Fascínio

26 De repente...


Notas iniciais
É agora que Anne vai tomar uma atitude. Boa leitura!

Eu não consegui dormir juntando aquelas pecinhas irritantes do quebra-cabeça. Primeiramente o fato do conde nunca aparecer de dia. Vampiros queimavam a luz do sol – nestes últimos dias eu estive muito sensível ao sol.

Depois aquele padre na capela do cemitério, na noite que fui ver o túmulo da família, ele dissera coisas tão esquisitas... O que mesmo?

– O mestre ficará chateado quando eu contar a ele o que houve com você. – Ele dissera pouco antes de tentar me matar.

– Solo sagrado. A casa do Senhor. Acredita que até mesmo nós somos recebidos nelas? – Nós... Ele falava como se fosse de outra espécie. Não me restava mais dúvidas de que Finn estava certo. Vampiros existiam e eu estava me relacionando com um, que segundo o padre demônio, era uma espécie de mestres dos vampiros.

Quais eram os malditos planos do conde para comigo? Por que eu?

– Elas não foram feitas para proteger ninguém e sim para guiar as pessoas, ensiná-las sobre o que é pregado. Mas as pessoas não sabem disso. Se soubessem não viriam à igreja. – Continuei lembrando as palavras do padre e de repente, me ocorreu uma ideia.

No outro dia enfiei um chapéu sobre os cabelos soltos com abas bem largas para me proteger do sol e fui procurar por Finn. Fui bem cedo, assim não teria que enfrentar meu pai e lhe dar uma explicação sobre ontem à noite.

Meus primos insuportáveis, pirralhos fofoqueiros, já estavam acordados àquela hora. Ainda consegui sair sem ser vista por eles.

Encontrei Finn sentado debaixo de uma árvore no jardim. Era cedo, mas o sol já estava forte, ele se assustou quando me viu.

– Finnick, você me acompanha até a igreja? – Disse, ignorando seu olhar questionador a respeito do meu exagerado chapéu.

– Claro... Eu não tenho nada para fazer, aliás. – Senti o sarcasmo na voz dele. Era óbvio que ele tinha muita coisa para fazer. Mas um diazinho, ninguém daria falta dele. Qualquer coisa eu contaria ao patrão dele, que era meu pai, qual o motivo de sua saída.

– Levanta logo jardineiro. Eu preciso que alguém me acompanhe até a catedral da cidade, e você é a pessoa ideal.

Comecei a andar em direção aos estábulos onde pegaria um cavalo sem esperar por ele. Logo escutei seus passos apressados me seguindo.

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A catedral católica de Nova Orleans é gigante. Toda ornamentada em pedras escuras e amarronzadas, por dentro a igreja é ainda mais bela, num estilo barroco francês. Seria naquele belo lugar que eu me casaria, caso estivesse viva até lá.

Não fazia ideia de que dia da semana era, mas não estava tendo missa. A igreja estava vazia. Entrei ao lado de Finn que havia trocado suas roupas de serviço por algo mais apresentável. O som dos nossos passos era desconfortavelmente alto em meio todo aquele respeitoso silêncio. Sentia que estava chamando atenção demais daquelas estátuas e mosaicos. Logo um menino que não devia ter mais de doze anos surgiu, usava uma toga branca, tinha cabelos espetados de tão lisos e negros. Ele sorriu nos dando as boas vindas.

– Vieram para se confessar... Rezar...? Fiquem à vontade na casa do senhor. – Aquele garoto parecia perdido. Seu sorriso expressava seu nervosismo.

– Na verdade gostaríamos de conversar com o padre. – Disse. – É importante.

O garoto assentiu e pediu que o seguíssemos.

Ele nos guiou até um pequeno e modesto escritório, onde havia um senhor com cabelos grisalhos e rosto rechonchudo. O senhor, o padre, nos deu um sorriso gentil quando o garoto nos mostrou a ele.

– Bom dia crianças. O que desejam de mim?

Lancei um olhar significativo para o menino que logo entendeu e saiu nos deixando a sós.

– Senhor – comecei. – Eu sou Marianne Foster, e este é meu amigo Finnick Carter.

Apertamos as mãos.

– Eu sou o padre João.

– Acho que o senhor está sabendo das últimas da cidade. – Fui direto ao ponto.

O padre João franziu a testa.

– Sim. Estou sabendo dos assassinatos terríveis. Ouvi boatos de um ocorrido parecido na Inglaterra. Um sujeito anda drenando e esquartejando pobres prostitutas. – Ele disse com pesar. – Que o senhor tenha piedade das almas delas.

– Como é? – Finn perguntou.

– Sim! Chamam o assassino de Jack Estripador. Ainda não pegaram o sujeito, mas já têm certeza de que é uma única pessoa que é responsável por atos tão desumanos.

