Família Addams WENCLAIR
9 O desafio da paixão
Os gêmeos desceram do carro da família — um Toyota Camry prata — já estando devidamente uniformizados com as clássicas roupas da Never More Academy. Caminharam até a mala do carro para retirarem suas bagagens assim como diversos adolescentes que chegavam na escola faziam. As Addams, assim como diversos pais que acompanhavam os filhos no primeiro dia de aula, olharam para o grande castelo que constituía a instituição, ambas arrebatadas por lembranças e sentimentos nostálgicos da época que eram mais jovens, ainda se conhecendo e explorando juntas o desconhecido. Tantas noites de amor, tantas caçadas a assassinos e hoje eram seus filhos que estavam ali, prontos para iniciarem um novo passo na vida. Wednesday esperava que eles tivessem tanta diversão quanto ela teve, com sorte eles teriam alguns assassinatos para desvendar – ou cometer. Enid por outro lado, tinha esperanças de que sua filha encontrasse um amor, quem sabe? Funcionou para ela e para os sogros.
— Vamos entrando? – Enid perguntou checando se realmente os gêmeos haviam pego todos os pertences.
— Achei que iriamos nos despedir aqui – Larissa direcionou o olhar a Wednesday, mais cedo a loira havia pedido que a latina impedisse Enid de fazer qualquer coisa fora do “padrão”.
— Você sabe como sua mãe é – A morena deu de ombros seguindo a esposa para dentro da academia. Com a adolescência vieram-se os famosos casos de rebeldia e vergonha dos pais, Wednesday pouco se importava, não iria contra os desejos de Enid por causa de exigências de adolescentes – Vamos Emma.
A pequena cópia de Wednesday a seguiu prontamente, quanto mais o tempo passava mais parecida com a primogênita dos Addams ela ficava, além da face extremamente parecida, da cor dos olhos, cabelos e o gosto para roupas, ela apenas se diferenciava da mãe por gostar de usar um rabo de cavalo trançado, ao invés de duas tranças.
— Espero que a mamãe não fale nada que me envergonhe – Larissa comentou com o irmão, antes de pegar o estojo do seu violino. Agora com 16 anos ela havia mudado um pouco o visual, as trancinhas sumiram dando lugar a um cabelo mais curto e raspado nas laterais. As roupas sempre em tonalidades neutras, porém o azul do uniforme não lhe era abominável, por tanto o usava com tranquilidade na peça de roupa, apenas optando por usar calças ao invés da saia sugerida para as alunas.
— Espero que a mama não faça nada de louco que possa me envergonhar – Respondeu Lúcifer já adentrando a escola na companhia da gêmea. Ele não havia mudado tão drasticamente quanto a irmã, o corpo de ambos era bem trabalhado visto as atividades peculiares que gostavam de praticar. O moreno ainda permanecia com o cabelo curto, no mesmo corte de quando criança, as roupas ainda coloridas e em sua maioria remetidas a bandeira gay, embora neste momento estivesse usando o uniforme azulado tal qual sua irmã e os demais alunos – É grande né? Não pensei que seria assim.
— Pelo valor que cobram pensei que seria até bem maior que isso – Deu de ombros.
Caminharam lentamente até a família, Enid sorria apontando pros lugares suspirando enquanto iniciava uma frase com “Lembra Wed?” e logo começava a recontar coisas que fizeram no passado. Ficaram alguns minutos apreciando a vista, os pais ali no pátio de entrada se despediam dos filhos, esperaram que as mães fizessem o mesmo, porém com alguns pulinhos Enid virou-se para os gêmeos sorridente dizendo-lhes:
— Quando conheci sua mãe apresentei a escola a ela, que tal fazer o mesmo hm?
— Ãn... – Larissa olhou para o irmão na esperança de ele ter alguma desculpa para que não fizessem o tour.
— Não sei não mãe... — Lúcifer iniciou nervoso, como ele diria sem magoar que queria ir para seu quarto organizar suas coisas e ir atrás do namorado que já havia dito que estava alojado em alguma torre do dormitório masculino?
— Venham, eu mostro tudo a vocês! – Enid entrelaçou os braços dos filhos, ficando entre eles e os puxando logo em seguida para caminharem, sem esperar por comentários.
Ela começou a guia-los enquanto contava o que sabia sobre cada canto que passavam. Os alunos observavam a interação da família, rindo e fazendo comentários deixando os irmãos nervosos e envergonhados enquanto Emma disparava olhares odiosos para cada um que falasse de sua mãe. Wednesday apenas ignorou, aproveitando da conversa animada da esposa exatamente como ela fizera no passado lhe mostrando o local, bons tempos. De repente Enid separou-se dos filhos dando alguns passos mais rápidos, os olhos admirando o “quadrado” onde, quando jovens, ficavam maior parte do tempo batendo papo furado com os amigos. Estava exatamente como se lembrava.
