Version:1.0 StartHTML:000000235 EndHTML:000053231 StartFragment:000000344 EndFragment:000053199 StartSelection:000000344 EndSelection:000053199 SourceURL:https://www.fanfiction.net/story/story_download.php?storytextid=27654810

Era domingo de manhã e Lexie estava sentada na cama com Naomi Night a falar sobre a curta vida delas antes de entrarem para Hogwarts. Parecia que se conheciam há muito tempo e Lexie não se lembrava da última vez que tinha rido tanto com uma colega da mesma idade.

Quando andava na escola dos Muggles era tudo tão diferente e nenhuma das meninas queria brincar com ela. Desde que no primeiro ano – após uma rapariga lhe puxar os cabelos – incendiara um livro, nenhuma criança queria sequer aproximar-se dela. Lexie na altura nem sabia como tinha feito, mas tinha a certeza que tinha sido causado por ela.

— Os meus pais optaram por me colocar numa escola Muggle.

— A sério? – perguntou Lexie numa oitava acima. – Mas os filhos de feiticeiros normalmente não vão para a escola de Muggles, pois não?

A curiosidade de Lexie baseava-se sobretudo em relação a Draco. Afinal de contas não o imaginava a ter que ingressar numa escola de origem Muggle, uma vez que os pais eram os dois feiticeiros. Não tinha pensado muito sobre o assunto, mas achava que os filhos de feiticeiros aprendiam a ler e a escrever em casa com os pais.

— Normalmente aprendem em casa com um feiticeiro especializado. Mas paga-se bem e os meus pais não têm muito dinheiro. – disse Naomi com um sorriso tímido.

— Eu fui para uma escola de Muggles porque fui criada com o meu pai e ele não é feiticeiro. – disse Lexie com um sorriso triste.

Já que Naomi lhe estava a confidenciar as dificuldades financeiras dos pais, Lexie achou por bem contar-lhe que o seu sangue não era assim tão puro. Teve receio que essa confissão afastasse Naomi e que ela não quisesse ser mais sua amiga. Já era suficientemente aborrecido ter Charlotte a pegar com ela por não ter o sangue puro. Contudo, se Naomi não quisesse ser sua amiga só por causa do sangue então deveria saber já para não criar amizade com uma pessoa tão preconceituosa.

— A sério? Mas a tua mãe…

— Não vamos falar disso. – interrompeu Lexie imediatamente com os olhos cinzentos a fitarem os de Naomi com alguma relutância.

— Eu compreendo. Há coisas chatas de se falar. – disse Naomi com um sorriso muito simpático.

Lexie suspirou de alívio e retribuiu o sorriso. Teve um pressentimento de que se iriam tornar boas amigas. Se havia coisa de que gostava era que lhe dessem espaço e privacidade. E Naomi parecia estar disposta a ser uma amiga assim.

— Obrigada. – disse e ambas ficaram caladas durante uns minutos. — Às vezes penso que as pessoas dão muito valor ao sangue… — comentou Lexie enquanto fitava o tecto abstraidamente.

— Não sei porquê, mas não acho que por ter pais feiticeiros mereça mais estudar magia do que o primeiro feiticeiro de uma família. – disse num tom muito maduro que surpreendeu Lexie.

— Fico feliz por pensares como eu, Naomi. – disse Lexie sem se preocupar em esconder a felicidade genuína que sentia.

Naomi não tinha nada que se pudesse comparar com Charlotte Broad e isso fazia com que a felicidade palpitasse no peito de Lexie. Queria afastar-se de todas as pessoas que pudessem ser más, cruéis e preconceituosas. Às vezes pensava que o seu irmão era um bocadinho assim, mas rapidamente afastava essa ideia da sua cabeça. Queria imaginar um irmão perfeito e não uma pessoa cheia de maldade.

— Sabes a Hermione Granger é filha de pais Muggles. Ela é a primeira feiticeira da família e também a melhor aluna de Hogwarts…

— Como é que sabes isso tudo da Hermione? – perguntou Lexie com um tom de incredibilidade patente na voz.

Lexie sabia perfeitamente que os pais de Hermione não eram feiticeiros. Contudo, sabia-o porque Hermione tinha contado quando foram comprar a sua varinha.

— Eu já te disse que sou admiradora do Harry Potter. – disse em voz baixa, corando de vergonha.

— Desculpa insistir… mas porquê? – a expressão de Lexie demonstrava claramente a confusão que sentia.

Já estava a morrer de curiosidade para saber por que motivo Harry era considerado tão especial. Iria insistir com Naomi para que lhe contasse.

— Como porquê? – foi a vez de Naomi exibir uma expressão confusa. – Ele é o rapaz que sobreviveu…

— Ora, eu sei que depois disto me vais achar uma ignorante… mas eu não sei nada sobre o Harry ter sobrevivido… ele esteve a morrer, foi? – as palavras de Lexie eram praticamente cuspidas com alguma ferocidade, pois detestava fazer figura de idiota.

— Por Merlin, Lexie… o Harry Potter tinha um ano quando sobreviveu a um "Avada Kadavra" do Quem-nós-sabemos…

— Quem-nós-sabemos? – Lexie ficou grata por saber o que era um Avada Kadavra mas sentiu o cérebro dar um nó com tudo o resto.

— Já percebi que não estás a par de nada. Consigo compreender que nunca tenhas ouvido falar do Harry Potter mas agora do Quem-nós-sabemos… — respirou fundo e fez uma pausa dramática. – É o feiticeiro mais perigoso de sempre… ele tornou-se mau… matou pessoas… incluindo os pais do Harry e tentou matar o Harry… — disse em voz baixa e lentamente.

— Tentou? Não conseguiu porquê? – Lexie ainda estava a tentar assimilar tudo.

— Não sei. Aliás, ninguém sabe porquê. Mas alguma coisa aconteceu, porque a única marca com que o Harry ficou foi a cicatriz que tem na testa.

— Aquela cicatriz feia em… — Lexie tentou perguntar, mas deixou as palavras morrerem na sua boca ao perceber que estava a ferir a susceptibilidade de Naomi.

— A cicatriz do Harry não é feia. – disse Naomi, cruzando os braços e juntando as sobrancelhas de indignação. – É lendária.

Lexie revirou os olhos.

— O que aconteceu a esse feiticeiro? – perguntou com os olhos a brilharem de curiosidade.

— Anda por aí… — disse Naomi, sacudindo os ombros.

— Como é que ele se chama mesmo? – perguntou Lexie. – Ora, sejamos sinceras, Quem-nós-sabemos não é nome de gente… — acrescentou rapidamente.

— Nós não dizemos o nome dele… — disse com um semblante assustado.

— Isso é ridículo! Qual é o nome dele? – insistiu Lexie com uma sobrancelha erguida.

