Fantasmas E Pesadelos
1 Pesadelos e Fantasmas
Notas iniciais
Julie acordou assustada. Seu coração estava disparado e podia sentir o suor fazer a camisola lhe grudar a pele. Rapidamente acendeu o abajur que encontrava-se ao lado da cama. Depois de um pesadelo desses precisava da luz para se acalmar.
–Julie, você tá bem?
Três fantasmas se materializaram a sua frente. Qualquer outra pessoa teria gritado a tal imagem. Mas a garota estava acostumada. E por mais que fossem fantasmas, estava feliz em não estar sozinha no quarto.
–Estou, foi apenas...Um pesadelo. – falou enquanto colocava a mão no peito. Seu coração ainda estava acelerado. Respirou fundo, tentando se acalmar. – Só um pesadelo – repetiu tentando convencer mais a si mesmo do que os outros.
–Tem certeza Julie? A gente ouviu seu grito lá de trás – falou Félix.
–É, seu pai só não escutou porque com um ronco daqueles é impossível escutar outra coisa – comentou Martin.
–Tudo bem, foi apenas..um sonho ruim — Ela forçou um sorriso – Desculpa ter acordado vocês...
–Ok então. Boa noite – falou Martin enquanto juntamente de Félix desapareciam pela parede.
Apenas Daniel ficou. Ele não tinha falado nada desde que chegou, e encontrava-se perto da janela, com os braços cruzados.
–Só um sonho... – ele balançou a cabeça – tenho certeza que esse seu sonho tem ligação com o filme de terror que você e seus “coleguinhas” foram assistir na sessão das dez...
Ela deu de ombros. Realmente, pensando bem, o fato de ter visto um filme de terror talvez fosse o culpado de seus pesadelos.
Enquanto o fantasma fazia menção de sair, Julie entrou em pânico. Não era do tipo medrosa, mas o simples fato de se lembrar dos sonhos fazia com que tivesse calafrios.
–Daniel – chamou antes que o fantasma saísse.
–Hum? – ele virou apenas a cabeça, já perto da porta.
–Será que você me faz um favor? – perguntou com um sorriso amarelo
–O que?
–Será que você não fica aqui, tipo, até eu pegar no sono de novo? – abriu um sorriso tímido. Pedir ajuda do Daniel não era a sua ação preferida. Afinal ele sempre estava disposto a negar.
–Qual é, Julie. Quantos anos você tem, sete?
–Por favor! – fez cara de cachorro molhado. Sua melhor tentativa em persuadi-lo. – Eu sei que você é um fantasma legal e adora ajudar os amigos.
–Julie, se eu estivesse vivo, lhe diria que fantasmas não existem – e a garota não pode deixar de rir com esse comentário – mas como estou morto, posso lhe afirmar que nenhum fantasma n vai perder o tempo precioso dele te assombrando.
A garota fez biquinho e inclinou a cabeça, sua melhor encenação de garota necessitada de ajuda.
–Por que você não pede para o Martin ou Félix? – ele cruzou os braços a fitando.
–O Félix iria me assustar mais ainda, e o Martin ia dormir antes de mim. – falou sorrindo. Sabia que tinha a razão. – Qual é Daniel, não é grande coisa. Apenas fique sentado ai no sofá enquanto eu pego no sono. – balançou a cabeça em um movimento afirmativo.
Daniel bufou. Poderia muito bem ir embora e deixar a garota com seus próprios medos e pesadelos. Mas a maneira como ela lhe pedia, ou o simples fato de ter lhe pedido fazia com que ele não conseguisse recusar. E isso o irritava profundamente. Desde quando obedecia pedidos descabidos de qualquer um?
Se jogou na poltrona e voltou a cruzar os braços, impaciente. Esperava que ela não demorasse muito a dormir porque não queria passar a noite naquela poltrona horrível.
–Obrigada – sorriu e logo depois apagou o abajur. Cobriu-se com o edredom e fitou o contorno de Daniel, devido à luz do luar que entrava pela janela. Fechou os olhos, mentalizando que tinha um fantasma no quarto, e assim nenhum outro entraria ali para puxar seu pé.
**
–Dormiu bem? Porque eu tive pesadelos à noite toda – comentou Bia. Estava na hora do intervalo e elas estavam no pátio, sentadas.