— E este – Enid sorriu nostálgica – Este é o quadrado.
— Hexágono – Corrigiu Wednesday, ela nunca entendeu por que o chamavam de forma erronia, além de que, deixava Enid levemente irritada com a correção, então por vezes gostava de provocar a mulher.
— Quadrado – Rebateu a lupina.
— Claramente isto é um hexágono – Larissa observou o ambiente, era espaçoso, com mesas e uma árvore ao meio de um lago artificial.
— Não importa – Enid deu-se por vencida, não querendo entrar em discussão, realmente ela sabia a forma geométrica correta daquele espaço, porém não fora esse o nome que os alunos deram – Aqui no quadrado...
— Hexágono – Corrigiu Lúcifer.
— Hexágono— Enid corrigiu-se em um suspiro pesado, cansada demais para explicar os motivos do nome ser outro – Vocês vão encontrar os famosos grupos de excluídos – A loira então listou as três classes mais famosas, sereias, vampiros, lobisomens – Obviamente existem outras raças, como os psíquicos, metamorfos, górgonas, noppera-bo...
— Noppera-bo? – Lúcifer se intriga levantando uma sobrancelha, nunca ouvira falar daquela raça.
— Fantasma sem rosto – Explica Larissa apontando com a cabeça para uma família que se despedia mais distante, todos eles tinham as faces completamente lisas.
— Cara mia, acho que já está na hora deles se instalarem – Wednesday chama atenção da licantropo ao notar que já se passará mais de trinta minutos de caminhadas e conversas explicativas sobre a escola, deixando de fora algumas informações que valeriam mais a pena deles descobrirem sozinhos, como a sociedade secreta dos Beladonas.
— Tudo bem, vamos para a diretoria pegar a ficha dos quartos — Novamente a loira sai na frente liderando a caminhada e tornando a explicar outras coisas sobre a escola.
Durante a caminhada Larissa notou um grupo de garotas encarando-a e sussurrando alguma coisa que as faziam rir, encarou feio as meninas imaginando que falavam algo maldoso sobre si. As adolescentes pareceram se agitar mais ainda sob o olhar penetrante da Addams, cochichando logo em seguida algo para uma garota mais ao centro do grupo que parecia envergonhada. Larissa fitou melhor a garota a quem tanto cochichavam coisas que aparentemente eram a seu respeito, pela distância não conseguiu observar melhor seu rosto, porém notou algumas peças de roupas a mais que utilizava junto ao uniforme. Touca e luvas sem dedo. Optou por ignorar o grupinho quando notou que a família já havia tomado certa distância de si, já estava acostumada com isto, no fundamental ela não era lá tão querida pelos outros alunos pelo jeito reservado de ser, aparentemente a história iria se repetir, não que isso lhe incomoda-se, Larissa apreciava sua solidão.
A visita a diretoria fora rápida, pegaram suas fichas com o diretor e despediram-se de Lúcifer que partiu para o prédio masculino Polônio onde ficaria alojado, era proibida a entrada de mulheres no local. Larissa por sua vez foi acompanhada pela família até o prédio Ofélia – Maldito Lúcifer sortudo! – onde ficaria alojada no quarto que, segundo Enid, pertenceu no passado a Yoko. A porta do quarto estava entreaberta deixando claro para a adolescente que sua colega de quarto era uma pessoa descuidada, ao empurrar a porta Larissa pode ver o ambiente. Grandes janelas com cortinas pesadas no centro, duas camas em cada canto, um closet frente a cama direita e um banheiro frente a cama esquerda. Não era tão grande quanto suas mães fizeram parecer ser o antigo quarto delas – o famoso quarto da janela redonda, um lado colorido o outro com ausência de cor, com uma grande sacada que cabia o violoncelo da latina e mais quatro pessoas que ainda sobraria espaço – ainda assim, dava para o gasto, tinha um tamanho proporcional ao que Larissa pretendia usar, mantendo distancia da garota que dividiria o quarto consigo.
— Parece que sua colega de quarto não está – Comentou Enid notando que havia algumas malas no lado esquerdo do quarto, metade delas estavam abertas com algumas roupas ainda dentro.
— Sorte a minha – A garota deu de ombros, entrando no quarto e largando as malas próximo a cama vazia — Não gosto muito dessa história de dividir quarto.
— Eu pensava o mesmo – Wednesday admitiu.
— É, mas depois que eu me mudei para o quarto da Yoko você ficou toda abalada sofrendo pelos cantos – Alfinetou a lobisomem se divertindo com o rosto envergonhado que a esposa fizera desviando brevemente o olhar.
— Não sei de nada disso.
— Você não me engana Addams – Pôs as mãos na cintura risonha — Mãozinha já me contou tudo.