Naomi respirou fundo antes de dizer com a voz tremida:

— Vol… Voldemort.

Durante o almoço, Hermione continuou a ignorar Ron, mesmo com os olhares suplicantes de Harry que estava farto de ver o amigo chateado com tudo. Ron parecia até ter perdido o apetite, abdicando de comer as diversas doçarias que estavam na mesa. Fitava o pudim, a tarte de maçã e os bolinhos de canela com indiferença. Esse facto não passou despercebido a Hermione que tirou um dos bolinhos de canela que estavam mesmo em frente a Ron.

Assim que acabaram de almoçar, Hermione desculpou-se que tinha de ir à biblioteca arrumar uns livros. Harry buscou o olhar da amiga e sussurrou só para que os três ouvissem:

— Não te esqueças que é a tua vez de ficar com o mapa, Hermione.

Hermione revirou os olhos. Não percebia a insistência de Harry quando ambos sabiam que os Slytherin iriam estar a treinar no campo de quidditch para o jogo de quarta-feira.

— Ele vai treinar com o resto da equipa…

— Sabes tão bem quanto eu que ele pode esquivar-se. Eu e o Ron vamos agora fazer a reunião com os Gryffindor…

Hermione ergueu uma sobrancelha inquisidoramente.

— Tácticas de jogo. Não há campo, mas podemos delinear estratégias – justificou-se o moreno com um sorriso nos lábios.

Hermione não resistiu e voltou a revirar os olhos de incompreensão. Mas não quis dar muita importância pelo que estendeu a mão para guardar o mapa no bolso do manto.

— Boa reunião, Harry. Vejo-te logo! – disse Hermione, ignorando o ruivo que mordia o lábio inferior de raiva.

Hermione percorreu os corredores que estavam muito silenciosos. Muitos dos alunos ainda estavam a almoçar e ela queria aproveitar esse sossego para ir à sala comum buscar uns livros que já tinha lido para trocar por uns novos. A biblioteca estava deserta como era de esperar. Geralmente poucos alunos a frequentavam, especialmente tratando-se de um domingo. Até mesmo a Madame Pince que tinha uma paixão incondicional pelos livros aproveitava o domingo para outras actividades.

— Ora bem, a Madame Pince disse que os livros de exercícios eram para deixar de lado… — Hermione falava sozinha enquanto separava os livros de exercícios dos outros.

Viu uma pilha grande de livros que estavam por arrumar. Sabia que tinha sido a bibliotecária a deixá-los de lado para que Hermione tivesse o que fazer. Madame Pince desconfiava de todos os alunos e isso foi perfeitamente notório quando Hermione se oferecera para ajudar na biblioteca. Começara a dizer que Hermione queria ter acesso à área restrita, mas que se ela queria tanto ajudar que colocaria feitiços redobrados nessa zona da biblioteca. Claro que Hermione ficou apreensiva e ofendida a princípio, mas logo a directora dos Gryffindor afirmou que "Madame Pince desconfia sempre de todos os alunos".

Começou a organizar as estantes de livros por títulos e reparou que muitos estavam mal colocados. Aproveitou o tempo para anotar o título de alguns livros que fazia questão de ler mais tarde.

Já era fim da tarde quando tinha acabado de arrumar os livros. Sentou-se numa das cadeiras confortáveis e tirou o mapa do manto que estava pousado por cima da mesma. Murmurou as palavras mágicas para que o mapa se abrisse para ela.

— Onde é que tu andas? – sussurrou Hermione enquanto procurava o nome de Draco no mapa. Encontrou-o a circular no corredor que se direccionava para a biblioteca.

Fechou o mapa e colocou-o com rapidez no manto novamente. Abriu um livro qualquer e fingiu estar concentrada a ler. Mas a rigidez e o olhar que fugia diversas vezes em direcção à porta traíam-na.

Não demorou mais do que dois minutos para que Draco surgisse à porta da biblioteca e passasse por Hermione sem sequer se dar ao trabalho de fitá-la. Pareceu procurar o título de algum livro que tinha apontado num pedaço de pergaminho.

— Procuras algum livro, Malfoy?

Draco estava de costas para Hermione e manteve-se assim até sentir os passos da morena a aproximarem-se cada vez mais. Continuou concentrado à procura do livro.

— Granger não te importas de me deixar em paz? – perguntou Draco num tom tão azedo que fez Hermione recuar dois passos.

Os olhos da Gryffindor estavam fixos nas costas de Draco.

— Eu acabei de arrumar essa estante. – respondeu Hermione com a voz tremida. – É bom que não destruas o trabalho que eu tive, Malfoy. – continuou num fracassado tom de ameaça.

Apesar de não o poder ver, Hermione teve a certeza que Draco estava com um sorriso maldoso nos lábios. Por momentos arrependeu-se de ter dito que tinha arrumado aquela estante.

Draco pegou num livro com tácticas de quidditch e virou-se de frente para Hermione. Aproximou-se à medida que a morena recuava. Não conseguiu evitar desenhar um sorriso cheio de maldade no canto dos lábios. Hermione olhou-o profundamente nos olhos cinzentos e soube de imediato que ele escondia alguma coisa. Detestava-o por fazê-la sentir-se nervosa. Mexia no cabelo desajeitadamente e evitava as respirações descompassadas.

— Ficas tão vulnerável sem o ruivo ao teu lado… – afirmou Draco colocando a mão em cima de uma pilha de livros que Hermione tinha separado cuidadosamente.

Hermione não conseguiu encarar os olhos cinzentos por muito tempo pelo que baixou o olhar para a mão de Draco que continuava pousada sobre os livros. Draco seguiu o olhar de Hermione e levantou a mão para ler o pedaço de pergaminho que tinha escrito "Para a Lexie" com a caligrafia certa e redonda de Hermione. Draco sentiu a cólera a subir-lhe pela garganta e teve vontade de derrubar aquela pilha. O sorriso maldoso desvaneceu-se em segundos e ergueu o queixo para fitar Hermione com desdém.

— Se eu fosse a ti, sangue de lama, evitava estar no meu caminho. – ameaçou por entre dentes, mexendo com as sobrancelhas sugestivamente.

Hermione abriu a boca para argumentar mas Draco já tinha virado costas e acelerava o passo em direcção à porta da biblioteca com aquele andar tão confiante e arrogante que Hermione abominava.

Pegou na pilha de livros que tinha posto de lado para Lexie e saiu da biblioteca com os braços carregados. Tinha os olhos marejados de lágrimas e nem queria acreditar que estaria com Ron a fazer monitoria durante uma semana, pois não estava com a mínima paciência para aturar as suas infantilidades.

Os dois dias de monitoria com Ron tinham sido lamentáveis. Ambos fingiam estar acompanhados por uma sombra, pois nem sequer dirigiam a palavra um ao outro. Tinham sido duas longas noites de tortura para ambos.

