Fascínio
20 Confusão
Notas iniciais
Quando entro em casa, tudo está escuro. Eu tenho esperança de poder subir para meu quarto em silêncio, deitar e relaxar em bons sonhos. Mal lembrava o motivo de ter corrido de casa, mas sabia que estava chateada com alguma coisa, ou devia estar... O beijo do conde havia me deixado tão distraída... Eu havia visto algo quando nossos lábios se tocaram, como uma lembrança ou reconhecimento daquela boca tão corada. Céus, será que ele havia sentido o mesmo? Esperava que não, porque agora me lembrando de tudo, sinto-me envergonhada.
– Onde. Você. Esteve. – A voz vinda da escuridão na sala me fez saltar de susto. Meu pai estava sentado em sua poltrona, nas sombras eu não podia ver nada além de sua silhueta contra a luz da noite que transpassava as cortinas.
– Eu... – Lembrei-me de tudo. Do jantar, de Finn... Aquele maldito jardineiro!
– Você tem ideia do quão preocupado eu fiquei? – Meu pai se levantou para gritar. – Você saiu sozinha, há essa hora! Faz ideia do que poderia ter acontecido? E tudo por causa de mimo de criança!
– Não é mimo! – Gritava também. Minha estada com o conde havia me dado coragem. – Eu não quero me casar com um homem que não amo! Viver o resto da vida ao lado de quem sequer simpatizo!
Senti-me culpada em relação a Alan. Ele era um bom amigo, mas não o queria como marido.
– Você vai ter que se casar com ele. – Meu pai rosnou.
– Por quê?! Dê-me um motivo ao menos razoável!
Ele ergueu a mão e eu virei o rosto esperando pelo tapa, mas ele não veio. Henry respirou fundo e esfregou uma mão na outra como se suas palmas coçassem ansiosas para me bater.
– Suba para o seu quarto. Amanhã discutiremos a respeito disso.
Sem ter mais o que falar eu corri antes que ele mudasse de ideia e me batesse novamente.
No silêncio da solidão eu pude parar e pensar um pouco: Eu nunca amei alguém, mas gostaria da oportunidade de amar e escolher passar minha vida com ele, seja quem for. Eu só gostaria de tempo e liberdade de decidir minha vida! Era pedir demais? Naquela época? Obviamente. Mas nunca liguei para isso. Havia um espirito rebelde incrustrado em mim naquele bendito momento. Quando pensava na palavra amor sempre pensava em minha mãe e em Finn, mas no lugar da imagem do jardineiro agora eu via um sorriso infantil e alegre, olhos castanhos de felicidade que me faziam sorrir.
Aquela lembrança havia me preenchido com um sentimento que jamais havia experimentado. Tamanha inocência e alegria combinadas em um sorriso de tirar o fôlego. Aquele tinha de ser o conde talvez em seus quinze anos...
Se fosse um vislumbre de outra vida, sentia inveja do meu outro eu, por ter tido a oportunidade de beijar um menino com olhos e sorriso tão doces.
– // -
Batidas suaves na porta do meu quarto me despertam. Pisco surpresa ao perceber que já era dia. Eu havia passado uma noite inteirinha dormindo e sem pesadelos. Sorri, nunca me senti tão disposta. Levantei-me notando que havia ido para cama sem trocar de roupa. Meu vestido de festa estava todo amassado. Olhei para mim brevemente no espelho. Meu reflexo tinham belos olhos verdes, brilhando em ânimo.
Abri a porta e encontrei Caroline do outro lado. – Aquela garota tinha que arruinar meu dia.
– Senhora, seu pai deseja vê-la. – Ela disse olhando com nervosismo para o chão. Por que não conseguia olhar para mim? Eu a intimidava e isso deixou o meu dia um pouco mais colorido.
– Já estou descendo. – Respondi e fechei a porta.
Antes precisava me lavar e trocar de roupa. Após um banho de água fria – pois era uma manhã bem quente. – coloquei um vestido simples e deixei meus longos cabelos negros soltos. Esta manhã eu estava bem, pela primeira vez sorri com a ideia de que meus cabelos eram infinitamente pretos. Sempre invejei os cachos ruivos da minha mãe e minhas primas, mas hoje estava contente comigo mesma.
Encontrei com meu pai na sala lendo alguns papéis. Seu bigode e barba precisavam de uma aparadinha... Ele estava sentado na mesma poltrona de ontem à noite. Sem olhar para mim indicou com a cabeça o sofá que eu deveria me sentar. Após obedecê-lo ele deixou os papéis de lado e me olhou atentamente.
– O que eu deveria fazer com você Marianne?
– É para eu responder isso?
Ele ignorou minha pergunta estúpida.
– Eu sei que sente falta de sua mãe, e acredite, eu estou sofrendo profundamente com a perda dela. Mas temos que continuar com nossas vidas.
– Pai...
– Apenas... Se esforce. Eu sei que você não ama o senhor Jakes, é claro que não, você mal o conhece. Mas você poderia tentar. Sua mãe e eu não nos amávamos quando nos casamos e, no entanto... – Ele se inclinou um pouco na minha direção, com ar conspiratório. – Você já conheceu alguém que olhasse com tamanha ternura para outra pessoa como éramos sua mãe e eu?
Sim – Tive desejo de responder. Lembrei-me da visão que tive quando beijei o conde. O garoto me olhou com tanto amor que agora sinto tristeza.
Não digo nada, permaneço olhando para meu pai.
– Um casamento se constrói com paciência e respeito. O amor surge com o tempo. – Ele voltou a se reclinar sobre o sofá e pegou os papéis na mesinha do lado para voltar a ler. – Pode ir agora. – Disse.
