Fanfiction de Felicidade Clandestina
1 Felicidade Vingativa
Eu era um menino aficionado por literatura – desde que aprendera a ler as primeiras linhas já saia pela casa lendo todos os bilhetes, manuais de instrução de aparelhos, panfletos de propagando e o que aparecesse pela frente.
Esse gosto naturalmente se manifestava também na escola, cada atividade que envolvia a leitura de algum livro ou conto era uma festa. Não via a hora de ir à biblioteca buscar o livro e, aproveitando a viagem, já levar vários outros para se deliciar com horas de leitura em casa.
Porém, certa vez um fato curioso ocorreu, me deparei com um obstáculo a minha leitura – um obstáculo com nome: Pedrinho
Pedrinho era alto, magrela, cabelo encaracolado, óculos fundo de garrafa, ar de soberba e de poucos amigos. Porém Pedrinho além disso tudo era também filho do dono da livraria da cidade.
Por infortúnio do destino na cidade somente havia uma livraria e naquela época não havia internet nem essas facilidades de hoje em dia. Resumindo, estávamos à mercê do dono da livraria e seu filho Pedrinho.
Pedrinho tinha uma habilidade de leitura e escrita impecáveis, porém essa habilidade não compensava sua falta de habilidade em lidar com os colegas de sala. Ninguém gostava de fazer trabalho em dupla com Pedrinho, ninguém frequentava a casa dele para brincar, ninguém o escolhia para o time. Por quê? Pedrinho era de uma arrogância sem igual. Não se podia cometer um erro sequer de português, uma vírgula fora do lugar, um ponto faltando no “i” que já vinha Pedrinho com seus sermões de como a ignorância é o mal da humanidade e de que nós somos responsáveis pelas consequências de nossa ignorância.
Assim foi, ninguém queria se aproximar de Pedrinho, o que alimentou no menino um grande espírito vingativo. Até que um belo dia, logo eu, fui vítima dessa sede de vingança.
A professora havia comentado de um certo livro difícil de encontrar porém de grande relevância na literatura internacional “O Senhor dos Anéis” de um tal de J. R. R. Tolkien. Na hora minha sede pela leitura me deixou incontrolável até ouvir no fundo da sala a voz de Pedrinho: “Professora meu tio me trouxe esse livro de uma viagem ao exterior”.
Encontrei-me em um dilema: teria que me recorrer ao Pedrinho para ler o livro. E assim o foi: humildemente me aproximei do menino e, após uma conversa meio sem tom, pedi o livro emprestado.
Foi aí que Pedrinho recebeu de braços cheios sua oportunidade de retribuir todo o desprezo que sofria de mim e dos outros meninos: “Amanhã trago o livro para você”.
E assim foi, durante quase um mês. Até que a vingança ganhou proporções maiores. “Passa na minha casa amanhã depois da aula que te empresto” – afirmava Pedrinho.
E assim foi, durante quase um mês atravessando a cidade para todas as vezes chegar na casa de Pedrinho e ouvir do garoto: “O livro estava aqui mas emprestei para outro menino que chegou mais cedo, semana que vem ele devolve”.
Até que minha sina teve fim em uma bela tarde nublada, na porta de Pedrinho, aguardando por mais um não começou um temporal que eu não havia visto até então. Foi quando sua mãe mandou nós dois entrarmos. E lá estava ele, bem no centro da estante – o meu tão procurado livro.
Perguntei a Pedrinho sobre o livro do lado de sua mãe. E dessa vez o menino não teve escolha. Sai de lá com o livro e a barriga cheia de biscoitos.
Quando devolvi o livro para Pedrinho? Após muitos “Amanhã trago o livro para você” e “Passa na minha casa amanhã depois da aula que te empresto”. Não me orgulho, mas aquela leitura teve um gosto bem agridoce na minha vida.
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