Na primeira noite de monitoria Ron tinha experimentado falar com Hermione mas bastou olhá-la nos olhos para desistir da ideia. A morena estava com os olhos castanhos carregados de tristeza pelo que ele entendeu que ela ainda estivesse sentida com o que ele havia dito. Em conversa com Harry, o amigo dissera-lhe que Hermione estava magoada com as palavras duras – embora verdadeiras – de Ron. O ruivo não conseguia perceber o problema. Afinal de contas, ele não lhe tinha chamado verme, mas antes que ela se tratava de um verme para o Malfoy e para a Parkinson.

Durante o dia de quarta-feira as aulas decorreram vagarosamente para os alunos que faziam parte das equipas de quidditch. Era o primeiro jogo do ano e começava logo com os Gryffindor contra os Slytherin. A grande adversidade foi logo denotada na primeira aula da tarde em que as duas equipas tinham poções em conjunto. A tensão entre Harry e Draco era tão grande que estava a prejudicar a aula.

— Logo veremos quem é o melhor, Malfoy.

— Se tens dúvidas em relação a isso, Potter, eu não tenho. – respondeu azedamente Draco com uma expressão de raiva na face.

Os olhos cinzentos oscilaram entre Harry e Ron. Snape já estava impaciente com as discussões patéticas entre os dois.

— Cinquenta pontos a menos para cada equipa. E acabou o quidditch nesta aula! – a voz severa fez com que os dois deixassem de se encarar mas não por muito tempo.

Hermione tinha prometido a Harry que ia assistir ao jogo apesar de não compreender como é que o director de Hogwarts tinha permitido um jogo se realizar a meio da semana. No entanto, como já tinha os trabalhos todos adiantados e Hermione não gostava de perder os momentos de glória de Harry já tinha decidido ir com Luna ver o jogo.

Estava na casa de banho da Murta Queixosa a desenhar com um lápis avermelhado um "G" na bochecha branca de Luna. A loira também já tinha feito um "G" em dourado na bochecha contrária à sua. Hermione admirava Luna por apoiar sempre os Gryffindor nos eventos desportivos. Chegara a ver a amiga com um leão na cabeça para enfatizar esse apoio.

— Quase todos os alunos da minha equipa estão pelos Gryffindor. – disse Luna com o seu tão conhecido tom de voz sonhador. – São é menos evidentes do que eu.

— Se te sentes bem não vejo mal nenhum nisso. – disse Hermione arranjando os cachos em frente ao espelho.

— Claro que me sinto bem. Tenho de apoiar os meus amigos. – disse com um sorriso amoroso. – Vocês são todos dos Gryffindor e eu não fico triste com isso. Não é a equipa de cada um que nos faz melhores ou piores pessoas.

De seguida, dirigiram-se em passo acelerado até às bancadas de madeira. Neville acenava ao lado de Dean Thomas com um sorriso. Luna e Hermione juntaram-se a ambos e esperaram que os amigos entrassem em campo. Cinco minutos depois todos os jogadores entravam para o campo com sorrisos dirigidos à bancada. Hermione viu Ron olhar de soslaio para ela e prometeu a si mesma desculpá-lo por vê-lo menos confiante que os outros. Não queria que ele a acusasse se o jogo corresse mal.

Harry e Draco estavam nas suas posições habituais, encarando-se furiosamente. Draco tinha um sorriso provocador e confiante. Harry agarrava o cabo da vassoura com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Mordeu o lábio inferior, aguardando com expectativa o início do jogo.

— Onde deixaste a confiança toda, Potter? – perguntou Draco, ignorando os jogadores que olhavam para cima para observarem os dois. – Prepara-te para perder! – gritou um pouco mais alto.

Harry deixou fluir uma gargalhada sarcástica e um sorriso de canto formou-se nos lábios. Não se daria ao trabalho de responder-lhe.

A professora Hooch deu início ao jogo e logo os jogadores dispersaram pelo campo com uma velocidade que deixava Hermione tonta só de olhar. Nas bancadas os gritos eram altos. Os Slytherin tinham uma faixa onde estava escrito "Malfoy a snitch dourada é tua!" e as raparigas que seguravam com um wingardium leviosa estavam histéricas a gritar o nome de Draco. Hermione revirou os olhos face aos comentários que conseguia ouvir delas.

Ginny estava a sair-se muito bem e já tinha conseguido cinquenta pontos para os Gryffindor em apenas dez minutos de jogo. Era evidente que a ruiva se dava muito bem com a quaffle. Ron defendia as quaffles lançadas pelos Slytherin com ferocidade e Hermione repensou duas vezes se iria desculpá-lo em breve já que ele se estava a sair tão bem.

Draco andava em volta do campo com rapidez e parecia ter avistado a snitch. Fez a vassoura erguer-se o máximo que pôde em direcção ao céu e certificou-se que Harry não tinha visto a snitch. Ao aperceber-se que Draco tinha o objecto dourado em vista e fazia uma manobra complicada, Harry seguiu-o com uma velocidade incrível na sua flecha de fogo. Alguém na bancada gritou o nome de Draco e de Harry na mesma frase.

Draco olhou para trás e viu Harry a aproximar-se cada vez mais de si, o que fez com que murmurasse um palavrão e se esforçasse para voar em direcção à snitch. Mas já não conseguia avistá-la. Aquele segundo de distracção com Harry fê-lo perder a snitch de vista.

— Merlin! – disse Draco angustiado.

Harry sorriu-lhe sarcasticamente o que deixou Draco ainda mais irritado. Os gritos das claques tinham praticamente cessado quando perceberam que Draco já não conseguia vislumbrar a snitch. Enquanto isso, os Slytherin continuavam a atacar e Ron tinha deixado entrar pelo menos três golos. Ginny continuava a dominar o jogo em parte com a ajuda de Cormac McLaggen.

Parecia que já estavam a jogar há horas, mas ainda nem uma hora de jogo tinham. Harry estava praticamente parado a meio do campo com os olhos a percorrerem o ar numa tentativa desesperada de encontrar a snitch. Todavia, mais uma vez foi Draco quem viu a pequena bola dourada a esvoaçar perto da bancada dos Gryffindor. Acelerou o máximo que pôde, passando por Harry que estava de costas para ele. Harry percebeu novamente que Draco tinha avistado o que tanto procurava e voltou a alcançá-lo com a flecha de fogo num curto espaço de tempo. Estavam rentes à bancada dos Gryffindor e ouviam-se alguns gritos de receio e outros até mesmo de delírio.

Harry estava ombro a ombro com Draco. Os encontrões dados pelo Slytherin fizeram Harry desequilibrar-se um pouco da vassoura e ficar para trás. Draco teve vontade de olhar para trás e fazer um sorriso trocista para Harry, mas apenas esticou o braço, sentindo que o jogo já estava ganho.