“Thing eu te mato” – Pensou a latina, faria uma nota mental de confrontar o membro decepado quando chegassem a cidade.
— Oh você já chegou – Uma voz fez-se presente chamando atenção da família para uma garota que acabara de entrar no quarto – E trouxe suas mães com você – Pontuou a menina — Gostaria que meus pais tivessem esse tempo para mim também – Sorriu.
— Olá, você deve ser a colega de quarto da Larissa – Enid sorriu de volta estendendo a mão em cumprimento, sendo aceita logo em seguida pela garota – Me chamo Enid, Enid Addams e estas são minha esposa Wednesday – A morena acenou com a cabeça – E minhas filhas Emma – a pequena encarou a maior com uma expressão de puro desinteresse – E Larissa.
Larissa pôs as mãos nos bolsos da calça do uniforme, quando caminhou pelos corredores da instituição notou que eram poucas as meninas que preferiam usar calças, a maioria usava uma saia grande e – na opinião da loira – brega, igual a que vestia a adolescente segurando a mão de sua mãe com movimentos rítmicos para cima e para baixo em um cumprimento exagerado. Passou então a observar mais atentamente a garota a sua frente lembrando-se da menina que lhe encarava mais cedo no quadrado, junto do grupinho de amigas. Agora mais de perto, pode ver suas feições, olhos verdes, pele levemente bronzeada, sobrancelha esquerda com uma falha no canto – por pura estética – a touca era azulada e realçava seus olhos, ela até que era bonitinha. Rapidamente a loira fechou a expressão, ótimo, teria que dividir o quarto com uma das garotas mesquinhas, tendo certeza que as meninas que cochichavam entre risadas mais cedo, eram fúteis e esnobes.
— Muito prazer em conhece-las, me chamo Eliza – Apresentou-se sorrindo tanto quanto Enid – Pretopolus – Completou.
— Petropulos? – Wednesday repetiu intrigada, lembrava-se perfeitamente do ex-namorado chapado da lobisomem – É filha do Ajax?
— Conhece meu pai?
— Infelizmente – Cruzou os braços achando interessante como o destino gostava de lhe pregar algumas surpresas – Quem diria que aquele cabeça oca conseguiria reunir neurônios suficientes para procriar.
— Como? – Eliza questionou confusa com a fala da mulher. Reunir neurônios? Do que ela estava falando?
— Pelo visto é de família – Soltou a latina percebendo que a garota não entendera, sendo repreendia logo em seguida por Enid com um olhar severo.
— Acho que já está na hora de irmos não é mesmo cariño? – Enid apressou-se em tirar a morena dali antes que ela acabasse xingando a pobre garota apenas por ser filha de quem era – Boa sorte Larissa, sentiremos saudades!
— Você tem meu número mãe – A menor revirou os olhos.
Enid sorriu compreendendo que a filha nunca diria que também sentiria saudades de casa, ela era cabeça dura igual a mãe. A lupina sabia que a frase “Você tem meu número” significava que ela poderia ligar sempre que sentisse saudades e vise e versa. Abraçaram-se por fim – com Larissa acanhada e quase que não correspondendo totalmente – despedindo-se. Do quarto pôde escutar Wednesday no corredor consolando a mulher que aos prantos dizia que “seus bebês cresceram rápido demais”. Apenas quando o choro da licantropo não pôde mais ser ouvido que Larissa retornou sua atenção para o quarto, notando a tal de Eliza lhe encarando.
— Perdeu algo no meu rosto?
— Ãn? O que? – Piscou algumas vezes.
— Para de me encarar, ta me incomodando – Preocupou-se em desfazer as malas virando-se de costas para a garota.
— Desculpe. É que você tem olhos bonitos.
Larissa tirou o olhar brevemente das roupas para encarar Eliza que parecia meio desconcertada pelo que dissera, talvez ela tenha dito sem pensar. Ignorando isso a Addams voltou a organizar seu lado do closet. No peito um leve incomodo pelo que lhe foi confessado, além das mães, ninguém havia lhe dito aquilo.
[...]
Ao longe Larissa avistou seu alvo conversando novamente com o grupinho de sempre. Revirou os olhos para a forma que elas riam e conversavam sobre um garoto que lhes encarava tentando parecer galanteador, idiotas, elas e o garoto metamorfo que achava que conseguiria algo. Aproximou-se com passos rápidos e furiosos parando apenas quando estava frente a frente com a colega de quarto que rapidamente cessou as risadas lhe encarando surpresa.
— Lari o que vo-
— Não me chame desse jeito – Interrompeu-lhe tomando a fala – Você andou pegando meu violino?
— E-eu só fiquei curiosa – Tentou explicar-se nervosa – Você passa tanto tempo com ele que eu... Eu só...
