Fantasia
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Fantasia
A Criança andava apressada. Precisava chegar a biblioteca pra encontrar o livro pra fazer a tarefa de casa. Ela não gostava tanto assim de dever de casa, preferia ficar com a Irmã Mais Velha vendo desenho, com os amigos inventando brincadeiras ou com a Vovó, sempre com uma história nova na ponta da língua. Por isso mesmo se apressava. “Quanto mais rápido você fizer aquilo que precisa, mais rápido vai poder fazer aquilo que gosta”, as palavras que Mamãe sempre repetia circulavam em sua mente.
Não notou o caminho até lá. Nem a fachada do prédio. Talvez um tom de verde nos portões e umas estátuas na entrada mas não poderia descrever pra alguém caso lhe fosse solicitado. Ela fez o caminho de casa ao prédio duas quadras depois rápido, cabeça baixa, destino focado. Há algum tempo vinha notando que era assim que as coisas funcionam. Quando parava pra ler uma placa ou simplesmente olhar o céu, as reclamações a alcançavam. A Criança era pequena, bem mais baixa que a maioria das pessoas. E por isso atrapalhava. Estava aprendendo a entrar naquele ritmo ininterrupto, orgânico, forte. Não mais tentava ver melhor um desenho no outdoor nem os reflexos nas janelas. Passava direto – não sem algum esforço – por diversas vitrines coloridas e mal notava mais os animaizinhos que passavam por ela.
Ao chegar ao seu destino, se sentiu internamente muito orgulhosa. Era a primeira vez que os pais a deixavam ir sozinha a algum lugar. Mesmo que tão pertinho de casa. Cumpriu essa pequena tarefa com muita destreza. E sozinha. O sorriso surgiu fácil no rosto, mas disfarçou. Não devia demonstrar que não fazia isso todos os dias. Mantinha a mesma expressão que vira tantas vezes na irmã mais velha e nos pais. A simples tranquilidade de quem já fizera algo tantas vezes que lhe tornou banal Ou assim ela tentou.
A bibliotecária notou. O brilho orgulhoso nos olhos, a curiosidade mesclada à concentração em tentativa de mostrar a postura de adulto, tão típico das crianças. Notou o andar decidido com passos hesitantes em direção às imensas prateleiras cobertas por livros. Notou aquele momento mágico, em que toda a pose se desfez e o maravilhoso momento em que o boca se abriu levemente acompanhando os olhos brilhantes, dessa vez sem qualquer pretensão, abertos e sinceros como apenas os olhos de uma criança podem ser.
Livros. Pra todo lugar que se olhava, havia apenas livros. A criança sempre amou histórias. Na televisão, no cinema, contadas na mesa da cozinha. Mas os livros carregavam algo que nenhum dos outros possuía. Não sabia explicar. Especialmente não naquele exato momento em que viu o interior da biblioteca pela primeira vez. Depois veio o cheiro, concentrado, de papel e madeira. E de algo a mais, apenas apreensível pelos sentidos.
Não saberia dizer quanto tempo ficou ali parada. Simplesmente perdida em meio a tanta informação. Nem saberia dizer o que a fez notar, de repente, um único livro dentre tantos. Em meio às estantes abarrotadas de livro grandes e pequenos, coloridos e escuros, muitos obviamente tão antigos quanto o tempo, outros visivelmente mais recentes, grossos como enciclopédias e finos como revistas, de capa dura e encadernados, ela viu um meio isolado. De onde podia ver, era simples livro de capa escura e letras que um dia foram... azul, talvez, mas que já desbotavam. Foi como que hipnotizada em direção a ele.
Não deu nem dois passos quando seu caminho foi barrado por uma sombra. “Onde você pensa que vai? Antes tem que assinar o livro de entrada primeiro...!” . A Sombra tinha uma voz meio rouca, mas não grave, como se não estivesse muito acostumada a ser usada. E poderia até ser o caso, pois pertencia à bibliotecária que a criança mal notara ante o deslumbramento que sentiu ao entrar no prédio. Recuou e seguiu a Sombra de passos firmes até ao balcão na entrada.