— Harry alcança a snitch! Gryffindor! Gryffindor! – gritou uma voz feminina vindo da bancada dos Gryffindor.

Draco sentiu-se gelar e o braço esticado voltou a agarrar o cabo da vassoura. Olhou para o lado direito e viu Lexie – quem tinha gritado a plenos pulmões – debruçar-se sobre a bancada. Sentiu raiva e tristeza ao mesmo tempo. Como é que ela podia estar a acudir por Harry? Como é que ela se atrevia a estar contra si? Lexie olhou para o irmão e fez um sorriso receoso de desculpas. Mas rapidamente o fez desvanecer-se ao perceber que Draco estava completamente furioso.

Nesse preciso momento em que ficou perdido no seu devaneio, Harry voltou a compor-se na vassoura e passou por Draco a toda a velocidade. Estava num altura de cerca de 20 metros mas ainda assim colocou-se cuidadosamente em cima da vassoura e esticou o braço direito para apanhar a snitch.

— Os Gryffindor ganham! – gritou a voz amplificada da professora Hooch.

Draco deixou de fitar Lexie e seguiu em direcção ao chão. Assim que saiu da vassoura arrastou-a atrás de si furiosamente.

Na sala comum dos Gryffindor todos festejavam a vitória com esperança que fosse a primeira de muitas no campeonato. Afinal de contas, queriam jogar contra escolas de outros países. Harry Potter era o principal alvo de atenções, sendo até mesmo o seu nome evocado em músicas improvisadas pelas claques.

Hermione estava sentada numa poltrona com um livro de exercícios de concentração na mão. Apesar de estar obviamente feliz pelos Gryffindor terem ganho o jogo, Hermione não era muito do género de festejar. Mas estava ali sentada na sala comum, ouvindo os gritos histéricos de festejo das raparigas e os "vivas!" dos rapazes. Olhou de relance e viu Harry no centro com as bochechas avermelhadas e o suor ainda a escorrer-lhe pela testa.

— Harry, o Malfoy quase que apanhava a snitch desta vez. – disse Dean, conseguindo puxar Harry para fora da confusão por uns instantes.

— Já há data marcada para o jogo dos Ravenclaw e dos Hufflepuff? – perguntou um aluno do primeiro ano.

Ron estava entretido a conversar com uma aluna do ano de Ginny cheio de sorrisos. Ginny estava sentada no braço do sofá a puxar Dean Thomas pela mão.

Hermione não poderia estar a ler melhor livro do que aquele. Mas ainda assim era difícil conseguir concentrar-se no que lia. Tinha quase a certeza que ninguém daria pela sua falta. Por isso, levantou-se e subiu discretamente a escadaria até ao seu quarto. Naturalmente o quarto estava vazio, pois estavam todos a festejar na sala comum. Deitou-se na cama sem parar de ler o livro. Depois lembrou-se que na aula de poções da próxima semana iria ter que fazer a poção dos mortos-vivos.

Levantou-se para ir ao bolso do casaco buscar um pergaminho onde tinha apontado a página do livro que estava a ler sobre a concentração exigida para uma poção de último grau. Ao tirar o pergaminho veio junto o mapa do salteador e Hermione sorriu de lado. Harry nem sequer se lembrara que era a sua vez de ficar com o mapa. Era bom saber que ele estava abstraído do seu plano por umas horas.

Por mera curiosidade, Hermione abriu o mapa e apontou a varinha para murmurar o feitiço. Procurou o nome de Draco por todo o lado com o sobrolho franzido. Já esperava que ele não estivesse na sala comum dos Slytherin, onde provavelmente o olhariam como se fosse o culpado pela derrota. Nem Hermione tinha percebido muito bem o que acontecera para Draco não ter agarrado a snitch. Também não estava no dormitório nem no jardim ou até mesmo na biblioteca… Hermione dirigiu o olhar para a torre de astronomia e bufou de impaciência quando não o encontrou lá. Subitamente desviou o olhar para o corujal e encontrou um pontinho com o nome de Draco Malfoy. No entanto, além dele também estava lá Lexie Allison. A morena deixou-se ficar a observar o mapa enquanto se questionava o que estaria Draco a fazer no corujal tão perto de Lexie Allison.

Depois de ter pontapeado vários objectos no dormitório dos Slytherin, Draco dirigiu-se para o corujal, onde provavelmente Lexie estaria lá à sua espera. Continuava chateado por ter perdido o jogo e tinha vontade de descontar a sua fúria em alguém. Os passos ecoaram por todo o corredor e sentiu vontade de vomitar ao imaginar os Gryffindor a festejarem. Imaginou Harry e Ron a festejaram a vitória. Ginny a juntar-se a eles e, pior do que isso, Hermione a pular de alegria por terem vencido.

Quando estava a subir as escadas do corujal sentiu um aperto no estômago. Culpava inteiramente Lexie por tê-lo feito distrair-se no campo de quidditch. Reprimiu a risada irónica que sentia na garganta. Como é que ela fora capaz de gritar pelo Harry Potter? Abanando a cabeça de incompreensão chegou perto de Lexie. A menina estava empoleirada na janela a ver a coruja esvoaçar pelo céu escurecido. Tinha acabado de enviar uma carta ao pai a dizer-lhe que estava bem. Em parte não era verdade, mas não queria preocupá-lo.

Ao sentir Draco atrás de si, Lexie fechou os olhos com força numa tentativa de ganhar coragem para encará-lo. Desejou que ele estivesse calmo mas quase que podia ouvir os gritos de raiva do irmão. Respirou fundo e virou-se de frente para Draco. Encarou os olhos tão iguais aos seus que era impossível que não detectassem que eram irmãos. Contudo, ao passo que os seus transpareciam receio, os de Draco transpareciam diversas emoções: raiva, ódio, desilusão, preocupação e tristeza.

— Estás zangado comigo. – afirmou Lexie com um sorriso triste nos lábios.

Detestava desiludir o irmão. Detestava não corresponder às expectativas dele e detestava a sensação de ser um empecilho na sua vida. Perguntava-se a si mesma se Draco preferia que não existisse. Imediatamente percebeu que nunca iria querer saber a resposta a essa pergunta.

Draco deixou a risada sarcástica finalmente fluir. Passou a mão pelos cabelos, despenteando-os descuidadamente. Lexie ergueu o sobrolho e cruzou os braços.

— Às vezes acho que te chateias muito, Draco.

— Agora entraste para o clube de fãs do Potter? – Draco perguntou de rajada, sem tentar ocultar a raiva que sentia.

— O quê?

— Explicas-me por que raio é que gritaste pelo Potter no campo? – a pergunta de Draco saiu entre dentes.

