Com o estridente som do sinal, Charllote acordou num pulo. Todos a sua volta saíam as pressas, e ela fez o mesmo; só queria sair de lá. Jogou seus materiais na mochila, e tentou sair da sala sem ser visa.

-Charllote Elizabeth... — Disse o professor de álgebra enquanto apagava o quadro.

-Professor... — Ela suspirou e se virou para o professor.

-Não pense que não vi que dormiu toda a minha aula.

-Desculpa professor...é que...

-Não quero desculpas, vou deixa-la ir sem advertências hoje, mas só por que é seu aniversário.

A jovem nada disse, apenas acenou com a cabeça e saiu da sala. Caminhava pelo corredor cheio de gente, alguns esbarrando em seus ombros, o que a deixava nervosa mas não ligava muito. Com os fones de ouvido nas alturas acabava não escultando os poucos que lhe desejavam feliz aniversário; Charllote estava completando 16 anos e tudo o que queria era comemorar de sua maneira: Na cafeteria do Museu de Arte Moderna, tomando um café e ouvindo musica ao vivo.

E foi o que ela fez. Passando pela mesma rua pacata de sempre, algo chamou sua atenção: Um antiquário bem peculiar e que ela nunca tinha visto. Tomada pela curiosidade, ela entrou sem hesitar. Assim que entrou no estabelecimento, olhou em volta e se sentiu maravilhada com tudo, as jóias antigas, os móveis, as pratarias...um gato preto passou por ela, arrancando a um sorriso. Charllote sempre gostou de animais, principalmente os felinos. Ela o pegou no colo e acariciou suas orelhinhas, o gato ronronava em resposta as carícias.

-Quem está aí? — Uma voz tremula soou. Uma adorável velhinha apareceu, com um coque perfeitamente arrumado, óculos de grau, um vestido florido e um sweater de lã.

-Olá. Desculpa entrar desse jeito, é que eu sempre passo por aqui e essa é a primeira vez que eu vejo e queria muito conhecer.

-Ah sim minha querida, abrimos recentemente.Ahn...pelo visto o Bells gostou de você. — Ela abriu um sorriso adorável.

-Sim, eu adoro gatos. — Charllote sorriu amigavelmente.

-Fique a vontade por favor. Vou preparar um chá. — E então a amável senhorinha saiu para outro cômodo.

Charllote deixou sua mochila em uma poltrona e caminhou pelo estabelecimento para conhecer melhor. Não demorou muito e se deparou com um lindo espelho, era enorme! Com a moldura dourada e cheio de desenhos em espiral. Se viu no espelho por um momento, os longos cabelos loiros levemente bagunçados, moletom amarrotado, tênis sujos...quando deu um passo para frente para se ver melhor, tropeçou no tapete persa e de uma forma mágica conseguiu atravessa-lo.

Com o gato ainda em seus braços, ela se encolhia e gritava. Ela estava caindo num enorme abismo, cheio de trambolhos, cacarecos, coisas antigas...armaduras medievais, um piano, bulis de chá...

-Como em Alice no País das Maravilhas... — Ela sussurrou para sí.

Aquele abismo maluco parecia não acabar nunca, até que aquela viagem finalmente acabou com um baque súbito. Charllote bateu suas costas no chão deitada e o gato pulou de seus braços.

-Ai...minhas costas... — Ela gemeu de dor. — Onde é que eu to...? — Ela olhou para todos os lados, mas tudo que via era um imenso campo verde. O céu estava nublado e não tinha nenhum sinal de vida por perto. Ela se levantou e pôs as mãos na cabeça tentando pensar em uma forma de sair daquele lugar. Estava sem reação, não conseguia pensar em mais nada. — O espelho! — Ela viu a peça no chão e se agachou para averiguar. Bateu, bateu e bateu no vidro, mas nada adiantou.

-Você não vai sair daqui dessa maneira... — Uma voz masculina soou.

-Quem disse isso?

-Eu. — O gato preto da velhinha disse em alto e bom som, o que deixou a jovem assustada.

-Vo...você? Como? Isso é impossível! Gatos não falam! — Ela se arrastou no chão tentando se afastar.

-No seu mundo sim...mas nesse mundo, eu falo. E se eu fosse você, Charllote, pararia de dar chilique e começaria a andar. Vou te levar para um lugar chegou a hora.

-Hora...hora de que? — Ela disse desconfiada.

-Menina boba...venha comigo e descobrirá tudo.

O gato caminhava na frente em linha reta.Mas tudo que Charllote conseguia fazer era ficar parada, tentando absorver o que estava acontecendo.

-Se eu fosse você viria comigo, daqui a pouco vai escurecer e eu sei que você não vai querer ficar sozinha aqui .

No mesmo momento Charllote saiu correndo atras do gato. E a adolescente que estava completando 16 anos, e mal sabia do que estava por vir.