–Eu até que tive, mas chamei o Daniel para me fazer companhia. Então dormi tranqüila depois – falou enquanto afinava as cordas do seu violão
–O Daniel? Por que?
–Precisava saber que tinha alguém no quarto comigo se não nem a luz eu ia conseguir apagar. Mas enfim, por que você não dorme lá em casa hoje? Afinal uma pode cuidar da outra a noite – falou sorrindo e colocando o violão de lado
–Hum, bem que eu queria, mas uma prima minha vai dormir lá em casa. Se ela não fosse tão enjoada eu levava ela para lá, mas ela é uma chata. Então...vai ter que arranjar outra companhia a noite...
Julie bufou e jogou cabeça para trás. Estava começando a se arrepender de ter visto o filme. Até quando ficaria com aquele medo idiota de dormir sozinha?
**
Julie guardava seu violão quando olhou pela porta. Já estava escurecendo. Suspirou e percebeu que estava começando a ficar neurótica. Desde quando a escuridão lhe dava medo?
–Pensando em fantasmas? – perguntou Daniel, um sorriso debochado no rosto.
Ela lhe lançou um olhar mortal e terminou de arrumar suas coisas. Pegou seu caderno de musica e o violão e os guardou dentro do armário.
–Nunca mais vou assistir filme de terror na minha vida.
O loiro riu e balançou a cabeça. Andou até a menina.
–O mais estranho de tudo isso é que você CONVIVE com fantasmas. Não deveria estar com medo.
–O fato – ela virou-se para ele – é que vocês são bonzinhos. Sei que existem fantasmas malignos a solta por ai pronto para assustar adolescentes indefesos. Vai saber...
Daniel rolou os olhos e deu de ombros. Indicando que já não era problema seu se a garota tinha adquirido um pavor repentino por fantasmas. Afinal de contas nem mesmo depois da primeira aparição a garota tinha ficado tão paranóica.
–Bem, espero que tenha bons sonhos. Mas se eu fosse você, cobriria bem os pés, sabe, para ninguém puxá-lo enquanto estiver dormindo – deu uma piscadela e desapareceu em seguida.
Julie encarou o nada com uma cara de medo. Olhou em volta, torcendo para que os únicos espíritos ali fossem os três.
**
–Daniel! Daniel! Daniel! – chamava a garota na edícula algumas horas depois.
–Oh nome doce – o fantasma estava sentado no chão. – O que foi? – perguntou com desdém.
–Você vai dormir essa noite comigo – falou a garota indo em sua direção e o puxando pela mão.
–O que? – ele puxou o braço se soltando.
–Você me fez medo. Agora vai ficar a noite inteira no meu quarto, e não tem acordo. – voltou a puxá-lo pelo pulso.
–Como assim não tem acordo – falou enquanto fazia seu corpo ficar intocável, como fumaça – Minha querida, eu sou um fantasma, faço o que eu quiser.
Ela postou-se a sua frente e cruzou dois braços. Franziu o cenho e fez cara de choro.
–Você não vai me deixar sozinha, chorando a noite inteira, não é? Sabendo que a culpa é sua...
Ele também cruzou os braços e a encarou. Uma sobrancelha arqueada.
–Bela tentativa senhorita Julie, mas esse truque não cola mais. E não há nada que faça que mude isso...
**
Daniel mantinha a cara fechada enquanto observava a garota andar de um lado para o outro no quarto.
–Qual é de um sorriso. Parece que dormir aqui no meu quarto é uma tortura. – falou em um tom de ironia. – olha, até arrumei um colchão para você. De casal, já que é tão espaçoso. – falou em um tom debochado – agora de um sorriso e deite-se ai você está começando a me assustar com essa expressão de assassino.
Ele suspirou, derrotado. Afinal de conta qual era o seu problema? Já era a segunda vez naquela semana que sedia aos caprichos daquela pirralha teimosa e irritante. Jogou-se no colchão, afundando o rosto na almofada.
–Boa noite! – murmurou a garota enquanto apagava a luz.
Ele murmurou algo inaudível devido a estar mergulhado no travesseiro fofo, mas a menina tinha certeza que tinha sido algo malcriado. Passaram-se alguns minutos. Ainda podia ouvir a garota remexer-se na cama.