Agora que podia ver de frente, a Sombra tinha olhos severos mas gentis. Como de uma mãe. Não sorria mas mantinha uma expressão leve, tranquila. Nada ameaçadora mas com um algo que dizia que não se deveria provocar uma mudança nesse humor. Fez como ela pedia e escreveu ser nome no livro, registrando sua presença. Depois, se voltou novamente pras prateleiras pesadas de livros e rapidamente localizou o que queria.
Sentiu algo tão forte e especial em relação àquele pequeno encadernado de folhas que esperava que ao tocá-lo, alguma coisa acontecesse. Mas não aconteceu. Nenhuma luz, vento, música. Apenas um livro meio velho e empoeirado. Nem o título era completamente visível. Reconheceu um A e talvez um T? OU seria um R desbotado...? Abriu-o, já sem a empolgação de antes mas ainda com uma curiosidade vinda de algum instinto que seria impossível descrever em palavras. Abriu-o e na primeira página soube que era mesmo um T, pois o nome que berrava, preto contra branco na contracapa era FANTASIA.
As letras simples borraram seus olhos. Não entendeu o porquê. Olhou em volta pra clarear a visão e percebeu que apesar de estar tudo exatamente igual: as prateleiras, os livros, a moça no balcão, tudo estava diferente. Impressão sua ou a menina da capa daquele livro florido piscou pra ela?! E o homem de expressão inteligente realmente franziu a fronte em concentração no quadro perto do arco de entrada? Piscou mais do que algumas vezes. E de novo olhou pra’quela única palavra na página ainda aberta em suas mãos e arregalou os olhos em surpresa, reprimindo o grito.
Ela NÃO podia estar imaginando a mudança que se deu. Tinha certeza que não mudara de página mas agora as letras tão estranhamente pretas formavam a frase ERA UMA VEZ... diante de seus olhos. Respirou fundo e olhou em volta, à procura da bibliotecária. Ela devia saber o que estava acontecendo. Mas ao olhar em volta, percebeu que era tarde demais. Ainda estava numa óbvia biblioteca. O cheiro era idêntico. Mas as paredes de pedra sumiram, substituídas por vidro transparente em que se podia ver muita coisa, muita coisa que não era nem remotamente parecido com a vizinhança em que cresceu e conhecia tão bem.
O choque foi tão forte que levou mais do que alguns segundos para perceber que não estava sozinha no aposento. Uma mulher, que logo após olhar suas feições essas se dispersavam em sua mente, a encarava com olhos curiosos, questionadores e levemente temerosos. A Criança depois não saberia dizer se era loira, morena ou ruiva mas se lembraria para sempre de que aquela mulher era a mais bonita que já conhecera.
Não sabia, nem teria como saber, que naquele momento encarava embasbacada a Dama de Fantasia, soberana de Todas as Terras que vão desde Imaginação até Sonho Bom. A curiosidade que a criança viu nos olhos da Dama, apesar de também não saber disso então, se dava pelo fato de que há muito, muito tempo, uma criança humana adentrava nos domínios que ela governava desde os tempos imemoriais. E esse fato, mais que uma novidade, era uma prece atendida.
Passado o choque, a Criança começou a gaguejar uma desculpa. Não tinha intenção de estar ali, não queria interromper, se ao menos soubesse ONDE estava, por favor, pra que pudesse voltar à biblioteca e terminar o trabalho, Mamãe iria ficar muito preocupada se se atrasasse. Diante o seu discurso tímido, tudo que recebeu foi um olhar cada vez mais curioso e menos temerário. Completamente confusa, calou-se. Não saberia mais o que dizer, de qualquer maneira.
A Dama foi até a Criança e dessa vez falou. Descrever sua voz lhe era tão impossível quanto seu rosto. Mas a voz a tranquilizou. Estava em Fantasia, descobriu, mais exatamente na Sala do Era Uma Vez em Castelo Impossível, sede do governo e morada da Dama. A mulher então deu-se a falar, cada vez mais atropeladamente o quão feliz estava pela Criança estar ali. Como havia chegado? Desde quando conhecia seu Reino? Por que estava ali? Quantos anos tinha? Não, não importa. Importa é que estava ali. Um infante humano, e sua adorada terra natal estava salva. Pois a profecia sempre disse que a esperança de fantasia jazia nas mãos de uma legítima descendente de Gente Grande.