— Não se pega as coisas dos outros sem permissão Petropulos! – Apontou o dedo como uma mãe que dá bronca – Agora minha corda está quebrada e não posso toca-lo!
— Me desculpa – Eliza não só parecia arrependida assim como também decepcionada e triste, aquilo de certa forma mexia com a Addams, cogitando talvez pegar leve com ela, mas só talvez.
— Me diga uma coisa cabeça de vento, o que achou que aconteceria? – Continuo suas ofensas, recebendo olhares desaprovadores das garotas que não se intrometiam na conversa já tendo presenciado várias brigas entre as colegas de quarto e descobrindo que Larissa poderia dizer coisas bem dolorosas a quem tentasse ir contra ela, alguns até saíram chorando no processo – Que era só colocar ele novamente no estojo que magicamente a corda voltaria ao normal?
— Bem... Falando assim parece uma ideia tola – As bochechas da górgona ficaram levemente coradas, as vezes não pensava com clareza, tinha problemas com TDAH e sentia-se culpada por não agir como outras pessoas, nunca chegou a comentar com Larissa ou qualquer outra pessoa além da família, então os demais apenas achavam que ela era desatenta por preguiça ou algo do tipo.
— É uma ideia péssima!
— Eu compro outra pra você, prometo. Posso ir em Jericho agora mesmo e comprar quantas quiser – Pensou um pouco mais, talvez não tivesse tanto dinheiro para tal ato – Se não forem muito caras.
Larissa suspirou pesadamente, cruzou os braços recuperando o controle, mas ainda levemente irritada com Eliza. Ela fazia coisas que lhe tiravam do sério, espalhava objetos pelo quarto e os perdia facilmente, esquecia-se de prazos de atividades escolares e distraia-se regulamente durante os estudos. Durante esses quatro meses que conviviam juntas a Addams não conseguia acreditar que a distração excessiva se desse apenas pela garota ser uma górgona, diziam que górgonas não compreendiam muitas coisas, pelo fato de a cabeça ser ocupada demais por cobras e tudo o mais, porém eram apenas comentários maldosos na opinião de Larissa.
— Não pode ser qualquer corda, as que uso são de uma marca específica.
— Me diga qual e eu compro.
— Você não lembraria nem se quisesse Petropulos – Revirou os olhos – Eu vou com você, esteja pronta em quinze minutos – Retirou-se indo para o quarto buscar suas coisas para a viagem até a cidade.
— Ela é uma gostosa, pena que é assim, chata pra caralho – Comentou uma das garotas e as demais concordaram.
— Já pensou em tentar gostar de outra pessoa amiga? – Outra garota, uma sereia conhecida da família Addams questionou a górgona.
— Não é assim que funciona – Respondeu Eliza em um suspiro cansado, ela realmente preferia que seu coração batesse por alguém que não ficava irritada tão facilmente, está certo que, desta vez a culpa fora dela por quebrar o objeto de maior apreço que a loira tinha.
— Neste caso boa sorte. Quem sabe você amolece aquele coração de pedra?
O grupo riu sabendo que a pobre garota não teria sucesso com seu romance com a Addams. Eliza decidiu não se incomodar e então se preparar para a ir à loja de instrumentos, apenas precisava pegar o dinheiro visto que já estava devidamente vestida com blusa moletom azul claro, calças pretas e sapatos brancos, além da sua inseparável toca de cabelo que mantinham suas cobras escondidas para evitar petrificações indesejadas. Já de frente a porta do quarto ela a abriu sem demoras, sua mente focada na tarefa de pegar a carteira e partir, porém o pensamento sumiu quando avistou Larissa de calça jeans e meias abotoando o sutiã. Seus olhos fixaram-se no corpo da menina, principalmente na barriga definida pelo esporte que ela tanto praticava: canoagem.
— Já está pronta? – Larissa perguntou sem se importar com o olhar da garota, Eliza fazia isso as vezes então já estava acostumada e mesmo não querendo admitir, lá no fundo gostava de ter a górgona olhando tão fixamente para si.
— Eu... Eu ãn... – Eliza engoliu em seco, apenas voltando em si quando a camisa preta de mangas longas cobriu o corpo da loira – Eu vim pegar a carteira.
— Tudo bem, eu estou pronta, vamos logo.
[...]
— Será que dá pra vocês pararem com isso? – Larissa voltou a reclamar, incomodada com os beijos que seu irmão e o cunhado trocavam enquanto o diretor fazia um discurso em um pequeno palanque montado mais distante deles.
— Eu acho fofo – Eliza comentou sorrindo boba pra colega de quarto que revirou os olhos, afinal o que a górgona fazia ali com eles mesmo?
— É só inveja Liz – Respondeu Joui finalmente separando-se do namorado.
