Far From Never
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Far From Never
O salão está vazio agora. Não há absolutamente nenhum som fora a minha respiração. Estou de frente para a enorme janela, olhando para a rua, observando a movimentação do fim da tarde. Logo mais precisarei descer e começar a arrumar a loja para os clientes.
Estou tão próxima da janela que a mesma fica embaçada à medida que respiro. Ponho uma mão na janela, pensando no que dissera quando o Mr. Todd chegou. Minha exaltação ao vê-lo voltar me impediu de pensar antes de falar e apenas ouvi as palavras saírem involuntariamente da minha boca, dizendo a ele que sua mulher, Lucy, estava morta.
Eu estraguei tudo.
Estamos avançando nesta loucura a cada dia mais. Vejo homens entrarem por esta porta, mas nunca mais saem. Suas carnes são reaproveitadas, graças a minha ideia, para virarem minhas tortas de carne, hoje conhecidas como as melhores.
Respiro fundo e fecho os olhos, tentando pensar em tudo que fiz, em tudo que o incentivei a fazer. Se tudo isso realmente valeu a pena.
– Acho que finalmente as coisas estão dando certo – disse ele, com seu copo de gim na mão, caminhando em minha direção com seu sorriso misterioso brincando nos lábios.
Sorri de volta e pousei meu rolo de massas na mesa, batendo as palmas das mãos para tirar o trigo que estava nelas.
Sweeney parou na minha frente e pousou seu copo na mesa, usando as duas mãos para contornar minha cintura, trazendo-me num abraço quando pousei minhas mãos nos seus ombros. Seus olhos negros me fitavam com interesse. Mordi o lábio na expectativa.
– Nunca imaginei que você pudesse ter ideias tão fascinantes, Mrs. Lovett – soou a voz rouca dele.
– Você não sabe de nada, querido – respondi e deslizei minha mão até parar no meio das suas pernas. Permaneci olhando em seus olhos, percebendo sua reação quando ele fechou os olhose encontrou minha mão ávida, incentivando-me a movimentá-la.
Imediatamente, meus lábios sentiram a necessidade de procurar pelos seus e em pouco tempo estávamos envolvidos num intenso beijo. Cercados pelo desejo que nos envolvia, pela descoberta, pela luxúria.
Imagino o que aconteceria se ele descobrisse a verdade.
Abro os olhos e levo um susto ao ver Lucy totalmente irreconhecível – porém não aos meus olhos, que convivi vendo sua imagem praticamente todos os dias, acompanhando sua decadência, dando lugar a miséria ao invés da sua beleza anterior. — Ela caminha pela rua e para subitamente ao notar por onde está passando. Lucy, com sua mente alterada, após ter sofrido nas mãos do Juiz Turpin, não se lembra deste lugar, mas ao olhar para cima, encontra imediatamente o meu olhar e muda sua expressão para o medo. Ela tem medo de mim.
Para ela, sou uma bruxa.
Não me bastasse o susto ao ver Lucy, sou surpreendida com o barulho do sino, informando que alguém chegara no salão. Ao virar-me para ver de quem se trata, vejo ninguém menos que Mr. Todd entrando pela porta, com sua expressão desconfiada de sempre.
Viro-me de volta para a janela para certificar-me de que Lucy não esteja mais lá e, para a minha felicidade, ela sumiu de vista. Começo a me perguntar se ela realmente estava ali ou foi só na minha imaginação.
– O que está fazendo aqui? — ouço-o indagar. Dou de ombros para vê-lo se aproximar aos poucos, mas não se aproxima o suficiente para que eu sinta o calor do seu corpo. Às vezes a frieza dele me confunde.
– Estava esperando você chegar – digo ainda olhando para baixo. Posso vê-lo se esticar para ver através da janela. — Está esperando alguém?
Ele finalmente parece perceber meu desânimo e dá um pigarro.
– É melhor eu descer – digo subitamente, mas quando me viro, ele me segura pelo braço, impedindo-me de seguir meu caminho.
– Não, por favor – ele diz e noto seu cenho franzido como sempre. Ele nunca relaxa. — Pode ficar.
Fico por um momento fitando-o sem dizer nada. Apenas tento desvendar o que seus olhos querem me dizer, mas parece impossível. Seus pensamentos sempre estão concentrados no Juiz e na sua Lucy.
– Mrs. Lovett... você sabe que nós nunca seremos...
– Um casal propriamente dito – completo. — Eu sei. Eu entendo suas prioridades – acrescento e sorrio tristemente.
Sweeney pousa uma mão no meu rosto e fecho os olhos tentando aproveitar a sensação. Pouso minha mão sobre a sua para que ele não a afaste de lá. Mas para a minha surpresa seus lábios me surpreendem com um beijo e logo estamos envolvidos completamente, intensificando cada vez mais.
Começo a guiá-lo em direção a poltrona e o empurro para sentar-se nela, sentando-me em seu colo logo em seguida. Seguro seu rosto entre minhas mãos enquanto ele me puxa para mais perto.
Assim sempre foi, sempre cotinuou sendo. Sweeney sempre com sua cabeça presa na sua vingança, eu sempre sonhando em ter minha vida com ele. Nossas realidades separadas por caminhos diferentes, mas sempre nos unindo para satisfazer nossos desejos. Tão longe da realidade ao nosso redor. Tão longe do nunca.
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