Fascínio
22 Amnésia
Notas iniciais
No meu sonho eu andava e cantarolava em meio às ruínas de um castelo. A paisagem que eu deslumbrava era linda, campos extensos e verdes, morros lisos e convidativos. O céu era azul profundamente claro, havia muitas nuvens brancas, o que só deixava tudo mais maravilhoso.
Eu havia escolhido um muro pequeno, aquilo um dia havia sido uma imensa parede de pedra, mas agora me servia de banco. Havia sentado de frente para toda aquela magnifica paisagem. Eu poderia ficar ali para sempre, lembrando o quanto o mundo era feio, porém eu havia tido o privilégio de vislumbrar sua parte bela.
As nuvens no céu começaram a se mover com rapidez, sendo substituídas por nuvens negras de chuva. O sol havia sido coberto, raios faziam estrondos arrepiantes e soavam perigosamente perto.
A chuva começou a cair, com força. Parecia chuva de granizo de tão forte que os pingos batiam na pele, machucava.
Eu corri para escapar da chuva, para sair das ruínas tinha que passar por um corredor que parecia ser a única coisa que havia sobrevivido do antigo castelo. Eu vi a luz no fim do túnel, porém quando cheguei lá não vi pastos verdes e morros bonitos, eu vi um rio e uma queda de no mínimo trinta metros.
Eu estava novamente naquela janela no topo de uma torre. Mais uma vez aquele desejo involuntário de saltar para a morte certa. Desta vez eu olhei para trás, para o corredor que havia percorrido. Era bem decorado, havia muitas portas e quadros, era um castelo escuro, porém familiar. Pelo corredor vi homens de armadura correndo atrás de mim. Voltei a encarar minha queda, minha mente foi tomada por aqueles pensamentos estranhos que não me pertenciam e depois saltei.
– // -
Gemi quando acordei e tentei me levantar. Meu pescoço estava dolorido, meus pulsos, minha cintura, meu interior. Eu estava toda doída.
Levei uma mão ao pescoço no local da dor e apertei, sentindo ainda mais. Sabe quando você bate com força em algum lugar e fica aquela dorzinha incomoda no lugar do roxo. Era exatamente assim.
Levantei-me da cama e só então percebi que era a minha cama! Eu estava no meu quarto! Mas me lembrava de ter ido para a casa do conde e... – Senti minhas bochechas esquentarem – nós fizemos amor. Sim, eu havia me entregado a ele e agora estava imensamente arrependida. Não que não tivesse sido ótimo... A dor dentro de mim me mostrava que havia sido muito bom, mas eu realmente gostaria de mais tempo para pensar direito sobre aquela decisão. Olhei-me no espelho procurando um sinal, alguma coisa que mostrasse que eu estava diferente agora. Fiquei com medo de que as pessoas notassem de cara que eu não era mais... Bem, virgem.
De qualquer modo, não me lembrava de ter voltado para casa.
Eu me sentia diferente por dentro, mas por fora continuava a mesma. Exceto por uma coisa: meu pescoço! Onde estava dolorido havia dois furos, iguaizinhos aos que havia no pescoço da minha mãe quando ela estava doente!
Tropecei para trás me lembrando da minha mãe, meus pés enroscaram no tapete do quarto e eu cai sentada no chão.
– Não... – Sussurrei. Aquilo não podia ser coincidência! Eu não podia estar como ela! Não! Não! Não! E não!
Papai havia acabado de perdê-la, ele não poderia me perder deste jeito também! E se eu voltasse como mamãe voltou? Eu não queria um demônio possuindo meu corpo depois de morta!
Olhei para o meu pulso e vi que havia marcas nele também. Como se eu tivesse sido mordida.
Eu tinha capacidade de juntar os pingos nos “Is”, mas minha mente não estava autorizada a isto. Eu não acreditava naquelas coisas, de jeito nenhum. Tinha que haver uma explicação mais razoável.
Levantei-me decidida a esquecer daquilo e não permitir que acontecesse comigo o que aconteceu com minha mãe. Eu me alimentaria, sairia, faria alguma coisa para não ficar doente.
Após me lavar fiz uma trança no meu cabelo que ficou caída sobre um dos ombros. Apenas para que ele não ficasse solto. Vesti algo simples e com mangas que cobrissem as marcas nos meus pulsos. Procurei por uma gargantilha e acabei encontrando o colar que Finn havia feito para mim. Deixei o colar de lado, pus a gargantilha para tapar a marca no meu pescoço e desci para comer alguma coisa.
