Fantasmas dos 100 Anos
1 Oneshot
–Preciso de flores, preciso de cores, preciso de alegria, preciso de mais amores...
Cantarolava um garoto dentre as barricadas deixadas pelo fim da guerra entre a França e a Inglaterra. Ele parecia está sozinho, sua aparência era de uns oito a dez anos, ele me chamou a atenção, pois estava aparentemente muito feliz, e achei que não era apenas pelo fim da guerra.
xx
Eu era uma jovem garotinha de dezessete anos, meu avô lutou como soldado desde o primeiro período da guerra, ele faleceu subitamente, meu pai foi convocado já no quarto período, eu não sabia de seu paradeiro, e apenas sai de onde ele me escondeu após ouvir alguém dizer que a guerra tinha chegado ao fim.
–Preciso de flores, preciso de cores, preciso de alegria, preciso de mais amores...
Não era apenas o cantarolar, e sim a forma que ele juntava os pedaços de madeira da barricada, minha curiosidade tomou posse da minha vontade, fazendo-me ir até aquele alegre garotinho.
– Petit garçon? –Assim o chamei a atenção, e ele me correspondeu assustado, logo estranhei. –Não tenha medo, vous também está sozinho?
–My Lady é francesa?
Aquele olhar confuso me fez ter a certeza, ele não era dali.
–Oui, o que um petit garçon está fazendo sozinho aqui, em meio a essa barricada?
–Estou juntando madeiras para montar os meus brinquedos. Finalmente agora eu posso brincar.
Fiquei a pensar que aquele garotinho era filho de alguém, mas ele estava muito feliz para uma criança que, possivelmente, teria perdido seus pais.
– Petit garçon, vous não é francês, oui?
–Posso ser o que a Mademoiselle desejar, sou a luz que sempre surge no fim do túnel, sou o guardião da alegria, das cores, até dos amores...
Aquilo estava sendo estranho, pois ele era apenas um pequeno e inocente petit garçon.
–Vous tem onde dormir?
–Eu não durmo, apenas protejo, queres que eu a proteja Mademoiselle?
Como uma criança ia me proteger? Apenas relevei e o considerei como uma brincadeira.
–Oui petit garçon, serei muito grata pela sua proteção.
–Sendo assim, poderia me ajudar com essas madeiras? Posso fazer um brinquedo para vous também.
–Oui, eu lhe ajudarei se vous me disser como se chama.
–Meu nome é “B”
–“B”?
–Sim, pode me chamar de “B”.
Uma letra era o seu nome, seu sorriso doce ao dizê-la me contagiava, a meados de nove anos que eu não sabia o que era luz do sol, ou felicidade alheia, meu pai me trancou no porão da nossa casa e fiquei lá até o fim da guerra. Mas naquele momento, com o “B” eu estava esperançosa, finalmente eu podia sentir o assoprar da liberdade em minha face.
–“B”, vamos para casa.
Segurei em sua pequena mão e o ajudei com as madeiras. Minha casa? Eu não tinha casa, minha moradia era onde eu me sentia confortada e segura, poderia ser em qualquer lugar...
– Mademoiselle, tu não estais com fome?
Eu não tinha percebido, mas eu estava morrendo de fome, logo depois da sua pergunta minha barriga parecia entendê-lo e logo me pediu alimento soltando um som engraçado.
–Isso responde a sua pergunta petit garçon?
Após um sorriso como resposta, fomos a qualquer lugar que houvesse alimento, as pessoas, até as mais humildes estavam em festa.
Pegávamos os pães escondidos, e ninguém nos notava, e aquilo estava ficando cada vez mais estranho. Porém eu quis ir mais além, fui para uma casa que aparentava ser de um rico senhor, ficamos parados no portão –não tinha guardas- mas as janelas estavam abertas e em uma delas avistei uma criança de véstias elegantes conversando seriamente com uma senhora de véstias obscura que, provavelmente, era a sua mãe.
–Petit garçon, o que vous está fazendo?
Eu não tinha percebido quando e como ele conseguiu subir no muro daquela enorme casa.
– Mademoiselle, tu não mereces vestir tais véstias simples, a tua beleza suplica por luxo.
