Notas iniciais
Bom, esse é o primeiro capítulo, espero que gostem!

Eu estava com os fones de ouvido no volume máximo enquanto olhava sem rumo para fora da janela do carro. Alguns pingos finos de chuva arranhavam o vidro do carro e o ar quente do aquecedor parecia ineficaz naquele dia frio e chuvoso.

Molly. Eu me chamava Molly. E estávamos nos mudando pela milionésima vez, se alguém estivesse contando. Não entendia por que não fixávamos moradia de uma vez por todas em algum lugar tranquilo e estável. Não. Tínhamos que viajar de 6 em 6 meses. Eu viajava com a minha mãe e era filha única feliz ou infelizmente.

A cidade da vez ficava no estado de Washington. Com um nomezinho desgraçado que nunca me lembro. Muito perto do Norte, chovia ou nevava a maior parte do ano. O pior lugar que minha mãe escolheu.

O carro parou de frente a uma casa de cor azul desbotado com uma entrada simples, varanda com roseiras de pétalas marrons, quase nuas, e uma porta de entrada com a tinta branca descascada. Acho que tinha uns três andares contando com o sótão.

O caminhão de mudanças já havia chegado e colocado as coisas lá dentro, só faltava arrumar tudo. Peguei minhas coisas e andei até a entrada. Adentrando o local o cheiro de mofo e coisa morta inundou o meu nariz.

- Que droga é essa? – Olhei para o chão e notei que atrás da mobília coberta com pano branco havia um rato morto.

Ouvi alguns ruídos atrás da parede.

- Acho que temos que chamar um dedetizador depois. – Avisou minha mãe subindo as escadas poeirentas.

- Acho que sim.

Fiquei me perguntando maliciosamente se aquela casa era o estilo do meu pai. Mesmo eu nunca o tendo visto, eu sentia muita raiva dele pelo fato de ter abandonado minha mãe quando eu ainda era um bebê. Era nessas horas que eu me martirizava dizendo que na verdade não tenho um pai, pois minha mãe não tinha fotos dele.

Suspirei e olhei ao redor. O ar parecia... Pesado. Como se alguma coisa ruim estivesse por perto. Funguei um pouco por causa da poeira e decidi subir as escadas também.

- Seu quarto é esse aqui. – Ela fez um sinal com a cabeça indicando a porta do meu quarto. Era a última do corredor virando a direita.

Abri-a com o maior cuidado possível e a mesma rangeu alto. Bufei constrangida e joguei minhas malas ao lado da cama visualizando o local. Parecia um quarto de menino. As paredes eram azuis, a mobília era escura e havia grades na janela.

Deixei meu corpo cair em cima do colchão bolorento ignorando o excesso de poeira que saia de dentro dele. Gemi quando senti a madeira dura embaixo de mim.

- Que inferno. – rolei na cama e cai no chão, pois o carpete parecia mais confortável e convidativo que a própria cama. Foi aí que percebi, olhando para debaixo da mesma, uma espécie de baú. Nunca teria o visto se a fechadura tivesse um brilho até que anormal no escuro. Enfiei minha mão lá dentro e o arrastei para perto, analisando-o. Era um baú simples, grande de largura e de madeira escura. Como quase tudo na casa, possuía uma fina camada de poeira.

Fiquei divagando enquanto brincava com a fechadura, pensando se iria abrir ou não, torcendo para não estar trancada.

- Molly!! Venha já aqui embaixo para me ajudar a limpar toda essa sujeira!!! – No mesmo instante que ouvi minha mãe gritar pela minha ajuda arrastei o baú novamente para debaixo da cama e sai do quarto às pressas.

&&&

Estava completamente exausta. De corpo e alma. Eu e minha mãe passamos a tarde inteira arrumando a casa e mesmo assim não tínhamos terminado, tirando o fato de que amanhã teríamos mais trabalho ainda (vamos pintar a casa por fora).

Não tínhamos nem almoçado e estávamos num estado deplorável. Queria ir imediatamente para meu quarto, mas antes tomar uma bela de uma ducha bem quente.

- Tudo bem, está dispensada por hoje. – minha mãe estava fazendo o “almoço” enquanto me permitia um descanso. Pensava ás vezes se não era trabalho infantil o que ela me fazia fazer ás vezes.

Corri pelas escadas voando para o banheiro, o qual era comunitário, e dei graças aos deuses ao finalmente ter relaxado meus músculos numa banheira com água quente.

Depois de voltar ao meu estado normal fui descansar um pouco, deitando-me em minha cama que estava com um novo colchão. Fechei as pálpebras lentamente enquanto sentia o mundo dos sonhos abrir as portas para mim. Mas num momento de grande desespero ouço minha mãe gritar:

- Molly!!! Temos visitas!!

Praguejei milhões de maldições para aquele que perturbou meu quase sono. Levantei-me devagar e joguei meu cabelo molhado sobre os ombros. Não tinha nem me arrumado direito.

Desci as escadas novamente, calçando uma pantufa e pegando um casaco de moletom que estava pendurado atrás da porta da entrada.

Girei a chave em minhas mãos com um pouco de dificuldade e quando coloquei meu rosto para fora, senti um vento gélido beliscar minhas bochechas e beijar meu nariz. E mesmo morrendo de frio, minhas sobrancelhas quase saltaram de meu rosto quando me deparei com a pessoa que se encontrava em minha frente.

- Olá! Sou Edward Selvirin e moro na casa ao lado. Desculpe pelos meus pais não terem vindo junto, eles estão viajando a trabalho, sabe como é que é, né?

Seus olhos negros fixaram-se no chão da entrada da casa e seus cabelos aparentemente sedosos se moviam conforme a brisa morta de inverno. Quando teve coragem de me olhar, seus olhos ônix piscaram de forma estranha para mim. Era jovem e parecia ter a minha idade.

