Família Addams WENCLAIR
20 Naturalidade - OneShot
Era verão e as instituições escolares haviam declarado a tão aguardada “férias de verão” para seus alunos. Na mansão Addams, todos confraternizavam em um encontro anual dos excluídos, organizado como sempre, por Enid. Os ex-colegas de escola serviam-se de drinks e vestiam roupas leves, enquanto as crianças brincavam com arminhas d’água pegando alguns adultos desprevenidos. A conversa fluía normalmente em meio a risadas e os Addams sempre amistosos, garantiam que não faltassem nem um petisco se quer para os convidados da nora. Enid saiu da mansão para os jardins dos fundos, onde todos se encontravam, ela carregava um sorriso animado e um olhar despreocupado. Notou que as mulheres pareciam entretidas em uma conversa divertida, enquanto os rapazes começavam a se envolverem demais na brincadeira das crianças.
- O que estão conversando? – Perguntou ao puxar uma cadeira vazia na roda de conversa que as mulheres tinham.
- Só comentando, como você sempre consegue organizar esse encontro todo ano, mesmo sendo a mais atarefada entre nós – Bianca revelou.
- Sério? – Enid ficou levemente envergonhada – Não é pra tanto.
- Como não amiga? – Yoko deu seu ponto ao largar o canudo da bebida que tomava – Você tem três filhos!
- Mas o que tem isso? – Tombou a cabeça para o lado, confusa.
- Bem, nós já passamos sufoco demais com apenas um, imagine três! – Divina explicou à medida que a loira foi mudando sua expressão, compreendendo aonde queriam chegar.
- Eu só consigo isso por causa da Wed – Esclareceu. Mortícia que estava na roda de conversa, sorriu com a confissão – É ela que está nesse momento dando um banho em Emma, para que eu possa estar aqui.
- Eu lembro de como era no começo com os gêmeos – Divina soltou uma risada nasalada – Vocês duas sofreram muito, principalmente Wednesday.
- Ela pode ser apta a muitas coisas, mas com certeza não estava preparada para o desafio de ter gêmeos – Bianca complementou entre risos.
- Na verdade não foi assim – Enid confessou, causando surpresa nas demais – Eu que era péssima.
- Ah Enid, não puxa sardinha pra sua esposa – Yoko censurou – Já sabemos que você a acha perfeita em tudo.
- Mas é a verdade – Mortícia se pronunciou chamando atenção das garotas – Até mesmo eu me surpreendi quando Enid me contou.
- Não brinca, isso é sério? – Divina tinha um tom de voz descrente, seus olhos foram dirigidos para a lobisomem, que lhe lançou uma expressão de “eu falei”.
- Mas e todos aqueles livros de cuidados de bebês? – Bianca parecia incrédula.
- Eu li todos, mas teoria e prática são coisas completamente diferentes – Sua mente viajou por lembranças do passado, para quando ainda carregava seus filhos no ventre – Eu entrei em parafuso quando dei à luz...
[...]
Quando a enfermeira trouxe os recém-nascidos e os depositou com cuidado em nossos braços, meu corpo enrijeceu de tanto nervosismo. Inconscientemente eu havia prendido o ar, naquele momento, estava segurando a coisa mais pequena e delicada da minha vida. Nem um livro me treinou para aquilo, eu só torcia para que não machucasse ela, mas de alguma forma, enquanto ainda tremia, acabei achando uma posição, ou foi Larissa que achou. O corpinho aninhou-se perfeitamente em meus braços e pude relaxar momentaneamente. Olhando para o lado, percebi Wednesday focada em Lúcifer, ela o segurava com tanta delicadeza e maestria, bem diferente de mim, parecia ter mais confiança em sua pegada. Inúmeras coisas se passaram por minha mente. A ficha finalmente caindo, eu era mãe!
Entrei em pânico. Como achei que estava pronta para aquilo? Não tinha nem como voltar atrás. Carreira, cuidado, criação, tudo passou voando por minha mente em questão de segundos, se pudesse resumir todo o turbilhão de sentimentos em um só, seria impotência.
- Enid, eles são perfeitos.
No instante seguinte, ouvi um “click” em minha mente, e de repente nada mais importava na minha vida. As decisões pareciam mais fáceis de serem tomadas, pois a resposta para tudo era: meus filhos. Eles sempre estariam em primeiro lugar e Wednesday me ajudou a perceber isso, ao pronunciar aquela frase. Estar com eles e saudáveis, era a única coisa que importava. A família era o que importava.
- São sim, amore mio. São perfeitos.