Uma criança de oito anos falando em beleza e em luxo como se fosse um jovem ou um adulto. Naquela altura do campeonato eu já estava achando que o “B” realmente era um anjo.
–“B” volte aqui, se nos pegarem estaremos mortos.
–Não se preocupe, voltarei em minutos, me espere aqui.
Não tive outra opção e apenas o esperei. E em questão de minutos ele surgiu do nada com um enorme pacote em mãos.
–“B” o que você saqueou?
–Mostrar-lhe-ei quando chegarmos a nossa casa.
–Nossa casa?
Ele seguira com seus leves passos saltitantes, cantarolando aquela mesma canção. Para meus olhos aquilo era um pequeno monólogo do qual eu era a única plateia.
Eu estava sendo guiada por uma criança, me sentia tão segura com ela, era fascinante a forma que o sorriso dele me fazia sentir o doce sabor da felicidade.
–“B”, vous é de que lugar?
–Sou um ser cosmopolita, sou um anjo do qual trás consigo a missão de trazer de volta a memória dos anjos recém-criados.
Todo aquele falar vinha-me com uma dose de ambiguidade, eu não sabia se eu acreditava ou apenas relevava como um brincar de uma criança.
Doía-me na consciência a falta do sentir de uma filha, que nem sabia o paradeiro de seu pai, doía-me, mas eu continuava sem sentir aquela falta.
Eu e o meu pai não éramos íntimos, porém ele cuidava de mim, nasci e cresci em meio aquela guerra que acabou por levar dois parentescos meus, ou mais, eu não sabia... A única certeza que eu tinha era que dali pra frente eu tinha que viver por aqueles que morreram.
Xx
E minha rotina se tornara uma aventura contínua, furtando dos ricos para meu uso particular, e ficamos assim por dois meses, até que do nada acordei ao lado de um belo moço. –gritei.
–Calma Mademoiselle, sou eu, o “B”.
Meus olhos não acreditara no que estava a se ver, aquilo era tão impossível quanto o céu ser verde, o “B”? Não, não era ele, eu não acreditei na visão diante de mim, como um garotinho cresceria tão rápido do dia para a noite?
–Non, non é o “B”...
–Oui, sou eu, acredite.
Enrolei-me com os lenções que forrava a nossa cama, eu estava de trajes íntimos, e aquele rapaz estava, por sua vez, quase que despido.
–Non, tenha medo Mademoiselle, não tentarei nada contra você, eu só quero que acredite em mim, eu sou o “B”, e o que eu tenho a lhe dizer é algo muito importante.
–Esse algo irá explicar tudo isso?
–Se vous acreditar, oui.
Até o sotaque dele tinha mudado, ele falara como um francês da terra, contudo, os traços de sua face lembrava-me de alguém, e aquele devaneio me veio repentinamente.
–Oui, eu acreditarei, mon cher.
O continuar de suas explicáveis palavras, abrangiam as minhas perspectividades de realidade. Ele me contara o de sempre.
–Sou um anjo que veio te proteger Mon Cherrie...
–Isso é mesmo verdade, “B”? Não estais a brincar comigo?
–Tenho que te contar toda a verdade, meu tempo está se esgotando por isso.
Ele ficou a me explicar de forma parcial. Contudo, quando chegou a um ponto crucial, meu coração palpitou e quase parou. E ao revelar tal absurdidade, ele voltara a ser aquele garotinho loiro de oito a dez anos.
–Como vous pode ser o que diz ser? Como vous volta a ser criança? Está diante de meus olhos, mas eu custo a acredita. Vous está falando a verdade, porém ainda sinto a áurea da mentira, tem algo a mais a me dizer, petit garçon?
–Oiu Mon cherrie, eu não quero que tu penses que estás louca, apenas continue a acreditar nas minhas impossíveis palavras.
–Oui...
