– Quando era menina costumava escutar os mais velhos falando do Espírito que Anda, de como ele protegia os inocentes. Na minha mente de criança, pensava sempre que ele poderia ser meu protetor. Mas a pobreza e a fome são o suficiente para tirar a inocência de qualquer um.

– Eu já estava nas ruas há mais de um ano, ou seriam dois? Pouco importa, nós não temos tempo, todo dia é igual, não temos futuro; às vezes parecemos não ter passado.

Ela tomou um gole, pôs um cigarro na boca e puxou uma baforada expelida longamente antes de continuar:

– Nas ruas, ouvimos e passamos por muitas coisas. Houve um dia em que uma das meninas que sempre trabalhava conosco nas docas sumiu. Quando apareceu, só a reconhecemos por causa da cor dos cabelos. Ela foi a primeira. Depois foram outras sete.

– A cada noite eu pensava que podia ser a próxima; muitas de nós estavam com medo, mas a fome e as contas a pagar superam qualquer temor.

– Então veio a noite em que eu fui sorteada. Parecia um cliente qualquer, como tantos desses perdedores com os quais saio toda noite. Foi quando ele puxou a faca...

Os lábios da mulher tremiam, como se ainda pudessem ver o momento em que encarou a morte de perto.

– Por um segundo fiquei sem ação e me lembrei de como as outras foram encontradas, parecendo que haviam sido estraçalhadas por um animal selvagem. Ainda tentei correr, mas o sujeito me agarrou pelos cabelos e foi me arrastando pra um beco. Gritei por socorro, mesmo sabendo que não apareceria ninguém. Ele bateu em minha cabeça com tanta força que nem sei como não desmaiei, mas também não tinha condições de me levantar ou reagir.

– Então eu estava ali no chão, com a visão indo e vindo, com aquele vulto imenso sobre mim, rindo e puxando outra faca tão grande quanto a outra. Foi então que vi outro vulto chegando, imenso, sem rosto, e achei que era o anjo da morte que vinha pra me levar pro outro mundo.

– Foi aí que tudo aconteceu! – Os olhos de Samantha brilharam com uma nova expressão. – O anjo negro que havia surgido agarrou o assassino pelo ombro e o tirou de cima de mim como se atirasse um travesseiro.

– O cara caiu e levantou-se na mesma hora, indo pra cima do recém-chegado com as facas em punho. Ele deu vários golpes cortando o ar, mas nenhum parecia atingir o sujeito. Não lembro direito de como tudo acabou, mas vi quando as facas voaram pelo ar e vi quando o assassino levou um murro tão forte que caiu como se estivesse morto.

– Ainda meio tonta eu me sentei e olhei pro meu salvador. Ele usava um sobretudo e um chapéu que escondia o rosto, ainda mais naquele beco mal iluminado. Então ele me estendeu a mão e disse: “Deixe-me ajuda-la, senhorita.” Ninguém nunca havia me tratado com tanta humanidade. – Uma lágrima rolou pela face de Samantha.

– Ele me ajudou a recostar na parede e examinou minha cabeça. “Há um galo grande aqui, mas nada grave”, ele disse com uma voz profunda, que parecia vir do céu. Suas mãos que haviam socado o cara que me atacou com tanta selvageria, agora cuidavam de mim com uma delicadeza que eu já desconhecia.

– Depois de amarrar o sujeito, ele disse que em breve a polícia apareceria para levá-lo. Antes que ele se fosse, segurei em sua mão e agradeci, foi então que vi o anel com uma caveira, a Marca do Fantasma!

– E nem pensou em recompensá-lo pelo serviço? – Jack falou com seu tom sarcástico.

— Mas será que você não consegue pensar antes de falar? – disse Pedro.

— Pensar!? Pensar no quê? Cada um conta uma coisa diferente. Que o sujeito é forte feito um tigre, que é firme feito uma rocha, rápido como um raio, que mais parece um demônio, que deixa marcas nos rostos do outros... Aposto que até aquele negrinho ali com a vassoura na mão tem alguma história desse Fantasma pra contar. E qual delas é real?

— Todas elas...

Nisso todos se voltaram para a direção de onde viera aquela voz. O velho Eddie tinha os olhos fixos em algum ponto no fundo de sua mente quando começou a falar...