– Desumano parece a palavra ideal. – Murmurou Finn.

– Eu ainda não entendo o que querem de mim. – Disse o padre.

– É que temos uma teoria sobre tais ocorridos. – Ri com a ideia que ainda soava maluca.

– Vampiros. – Disse o padre nos surpreendendo. Ele suspirou com muita tristeza. – Eu também já imaginava.

– O senhor acredita nessas coisas?

– Sim, minha querida. – Ele se dirigiu para trás de sua mesa e se sentou indicando em seguida os lugares diante da mesa que Finn e eu deveríamos tomar. Quando nos sentamos ele continuou: – Eu admito que não sei muito sobre tais criaturas. Somente que são seres terríveis, andam nas sombras, se alimentam do sangue e da alma de outras pessoas. São semelhantes ao próprio diabo.

– E existe uma forma de extingui-los, certo? – Perguntou Finn.

– Bem. Como eu já disse, não entendo muito sobre o assunto. Mantenho-me seguro aqui, na casa de meu pai celestial, mas conheço alguém que poderia ajudá-los. Antes já aviso: não deveriam se meter com aquilo que é mais poderoso do que vocês. Podem acabar se ferindo gravemente. – Sua voz era gentil, mas sua mensagem parecia mais uma ameaça.

Engoli em seco. Não podíamos deixar as coisas como estavam agora. Eu estava em sérios apuros, as marcas nos meus pulsos e no meu pescoço eram a prova disso.

– Eu vou lhes dar o nome de um velho amigo meu que vive estudando tal coisa. Não sei se ele chega a ser um caçador... Está mais para um professor. E saibam que estão com sorte! Ele está na cidade esta semana para uma palestra numa escola da região. – O padre pegou pena e papel, onde começou a escrever alguma coisa. Quando terminou entregou para Finn, havia escrito um nome e um endereço. – Seu nome é Gulliver Helsing. Ele com certeza poderá ajudá-los com o que procuram.

Após aquele encontro superprodutivo com o padre voltamos para casa para que Finn pudesse retornar ao trabalho e eu enfrentar meu pai. Finn ficou com o endereço, e marcamos de procurar o tal professor no dia seguinte.

Henry não estava nada feliz quando me viu. Ele parecia estar soltando fumaça pelas narinas e orelhas.

– Onde você estava?

Minha família estava toda presente para assistir o teatrinho. Tive vontade de rir, porém me contive.

– Fui à igreja. Pergunte ao padre João se quiser. – Sorri satisfeita por saber o nome do padre. Isto me deu mais credibilidade.

– Fazendo o que lá?

– O que se faz numa igreja pai? Nós rezamos.

Ele revirou os olhos.

– Mas e ontem à noite? O que foi aquilo? Ouvimos um grito e horas depois você surge! De pijama, em péssimo estado!

– Ei, eu não estava tão ruim assim! E... E... – Droga, pensa Anne! – Eu acho que sou sonambula! Eu estava dormindo e de repente me vi do lado de fora! Foi por isso que eu gritei. Depois pensei ter visto alguma coisa... Acho que estava meio dormindo ainda porque eu saí do sítio sem nem me dar conta!

Isso Anne! Coloque a culpa no incompreensível! Não em você, assim ele não poderá gritar contigo.

Minha família parecia ter caído no meu papo, porém Henry continuou me encarando com desconfiança.

– Sair do sítio numa hora daquelas... Fiquei muito preocupado.

– Eu sei pai... Mas juro que não foi minha intenção.

Ele parou para pensar por mais um momento.

– Igreja e sonambulismo?

– Exatamente. – Disse.

– Saia da minha frente Anne antes que eu...

Não esperei ele terminar a frase, subi correndo para o meu quarto. Ao menos ele não havia me posto de castigo.

Da janela do meu quarto eu pude avistar Finn dando uma explicação para a governanta da casa do seu desaparecimento. Poderia ser somente mais um dia comum. Eu poderia até fingir que ainda era apaixonada por Finn como uma garotinha boba e que iria encontrar com ele mais tarde. Eu poderia fingir que minha mãe estava na varanda lá embaixo ou no estúdio tocando piano. Eu poderia fingir que não estava prometida a um casamento forçado e nem estava me encontrando às escondidas com um vampiro chefe do mal.

Joguei-me na cama respirando profundamente. Deixar a realidade de lado e viver num mundinho perfeito e particular é o mais fácil e ideal, mas não é o correto. Ignorar o que estava acontecendo comigo naquele momento, seria o mesmo que assinar minha sentença de morte, ou pior, atirar minha alma no abismo onde há fogo e ranger de dentes.

O inferno seria pouco para corrigir meus pecados.

Notas finais
Que tal? Helsing... Sim, este nome é familiar. Espero que tenha gostado deste capítulo. Beijos!!!