Eu não ia ficar doente. Deveria haver alguma coisa que eu pudesse fazer... Lembrei-me que minha mãe se alimentava muito mal e isso a deixou fraca, então iria comer bastante... Porém somente o pensamento de que devia me alimentar fez meu estômago revirar em protesto. Eu não estava com fome.
Quando cheguei na sala achei tudo incomodamente claro. Maldito sol que invadia a casa pelas janelas, aquela luz toda acabaria me cegando. E minha pele sensível também não aprovava. Sombreando meus olhos com uma mão fui até a mesa do café da manhã que ficava em outro cômodo da casa. Meu pai não estava lá, ou era muito cedo e ele não havia acordado, ou era muito tarde e ele já havia tomado o café. Esperava que fosse a primeira opção, não era bom meninas da minha idade acordarem muito tarde naquela época, as pessoas comentavam... Preguiça não era uma coisa bem vista.
Sentei-me à mesa e uma empregada apareceu dizendo que meu pai gostaria de me ver em seu escritório. Agradeci aliviada, pois não estava com vontade de forçar meu estômago a aceitar comida.
Assim que entrei no escritório de meu pai, ele e mais um homem que se encontrava presente se levantaram para me encarar. Aquele era Alan que uniu as sobrancelhas assim que me viu. Sua expressão indicava preocupação.
– Tudo bem com você Anne? – Ele perguntou.
– Sim, ora... Por que não estaria? – Meu coração acelerou. Será que eles sabiam? Estava tão na cara assim? Dava para perceber o que eu havia feito?
– Você está... Diferente. – Ele disse. – Dormiu até esta hora. Não está doente, certo?
– Céus! – Meu pai arregalou os olhos. – Você está bem? Sente-se bem? Por favor... Se não estiver procurarei um médico agora mesmo!
Meu coração pesou com culpa. Meu pai e eu brigamos muito naqueles últimos dias, mas eu ainda não queria deixá-lo sozinho.
– Eu estou bem pai. Juro. – Jurar em falso é pecado!
Meu pai sorriu aliviado. – Então querida, por favor, sente.
Eu assenti e me sentei ao lado de Alan diante da mesa do meu pai.
– Há algumas coisas que devem ser acertadas para o casamento que será daqui há... Uma semana?
Arregalei os olhos. Uma semana?! Já?
– Sim. – Alan concordou. – Acho que só falta decidir alguns convidados. Infelizmente nem todos da minha família poderão vir. Mas há algumas pessoas que eu quero proibir de participar do nosso casamento.
Olhei para baixo, sabia de quem ele estava falando.
– Está falando do conde, certo? – Disse sem olhar para ele. Eu não poderia...
– Sim. – Ele concordou sorridente.
– Ora... – Disse meu pai. – Não vejo por que o conde é...
– Ele é problema sim senhor! Apenas, me deixe decidir que ele fique de fora, com todo respeito senhor.
– Tudo bem... – Meu pai resmungou. – Ele está proibido de comparecer.
Eu me levantei.
– Anne? – O duque me encarou surpreso. – Tudo bem.
– Sim. Vocês podem continuar decidindo as coisas sem mim. – Sorri de maneira sarcástica e sai daquela sala.
O que estava dando em mim?
Quando estava descendo as escadas Alan havia segurando um de meus pulsos e me puxado de volta, de forma que fui forçada a olhar para ele.
– O que foi? Queria que eu perguntasse a você o que achava antes de riscá-lo da lista?
– Eu não entendo sua implicância com ele. – Disse sem me sentir.
– Eu não entendo por que você está o defendendo... – Sua voz foi sumindo aos poucos. Ele havia finalmente entendido. – Deus... Vocês...
– Não! Não é nada disso. – Meu coração estava incontrolável. Se continuasse assim eu desmaiaria. Ele havia descoberto! Eu tinha que ser uma ótima mentirosa para fazê-lo acreditar em mim.
– É o que então? – Ele estava furioso! Apertou mais meu pulso e eu tive que morder o lábio inferior para não chorar de dor.
Alan percebeu isso e afrouxou o aperto, e depois fez algo que eu não esperava: Levantou a manga do meu vestido e viu as marcas avermelhadas.
– O que é...
Puxei meu braço dele e voltei a cobrir as feridas.
– Apenas cancele o casamento. – Disse já descendo as escadas.
– Isto está fora de cogitação! – Ele gritou.
– Que pena! – Devolvi.
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