Cada vez mais confusa e assustada, a Criança tentou negar veementemente. Não era ela, não podia ser ela, só queria ir pra casa. Queria ajudar, claro que queria, mas como poderia? Só queria terminar o dever de casa, ver desenho com a Irmã Mais Velha e tirar nota boa e ver o olhar orgulhoso dos pais. A Dama insistia. Por favor! O perigo era iminente. Nada tomava conta de seu reino e ela já tinha tentado tudo que podia. Só lhe restava a esperança, personificada naquele indivíduo que materializou-se em sua morada.
Mas a Criança não sabia o que fazer. De verdade. Só queria ir pra casa. A Dama tristemente concordou em ajudá-la a achar o caminho de volta. A levaria em cada canto do reino que o Nada ainda não havia tomado e continuaria a esperar pela salvação. E então saíram do Castelo e foram em busca do Caminho de Volta.
A Criança nunca havia conhecido, definitivamente, nada nem remotamente parecido com Fantasia. Os lugares que conheceu só poderiam ser descritos por fantásticos! Vales encravados em lagos eram habitados por sereias de cabelos cor de chiclete. Montanhas que se deslocavam quando um bando de passarinhos precisava atravessar. Só que, espera!, aquilo não eram pássaros, eram? Não tinham asas. Sim, não voavam exatamente... Estava mais pra flutuar o movimento que faziam as criaturinhas que a Criança só poderiam descrever como... Não, ela jamais conseguiria descrever.
O céu mudava de cor em alguma ordem aleatória que ela jamais conseguiria achar uma padrão. Numa tentativa rápida, poderia descrever como um arco-íris de azul. Tons se sobrepondo sem nenhuma definição com o dia ou a noite. Viu uma floresta com árvores tão pequeninas quanto seus habitantes. Estranhos serezinhos de ar simpático e doce. Podia jurar que numa clareira avistou um elefante, mas isso era improvável pois elefantes não tinham pelo branquinho.
Mais e mais via e mais e mais desejava salvar aquele lugar incrível. As flores que andavam em patinhas de espinhos. Aves que só poderiam ser caracterizados como ursinhos de pelúcia ambulantes ou voadores, no caso e, juradinho de mindinho!, ela conheceu um animalzinho falante que era a cruza mais que perfeita entre um cachorro e um pavão! Viu um vulcão – apesar de a Dama ter chamado de outro nome – que expelia algodão e a água de um córrego próximo a ele, mudava de sabor e temperatura de acordo com as estações do ano. Eram 6, segundo sua guia real.
Passeou por um campo de cereais muito amarelos onde animais pastavam muito calmamente e se alimentavam de pequenas florezinhas que lhe eram atiradas por fadinhas menores ainda. Nada ali era como o Mundo Real. Animais tinham chifres a mais, asas esquisitas e faziam sons muito indentificáveis por seus ouvidos humanos. De fato, apesar da estonteante beleza e das surpresas que Fantasia lha proporcionou, o que mais gostou foi do fato de que ali, toda criatura, pedra ou árvore, a entendia e conversava com ela.
Nem tudo estava perfeito, no entanto. A Dama, mesmo em meio ao orgulho e deslumbramento infinito por sua Terra Amada, tinha uma tristeza no fundo da voz que fez a Criança notar que, olhando diretamente em direção ao infinito, tudo que se via era Nada. Nada estava cercando e devorando as áreas coloridas, a vida, as criaturas incríveis. E a Criança queria mais que tudo agora salvar aquele se rapidamente se tornou seu lugar favorito em todo mundo. Salvar Fantasia era mais que necessário, na sua infantil opinião. Ficaria e acharia uma saída, não pra voltar pra casa mas pra livrar Fantasia de Nada para sempre.