Eu me levantei. Estava com fome, iria direto para a cozinha.
– Mais uma coisa!
Virei-me para encarar meu pai que havia me chamado.
– A senhorita está de castigo por ontem à noite. Após comer alguma coisa suba para seu quarto e não saia de lá até ser chamada. Quero que reflita sobre sua infantilidade.
– O quê? – Fiquei de boca aberta.
– Por favor, Marianne, não me obrigue a repetir.
Bufando e batendo o pé com força a cada passo fui para a cozinha, onde me demorei até subir de volta para o meu castigo.
Eu estava sentada no parapeito da janela, observando o pôr-do-sol quando escutei um “psiu” vindo de baixo de mim. Olhei para baixo, a altura me deixou um pouco tonta e resolvi descer do parapeito antes de cair. No jardim havia um homem, já com seus quarenta anos, roupas boas e limpas, cabelos negros revirados. Ele sorriu para mim como um retardado.
– Você é a senhorita Foster? Marianne Foster? – Ele perguntou, sussurrando.
– Sim. – Respondi em mesmo tom.
Ele olhou ao redor, tendo certeza de que ninguém nos via.
– Olá. Eu trago uma carta do conde.
Meu coração saltou a ponto de tocar minha garganta. Tive que engolir para recolocá-lo no lugar.
– Uma carta?
Ele não respondeu, olhou ao redor e encontrou um vaso de plantas. Encaixou o pequeno envelope marfim debaixo do vaso e sorriu para mim. Ele parecia um louquinho. Depois foi embora.
– Droga! – Resmunguei. Tinha que descer até lá embaixo para pegar aquele maldito envelope, sem que meu pai ou qualquer empregado me visse. Quando abri a porta do quarto olhei o corredor me certificando de que estava vazio e sai pé-ante-pé.
Estava rezando para que meu pai tivesse saído ou estivesse enfurnado no escritório. Corri quando algumas empregadas que limpavam a sala deram as costas para mim e logo estava do lado de fora. Para chegar aos jardins não foi difícil.
Peguei o envelope sentindo o quão áspero era aquele papel. Escondi entre meus seios para que ninguém visse caso eu fosse pega voltando para o meu quarto.
– Com licença. – Saltei ao ouvir a voz dele.
Finn me encarou assustado assim como eu.
– O que você quer idiota! – Na hora senti tanta raiva que não medi minhas palavras.
– Ah! Agora eu sou idiota.
– Sim! Idiota, cínico, cretino! Eu deveria denunciá-lo ao meu pai e fazê-lo te expulsar daqui!
– Eu também estou contente em ver você.
Eu ri. Não! Eu gargalhei na cara dele. A melhor risada de escárnio que eu tinha.
– Como ousa! Vir aqui e me dizer que está contente em me ver? Você nem devia estar falando comigo. Volte para os estábulos onde é o seu lugar: limpando escroto!
Eu me virei deixando Finnick pasmo para trás. Ele não esperava aquilo de mim? Meu interior riu. Eu nunca mais vou sofrer por causa daquele... Grrrr!
Consegui retornar ao meu quarto sem ser vista. Acendendo um lampião na mesa de escriba, sentei disposta a ler a carta que o conde havia me enviado:
Senhorita Foster.
Ontem foi uma noite extremamente agradável, apesar de que gostaria que tivesse sido mais longa. Passar todo aquele tempo desfrutando de sua doce voz foi impressionante para mim.
Você me fascina. Não faz ideia do quanto tenho que me controlar sempre que estou perto de você. Mas estou confuso. Você não gosta de mim? Minha presença a chateia? Eu não deveria ter te beijado? Saiba que era difícil não beijar você.
Espero por suas respostas apesar de temê-las. Renfield, o homem que lhe entregou esta carta, estará esperando pela sua para me trazê-la.
Com admiração, V.
Mil vezes inferno! Admiração? Fascinado? Meu Deusinho amado! E agora? O que eu faço?
Meu coração nunca esteve tão dolorido. Não sabia o que aquele sentimento significava. Angustia? Alegria? Sem dúvida estava saltitando por causa daquela carta. Tinha que escrever uma resposta imediatamente e foi o que eu fiz:
Caro Conde Vlad.
Não sabe o quanto fiquei impressionada com sua carta, realmente contente.
Respondendo suas perguntas: Não, eu gosto do senhor. Sua presença? Ela é sempre muito estimulante para mim. E se não deveria ter me beijado? Bem, eu tenho que admitir que fiquei confusa após o beijo de ontem. Eu não sei responder esta, ainda.
Mas quero que saiba que também gostei da noite de ontem, e sinto por ela não ter sido maior.
Marianne F.
Eu dobrei o papel e recoloquei a pena de volta ao pote de tinta. Fui até a janela e lá estava o homem com sorriso maluquinho no rosto. Se eu deixasse o papel cair, o vento o empurraria para longe. Tive uma ideia de prendê-lo a algo pesado então. A primeira coisa que vi foi o colar que Alan me dera. Não o peguei porque seria muito mal de minha parte. Era um presente de coração. Então peguei um anel velho que há muito não usava.
A carta caiu na cabeça de Ren, o mensageiro. – Decidi chamá-lo de Ren, já que seu nome era estranho.
– Desculpa. – Sussurrei.
Ele riu e depois saiu correndo.
Nossa! Já estava anoitecendo. Observei o sol reinar em seus últimos raios com um sorriso tolo nos lábios. Mal esperava receber outras cartas do conde.
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