–“-Preciso de flores, preciso de cores, preciso de alegria, preciso de mais amores...” Esta canção foi cantada no meu ultimo suspiro, em minha mente tinha apenas a lembrança daquela que deixei para trás. Não era a minha esposa, e sim a minha filha, prometi a mim mesmo que quando tudo aquilo chegasse ao fim eu a protegeria de qualquer forma. Antes de chegar ao meu exato óbito, atirei em minha cabeça condenando-me a eterna solidão, a não salvação, a minha vida no chão onde nasci, fui condenado a viver onde eu sempre quis. A alegria na tristeza, o arrependimento na certeza de que nunca a deixaria sozinha, me arrependi? Oui, pois eu não ia morrer, segundos após o tiro tentaram me reanimar, mas era impossível, era apenas eu esperar e viria novamente aquele doce sorriso.
Meu rosto se enchera de prantos, eu não queria acreditar no que estava em minha mente, eu não poderia pensar em tal absurda razão, que fez o meu coração chorar e lamentar...
–Pai?
–Oui, Mon Cherrie...
–Vous é meu pai? Como tu foste convertido a uma criança? Por que não esperasse apenas por mais um minuto?
–Pardon Mon Cherrie, o desespero de um homem em meio a uma guerra, faz dele um ser fraco, a covardia é tentadora, a dor de pensar que você estaria sozinha me fez fazer tal lamentável ato, pardon...
–Se vous está a falar a verdade, então me diga como te chamas.
–“B”... Burnier Benjamim, e você é a minha querida Bernadette Benjamim...
Não acreditei no meu ouvir, ele era mesmo o meu pai. Meu coração se enchera na dúvida no que achar daquela situação, meu pai, tal pessoa que eu nem sentia a falta, estava provocando-me um turbilhão de emoções das quais eu nem sabia que possuíra.
–Por que tu non me contaste logo quando me viu naquela barricada?
–Seria tu a me reconhecer, mas isso seria impossível, pensei que ao decorrer de tua convivência comigo facilitaria o teu lembrar, mas não foi possível até que fiquei mais velho...
–Estou confusa meu Pai, por que viraste um jovem rapaz do dia pra noite?
–Meu desejo antes da passagem, foi te proteger eternamente Mon Cherrie, mas vous teria que acreditar na minha existência mesmo eu não estando diante de teus olhos. O fim da guerra foi uma alegria espontânea para todos, mas a primeira coisa que veio em sua mente foi a liberdade, foi sentir o alivio de está em uma terra segura...
–Mas Pai... Vous falou “My Lady” ...
–Eu não podia dá pista de quem eu era Mon Cherrie... Pardon...
–Non importa mais, vous está comigo neste momento, meu pai está vivo em meu coração, e isso é o que vale para eu continua a seguir o meu caminho, oui?
–Oui, Mon Cherri.
A paz tomou conta do meu coração, eu estava naquele momento, abraçada ao meu pai, a melancolia parecia não existir mais naquele mundo, a felicidade aumentara continuamente, minha vida se manteve em uma firme coluna de esperança e liberdade.
E vinte anos se passou, eu com trinte e sete anos e meu pai continuava como uma criança, era tudo mais fácil, era apenas eu dizer que ele era meu filho.
–Pardon Mademoiselle, o que deseja para hoje?
Assim como um fantasma, o Pai passava despercebido pelas pessoas, ele roubava ouro dos milionários, e com essa rotina de furtos, ficamos ricos. A quantidade de joias, e ouros que arrecadamos com o passar dos anos, eram o suficiente para três ricas famílias manterem o luxo por três vidas.
–O de sempre.
Sempre vestida de preto, todos me conheciam como uma viúva que herdou a herança do marido. E a cada cinco anos nós mudávamos de cidade, pois a vizinhança sempre notava que o Pai não crescia.
–Com licença Bernadette, posso lhe fazer companhia?
–Oui, faz tempo que não o vejo Eudes. Por onde andaste?
–Fui tratar de negócios.
–Oh, vous agora é homem de negócio?
–Não, não, eu fui no lugar de meu Pai, ele está passando por uma crise emocional, depois da morte da Mãe, ele se desequilibrou-se e coube a mim tomar o lugar dele.
–Magnifique, és um homem que merece respeito.
–Fico muito agradecido pelo seu elogio, e queria pedir a senhorita Bernadette que me acompanhe essa noite em um jantar.