A Criança jamais saberia quantificar quanto tempo permaneceu naquele lugar. Segundos e anos eram o mesmo pra ela. Cansou-se de tanta pensar, tentando achar a solução. Esforçou-se para repetir os feitos dos seus heróis favoritos. Os bravos, os fortes, os inteligentes, os sortudos. Nenhuma delas foi capaz de parar Nada, que a tudo consumia sem trégua, sem compaixão.
Até que o inevitável aconteceu. Estava em Castelo Impossível, na Sala Era Uma Vez olhando a Dama nos olhos e pedindo desculpas. Tentara tudo que pôde. A soberana não a culpava. Nada já vinha ameaçando Fantasia há tanto tempo que mesmo ela já não lembrava de onde havia surgido. Lembrava que fora aos pouco mas crescera com uma velocidade acelerada, implacável. Em meio a mais um pedido de desculpas, Nada chegou.
Tudo que a Criança via, escutava, tocava e respirava era Nada. Tentou gritar, mas a voz não saía, ou talvez, como no Vácuo, ela não se propagasse em Nada. Suas pernas não se moviam, seus ouvidos apenas eram sufocados pelo barulho do silêncio infinito e seu zumbido agudo. Tentou de tudo, mas Nada era muito forte, muito poderoso. A única coisa em comum que Nada e Fantasia tinham em comum era a sensação atemporal. De novo, a Criança não saberia dizer quanto tempo transcorrera até finalmente sentir algo diferente. Menos que nada, um peso em suas mãos que parecia solidificar-se e tomar forma. Uma forma quadrada, dura. A forma de um livro.
E então seus ouvidos dormentes captaram sons indistintos de passos. Piscando, a Criança procurava a origem deles mas seus braços se cansavam com o peso cada vez maior do objeto em suas mãozinhas. A respiração ficou mais ofegante pois voltou a sentir a mesma estranha ansiedade que a levou a retirar da estante um livrinho simples, com letras borradas há... quanto tempo mesmo?
Os sons de passos aumentaram e aumentaram até se tornarem ensurdecedores. A Criança sentiu mais que viu, uma forma se aproximando por trás de seu ombro esquerdo e estremeceu de medo. Quando a forma falou, falou com a voz meio irritada, meio preocupada de sua Irmã Mais Velha. “Por que você não voltou pra casa na hora? Mamãe ta ficando maluca já!”. Nada não se desfez mas recuou levemente a ponto da Criança reconhecer que estava de volta à biblioteca. Ainda aturdida de tudo que vivera, ela permaneceu paralisada por alguns segundos. Segundos esses que foram suficientes pra Irmã Mais Velha chegar perto o suficiente pra ler a mesma palavra que continuava na mesma página que a Criança o fizera antes.
No exato momento em que a Irmã Mais Velha esticou o pescoço e leu FANTASIA, um redemoinho de cores, formas e sons irromperam do livro e explodiram na mente da Criança. E ela viu: as planícies, as criaturas, as árvores, as montanhas, a Dama. Fantasia livre de Nada e ainda mais viva e colorida e esquisita – se é pra ser sincero – do que nunca. A felicidade tomou conta da Criança que maravilhada virou o rosto para sorrir a sua Irmã Mais Velha e perguntar se ela via Fantasia como ela mas foi desnecessário. A Irmã olhava confusa pra página, um misto de confusão e incredulidade espantada na expressão. Até que finalmente levantou os o olhar e o cruzou com o da Criança.
Juntas, elas sorriram. Sorriso cúmplice, sorriso admirado. Sorriso de quem carrega a maior riqueza do mundo no fundo da bolsa. Sorriso de quem conhece Fantasia, e jamais vai precisar se preocupar com Nada.
Criança e Irmã Mais Velha voltaram pra casa. Mamãe estava realmente furiosa de preocupação, elas deveriam se apressar dessa vez. Dessa última vez. Mas tudo bem. Fantasia estava salva, mesmo no Mundo Real. Estava em Lugar Nenhum e em Todos os Lugares. Elas só precisavam olhar e enxergar.
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