Quando saímos do hospital e ficamos sozinhas pela primeira vez, foi que o desafio começou. Estava confiante pelos anos de experiência sendo babá durante minhas férias de verão, na adolescência. Mas cuidar de crianças que já falavam e andavam era muito mais simples que cuidar de recém-nascidos. Naquele primeiro dia em casa, eu os observei dormindo enquanto mais uma vez, minha mente divagou para longe, me perguntando se eu cometeria algum erro, pois rapidamente percebi que as exigências de cuidados de uma criança para um bebê eram completamente opostas – em partes.
- Eles estão com fome – Em contra partida, Wednesday parecia calma e até animada, para minha surpresa.
Parecia que ela sabia exatamente o que fazer e como fazer, me senti extremamente grata por ter ela ao meu lado, não saberia bem como agir se tivesse que passar por aquilo sozinha. Imaginei como algumas mães solos deveriam se sentir e me compadeci.
À medida que os dias foram passando, eu apenas me surpreendia mais e mais com as ações de Wednesday. Sempre que imaginamos esse momento, falávamos como eu parecia ser a que mais conseguiria lidar com a situação. E não ser de fato, aquela que estava no “controle” me deixou fora do ar por vezes. Wednesday lançava olhares amorosos a todo momento, e eram esses olhares que me traziam a realidade, eu estava ali, mas não cem por cento. Apenas quando capitava aquele olhar e o sorriso genuíno de quem realmente ama o que está fazendo, eu voltava a mim, deixando os questionamentos e insuficiência de lado.
- Sente só – Wednesday levantou levemente o braço para que eu cheirasse o aroma de Larissa.
Eu não precisei dizer uma única palavra, ela percebeu o meu desconforto e medo nos primeiros dias. E de maneira natural me mostrava dia após dia, que os cuidados não era um bicho de sete cabeças, aos poucos comecei a relaxar e antes que percebesse, estava mais envolvida com eles. Ao trocar nossos filhos, por exemplo, Wednesday ficava ao meu lado, me orientando de forma descontraída, me distanciando daquela cobrança interna que aquela vozinha chata no subconsciente me dizia quase a todo instante “você deveria já saber fazer isso!”. Como se uma mãe nascesse já sabendo ser mãe. Algumas de fato, tinham mais facilidades que outras e nós duas éramos a prova.
- Cheirinho de leite – Murmurei encantada. Eu não tinha nem me dado conta que não estava prestando atenção a esses mínimos e perfeitos detalhes que envolviam nossos filhos.
- Lúcifer também cheira assim – Olhou amorosamente para nosso pequeno, que dormia no berço – Amo esse cheiro.
Sorri encantada com a sinceridade. Com paciência e inúmeras demonstrações de carinho e naturalidade aos cuidados, eu me acostumei e já me sentia à vontade para aproveitar o momento com eles, chegando a conseguir ter pequenas conversas durante um momento ou outro. Antes me sentia travada, então evitava até de pensar demais, mas ver Wed dialogando com eles, como se entendessem de fato o que acontecia, foi uma das formas que me acostumou a ideia.
- Parece que está na hora do banho – Comunicou assim que notou as fraldinhas sujas, soltei uma risada abafada.
- Parece que a mamãe está bem empolgada para limpar vocês – Sorri para Lúcifer, já o pegando para banhar.
Wednesday sorriu para mim antes de pegar Larissa nos braços. Eu percebi no brilho do seu olhar algo diferente, ela estava percebendo meus avanços e parecia bastante feliz com isso. Eu também ficava contente, por tanto sorri satisfeita.
[...]
- Acho que pude ter tido algum tipo de depressão pós-parto – Enid deu de ombros. Era uma pequena possibilidade, mas ela sabia que foi o medo e ansiedade que a paralisou naquela primeira semana.
- Não é possível gente – Bianca parecia incrédula e levemente irritada – Será que não existe uma coisa que Addams não seja boa?!
Mortícia riu, sabendo que sua filha causava certa inveja nos amigos por sempre parecer ser superior a eles em praticamente tudo. Ela admitia que se estivesse no lugar deles, talvez se irritasse com isso, o sentimento era compreensível.
- Ah, deve ter alguma coisa sim – Enid acompanhou as risadas da sogra, seus olhos capitaram a figura da esposa descendo as escadas com uma Emma de seis meses aninhada em seus braços. Sorriu apaixonada ao encontrar aquele mesmo olhar de carinho nos olhos da latina – Mas se tem, eu desconheço.
FIM
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