Fantasias Perigosas
10 Nossa palavra final
Notas iniciais
Muito obrigada a todos vocês que nos acompanharam nessa jornada, e fiquem de olho, pois poderemos surpreende-los...
Abri a porta devagar e mal pude enxergar os móveis da sala. Tudo estava na penumbra. Claro, quem chega na casa dos outros às quatro da manhã esperando que seus moradores estejam acordados? Fechei a porta com a mesma leveza com a qual abri, andando nas pontas dos pés até o quarto, com receio de ser escutado. Entrei devagar e me deparei com Shun jogado na cama, semicoberto de costas para a porta. Parecia tão solitário que me arrependi de ter lhe dito palavras tão duras...
Tirei os sapatos e os coloquei em um canto qualquer, com a mesma preocupação de não fazer ruído algum. Deixei as coisas ali, na entrada mesmo, sem me importar. Observei sua face serena que os cabelos ocultavam parcialmente e deitei-me com cuidado ao seu lado e, antes que pudesse controlar meu impulso, passei a mão esquerda em seus cabelos, revelando seu rosto. Pousei a mão direita em sua cintura, lutando para não tirar o lençol dali para tocá-lo diretamente.
Senti que ele se mexeu e pensei duas vezes se queria que ele acordasse ou não, mas ainda dormindo, Shun colocou sua mão sobre a que eu pousara em sua cintura. Sorri involuntariamente ao sentir sua pele novamente e o abracei mais, lhe dando um beijo no pescoço de forma suave.
- Senti muito a sua falta – sussurrei acariciando seus cabelos enquanto ele aconchegava seu corpo mais perto do meu. – Pensei muito em nós dois. O tempo todo. Não posso ficar longe de você, foi um tormento...
Shun sorriu ainda semiconsciente. Continuei a afagar seus cabelos e me aproximei mais de seu ouvido:
- Vamos esquecer tudo, começar do zero...
Seu sorriso aumentou e ele se espreguiçou enquanto girava o corpo para ficar de frente a mim, ainda com os olhos fechados. Continuei acariciando seus lisos cabelos segurando em sua cintura. Ele então me abraçou, ainda dormindo. Talvez pensasse que...
- De novo esse sonho. Eu estou sonhando, não é?
O trouxe mais para perto do meu corpo, dei uma leve risada daquela indagação.
- Qual sonho? – perguntei baixinho.
- Você comigo de novo... – escondeu o rosto no meu ombro. – Seu cheiro comigo de novo... Até o momento em que eu acordo... Não me deixe acordar.
- Pois abra os olhos, meu amor. Porque eu não vou mais a lugar algum – sorri. — Sou seu para sempre, e sempre fui.
Ao começar a beijar sua orelha, Shun rapidamente desvencilhou-se de mim encarando meus olhos azuis, com uma expressão que era um misto de surpresa e incredulidade.
- IKKI?
- Calma, não precisa gritar! – sorri. Seus olhos umedeceram imediatamente. Como senti falta desse olhar...
- Como não precisa? Você...
- Calma. Eu preciso falar com você antes de qualquer coisa. Precisamos conversar.
Shun me abraçou forte. Parecia querer ter certeza de que eu não fugiria novamente embora não houvesse necessidade alguma, pois eu estava falando sério quando disse que não ia para lugar algum. Acariciei suas costas e seus cabelos sentindo lágrimas molharem minha camisa.
- Não precisa falar nada. Por favor, não fale nada. Não quero pensar em nada. Não estrague esse sonho!
Abraçou-me ainda mais, se é que ainda era possível. Sua atitude desesperada provocou um aperto em meu peito. Era preciso que eu falasse tudo, pois era um assunto sério.
- Não, Shun. Nós precisamos conversar ok? – o afastei e limpei suas lágrimas enquanto aqueles olhos vividamente verdes me encaravam ainda marejados. – Não precisa ficar assim. Se tudo estiver ok, nós já resolvemos tudo isso.
- O que quer dizer? – ele piscou repetidas vezes em um misto de curiosidade e receio. Tive vontade de beijá-lo...
Sorri novamente tentando passar algum tipo de conforto, mas Shun continuava com o mesmo olhar, agora observando cada detalhe do meu rosto a procura de um sentido para o que eu estava dizendo. Eu ia começar a falar quando vi seu olhar desviar de mim para a porta e seus olhos abrirem-se completamente, chocados. Olhei para trás devagar, sem me abalar.
- Hyoga? – Shun disse de maneira tão baixa que poderia ser quase um sussurro.
Suspirei e lancei um olhar a Hyoga que havia respondido a Shun com um simples “oi” encabulado. O loiro me encarou e entrou no quarto, desencostando do batente da porta e indo lentamente para o outro espaço vago na cama, do outro lado de Shun sentando-se na beirada da cama, timidamente. Shun ainda o observava um pouco sem entender e voltou sua atenção à mim.
- Bom... – limpei a garganta. – Nós precisamos conversar com você.
- Vocês... – disse enquanto espantava as lágrimas que estavam presas em seus olhos verdes. – Dois?
- Seu irmão veio me procurar faz uns dois dias e nós... – Hyoga começou. – Alias, não é nada totalmente decidido, precisamos saber de você.
