Farewell Letter

1 Capítulo Único


17 de Novembro de 2000

“Primeiramente, me desculpe lhe tomar o tempo com este e-mail anônimo.

Eu queria (e precisava) escrever para alguém. Ai você me pergunta: porque pra mim?

Porque eu não tenho mais ninguém para enviar uma carta (e-mail, no caso) de despedida.

Eu simplesmente não entendo os humanos... Não entendo mesmo.

Vivem aparentemente felizes em suas casas bonitas e sua vida colorida.

Mas, e daí? Muitas vezes com suas famílias problemáticas. Filhos nas drogas, maridos ou esposas que traem e tudo mais.

Quanta mentira e falsidade! Pra que viver assim? Não adianta nada!

Pelo menos eu nunca escondi o que sentia.

Nunca fui feliz, e nunca menti que era.

As pessoas me olham estranho nas ruas

‘Olha só aquela garota, o estado dela é deprimente.

Veja só aqueles cabelos oleosos e unhas quebradas. E aquelas marcas em seus pulsos, aposto que é aquele tipo de pessoa que se corta e da a desculpa de que ninguém conhece sua dor...’

Esses seres humanos são muito patéticos! Sério!

Ah, já que eu falei sobre as marcas, vamos lá.

Se eu começar falando ‘são marcas que eu ganhei devido aos cortes que eu fazia’ ou ‘fui maltratada quando criança’ estarei mentindo.

São cortes que ganhei quando cai da bicicleta, eu tinha meus 7 anos e estava tentando fugir de casa.

Sim, com 7 anos eu já queria sumir.

Sofria abusos sexuais da parte de um tio, e graças a ele eu sou soro positivo ( tenho Aids)

Mas essa é outra história.

Eu vou me matar daqui a 7 minutos, apenas o tempo de enviar esse e-mail e preparar a seringa. Vou tomar veneno, e logo após injetarei ar na minha veia, fazendo assim meu coração parar instantaneamente.

Enfim, sempre fui fracassada nas coisas.

Na escola, sempre fui péssima aluna. Sempre comportada, mas não aprendia nada e minhas notas eram sempre lá embaixo.

Não sabia dançar.

Não cantava.

Com meu corpo esquelético era impossível praticar esportes.

Então eu era a aluna que sentava no fim da sala, sozinha.

Ninguém falava comigo, afinal não precisavam de outra inútil na turma, já tinham uma que realizava esse papel.

Ótimo. Bom, eu tenho 20 anos agora, nunca trabalhei, não tenho aparência nem experiência pra isso.

Não fui aceita em nenhuma faculdade.

Ai você me pergunta: o que você fazia da vida então?

Bem, eu ficava o dia todo no meu quarto, jogando e comendo algo gorduroso e que me faz mal. Eu moro com minha avó, e ela não se importava com isso. Desde que meus pais morreram, ela sempre fazia minhas vontades e tudo mais.

Então, eu simplesmente me perguntei: Porque eu vivo mesmo?

Eu não faço nada, não adiciono nem extraio nada da vida das pessoas, não presto nem pra estudar nem nada.

Então, porque eu vivo?

Se minha presença só é notada quando eu saio pra comer.

Se minha presença só é notada quando minha avó precisa que alguém vá pagar as contas

Então, porque eu vivo mesmo?

Sinto um vazio imenso na alma, nunca fui religiosa, mas pessoas me dizem que isso é “falta de Deus” e essas coisas, sabe? Mas eu simplesmente não acredito.

Então, eu não viverei mais.”

Assinado: Anônimo.

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