— É, ela fica assim bravinha porque ninguém quer beijar essa cara de bunda dela – Lúcifer concordou rindo do olhar de ódio que a gêmea lhe lançou.
“Eu quero beijar” – Pensou a górgona, porém preferiu guardar pra si essa informação.
— Eu não beijo porque não quero – Justificou-se aborrecida, quem precisava de romance? Só atrapalharia sua rotina e isso ela prezava muito.
— Ta bom Larissa, me engana que eu gosto – Lúcifer debochou entre risadas do namorado e colega de quarto da irmã, porém não tocaram mais no assunto, esperando em silencio o diretor terminar o discurso de abertura do dia da família, o quadrado estava lotado de alunos e familiares, alguns já do lado dos pais e outros, assim como eles, esperando o momento certo de ir ao encontro dos responsáveis.
Terminado o discurso de abertura, os pais foram de encontro a seus filhos para o fim de semana em família. Joui se despediu de Lúcifer com mais alguns beijos antes de ir até as mães as abraçando. Enid vinha segurando a mão de Wednesday enquanto Emma caminhava lentamente mais atrás com sua típica expressão de desinteresse e ódio a todo ser que respira, a lobisomem sorriu ao avistar os filhos.
— Meus amores! – Abraçou ambos ao mesmo tempo, depositando beijos nas bochechas deixando-os envergonhados e causando risadas em Eliza – Eu senti tanta saudades! Como vocês estão? Ta comendo direito filha? Você parece tão magrinha.
— Eu to bem mãe – Larissa soltou-se do aperto da mulher ajustando seu uniforme logo em seguida, notando que desta vez não haviam muitos alunos encarando a cena, a maioria conversava com os pais – E eu ando comendo sim.
— Não está mentindo, não é?
— Não mãe!
— Senhora Addams, ela fala a verdade – Eliza intrometeu-se sorrindo meiga para a mais velha – Ela come tanto que até me pergunto pra onde vai tudo.
— Ta comendo até mais do que eu – Informou Lúcifer após separar-se dos braços de Wednesday depois de um abraço de reencontro.
— Se vocês dizem... – Enid ficou pensativa, se a garota comia tanto por que algo lhe parecia diferente nela? Foi então que lembrou-se que não estavam sozinhos e então sorriu para a górgona – É bom reencontra-la Eliza.
— Digo o mesmo senhora Addams.
— Cadê seu pai, perdeu-se no caminho? – Wednesday procurou envolta alguma górgona conhecida.
— Oh, é que ele não pode vir.
— E sua mãe? – Wednesday estranhou, porém manteve a esperança de conhecer a mulher que aceitara se casar com Ajax.
— Eles estão viajando – Respondeu – Saíram pra comemorar o aniversário de casamento e ficaram presos no aeroporto por conta de uma nevasca, estão sem previsão de volta.
— Seus pais viajaram sabendo que era o dia da família? – Emma pronunciou-se para o espanta de Eliza que, pela primeira vez escutará a voz da criança – Ou você é muito azarada ou não é amada.
— Ta bom! – Enid pôs as mãos nos ombros da caçula apertando levemente para que ela entendesse que não deveria dizer mais do que aquilo sobre a família da garota que parecia abatida com a conclusão que a criança teve sobre seus pais. As mais velhas sentiram pena da adolescente, trocando olhares conversaram em silencio chegando a uma mesma conclusão – Neste caso, você não gostaria de ficar com a gente querida?
— Com vocês? – Eliza procurou na face de Larissa alguma expressão de descontentamento perante ao convite, porém a loira apenas deu de ombros desviando o olhar, a garota havia aprendido que aquilo significava que ela estava de acordo – Tudo bem! Obrigada pelo convite.
— Vamos comer então, vi que o banquete este ano está divino.
Wednesday tornou a pegar a mão da esposa caminhando lado a lado, Emma as seguiu juntamente de Eliza que tentava puxar conversa com a pequena cópia da latina, sem sucesso. Larissa não caminhou, perdeu-se em pensamentos enquanto que com os olhos fixos em Eliza que, sorria para sua irmã caçula, tentava entender a ausência dos pais da garota. Lembrou-se que quando se conheceram a górgona havia comentado que gostaria que os pais fossem mais parecidos com as Addams, naquele dia achou que ela só tinha dito aquilo para parecer legal, porém agora tinha suas dúvidas, talvez eles realmente não fossem tão próximos da filha.
— Você gosta dela.
A voz de Lúcifer a trouxe de volta a realidade, demorou alguns segundos antes que ela pudesse processar a frase e a compreender, ficando tímida, porém disfarçando rapidamente com uma expressão séria. O que ele estava dizendo tão repentinamente?
— Acho que Joui sugou parte do seu cérebro durante os beijos.