–Eudes, vous sabe que não posso, tenho um filho pra cuidar, non posso deixa-lo sozinho a noite.
–O jantar pode ser em sua casa.
–Eudes, eu não posso me casar novamente, já conversamos sobre isso. S'il vous plaît, non me pressione.
–Pardon Bernadette, és uma bela mulher não desistirei de tentar conquistar seu coração.
Olhei paro o lado e vi o Pai parado no meio da rua, ele estava triste.
–Aconteceu algo, Bernadette?
–Non, non só é o Burnier, já está na hora d’eu voltar para casa. Merci bocu pelo convite. Au revoir Eudes.
–Au revoir, Bernadette.
Eu estava apaixonada pelo Eudes, mas meu pai me fez prometer que seria sozinha eternamente, pois só assim ele conseguiria proteger apenas a mim. Mas eu estava triste, ver a expressão melancólica no rosto de ambos os amores deixava-me na dúvida no que realmente eu deveria fazer.
–Bernadette minha filha, você está pensativa hoje.
O fato de uma criança me chamar de filha, não era mais estranho, eu já estava acostumada com aquela situação, e naquele jantar resolvi admitir ao meu Pai-Filho o que estava se passando na minha mente e no meu coração. Fazer isso seria um alívio, mesmo não tendo o que eu tanto queria, mas meu pai ficaria ciente do que estava se passando comigo.
–Pai, eu...
–Está apaixonada pelo Eudes?
Assim como todo pai, ele já sabia o que estava perturbando a sua filha, e apenas baixei minha cabeça submissamente.
–Não se preocupe, eu só queria lhe contar, não irei ceder aos caprichos desse sentimento desnecessário.
–Não diga isso Bernadette, são situações como essa que leva os pais a perderem seus filhos, eu não quero que você se prenda por mim, ame Mon Cherrie, corresponda a esse belo sentimento que nasceu em seu coração, a vida foi feita para amar. Preciso de flores, as leve para o altar, preciso de cores, tire seus trajes pretos, preciso de alegria case-se com ele, preciso de mais amores, dê-me um neto.
A felicidade extravasava em meu interior, o Pai completara aquela canção com a vida que sempre sonhei em ter, e a única coisa que fiz, foi obedecê-lo.
–Bernadette, vous está a falar sério?
–Oui, Eudes, eu aceito o seu pedido de casamento.
Aquela festa foi para mim, a mais bela da França, a felicidade estampada no rosto de meus ambos os amores trazia-me uma harmonia interior.
Alguns meses depois engravidei, foi um parto difícil, pois eu já estava nos meus trinta e oito anos, quase morri, mas o bon dieu, deu-me forças para trazer a Cosette para o mundo.
A falta de crescimento do Pai, logo foi esclarecida para Eudes meu esposo, ele me entendeu e aceitou o fato dele ser um “fantasmas”. E nos mudamos de cidade novamente.
O pai do Eudes faleceu dois anos após o nosso casamento, ele herdou tudo que o pai tinha. E ficamos mais que milionários. Os anos se passavam como dias, minha felicidade era tanta que eu vivia sem ao menos perceber. A minha Cosette brincava com o avô como se fosse seu irmão mais velho, e com o passar dos anos e o amadurecer de sua mente, eu fui explicando o porquê do Pai não crescer.
Éramos uma família feliz, o meu vestido preto nunca mais o vesti.
–Minha doce Bernadette, os dias são como algodões de mel, que com sua doçura trás felicidade ao meu viver.
O Eudes era um doido por palavras, as adocicava ao falar de mim, pensei que o nosso amor um dia ia se cansar como de muitos casamentos por aí, mas não se cansou, a cada ano ele me amava mais e eu ficava mais feliz, sempre protegida pela felicidade e pelo amor de ambos os amores.
–Cosette minha filha, vous já é uma mocinha a mamãe precisa dormir sozinha com o papai.
Desde o nascimento da Cosette que ela sempre dormia comigo na minha cama, e na maioria das vezes expulsava o Eudes, era fofo e eu amava dormir com o calor da minha querida filha.
–Papai, sou uma mocinha, mas o Vovô me mandou ficar de olho na mamãe, e eu só estou obedecendo à ordem dele.