— Ora, não achas que eu ia parecer uma anormal se estivesse a torcer por ti quando faço parte dos Gryffindor? Não achas que seria absurdo se eu desse pulos de alegria cada vez que te via chegar perto da snitch? – Lexie estava com as lágrimas nos olhos e a voz saia-lhe quase sufocada.

— Não podias simplesmente ficar calada? – a voz de Draco saiu numa oitava acima. – Distraíste-me e eu perdi por tua causa.

Continuava irritado e a justificação de Lexie era inválida para ele. Lexie ainda era a culpada pela derrota. Durante um minuto nenhum dos dois falou. A Gryffindor parecia reflectir na acusação do irmão.

— Então começa a treinar a tua concentração. Eu não tive culpa nenhuma! – disse Lexie em voz baixa, limpando as lágrimas para poder fitar Draco melhor.

Draco levou o polegar e o indicador à cana do nariz e apertou-a. Fechou os olhos e respirou fundo. Será que Lexie tinha sempre resposta para tudo? Não conseguia limitar-se a ouvi-lo e dizer que sim?

O silêncio instalado era bastante incomodativo. Lexie teve vontade de dizer o que estava a sentir para Draco perceber como estava a ser difícil ter de fingir a todo o tempo. Mas não queria parecer insolente pelo que achou melhor virar-lhe as costas. Dirigiu-se para o parapeito e espreitou para a escuridão que parecia agora mais apaziguadora do que encarar novamente os olhos frios de Draco.

Tinha tantas perguntas a fazer e Draco não parecia estar com a menor vontade de lhe responder a nenhuma. Mas havia coisas que ela tinha de saber. Precisava de saber quem era aquele tal de Voldemort. Tinha um pressentimento que Draco não iria querer responder, mas tinha de tentar.

— Quem é o Voldemort? – perguntou num sussurro, sentindo um arrepio ao sentir uma brisa chegar-lhe ao rosto.

Não tinha a certeza que Draco tinha ouvido, mas deixou-se ficar mais uns segundos em silêncio.

— Por que fazes essa pergunta? – a voz rouca de Draco soou mais perto de Lexie.

— Não me respondas com outra pergunta, Draco! – Lexie voltou a virar-se de frente para o irmão.

Ainda estava sentida por Draco a acusar pela derrota do jogo. Foi a vez de Draco virar as costas à irmã. Como é que ela tinha conhecimento de Voldemort? Mordeu o lábio inferior e baixou-se, colocando as duas mãos na face para a ocultar. Sentia o olhar de Lexie preso em si, mas naquele momento só conseguia pensar em fugir à pergunta. Estava a ser difícil lidar com uma criança de onze anos, principalmente por ter de esconder algumas coisas.

Lexie quase que desejou não ter feito a questão ao irmão só para não o ver naquele estado. Parecia quase em estado de choque e Lexie sabia que mesmo que Draco lhe respondesse não era de boa vontade. Prendeu ligeiramente a respiração quando viu Draco levantar a cabeça. Viu-o abrir a boca e a fechá-la novamente. Lexie baixou-se em frente ao irmão para incentivá-lo a deixar as palavras fluírem.

— Eu já percebi que o Vol…

— Não digas o nome dele! – Draco ameaçou agressivamente entre dentes.

— Eu já percebi que ele não deve ser boa pessoa. Mas quero que me expliques por que diabos toda a gente fica assim ao ouvir falar dele. Por amor de Deus… nem quando o meu pai falava do bicho-papão eu ficava assim. – continuou Lexie, revirando os olhos de descrença.

— Bicho-papão? – a voz interrogativa quase que fez Lexie sorrir, mas conteve-se.

— Esquece. – disse, gesticulando com a mão. — Vais dizer-me quem ele é? – perguntou directamente, abanando a cabeça afirmativamente como se isso por si só já fosse um argumento a seu favor.

Draco levantou-se de repente e respirou fundo. Fechou os olhos e quando os abriu encarou Lexie que também já estava de pé, pois devia estar a contar que Draco fosse fugir à questão e, por isso, tinha adoptado uma postura fria: braços cruzados e os olhos semicerrados.

— E então? Vais esclarecer-me? – insistiu impacientemente.

— Há uma coisa que tens de entender, Lexie. – começou Draco num tom agressivo sem nunca desviar o olhar da irmã. – Não podes simplesmente fazer as perguntas que te apetece e esperar que eu te responda. Existem coisas que não tens de saber. Não me voltes a perguntar nada deste assunto se não queres que eu me aborreça. – terminou com um olhar de fúria como se não quisesse dar-lhe hipótese de dizer mais nada.

— Tudo bem. – Lexie fez um sorriso irónico. – Não te preocupes que não te aborreço mais. Nem sei por que raios me lembrei de te perguntar a ti… há uma pessoa que me responderá a isso e a tudo o que puder…

Lexie virou rapidamente costas ao irmão e tentou correr pelas escadas a baixo, mas Draco foi mais rápido e agarrou-a pelo cotovelo. A Gryffindor fitou a mão de Draco pousada no cotovelo e ele soltou-a de imediato.

— Eu conto-te. – disse Draco num tom nada amistoso. – Mas depois vais ter de te explicar em relação à Granger.

Lexie enrijeceu o corpo. Tinha de mentir, não lhe podia dizer que se dava bem com Hermione. Seria mais um longo sermão que ela não estava com vontade de ouvir. Sabia que também não valia a pena dizer-lhe que continuaria a dar-se com Hermione, a menos que quisesse um ultimato pela parte de Draco. Prometeu mentalmente que iria averiguar os motivos daquele ódio.

— Começa por explicar por que razão nunca pronunciam o nome dele…

— É um feiticeiro muito poderoso que está ligado à magia negra. Tem vários seguidores que o servem como se ele fosse um deus na terra. Os objectivos dele são controlar o mundo, ser imortal e exterminar com… — Draco não olhava para Lexie enquanto falava e despenteava o cabelo desajeitadamente. — … com todos as pessoas que não são feiticeiras. Daí as pessoas não pronunciarem o nome dele.

— Têm medo? – perguntou curiosa com o sobrolho franzido.

Draco abanou uma vez com a cabeça em sinal de afirmação. Mordeu a língua para não dizer que o pai era um dos seguidores de Voldemort e que queria que ele se tornasse em breve também. Isso chocaria Lexie e Draco tinha a esperança de conseguir deter o pai nesse aspecto.

— É verdade que ele tentou matar o Harry Potter? – perguntou sem rodeios uma Lexie cada vez mais curiosa.

Draco riu-se sarcasticamente e fitou a irmã pela primeira vez desde que tinha começado a falar do assunto.

— Então é por causa disso? Queres saber tudo porque tens uma paixoneta pelo Potter cabeça de cicatriz? – Draco mordia o lábio inferior e parecia nervoso.