— Bem que você queria que a Eliza fizesse o mesmo com você – Alfinetou vendo a irmã quase não disfarçar o rubor nas bochechas, segurou o riso.
— Pare de falar besteiras, idiota – Larissa rebateu começando a caminhar para evitar a conversa com o irmão – Só estava pensando.
— Você pensa demais Larissa, está na hora de começar a agir e dar uns pegas nela.
— Não tenho porque agir, porque não há o que fazer, não temos nada! Eu não gosto dela e ela não gosta de mim! – Rosnou as palavras deixando o irmão com um semblante triste.
— É uma pena que não consegue enxergar o obvio – Respondeu antes de juntar-se a família na mesa reservada a eles – Espero que quando perceber não seja tarde demais.
A loira ficou novamente paralisada, pensando nas palavras do irmão. Ela não gostava da colega de quarto, definitivamente não, apenas sentia algumas necessidades de cuidado com Eliza, como lhe ajudar com o TDAH que ela nunca confessou que tinha, mas que sabia ter por bisbilhotar a ficha medica dela na enfermaria. Larissa não se arrependia, quer dizer, Eliza era esquecida demais de um jeito que não poderia ser considerado normal como diziam sobre as górgonas serem atrapalhadas, além de que a garota apresentava muitos sintomas, apenas gostaria de ter certeza. Depois que confirmou as suspeitas, começou a trata-la diferente, sendo mais compreensível e ajudando com algumas atividades, lhe passando dicas e tocando violino para ela durante seus estudos, Larissa havia notado que ajudava em sua concentração o som do instrumento. Enfim, qualquer pessoa faria aquilo, não era?
— O que está pensando?
Foi então que a dona dos seus pensamentos surgiu ao seu lado, com sua voz animada de sempre, notou que além do sorriso costumeiro ela tinha em cada mão um prato de comida.
— Em nada – Suspirou decidindo deixar aquelas ideias para lá, Lúcifer apenas queria irrita-la e colocar fantasias em sua cabeça.
— Trouxe comida pra você – Estendeu o prato em sua direção – São seus favoritos, não é?
— Hm... – Como ela sabia que gostava daquilo? Seu peito acelerou repentinamente, porra Eliza! Por que suas ações bobas lhe deixavam tão confusa? – Sim.
— Ótimo! Vamos comer, sua família ta esperando.
[...]
A Rave’n havia sido o assunto mais comentado nas ultimas semanas. Por onde andavam haviam adolescentes fazendo planos para roupas, penteados e com quem ir para o baile anual de Never More, desta vez tendo em destaque a lua de sangue como tema, visto que na noite da festa a tal lua estaria brilhando no céu estrelado. Para a surpresa da Addams, houveram alguns corajosos que lhe convidaram para ser seu par, meninos e meninas, todos levaram um fora. Ela não iria pra porcaria da festa, preferia ficar no quarto e esperar que todos a esqueçam.
— O que acha? – Eliza saiu do closet usando um belíssimo vestido vermelho, digno de uma princesa. Tão linda.
Larissa revirou os olhos. É, tinha isso ainda. Por alguma razão a colega de quarto aceitará o convite de Robin — um tritão com fama de pegador — para ir ao baile com ele. Larissa o odiava com todas as forças, durante as aulas de esgrima lutaram algumas vezes e o rapaz era bom, tendo vencido alguns duelos. Atlético, bonito, rico e simpático, por que caralhos ela aceitou ir com ele mesmo?
— Ta legal – Foi o que respondeu de forma seca, os olhos fixos no livro de mistérios que lia.
— Está com raiva de mim? – Eliza poderia não ser atenta a várias coisas, mas aprendera a ler o humor da Addams e não deixava nada escapar.
— Por que eu estaria?
— Está me respondendo de forma arrogante – Esclareceu recebendo um suspiro pesado como resposta – Eu te chamei pra ir comigo, mas você não aceitou! Tem certeza que não quer ir?
— E segurar vela? Não mesmo – Rosnou desistindo do livro o largando na cama, levantou-se ficando de frente a garota – Além de que eu não gosto de festas.
— Quer mesmo ficar sozinha no quarto enquanto todos se divertem no salão? – Eliza voltou a perguntar na esperança de convence-la a ir junto, talvez conseguisse uma dança com a loira.
— É tudo que mais quero nessa vida – Respondeu de forma suave, não adiantaria descontar suas frustrações na górgona, admirou-a em seu belíssimo vestido sentindo seu coração dar piruetas e o ar faltar – Vá e se divirta cabeça de vento, eu vou ficar bem.
— Se você diz... – Eliza não parecia tão animada quanto antes para o evento, suas chances de conseguir uma dança ou no mínimo ter a companhia da Addams havia sumido. Batidas então foram ouvidas na porta levando as duas para longe dos pensamentos – É ele! Estou nervosa, será que ele vai gostar?