Tão pequena e tão obediente, e nessa peça de vida ela continuou a dormir comigo por dez anos.
Xx
No reflexo do espelho eu penteava meus fios brancos que se escondiam nos loiros, ao meu lado o Pai apareceu e apenas sorriu.
–Não se preocupe Bernadette estarei sempre com vous até o fim.
E na nossa casa moravam dois adultos, uma jovem moça e uma criança, era a hora de nós mudarmos de cidade.
A carruagem encostara-se ao portão da nossa casa. Meus leves passos mostraram o quanto eu já estava cansada, as pessoas olhavam para o Pai e se perguntavam “quem é aquele petit garçon?”.
–Mãe, eu lhe ajudo, vô, ajude o papai com as malas.
A Cosette estava trasbordando beleza, a minha filha se acostumou com aquela forma de viver, mas eu sabia que ela tinha que viver a vida dela, ela tinha que plantar suas raízes.
Eu estava certa.
–Mamãe e Papai, esse é o Maurice, meu namorado.
A Cosette se casou dois anos depois daquele dia. Foi uma bela festa, mas eu estava muito cansada para me mudar novamente.
–Mamãe, eu fico com o vô, você pode morar aqui para sempre.
Eu não podia deixar essa responsabilidade com a minha filha, e ficamos naquela cidade por oito anos. Era uma pequena cidade, os vizinhos não se importavam muito com a vida alheia, assim facilitando o esconder do meu Pai.
Em meados a esses oito anos a Cosette engravidou de gêmeos, a nossa família estava crescendo, e eu ficando velha.
–Querido Eudes, somos avós.
–É...
–E eu bisavô, eu não pensava em está vivo para presenciar esse momento.
O Pai chorara pela primeira vez, e aquele feliz pranto contagiou a todos.
–O teu sangue Pai, prevalecerá nessa terra, vous não morreu naquela guerra.
Xx
Dez anos se passou, meus netos brincavam com o bisavô. O Eudes já com seus setenta e sete anos estava de cama. Ele foi vitima de uma epidemia da época e ele faleceu alguns meses depois, sofri muito, mas o que mais me doeu foi ter que usar vestia pretas por motivos reais.
Eu era uma viúva que tinha herdado toda a herança do marido.
O marido da Cosette resolveu se mudar para a cidade natal dele, e eu apenas conceituei, eu não queria prender a minha filha, afinal, eu ainda tinha o Pai comigo.
–Au revoir Cosette, minha filha.
Despedir-me com lagrimas, e passei a viver em uma solitária vida como uma milionária que não tinha com o que gastar seus milhões, o Pai se preocupava comigo, eu não queria sair de casa, e acabei entrando no obscuro poço da depressão.
Os anos se passaram, até meus cabelos ficarem grisalhos por completo, eu me olhava no espelho e ficava a pensar de como eu era feliz, minha cama vazia sem minha Cosette e meu Eudes me fizera chorar, e essa era a minha solidão rotineira. Que matava meu coração aos poucos.
A aliança dele encima da minha, as marcas do crescer da minha filha naquela parede, tudo aquilo me traziam devaneios do que um dia vivi.
Minha vida, minha história, meus trajetos.
Uma inocente garotinha que conheceu uma criança que por sua vez, era seu pai. Ah é, ele tinha prometido que ficaria comigo eternamente.
–Bernadette, vous não precisa se afundar em teus confusos pensamentos, vous viveu, vous foi feliz, essa sua tristeza non tem motivo algum para existir, vous tem uma filha e netos, mesmo não estando perto de ti, mas o amor deles atravessam o tempo e os céus, apenas abra a porta de seu coração para hospedar esse amor. Liberte-se desta sofrida prisão que formaste em teu eu. Bernadette, eu quero ver o doce sorriso da minha queria filha novamente.
Sábias palavras me fizeram abrir a janela daquele escuro quarto, aquela forte luz me segara, e junto ao meu Pai eu pude abrir novamente o meu doce sorriso.
–Pardon Pai...
–Vous é a única coisa que me mantém vivo Bernadette.