Lexie sentiu uma pontada inesperada no coração, talvez por achar que o irmão estava com uma pontada de ciúmes infantis. Mas imediatamente se começou a rir.

— Cabeça de cicatriz?

Draco revirou os olhos devido ao divertimento de Lexie.

— E é óbvio que eu não tenho uma paixoneta pelo Potter. Aliás, eu gostava que me explicassem a popularidade dele se ele nem é interessante.

Draco escondeu um meio sorriso de orgulho. Afinal, a irmã não estava caída de amores pelo Harry Potter como as outras miúdas do ano dela. Quase que sentiu um alívio sair-lhe das costas.

— Diz-se que Quem-nós-sabemos tentou matar o Potter quando ele era um bebé. Mas que por alguma espécie de milagre não conseguiu. Tretas!

— E depois disso?

— Andou desaparecido durante anos e regressou há pouco tempo.

— O que significa que vai fazer de tudo para cumprir os objectivos… — o olhar de Lexie estava vazio. E Draco não conseguiu encontrar qualquer emoção. – Temos de detê-lo! – murmurou baixinho.

— É impossível. Ele tem muitos trunfos e os seguidores que tem são feiticeiros muito astutos.

— E vamos deixar que mate as pessoas que não são feiticeiras? Não, Draco, temos de fazer alguma coisa. Ele vai tentar matar pessoas como o meu pai.

— Não vai acontecer nada ao teu pai. – Draco pousou as mãos nos ombros de Lexie que tinha os olhos marejados de lágrimas. – Prometo.

Lexie abanou a cabeça e limpou as lágrimas com as costas da mão. Draco soltou-a e fez um meio sorriso.

— Nem penses que te vais livrar de me contar sobre a Granger.

— Não há nada que tenha para te contar sobre ela. Não temos falado. – disse com um meio sorriso muito parecido com o do irmão.

Draco ergueu a sobrancelha e perscrutou Lexie com o olhar. A Gryffindor quase que jurava que ele era profissional a detectar mentiras, o que a levou a fazer o ar mais angelical que conseguiu.

— Espero não ter que voltar a falar dela contigo. Já te disse uma vez e digo-te uma última vez: a Granger e os amigos não são seres com que queiramos ter contacto. Pelo contrário, são da espécie mais odiosa que pode existir. – disse com uma expressão de nojo desenhada na face.

Ouviram passos e ambos ficaram muito concentrados para perceberem se a pessoa se dirigia ao corujal. Alguns segundos depois o barulho foi desvanecendo e Draco dirigiu-se à irmã:

— A mãe…

— Eu não quero saber. – disse abruptamente.

Draco sentiu um nó formar-se na garganta por causa da reacção de Lexie. No entanto, sabia que se fosse ele a estar no papel dela reagiria exactamente da mesma maneira. Se não tivesse sido criado com a mãe e sentisse que não era amado não iria querer saber o que quer que fosse em relação a essa pessoa.

— Vai indo para o dormitório, eu saio mais tarde. – disse sem deixar transparecer a mágoa que ela o fizera sentir.

Hermione estava a ler um livro na sala comum enquanto esperava que Ron descesse para fazerem a monitoria. Continuava magoada com o ruivo pelas coisas que ele lhe tinha dito no dia da reunião de monitores. Já era domingo – o último dia em que estava a fazer monitoria com o amigo – e pouco lhe tinha falado nas outras noites.

Harry surgiu atrás de Hermione e colocou-lhe a mão no ombro. Hermione inclinou-se ligeiramente para o fitar.

— Quando é que o desculpas? Ele anda insuportável… parece um velho rabugento a reclamar com tudo.

Hermione riu-se com vontade. E em segundos reflectiu e percebeu que não valia a pena continuar chateada com Ron. Ele era um dos seus melhores amigos. Já devia estar mais habituada à insensibilidade dele. Ron não se preocupava muito em dizer o que achava sobre determinado assunto e nem ao menos procurava uma maneira mais amistosa de dizer as verdades duras. Como Hermione era mais sensível sentia-se sempre magoada com as verdades que Ron proferia.

— Talvez hoje. – respondeu, voltando a baixar o olhar para o livro de história da magia.

— Estás morta para falar com ele também. – disse Harry, atirando-se para o lado de Hermione.

Hermione revirou os olhos e fitou Harry com uma expressão que bailava entre séria e divertida.

— Achas que ele não merecia que eu ficasse mais dias chateada com ele?

— Já o conheces. Ele não vai aprender a controlar o que diz. É a maneira dele ser…

— Tens razão. É só o Ron.

Harry beijou a testa de Hermione em sinal de agradecimento. Já não podia aturar Ron mais uma noite a resmungar com todos os colegas de dormitório. Nem ao menos podia falar do plano acerca do Malfoy com ele, porque Ron começava logo a dizer que a culpa era toda dele.

Cinco minutos depois Ron desceu a escadaria. Vestia apenas o manto por cima da camisola vermelha e das calças de ganga. No manto tinha o emblema de monitor de equipa.

— Estava a ver que nunca mais descias. – disse Hermione, virando costas e seguindo pelo quadro.

Ron lançou a Harry um olhar indignado, pois sabia perfeitamente que não estava atrasado. Bufou de impaciência e seguiu a amiga com passos pesados. Rapidamente apanhou Hermione que caminhava em passos lentos. Foram até à torre de astronomia mergulhados num silêncio aterrador, cada um perdido nos seus pensamentos. Hermione respirou fundo antes de quebrar o silêncio:

— Acho que temos de falar.

Ron parou no corredor e conseguiu esconder o sorriso devido à escuridão. Hermione virou-se de frente para Ron e deu uma pequena risada.

— Pensei que esta briga ia durar para sempre. – disse o ruivo num tom que revelava o nervosismo.

— Tu sabes que eu não conseguia. – confessou Hermione num sussurro. – Mas há coisas que não podemos deixar por dizer, Ron. Tu sabes que me magoaste…

— O Harry fez questão de dizê-lo milhões de vezes… acho que já interiorizei isso. Desculpa-me. – Ron também falava num sussurro.

— Eu sei que te preocupas comigo. – disse Hermione, pegando na mão de Ron que lhe sorria tristemente. – Demais até.

— O Harry preocupa-se da mesma forma. – comentou na defensiva.

— Eu sei que sim. Mas vocês têm de perceber que…

— … que tu te desenrascas sozinha. Eu já sei. Prometo tentar controlar-me da próxima vez. – disse, revirando os olhos.

— Então… estamos bem? – perguntou Hermione, exibindo um sorriso de orelha a orelha.

— Sim. Se me desculpaste, eu também te desculpo. – disse Ron num tom divertido.

Hermione deixou uma gargalhada fluir e ecoar por todo o corredor. Rapidamente levou a mão à boca. Era suposto estarem a fazer monitoria e não estarem a conversar no meio do corredor.