— Seria idiota se não gostasse – Larissa soltou a frase sem nem ao menos perceber, deixando Eliza extremamente corada. Foi até a porta abrindo-a, se deparou com um idiota vestindo um terno cor de vinho segurando um corsage na mão.
— Uau, você ta uma gata! – Robin elogiou sem nem ao menos olhar para Larissa em sua frente, Eliza sorriu em agradecimento aproximando-se do par lhe permitindo amarrar o acessório com flores no pulso, só então ele olhou para a loira parada ao lado deles – E aí Lari.
— É Larissa, imbecil – Repreendeu severa causando risadas no rapaz que apenas quis irrita-la.
O casal então saiu de braços dados, causando gritinhos histéricos no grupo de falsas amigas de Eliza que os esperavam no corredor. Larissa fechou a porta voltando para sua cama, aquele maldito peixe era um cara de sorte. Addams então sentiu um mau súbito, seu estomago dava voltas e sua cabeça doía como o inferno, estava doente? Que puta sorte ela tinha, nem um Addams ficava mal, mas ela conseguia fazer este feito! Revirou-se na cama sentindo o corpo febril, decidiu dormir um pouco, se não passasse ela iria até a enfermaria na manhã seguinte.
Larissa abriu os olhos repentinamente, o teto do quarto pareceu girar brevemente e então piscou algumas vezes. O barulho de batidas altas na porta fizeram sua cabeça latejar mais um pouco, levantou-se sentindo um pouco de suor escorrer da testa, sinal de que sua febre estava piorando.
— Já vai porra! – Gritou a passos lentos, o barulho irritante soando cada vez mais alto, quando abriu a porta olhou confusa para uma das amigas de Eliza, conhecia bem a morena a sua frente.
— Eliza está no quarto?
— Ta vendo ela aqui? – Respondeu rudemente.
— É sério Larissa, ela não chegou aqui? – A garota tornou a perguntar o olhar sério fez a loira ficar intrigada, o que estaria acontecendo?
— Não, ela não apareceu.
— Porra...
— O que ta acontecendo?
— Aquele idiota! – A menina continuou a falar consigo mesma, o olhar preocupado voltado para a tela do celular onde o contato da górgona aparecia piscando em uma chamada que nunca era atendida.
— Me responde cacete! – Larissa segurou a garota pelos ombros lhe obrigando a encarar. A sereia estranhou o olhar desesperado da Addams, porém não deixou de lhe responder.
— Ela disse que viria para o quarto descansar, que não se sentia muito bem, estava tonta, achamos que era por conta das bebidas batizadas – Explicou rapidamente – Robin ofereceu pra acompanhar ela, pra evitar que algo acontecesse no caminho, mas...
— Mas o que?! – Larissa sentia seu mundo desabar aos poucos, um desespero nunca sentido antes, nem lembrava-se da sua doença, apenas queria saber sobre a colega de quarto — Pare de mistérios Barclay! Responde logo caralho!
— Eu... Eu ouvi uma conversa, dos amigos do Robin – Continuo a explicação temerosa, nunca viu a Addams com os olhos tão cheios de ódio quanto naquele momento – Eles haviam feito uma aposta, que o Robin deveria... Deveria tirar a virgindade dela.
— Ele o que?! – O grito de indignação pareceu mais um rosnado, fazendo a sereia filha de Bianca tremer de medo – Pra onde caralhos ele foi?!
— E-eu não tenho certeza, mas disseram que viram eles indo pra floresta e-
Sem esperar por mais detalhes a Addams correu, correu como nunca havia feito na vida. Passou tão rápida pelos corredores que não notou o irmão chamando por ela curioso do motivo da mesma estar de camiseta e short de malha – sua roupa de dormir — correndo pela academia. Trombou em alunos embriagados, casais namorando e colegas tirando fotos, não ligou para os gritos de raiva, não parou quando ameaçaram contar para o diretor. Pela floresta ela corria sentindo o ambiente a sua volta diferente, não era como das outras vezes, tudo parecia mais amplo, o som dos animais, os cheiros, a terra molhada em contato com seus pés descalços, sentia que poderia correr mais rápido e o fez, o vento então lhe trouxe um aroma inesquecível.
Eliza.
Foi na direção do cheiro, estava diferente, ela podia sentir. Eliza estava com medo e o outro aroma que estava com ela incomodava seu olfato, lembrando-a do cheiro de gás escapando, silencioso, mas mortal.