E dois anos depois, recebi a agradável visita da minha filha e meus netos, eles estavam crescidos, e a felicidade tornara novamente a aquela casa tão vazia.
–Cosette minha filha, estais mais linda do que nunca.
Ela estava gravida novamente, eu ia ser avô outra vez, e pus em minha mente que eu não tinha motivo para sofrer pela simples existência da distancia.
Minhas pernas não podiam correr mais, minha diversão era sempre sentada, meus netos sentavam em meu colo para ouvir a história de um anjo que um dia surgiu para uma garotinha e a protegeu até o fim... Eles amavam aquela história.
...
Consegui chegar aos meus oitenta anos, os grisalhos da minha filha, consegui vê-los. Minhas netas e meu neto se casando, sim eu presenciei tudo aquilo, vivi para muito, foi felicidade para meia França ser feliz. E em uma tarde, resolvi levanta-me da minha cama, e por o meu melhor vestido, sua cor escura não me incomodava mais.
–Bernadette, chegou a nossa hora.
–Vô? Para onde vous está levando a mamãe?
–Cosette, vamos á praia.
–Podemos ir?
E meu pequeno quarto foi lotado pela minha família.
O Pai pegou no fundo daquela antiga escrivania um pacote, pacote do qual ele tinha furtado no nosso primeiro roubo. Ele disse que ia me mostrar assim que chegarmos em nossa casa, não tinha percebido que era um metáfora.
–Bernadette, agora nós estamos em casa.
Chorei, e abrimos o pacote juntos.
Tinha nele uma foto da Mãe com o Pai comigo no colo. Mas o que veio na minha mente foi o porquê que aquele retrato estava naquela casa.
–Bernadette, eu te prendi no porão da casa de seus avós, não foi na nossa casa. Antes d’eu ser convocado, vous ficou muito doente e quase morreu, perdeste a metade de tua memória, e esse foi o motivo crucial d’eu ter me prendido nesse plano como uma criança, foi para vous viver o que merecia viver. Aquela criança elegante e a sua mãe que você viu naquela janela, era eu e você, criei aquela visão para você ver como seria sua vida. Olhe pela janela.
O obedeci, e eu não tinha percebido. Aquele portão era o mesmo que o “B” pulou. Com o passar dos anos fui despercebendo ao meu redor.
Voltei para a minha verdadeira casa, e ao menos nem tinha percebido.
Eu não estava confusa, entendi aquela situação como ninguém. E eu percebi, aquela era a minha hora.
–Vamos filha...
Formos para a praia, e em meio aqueles pedregulhos segurei a mão do Pai e começamos a dançar uma melodia que apenas nós dois ouvia. Minha filha e meus netos ficaram olhando distantes. Estava frio para todos, menos para mim e o Pai, eu me sentia mais viva do que nunca.
–Pai, merci beaucoup.
–Eu que agradeço Bernadette. Agora posso descansar em paz.
Paramos a dança e ficamos a caminhar a beira-mar. Segurando a mão do Pai eu via as paisagens nubladas ao meu redor, o vento assoprara meu vestido, eu estava sentindo o descansar a se aproximar, até que sentei naqueles pedregulhos e fiquei a olha a imensidão do mar.
–Não preciso de flores, não preciso de cores, não preciso de alegria, não preciso de mais amores... Bernadette, vamos, entre comigo nessa infinita dança, chegou a nossa hora.
Segurei em sua mão e pude vê-lo, finalmente, como meu pai. E eu estava como a criança que ele deixou para trás.
Olhei para a minha família, e eles acenavam para mim, não estranharam aquela visão de uma garotinha segurando a mão de um homem adulto, apenas choraram e acenaram.
–Au revoir mamãe.
Cosette minha pequena filha... Minha flor, minha cor, minha alegria, meu amor...
E naquele momento a luz deu-me seu ultimo beijo, descansei junto com meu pai, ele que tanto me protegeu, que tanto me amou, amor que se dividiu por duas vidas e que foram o suficiente para cem anos de dor, perda e sofrimento, serem esquecidos.
Xx
–Bernadette, finalmente tu voltastes para mim.
–Eudes...
E o fim do meu começo foi selado com o sorriso de ambos os amores.
Fim...
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