento. Olhei dentro de seus olhos que diziam que tudo ficaria bem. O abracei me apegando a cada sensação que sentia por estar perto dele. Não me sentia aliviada, meu sexto sentido dizia que aquilo não era o fim, mas o começo.
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