Fantasia muito bem criada
3 As dores da vida
Notas iniciais
18/05/2016 — Cemitério de Jotokuji Temple 11:30 a.m
— Bom dia meu anjo, como passou essa semana? Está fazendo muito frio esses dias. Espero que onde esteja seja aquecido, lembro em como você não gostava do inverno. — Trowa se sentou em frente à lápide de Quatre, enquanto trocava as antigas flores por novas.
Poderiam passar quantos anos fossem que Trowa não abandonava o hábito que se criou em sua vida, há dez anos visitava toda a semana o túmulo de Quatre. Quem visse o moreno hoje não o reconheceria de anos atrás, ele continuava com a mesma franja cobrindo um de seus olhos, o porte físico tinha diminuído um pouco, mas não deixava de ser belo aos olhos dos outros e ainda morava na mesma casa onde viveu com o seu único amor. Porém, Trowa criou uma máscara de frieza maior e mais impenetrável desde o dia do acidente, não tinha mais amigos, não saia de casa a não ser pra trabalhar e para realizar compras básicas, nunca mais se relacionou com outra pessoa. Não é como se todos tivessem virado as costas para si, exceto seus sogros quando souberam de toda a verdade, aguentou todas as acusações calado, se conformando e aceitando a culpa.
— Nunca mais tive notícias de Duo, a única vez que ouvi falar sobre ele foi há muito tempo, soube que ele tinha se casado e adotado uma criança. Pode não acreditar, mas ele sofreu muito com a sua morte, todos nós sofremos, na verdade. — A dor era palpável em sua voz, todo o arrependimento e sofrimento eram visíveis em sua face.
Perguntava-se todos os dias em como pode causar tanta dor e sofrimento a pessoa mais bela e pura que já conheceu. Quando viu Quatre pela primeira vez, o achou muito fofo pela sua timidez e seu jeitinho meigo, mas ele era tão cético ao amor que o ignorou. A partir daí foram intermináveis coincidências, começou a encontrar o loiro praticamente em todos os lugares em que ia, tinham amigos em comum, frequentavam e gostavam dos mesmos locais. Foi impossível não começar a reparar nele, se sentir atraído e convidá-lo para sair.
Lembrou-se do primeiro encontro que aconteceu em um dos melhores restaurantes da cidade e foi um pouco complicado por se dizer. Lembrava que Quatre estava com uma aparência meio apática e com muita maquiagem, durante o encontro todo só tinha comido alface e bebido água, disse que estava de dieta. Na época não entendeu muito bem o porquê da dieta, ele já era magro que até parecia frágil ao ponto de quebrar ao um simples vento. Apesar disso, ainda continuaram a sair, lembrou-se como se fosse ontem o primeiro beijo, em como ele estava tão nervoso que acabou mordendo seus lábios, foi engraçado e acabaram por repetir várias vezes naquele mesmo dia. Quando já evoluíram na relação e beijos já não eram mais suficientes, tiveram a primeira noite juntos, já tinha se relacionado antes com outras pessoas, mas, era muito nítido que o lourinho não, como foi o mais carinhoso o possível para que ele não sentisse dor e pudesse se lembrar desse dia para sempre. Foi ótimo poder sentir seu corpo vibrar de prazer em baixo do seu e poder ouvir seus gemidos, soube naquele dia que o queria para sempre ao seu lado. Duas semanas depois de dormirem juntos, não pode mais esperar para pedi-lo em namoro, precisou da ajuda de seu melhor amigo Duo para poder montar tudo para o pedido perfeito, com direito a jantar a luz de velas e flores na cama, Duo foi quem disse tudo o que o lourinho mais gostava. Depois de um ano de namoro ele dormia mais na minha casa do que na dele, decidimos morar juntos de uma vez e comprar uma casa onde fizemos questão de estrear todos os cômodos e deixar a nossa marca.
De todos os momentos juntos seu melhor amigo sempre esteve ao seu lado, eram como irmãos.
— Na verdade, nunca fui tão próximo de Duo, nos cumprimentávamos, falávamos sobre coisas triviais apesar de nosso assunto principal sempre ser você. Até o dia em que tivemos nossa primeira briga. Lembra-se desse dia? — falou saudoso, em quanto limpava a foto escolhida pela mãe do lourinho a estar na lapide. — Discutimos porque recusei o emprego que seu pai me ofereceu como um dos diretores da empresa, somente por te namorar. Achei aquilo um absurdo, queria ter minha carreira profissional pelo meu mérito e não por namorar o filho de um milionário.