Ron ficou com um sorriso nos lábios ao ouvir a amiga a rir como já não ouvia há uma semana. Hermione puxou Ron pelo braço e deu-lhe um abraço, aconchegando-se nos braços fortes do melhor amigo. A custo, soltou-se do abraço quente de Ron e suspirou.

— Vamos continuar. Só voltamos a ter monitoria em conjunto daqui a seis semanas. – disse Hermione, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Os alunos dos Slytherin e dos Gryffindor já estavam sentados nos respectivos lugares quando chegou a hora da aula de Poções. Na sala pouco iluminada as gargalhadas estridentes eram audíveis em qualquer lado. Pequenos grupos de cada equipa conversavam em sussurros enquanto que outros grupos de alunos ficavam em silêncio, aguardando a entrada de Severus Snape a qualquer instante.

Neville consultou o relógio de pulso e girou a cadeira para Hermione que continuava a ser sua companheira de mesa.

— O Snape está atrasado. É inédito! – disse num sussurro que só a morena pôde ouvir.

Hermione pegou no pulso do rapaz para confirmar e arregalou um pouco os olhos. Era verdade, Snape estava atrasado precisamente cinco minutos. Era um atraso curto com qualquer outro professor, mas com Snape era realmente um facto inédito.

— Não é nada normal. – disse, fazendo um ar pensativo.

Harry virou-se para trás para falar com a melhor amiga.

— Hermione, hoje encontrei uma aluna do primeiro ano que me pediu que te avisasse que tinha a composição pronta. Mas eu esqueci-me do nome dela… — disse Harry, pedindo desculpa com o olhar por ser tão distraído.

— Não te preocupes, Harry. Eu depois falo com ela. – respondeu Hermione com um sorriso.

— Então Granger? Descobriste agora que a companhia do Potter e do Weasley consegue ser ainda mais indesejada que a dos alunos do primeiro ano? – perguntou Draco, erguendo as sobrancelhas tipicamente.

Hermione revirou os olhos para depois os fixar em Draco que ria com desdém. Ron também estava já virado para trás.

— Parece que a Hermione não foi a única. Há algum tempo que não te vemos com o Crabbe e com o Goyle. – disse Ron, fazendo com que os dois que estavam na outra fila de mesas olhassem quando ouviram os seus nomes.

— Ouviste-me falar para ti? Devias saber que para me dirigires a palavra tens de pagar e que eu saiba tu não tens dinheiro para te dares a esse luxo. – disse num tom tão desagradável que fez com que vários alunos da equipa dos Gryffindor se sentissem intrigados com o comentário.

Hermione desejou poder lançar-lhe um feitiço que o fizesse engolir as próprias palavras. Contudo, Snape chegou apressado naquele momento e só parou na secretária, cessando com todos os burburinhos existentes. Hermione lançou um último olhar feroz a Draco que lhe mostrou um pedaço de pergaminho escrito com "Draco 10 x Weasley 0", o que em conjunto com o sorriso arrogante enfureceu ainda mais a morena.

Apesar de ninguém ter reparado, Draco estivera atento à conversa entre Harry e Hermione para poder perceber se a aluna do primeiro ano era Lexie, a sua irmã. Mas como Harry se tinha esquecido do nome ficara sem saber.

— Hoje vamos estudar a poção dos mortos-vivos que vocês já ouviram falar. – começou Snape na sua voz monocórdica sem se dar ao trabalho de explicar o seu pequeno atraso.

— Reparaste que se atrasou e nem se explicou? – sussurrou Harry para Ron.

— Suponho que saiba dizer quais os ingredientes necessários para fazer esta poderosa poção, Mr. Potter? – interrompeu Snape.

Harry levantou a cabeça e encarou o professor que odiava por cinco anos.

— Não professor, não sei.

Hermione levantou o braço, ansiosa por poder partilhar o seu conhecimento. Harry não precisou de olhar para trás para saber que Hermione tinha o braço esticado. Contudo, Snape fingiu não haver nenhum aluno a oferecer-se para responder à sua questão e prosseguiu com a aula.

— Abram os livros na página 19. Vão precisar de losna, raízes de valeriana, raiz de asfódelo em pó e vagem suporífera. Vocês podem encontrar no armário ao fundo da sala qualquer um desses ingredientes.

A segunda-feira era dos dias mais completos dos alunos do sexto ano. Tinham apenas um intervalo para a hora de almoço de uma hora em que mal dava para conviver com os alunos dos outros anos. Estavam a caminho da aula de Hagrid quando Harry se lembrou de falar do plano.

— Vocês têm apanhado o Malfoy a fazer alguma coisa de estranho enquanto estão com o mapa no vosso turno? – perguntou Harry, ajeitando os óculos.

— Eu só o vejo no dormitório sempre rodeado pelo Zabini e pela Parkinson.

— Ele anda a tramar alguma e precisa da ajuda dos amigos. Toda a gente faz isso quando tem alguma na manga.

— Harry! – repreendeu Hermione incrédula. – Neste momento estás rodeado pelos teus amigos e não estás a preparar nada. Quer dizer, na verdade até estás… estás a preparar um plano contra o Malfoy sem qualquer fundamento.

— Tu não tens observado o mapa, pois não? – questionou Harry, embora fosse mais uma afirmação.

Hermione revirou os olhos e suspirou alto. Ron e Harry tinham parado no caminho mas Hermione continuou a andar e a falar:

— É claro que tenho. Não tenho visto nenhum comportamento que o possa pôr em causa.

Ron e Harry trocaram olhares cúmplices e seguiram Hermione.

Quando chegou o final da tarde, Hermione dirigiu-se à sala comum para pousar os livros. Faltava uma hora para o jantar e decidiu tomar um banho antes. Ginny estava a estudar tranquilamente no dormitório, pelo que Hermione só a cumprimentou com um sorriso.

Quase que se tinha esquecido que a monitoria era com Draco Malfoy quando pegou na tabela que tinha elaborado na primeira reunião com os chefes de equipa. Teriam de fazer a vistoria ao piso que envolvia a torre de astronomia.

Hermione adorava a torre de astronomia. Era tão alta que se conseguia avistar tudo à volta. O espaço amplo permitia que se sentisse as correntes de vento. Não era novidade para ninguém que muitos dos alunos apaixonados iam para a torre de astronomia passar o tempo. Hermione nunca lá tinha estado depois da hora permitida pelo que iria ser interessante.

Na mesa dos Gryffindor a conversa estava animada. Seamus contava a repetida história de como o seu pai tinha ficado a saber que a mãe era uma feiticeira no dia do próprio casamento. Assim que acabaram a refeição, Ron e Hermione dirigiram-se à sala dos Gryffindor para irem buscar os objectos que necessitavam para a monitoria.

— Para quê que levas o mapa? – perguntou Hermione a Ron.

