Fascínio

28 Última Chance


Notas iniciais
Último capítulo da parte três. A parte quatro será todinha do Finn. Boa leitura!

Estávamos num poço que ficava atrás da casa dos empregados masculinos. Finn tinha uma coisa para me mostrar. Ele havia pegado uma corda, amarrado bem firme numa árvore a agora descia para dentro do poço com ela.

– Não é perigoso?

– É um poço vazio. Não se preocupa.

– O que tem ai embaixo? – Olhei curiosa por cima do ombro dele enquanto ele descia, mas não enxergava nada, era muito escuro.

Ele olhou para mim e sorriu.

– Espere e verá. – Depois que desceu mais alguns centímetros eu não pude mais vê-lo também.

Esperei impaciente pensando nas perguntas que Finn havia me alfinetado enquanto voltávamos da universidade para cá. Ele percebeu as indiretas do professor e as perguntas que fiz no final, sem pensar. A verdade é que estou desesperada para me livrar disso. Eu não quero ser uma vampira. Eu quero continuar sendo apenas... Anne.

“Olá pessoal, eu sou Anne, a pessoa mais normal do mundo.” – Sorriso.

E não “E ai? Hora de morrer...” – Risada maléfica.

– Aqui! – Finn me tirou da minha breve distração. Ele havia me entregado uma caixa de madeira muito pesada. Eu quase botei os bofes para fora para carregá-la poucos centímetros fora do poço. Ele terminou de sair. Seus cabelos estavam sujos com teia de aranha e seus sapatos úmidos.

– O que tem dentro desta caixa?

– Uma coisinha que eu encontrei nas coisas do meu tio, após ele ter morrido.

Ele me afastou com delicadeza para ficar diante da caixa. Agachou-se e com um pé de cabra que pegara de sua casa junto com a corda para descer o poço abriu. Dentro havia... Armas?

– Que coisas são essas? – Meus olhos se arregalaram.

Finn me entregou uma estaca de madeira ao invés de responder. Ela era leve, e se encaixava perfeitamente na minha mão.

– Devia dormir com esta debaixo do seu travesseiro. – Ele disse.

– Rá! Como se um vampiro fosse entrar no meu quarto.

Tecnicamente. Vlad entrou somente no meu sonho – pelo menos eu acho que era um sonho...

– Nunca se sabe... – Finn deu de ombros. – Eu tenho que admitir Anne que você está mal, bem esquisita, como estava sua mãe antes de virar vampira.

– Não... Isso não é verdade.

Ele suspirou bem forte e se levantou. Veio até mim e segurou minhas duas mãos, mesmo a que eu segurava a estaca. Fazíamos isso quando criança e queríamos confortar um ao outro. Nada de abraços, somente uma conversa sincera. Tínhamos que ser sinceros em momentos como estes, tínhamos que desabafar tudinho.

Eu abaixei o rosto para não encará-lo. Eu não queria lhe contar nada.

– Anne...? – Ele cantarolou.

– O que é?

– Pode confiar em mim.

Eu balancei a cabeça.

– Eu jamais machucaria alguém que amo... E minha mãe iria me atacar sem pensar duas vezes... Isso me magoou.

– Os vampiros não amam ninguém. – Ele disse.

– Mas eu não quero ser assim...

Ele secou uma lágrima que começara a rolar pela minha bochecha com um polegar e já aproveitou para levantar meu rosto na direção do seu.

– Você não vai ser. Não ouviu o que Gulliver disse? Vamos atrás do vampiro que está fazendo isso com você e depois matá-lo. Assim você ficará livre.

– É mais complicado do que isso. – Admiti. Por mais que odiasse o que Vlad fazia comigo, eu não o queria ferido, nem morto. Era estranho... Mas não conseguia imaginar um mundo sem ele, assim como sem Finn ou meu pai. Ele fazia parte de mim agora.

Sei que parece loucura, já que o conheço há tão pouco tempo. Mas quando estou com ele sinto que nunca é a primeira vez. A minha vida toda eu sonhei com coisas estranhas e desde que comecei a estar com ele, estes sonhos mudaram. E quando o beijei pela primeira vez, senti que não era a primeira vez. Senti que já havíamos feito aquilo centenas de vezes, e com carinho e amor incondicional.

Eu não sentia que estava apaixonada pelo conde, mas que já havia o amado uma vida inteira, num passado distante.

– Me deixe ajudá-la Anne. – Finn ainda segurava minhas mãos.

– Finn... Eu vou ficar bem. Vou encontrar outra forma de...

– Oi. – A voz insegura daquela garota me fez revirar os olhos de desgosto. Sempre ela para estragar tudo.

Puxei minhas mãos das de Finn com força exagerada e guardei a estaca que ele me dera na faixa que envolvia a cintura do meu vestido. Passei por Caroline sem encará-la. Odiava aquela garota, não conseguia acreditar que Finn se casaria com ela.

