Trabalhei num navio de cruzeiro desses que transportam gente rica disposta a gastar dinheiro. Trabalhava no cassino de bordo cuidando da mesa de 21. Eu sempre tive as mãos rápidas, o que me tornava perfeito pra cuidar das cartas, se é que me entendem.

Uma noite eu estava começando meu turno no cassino quando uns sujeitos entraram de armas em punho e máscaras cobrindo o rosto. Já tinha ouvido falar daquela gangue; suspeitava-se que embarcavam como passageiros comuns e, depois de assaltar os outros passageiros usando aqueles disfarces, simplesmente seguiam viagem.

Pois bem, eles apareceram no cassino já apontando as armas pra todos os lados e renderam a todos. Até atiraram para o alto e todos nós fomos obrigados a nos deitar no chão. A maioria dos passageiros estava em suas cabinas, e foram obrigados a ficar por lá. Foram limpando todo mundo, mas aí notei uma coisa esquisita: de vez em quando um saía e não voltava. Comecei a prestar atenção e notei que os outros iam ficando nervosos. “Que bobagem é essa de Fantasma?” ouvi um deles perguntando pelo rádio, mas ninguém respondeu.

Quando só havia mais uns quatro deles no salão do cassino as luzes se apagaram e foi um verdadeiro pandemônio. Gente gritando, os caras atirando pra todos os lados e eu só ouvindo o barulho de socos. Numa certa hora eu vi o brilho de dois olhos na escuridão, dois olhos que pareciam os de um demônio! Com a pouca claridade que entrava pela claraboia, pude ver aquele sujeito enorme indo pra cima dos caras como se eles não fossem nada, derrubando um por um.

Quando tudo acabou fiquei olhando praquele vulto e ele simplesmente se desfez na escuridão, mas antes disso, aqueles olhos se viraram na minha direção e eu senti que eles sabiam tudo o que se passava dentro da minha cabeça.

— Excesso de Vinho do Porto estragado. – riu Jack. Mais ninguém riu.

— Eu também o vi. – eles já haviam se esquecido da mulher sentada na mesa ao lado.