Não sei por que, mas meu coração começou a acelerar de repente, e minha mente começou a repetir seu nome num tom malicioso. “Edward. Edward. Edwaaard.”.

Balancei minha cabeça querendo me manter longe desses pensamentos.

- Está tudo bem? – Ele indagou, estranhando minha demora.

- Tudo, tudo mesmo! Ér... Obrigado por me dar as boas-vindas, você é muito gentil.

Não sei se foi coisa da minha cabeça, mas notei que suas bochechas se pintaram de carmim. De repente ele franziu as sobrancelhas olhando novamente para baixo.

- Qual o seu nome?

- Ah! Desculpe! Esqueci-me de me apresentar! Sou Molly.

Estendi minha mão para ele apertar, mas ele me pareceu hesitante. Quando fez o gesto, rodeando minha mão e a sacudindo, um vento forte cortou o ar fazendo pressão contra os nossos corpos. Uma sensação ruim passou pelo meu corpo.

Larguei sua mão.

- Tá... Molly. Vemo-nos no colégio depois que terminar as férias então!

- Como você sabe que eu vou para o seu colégio?

Ele riu discretamente da minha pergunta estúpida. Ele abriu a boca para responder, mas dali não saiu nenhuma palavra, olhando para um ponto fixo atrás de mim.

- Por que só tem um colégio nessa cidade, espertinha! – Minha mãe estava atrás de mim olhando-o com selvageria. Ela não gostava quando garotos se aproximavam de mim.

- Olá senhora...?

- Mãe da Molly. Chamo-me mãe da Molly. – por estranho que pareça minha mãe nunca dava o verdadeiro sobrenome para as pessoas.

O instante que se seguiu foi de intenso constrangimento e vergonha por parte de Edward. Uma onda de raiva dava para ser sentida atrás de mim e acho que senti Edward fraquejar um pouco.

- Okay, vemo-nos mais tarde então, tchau! – Ele acenou rapidamente.

O seu corpo tremia e num pulo saiu correndo rua afora, balançando os braços enquanto tentava não escorregar no asfalto escorregadio.

Fechei a porta com força, deixando as pantufas de lado e arremessando o casaco longe.

- Por que você tem que ser assim com as pessoas que tentam fazer amizade comigo?! – Gritei subindo as escadas com raiva.

- Por que ele parecia comê-la só com os olhos! – Ela rebateu seguindo-me.

Virei-me já com os olhos ardendo.

- Ele estava sendo gentil e legal e o que você faz? Você já bota medo no garoto! Como em todos que tentam se aproximar de nós!

- Eu faço isso para o seu bem, Molly! – A ouvi atrás da minha porta, que fechei com tudo trancando-a.

- Eu só quero uma vida normal! Por que você não me dá o que eu quero?! – Gritava soluçando, apertando o travesseiro contra meu peito com fúria.

- Molly! Abra a porta! – Ela suplicou com uma voz mudada. – Isso é tudo culpa do seu pai... – A ouvi balbuciar.

- Vá embora! – Resmunguei.

- Molly! – Ela insistiu.

- Molly! – E insistiu.

- Molly... – Até que sua voz começou a ficar rouca...

Cai na minha cama e cerrei os olhos com força, chorando pesado. Tudo ficou escuro de repente. Não havia sonhos bons ou ruins, apenas aquilo que me afundava aos poucos. A solidão.

&&&

Acordei suada no meio da noite. Um vento forte chacoalhava a cortina e jogava um jato frio em meu corpo. Meu cabelo ainda úmido e o vento gelado da noite fez com que eu ficasse com uma dor de cabeça tremenda e uma coceira em minha garganta.

Fechei os olhos para voltar a dormir, mas não consegui.

Uma droga era que não tinha televisão nem um computador para passar o tempo. Bufei e me levantei devagar dando alguns passos em direção ao da janela. Fechei-a com muito custo e tirei de dentro do armário um cobertor para me cobrir.

Eu estava realmente muito mal. Tinha brigado com minha mãe, dormido com o cabelo molhado, sem cobertas, com a janela aberta e tudo isso resultou numa gripe sem cabimento.

Revirei-me milhões de vezes na cama, mas não adiantava. Eu não pregava o olho.

De repente escutei um barulho estranho passar por debaixo da cama e esbugalhei os olhos. Foi um rangido? Gemido? Eu não sabia. Meu coração acelerou. E se fosse uma barata? Eu sentia nojo de baratas.

Enfiei minha cabeça por debaixo da madeira dura. Uma luzinha dourada opaca me chamou a atenção. Meu coração acelerou quando vi que era O baú. Eu ainda não o tinha aberto...

Pensei nas várias coisas que podiam caber lá dentro. Óbvio que numa noite chuvosa e fria eu teria as sugestões mais convidativas. Como: e se fosse um corpo esquartejado? Não, estaria fedendo. Então... Joias? Roupas? Dinheiro? Cobras? O bicho papão? O demônio?

Então veio a resposta mais óbvia: Teria que abrir para descobrir.

Desci da cama na ponta dos pés, como se eu estivesse prestes a fazer algo errado e então estiquei meu braço para pegar o baú em mãos.

Acho seria menos assustador se eu ligasse a luz, mas existia uma hipótese estranha de minha mãe estiver de guarda lá fora pronta para dar um sermão em mim. Liguei apenas o abajur. Mas o que tem de errado em abrir um simples baú?

Meus dedos pendiam no fecho. Num simples movimento o trinco foi aberto enquanto uma pequena abertura se abria e senti um bafo quente sair de dentro da mesma. Fechei os olhos respirando fundo.

Três, dois, um... Abri-o de uma vez e o que tinha lá dentro era...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.