Estava com Quatre por amor e não pelo dinheiro. Mas, Quatre achou aquilo um absurdo e disse que era muito orgulho por não aceitar, acabamos discutindo e eu saí de casa e passei uns dias no meu antigo apartamento. Duo apareceu em minha porta todo nervoso e me acusando de várias coisas, conversamos e a partir desse dia vimos que tínhamos várias coisas em comum um com o outro.
Tornamo-nos amigos próximos, você ficou muito feliz, pois, achava que não gostássemos um do outro por não conversamos muito. Foi aí minha ruína. Eu amava Quatre, mas ele vivia em um mundo de faz de conta, onde tudo para ele tinha que ser perfeito, depois que nos reconciliamos da nossa primeira briga e impus a ele minha opinião que não iria ser sustentado pelo seu pai, às coisas voltaram ao normal ao menos para ele. Cada vez mais eu e Duo começamos a nos tornar amigos, principalmente depois que Quatre assumiu a presidência no lugar do seu pai, depois que ele ficou doente, foi o momento em que mais apoiei meu amado, o sofrimento em seus olhos ao ver seu progenitor tão debilitado e com risco de morte foi o fim para ele.
Com isso começaram as viagens, eram praticamente uma atrás da outra e eu me via cada vez mais sem meu amado a meu lado e com Duo para me fazer companhia. Em uma de suas viagens Duo me chamou para ir a um bar ouvir uma banda que ele gostava muito tocar, a combinação perfeita para bebida misturada a música.
O resultado foi nós dois acordando nus na cama e sem saber o que falar um para o outro. Decidimos não contar a Quatre, ele já estava com tanta coisa por causa da empresa, que resolvemos apagar esse dia e fingir que nada aconteceu. Mas era impossível, toda vez em que me via sozinho sem Quatre, eu sempre me lembrava daquela noite e parecia que Duo também, pois, toda a vez em que Quatre viajava ele aparecia em minha casa.
O remorso nos corroia sempre em que Quatre chegava e marcava um encontro entre nós três. Foram meses assim, até aquele dia. Uma das piores dores foi ver a decepção nos seus olhos, seu grito foi tão desesperador para mim, quando o vi correr me levantei o mais rápido o chamando, ouvi Duo chorando na cama, entretanto, não era com ele que me importava. Coloquei a primeira peça de roupa que achei e que por sorte era a minha calça, ao passar pela porta cortei meu pé e quando olhei para baixo pude ver que tinha cacos de vidro no chão, até hoje possuo as cicatrizes no meu pé direito. Ignorando a dor horrível em meu pé, desci as escadas indo para a sala, mas parei ao ouvir o barulho na garagem e corri para lá o vendo sair com o carro em alta velocidade, não pensei duas vezes em pegar o outro carro e o seguir, ainda tive tempo de ver Duo na porta da garagem chamando por Quatre.
Ver você dirigindo daquela forma quase atropelando uma pessoa foi desesperador, tentei acenar várias vezes e também buzinava para que você parasse o carro, mas foi em vão, sentia meu coração se apertando cada vez mais que você acelerava o carro e começou a ir em direção a ferrovia. Meu medo em não te alcançar e algo pior acontecesse a você, me levava a pensar em Deus, mesmo que não tivesse fé e nem religião, mas naquela hora comecei a rezar pedindo para te proteger.
— Eu cometi o pior pecado, feri a coisa mais bela que existia no mundo. — falou limpando uma lágrima que teimava em escapar. Sempre era assim, toda a semana em que ia visitá-lo tinha lembranças que o atormentava, mas sabia que merecia sofrer com todas elas, eram seus fantasmas que o assombravam. — Não tiro minha própria vida, pois, sei que não sou merecedor de tal ato. Vivo hoje na esperança de um dia voltar a te reencontrar e pedir seu o perdão. Quero que saiba meu amor, que sempre serei seu, de corpo e mente, minha vida é sua.
A brisa do vento que passou naquele momento e balançou sua franja o fez sorrir, um dos raríssimos sorrisos que mostrava em anos. Podia parecer loucura para muitos, mas podia jurar que era Quatre ali com ele, seu anjo estava a lhe tocar. Trowa não saberia dizer quando seria seu fim, na verdade, ninguém sabe, mas de uma coisa tinha certeza, não importa quantos anos levasse para morrer, iria amar seu lourinho até o seu último suspiro. Quatre seria a sua última e mais bela lembrança que levaria consigo em seu leito de morte.
Fim.
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