Shun franziu o cenho para ele, depois olhou para mim com a mesma expressão e se voltou para ele novamente começando a falar.
- Eu vou gostar disso ou...? – Hyoga e eu trocamos um olhar e Shun começou a ficar impaciente – Falem logo, caramba! O que está havendo?
- Ok! — Hyoga riu um pouco e eu continuei. – Voltei disposto a colocar tudo em pratos limpos. Fui até seu namorado e ele estava na mesma situação que eu, ainda com dúvidas na cabeça mesmo depois desse tempo considerável sem nenhum de nós ter tido contato. Não está sendo fácil pra nenhum de nós dois...
- Então nós conversamos. Sobre tudo – Hyoga completou. Shun dividia sua atenção ainda com o cenho franzido.
- E como nós somos teimosos demais, orgulhosos demais e te amamos demais... – não pude evitar um sorriso. – concordamos que não dá pra abrir mão de você.
- E se estiver tudo bem... – Hyoga continuou após minha pausa, percebendo que eu queria realmente que ele dissesse algo também. – podemos... ficar juntos...
Shun arregalou os olhos e encarou a ele e a mim repetidas vezes tentando entender a informação.
- A não ser que você prefira somente um de nós – eu disse categórico.
Eu e Hyoga havíamos passado um dia inteiro discutindo aquele assunto e mais um dia inteiro pensando se era isso mesmo que deveríamos fazer. Quando nos encontramos em frente ao apartamento de Shun, demos nossa palavra final de que se ele quisesse somente um de nós, o outro se afastaria sem ressentimentos. Era o Shun, o que poderíamos fazer?
Meu irmão levantou-se com o olhar fixo no chão. Tenho certeza que, assim como eu, Hyoga estava ansioso e imaginando a resposta. Shun passou uma mão pelos cabelos enquanto se virava de frente para nós. Nos encarou por algum tempo individualmente e minha pouca paciência começou a se esvair por completo.
- Estão me dizendo mesmo que vocês decidiram que nós três podemos... – sua expressão era carregada de dúvida e estranhamento. – Que seremos nós três? Juntos?
- Isso se...
- Se eu não preferir ficar só com um dos dois, e me afastar do outro... – Shun completou a fala de Hyoga e este concordou com a cabeça. – Desculpa, mas isso é loucura.
Shun percorreu o quarto com os olhos, negando com a cabeça, como se tentasse processar todas as informações de uma só vez. Parecia não acreditar. Na verdade, nem eu acreditava muito que o loiro e eu havíamos decidido aquilo. Talvez Shun precisasse de alguns dias para pensar...
- Desculpa, eu não posso fazer isso – disse antes que eu pudesse oferecer um tempo a ele.
Hyoga e eu trocamos um olhar de tristeza, mas conformados.
- Tudo bem, Shun, nós... – o loiro tentou dizer, mas meu irmão ergueu a palma da mão indicando que ele deveria só ouvir.
- Eu não posso escolher entre vocês dois. Vocês não sabem o quanto essa proposta tira um peso dos meus ombros! – ele abriu um sorriso adorável antes de completar – É bem estranho isso... Mas nada foi normal desde o começo mesmo, não é mesmo?
Hyoga e eu sorrimos aliviados diante daquela empolgação. Eu realmente não achava que aquela proposta iria acabar bem, mas pelo jeito estava completamente enganado.
- Então, Hyoga vai ficar por aqui, certo? – Shun perguntou com expressão pensativa.
- Vai? – perguntei espantado.
- Bom, seria democrático...
- Concordo. Não tem problema, eu fico no quarto do Shun e... – o loiro esperto logo se pronunciou enquanto se levantava e abraçava meu irmão por trás.
- Nem pensar! Espera, esse não foi o combinado, Hyoga! – respondi na hora, me levantando da cama e cruzando os braços.
- Gente... – Shun tentou falar, sendo prontamente interrompido.
- Claro que eu fico, você quer que eu durma aonde? – o loiro estreitou o abraço.
- SO-FÁ! – continuei, lhe lançando um olhar zangado.
- Gente... – Shun tentou novamente.
- Ora, por quê não dorme você no sofá? Você me disse que...
- Porque eu tenho meu quarto, loiro!
- Olha, eu desisto de vocês – Shun saiu do abraço de Hyoga e caminhou em direção à porta, não sem antes parar e lançar um olhar demorado para nós dois. – Minha cama já passou no teste de comportar três pessoas, se não me falha a memória...
Shun saiu em direção à sala com um sorriso de lado. Com o MEU sorriso sarcástico de lado, o que me fez pensar que os genes às vezes falam mais alto. Hyoga e eu nos encaramos brevemente e, como se uma lâmpada iluminasse nossos pensamentos, sorrimos aliviados, certos de que aquilo era sim loucura. Uma loucura que estava apenas começando.
Tudo por causa de umas fantasias perigosas...
Notas finais
Fim? Como dizer fim quando é apenas o começo? Com esses três podemos perceber que de nada adianta termos orgulho. Às vezes, dar o braço à torcer significa um novo início. Se amamos de verdade, devemos lutar por aquilo que nos faz bem. Para tudo nesse mundo há solução. Vocês não acham?
Obrigada por todo o carinho!
Hana & Yukari
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