–Daniel, eu não consigo vê-lo daqui. – falou, enfim, enquanto sentava-se na cama.
Ele não respondeu. Talvez se fingisse estar dormindo ela não o incomodaria.
–Preciso vê-lo para conseguir dormir. – e jogou duas almofadas no fantasma.
–Meu Deus, como você é irritante. – virou-se e a olhou – e eu não preciso de mais travesseiros.
–Não é para você – falou a menina enquanto ficava de joelhos na cama e puxava a própria coberta – É para mim.
–Você vai dormir aqui embaixo? Então porque eu não durmo ai e você dorme aqui...
–Não, preciso ver para ter certeza que tem alguém aqui comigo. Chega um pouco para lá. – falou enquanto o empurrava para o canto do colchão – Boa noite.
Daniel rolou os olhos e virou-se para o outro lado. Tentou pegar no sono, mas sua cabeça estava a mil, não conseguiria aquietar-se tão cedo.
–Daniel... – às suas costas a ouviu chamar.
Virou-se, pronto para lhe dizer algo mal criado, quando viu que a garota tinha os olhos fechados e a respiração leve. Estava dormindo.
–Daniel... – repetiu mais uma vez, se remexendo – Não me deixe sozinha... – murmurou. Se não estivesse a poucos centímetros da morena não poderia escutá-la.
Ele manteve-se imóvel. Talvez o medo de acordá-la ou o fato de ela estar chamando seu nome em sonhos tenha o fez ficar paralisado. Franziu o cenho e deitou-se de costas no colchão, encarnado o teto.
Tentou tirar qualquer pensamento de sua cabeça, mas era impossível enquanto escutava a respiração dela ao seu lado. Tudo bem, não era errado admitir que pensava nela quase todo o dia. Ou talvez fosse?
Suspirou e fechou os olhos. O sorriso dela inundou todo o seu pensamento. E seus olhos...
–Droga! – exclamou mais alto do que o esperado e sentiu a morena se mexer ao lado.
“Tudo bem, talvez eu tenha uma queda por ela. Mas e daí?”
Não era como se fosse um pecado ou algo assim. Bem, sabia que teria grandes problemas com Demetri se ele descobrisse, mas...
Que loucura estava pensando? Era a Julie, a garota irritante que se achava mais importante e que tinha tomado seu posto de vocalista da banda. A garota boba que vivia suspirando por um idiota que a considerava apenas uma amiga.
–Droga! – virou-se de lado, olhando para ela.
Ela era realmente adorável enquanto dormia. Parecia tranqüila e relaxada. Um anjo dormindo em paz. Um anjo.
Então ela sorriu. Não sabia se sonhava com algo bom. Mas preferia pensar que estava sonhando com ele. Então ali, a olhando, pegou no sono. E sonhou com ela sorrindo.
O Sol mal aparecia no horizonte quando Daniel acordou. Deu graças a Deus por ter feito isso antes que Julie, pois aquela situação era um tanto constrangedora.
A menina era realmente muito espaçosa. Tinha uma perna em cima da perna dele, e um braço ao redor do corpo dele. Sentia a respiração quente dela em sua nuca. Talvez ela pensasse que ele era um travesseiro, ou algo parecido.
Lentamente levantou o braço e a perna dela, e rolou para fora do colchão, sem fazer ruído para acordá-la. Já estava de pé quando a viu remexer-se no colchão e bocejar logo após abrir os olhos.
–Bom dia! – falou e logo depois outro bocejo.
–Bom dia – ele balançou a cabeça – dormiu bem?
–Sim – e espreguiçou-se.
–Bons sonhos? – arriscou, enquanto encostava-se na porta.
–Digamos que sim – falou ela, e ele pode notar que ela ficou um pouco sem graça e que suas bochechas ficaram levemente rosadas.
–Que bom. Bem, vou lá para trás – estava quase atravessando a porta, quando virou-se – Ah,e você fala dormindo – lhe deu uma piscadela e um sorriso safado e logo depois saiu, deixando Julie atônita. Afinal, não sabia o que tinha falado. E torcia intimamente que não fosse nada constrangedor. Pois conhecia Daniel.
–Malditos filmes de terror – murmurou e logo em seguida tampou o rosto com uma almofada, iria voltar a dormir.
Notas finais
Se vemos por ai.
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