Eliza tinha seus olhos fixos em Robin, sentia-se ainda tonta, porém conseguia compreender o que estava acontecendo. Ele não a levou ao dormitório como disse que faria, ao invés disso lhe guiou pela floresta que rodeava Never More aproveitando-se que ela não conseguia reagir bem, quando achou que estava longe o suficiente a deitou próximo a uma árvore e removeu o terno, aos poucos Petropulos foi voltando em si, mas o medo do que estava por vir lhe paralisou, as mãos tremulas, o coração pulsando tão rápido e forte que chegava a retumbar nos ouvidos impedindo que ouvisse outra coisa a não ser seu desespero, ela não conseguiu reagir quando ele deu alguns passos em sua direção, esquecendo-se até mesmo das suas cobras escondidas em seu gorro e que poderiam lhe ajudar, imaginou que aquele era seu fim, quando um rugido fez-se presente e por entre as arvores saltou um lobo de pelagem loira em cima do tritão.
A fera e o adolescente extremamente habilidoso nas artes marciais entraram em um embate, rolando pelo chão entre chutes, socos e mordidas. O lobo a todo custo rosnado em ódio enquanto tentava morde-lo. Eliza assistiu desesperada o animal arranhar o peito de Robin fazendo jorrar sangue, pensou que ela seria a próxima. Mas o que aconteceu a seguir lhe pegou de surpresa, o lobo deixou o rapaz fugir logo após o ferimento, ele correu de cueca e com o peito ensanguentado sem importasse com qual destino Eliza teria com o grande animal selvagem. E então o lobo lhe encarou, os olhos vermelhos, respiração descompassada, ele aproximou-se cuidadosamente, por alguma razão Eliza não sentiu medo lhe permitindo aproximar-se de si, a respiração da criatura bateu em sua face e então inconscientemente a górgona levou sua destra até a cabeça dele, acariciando de leve.
— Quem... Quem é você? – Sussurrou em um suspiro, grata pela fera ter lhe salvado.
O lobo então curvou-se em agonia, Eliza ouviu o estalar de várias coisas como gravetos quebrando, o animal diminuiu gradativamente de tamanho, rugindo de dor, a voz gutural deu-se lugar a uma tonalidade conhecida pela adolescente e os pelos que sumiam aos poucos lhe revelou quem era a criatura. Larissa jogou-se no chão, cansada e dolorida, respirando com dificuldade observou suas mãos voltando a forma comum, as unhas diminuindo de tamanho.
— Larissa?! – Eliza desesperou-se novamente, o que estava acontecendo? A Addams não era uma psíquica e seu irmão lobisomem? Ou era o contrário e por ser tão desatenta não percebeu?
— Porra... Isso dói pra caralho – Resmungou ignorando a colega de quarto que aproximava-se desesperada.
— Você ta bem? – Eliza ajudou-lhe a sentar-se ficando envergonhada por vê-la sem roupas, tão perfeita... AH, FOCO! Procurou em volta algo para lhe cobrir encontrando as roupas largadas de Robin, entregou o terno para a loira – Você é uma lobisomem?
— Acho... Acho que sim – Larissa parecia tão confusa quanto ela, vestiu o terno, não era o momento, mas lhe caia bem a peça de roupa – Você ta bem? Eu cheguei a tempo? Ele não tocou em você tocou?
Larissa aproximou-se da garota, lhe tocando procurando qualquer evidência de que ele a tivesse machucado, Eliza riu, nunca havia lhe visto tão preocupada com nada na vida. Ainda sentia a adrenalina do que poderia ter acontecido, iria precisar de terapia, mas a companhia da colega de quarto lhe acalmava.
— Estou bem, você me salvou – Segurou a mão da garota que encontrava-se repousada em sua face, só então Larissa parou os movimentos fitando os olhos verdes da górgona – Obrigada.
— Eu... – Porra! Larissa sentiu vontade de chorar, estava tão aliviada que nada havia acontecido, não sabia se chegaria a tempo, nem sabia se lhe encontraria, apenas correu na esperança de ajudá-la – Ainda bem...
Sem esperar por tal ação Larissa abraçou a menor lhe deixando surpresa, demorou alguns segundos antes de corresponder, feliz pelo primeiro contato íntimo delas, Addams nunca abraçou ninguém além da família, sentiu-se especial. Demoraram alguns longos segundos no abraço e quando separaram-se sentiram necessidade de ainda estarem próximas, e pelo espanto e surpresa mais uma vez de Eliza, Larissa segurou sua mão dizendo que era para não se perderem na floresta, caminharam então de volta à escola.
— Me conta Lari, como você conseguiu se transformar? – Puxou assunto sem perceber que desta vez Larissa não se incomodou pelo apelido proferido.
— Eu não tenho certeza, mas... – Olhou pra lua de sangue que brilhava com todo seu explanador no céu, sabia o que transforma-se pela primeira vez em lua de sangue significava e tinha certeza que sua mãe lupina surtaria quando contasse – Eu acho que to fodida.
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