— O Harry disse que era o meu turno.

— O Harry esqueceu-se que o Malfoy vai estar comigo a fazer monitoria. É uma perda de tempo que estejas a consultar o mapa às escondidas da Parkinson quando eu vou poder observar minuciosamente os comportamentos do Malfoy. – disse Hermione, fazendo Ron sorrir.

— Tens razão, Hermione. O Harry está obcecado com isto e está a pôr-me maluco a mim. – desabafou Ron.

Hermione riu-se com o comentário de Ron, embora estivesse de facto preocupada com a obsessão de Harry. Dirigiram-se para a sala dos chefes de equipa, onde seria o ponto de encontro sempre que o par não fosse da mesma equipa. Só faltava chegar Draco e Pansy quando Liam consultou o relógio de pulso.

— Todos sabemos que áreas do castelo nos pertencem, correcto?

Os alunos das três equipas assentiram com semblantes sérios. Liam já tinha repetido umas três vezes enquanto aguardavam pelos Slytherin. Instalou-se o silêncio e após cinco minutos chegou Draco acompanhado por uma Pansy quase ofegante.

— Atrasados… — constatou Liam com o olhar fixo em Draco e Pansy que não mostravam ter vontade de pedir desculpas pelo sucedido. – Juntem-se aos vossos pares e vamos dar início ao trabalho. – Liam juntou-se ao seu par da equipa dos Ravenclaw.

Ron já tinha saído da sala com Pansy no seu encalço, assim como os outros pares.

— Granger? – chamou Liam, fazendo com que Draco e Hermione parassem de andar. – Tenham cuidado com esse piso. Há vários alunos que gostam de se esconder na torre, porque embora não pareça tem muitos esconderijos.

— Não te preocupes. Nós vamos prestar atenção a isso. – disse Hermione, sorrindo de forma simpática.

Draco virou costas e começou a percorrer os corredores do castelo com alguma velocidade. Hermione ia uns metros atrás de Draco, pois não o conseguia acompanhar. Quando chegaram ao último piso, Hermione suspirou alto. Sabia que não ia ser fácil fazer a vistoria com Draco, pois ele pretendia ignorá-la a cada segundo.

— Malfoy. – chamou, fazendo com que a sua voz ecoasse pelo corredor. – Malfoy. – exclamou quase num grito.

— Não percebes que quanto mais rápido formos mais depressa acabamos isto? – vociferou Draco sem ao menos abrandar o passo.

Hermione desistiu e continuou a andar na sua passada mais lenta. Ergueu a varinha e murmurou "Lumos" para poder visualizar melhor o que tinha pela sua frente. Parecia que estavam a caminhar há uma eternidade quando Draco parou na torre de astronomia. Hermione acelerou o passo até chegar lá, onde o avistou a espreitar por trás de um objecto que parecia um planeta, perfeito para um esconderijo.

— Parece que… não está aqui ninguém. – constatou Hermione entre respirações cortadas.

— Chegaste a essa conclusão agora? – gozou Draco, empoleirando-se para espreitar para o exterior.

Hermione que tanto queria aproveitar para desfrutar da beleza do lugar estava agora demasiado cansada para o conseguir. Ignorou o comentário do Slytherin e sentou-se perto de uma das aberturas. Sentiu o vento acariciar-lhe a pele de uma forma que sabia bem por estar com as faces vermelhas do esforço. Draco continuava do lado oposto a observar as corujas esvoaçarem até ao corujal que era visível naquele ponto.

Cada um para o seu lado deixaram-se ficar a desfrutar dos prazeres que aquele lugar oferecia. Hermione estava perdida nos seus pensamentos, imaginando que se fosse Ron ou Harry a estar naquele local com ela as coisas seriam muito diferentes. Estariam a apreciar a força do vento em conjunto certamente.

— Granger vê se acordas. – disse Draco na sua típica voz arrogante para Hermione que estava de olhos fechados.

— Eu não estou a dormir, atrasado. – respondeu Hermione, levantando-se num ápice.

— Estava com esperança que estivesses a dormir profundamente e eu pudesse ir embora sem ti.

— Podes fazê-lo ainda. – disse Hermione, cruzando os braços para dar mais ênfase ao desafio.

Draco esboçou um sorriso de lado e girou nos calcanhares. Começou a andar no seu habitual passo apressado. Hermione foi atrás dele quando já havia uma certa distância e ficou perplexa quando reparou que ele nem sequer olhava para trás.

Hermione não conseguia perceber por que raio é que estava tão admirada com a reacção do loiro. Era lógico que ele estava pouco importado se ela ficava para trás.

Viu-o dobrar a esquina e conseguiu ouvir os passos pesados descerem a escadaria. Hermione correu, fazendo os seus passos ecoarem no silêncio. Quando estava a alcançá-lo, perto do salão principal, chamou-o:

— Malfoy, espera!

Tinha-se acabado de lembrar que enquanto estiveram lá em cima não tinham feito o relatório. E nem que ela tivesse que mover as paredes do castelo para que não tivesse de fazer o relatório sozinha.

— Temos de fazer o relatório. – disse Hermione já mais perto de Draco.

— Fá-lo tu, Granger. Afinal de contas nunca seremos uma dupla.

Hermione riu sem vontade da lata de Draco. Ao perceber que ele não estava a brincar, Hermione esticou-se para agarrar-lhe pelo braço.

— Nunca mais me toques, sangue de lama. – disse Draco entre dentes. Tinha-se virado bruscamente e estava agora parado no corredor com os olhos fixos em Hermione.

Fez-se um silêncio constrangedor entre os dois. Hermione pareceu prender a respiração antes de responder:

— Idiota.

Hermione lamentou ter sido tão pouco eloquente, mas os olhos cinzentos de Draco perscrutavam-na de uma maneira tão gélida que pareciam lâminas frias que ameaçavam a sua pele em silêncio.

Deixaram de se fitar quando ouviram uma terceira voz no corredor acompanhada pelo som dos passos.

— Hermione! Hermione! – gritava uma voz de menina.

Como o corredor estava escuro não dava para se distinguir a silhueta. Mas à medida que se foi aproximando, Hermione pôde distinguir Lexie com um pergaminho na mão.

— Eu estive à tua procura para te mostrar a composi… — Lexie interrompeu a frase quando se apercebeu que Hermione estava acompanhada por Draco.

Por sua vez, Draco fitava a irmã com o mesmo olhar gélido que lançara a Hermione segundos antes. Por breves instantes, Draco e Lexie pareceram esquecer-se da presença de Hermione e olharam-se com intensidade...

Notas finais
Terminou na minha parte preferida. Espero que estejam a gostar de conhecer a Lexie. Ainda falta um pouco para Dramione surgir nesta fanfiction, mas prometo fazer os possíveis para que valha a pena!