– Anne... Espera! – Finn correu atrás de mim. – Ainda não terminamos nossa conversa.

– Não adianta! – Respondi ainda seguindo em frente, sem olhar para ele que estava às minhas costas. – Você ouviu o professor, não há muito que se possa fazer. É melhor deixar como está.

– // -

À noite coloquei a estaca embaixo do travesseiro sabendo o quanto aquilo era bobagem. Porém me senti mais segura com ela.

Mais uma vez estava com insônia e não conseguia dormir. Aquilo era terrível. Estava morrendo de sono, mas não descansava.

Mesmo tampada eu senti o quarto ficar mais frio. Abri os olhos devagar e gritei quando vi uma silhueta diante da minha cama. Respirei quando percebi que era Henry.

– Pai? Como o senhor entrou... – Não terminei a frase. De trás do meu pai vi outra pessoa se mover, o conde.

– Obrigado Henry, pode ir agora. – Ele disse.

Meu pai parecia... Um morto-vivo. Ele se arrastou devagar para fora do meu quarto e ouvi o som da chave sendo girada do lado de fora.

– O que você fez com ele? – Sussurrei já que minha voz estava passeando em outro lugar.

– Humanos são fáceis de manipular. – Ele disse com indiferença, depois sentou-se ao meu lado, envolvendo meus ombros com seus braços.

– Saia daqui. – Pedi ainda em sussurros.

– Por quê? Está com medo?

Não respondi.

– Anne... Tenho muitas coisas para te contar. Antes de tudo eu quero deixar claro que não fui eu quem matou sua mãe. Foi Ilona. Ela estava com ciúmes e queria te perturbar. – Ele suspirou. – Eu tentei, mas não pude impedi-la.

Ilona... Aquela vadia...

– E... Você pode achar isso loucura, mas você não é quem pensa que é. Há coisas que estão muito além da sua compreensão.

– Por favor... Eu não quero.

– Ei. – Ele puxou meu rosto para que eu pudesse ver seu sorriso. Não surtiu o efeito que ele esperava em mim. – Eu jamais te machucaria. Eu estive séculos procurando por você, e agora finalmente podemos ficar juntos para sempre.

– Do que você está falando?

– Eu... – Ele olhou para a janela, só para não ter que olhar para mim. – Quando eu ainda era humano eu tinha uma esposa, alguém que nunca amei tanto na vida. Seu nome era Isabela Bizáur. Éramos felizes até que um dia, uma batalha, uma guerra me forçou a sair de casa. Eu pedi para que Deus a protegesse enquanto eu estivesse fora... Mas ele não fez. – Ele respirou, havia ódio nos seus olhos e dor.

– Ao invés de protegê-la ele permitiu que os inimigos invadissem meu castelo levando a notícia de que eu havia morrido naquela batalha. Acho que ela não recebeu a notícia muito bem...

– Porque ela se matou. – Eu concluí por ele. – Ela se jogou do alto daquela torre.

– Sim. – Ele riu. – Você lembra.

– Lembro?

– Sim. Era você. Em outra vida.

– Eu não acredito nisso... – Arrastei uma mão para baixo do meu travesseiro, tomando o cuidado para que ele não visse. Senti a madeira e a segurei com firmemente.

– Anne. – Ele montou em cima de mim por cima dos lençóis, cada perna sua ao lado das minhas, segurou meus ombros com as duas mãos. Não tinha como não olhar para ele. – Você é Isabela que voltou para mim. Eu só existi por tanto tempo, porque ainda tinha fé de que te encontraria. E encontrei! – Ele riu e me pareceu o garoto da minha visão e não o monstro que me estuprou no meu sonho.

Ele se inclinou até que nossas testas se tocaram. Fechei os olhos aceitando as imagens que me tomavam. Um passeio num jardim cheio de rosas vermelhas. Um dia inteiro debaixo da uma árvore com a cabeça deitada em seu ombro. Nadando nus no rio que cercava o castelo...

– Mas eu não sou Isabela – Eu disse abrindo meus olhos com cuidado.

Ele já tinha os olhos abertos, me estudando.

– Não. – Vlad disse. – Você é Marianne e eu te amo do mesmo modo. Sei que também me ama, e um dia irá me compreender e me perdoar.

Foi então que percebi o que ele iria fazer e puxei a estaca para cravar direto no seu ombro, mas ele segurou meu pulso antes que eu conseguisse, seu reflexo era impressionante. Arregalei os olhos percebendo o meu erro.

Ele riu. – Você é corajosa Anne, será uma boa companheira. – E me mordeu. Seria a última vez que ele me sugaria.

Notas finais
Que tal? Beijos!!!