Família
5 Capítulo V - Sombra
Notas iniciais
Às vezes, os dias menos sombrios num período complicado são como um lembrete.
Eles não apenas dizem que a vida não desistiu de você e que o sol brilha tão quentinho como sempre brilhou, por mais difícil que seja ver isso no momento. O melhor é o que eles falam depois; lembram-nos porque ver outro amanhecer é tão importante. Continuar aqui e não ir embora têm suas compensações, e aquele menino sabia disso como ninguém. Estava mais do que convicto que cada um merecia um lugar sob o céu antes de estarmos a cima dele.
Uma pergunta importante:e se não houver sol?
Ken Ichijouji sabia que isso podia acontecer. Testemunhara a luz ser sugada de sua vida e a mesma banhá-lo com águas negras. Elas cegaram seus olhos, tomaram seu corpo e penetraram fundo na pele. Ken tinha se afogado numa coisa tétrica, viciante, cheia de sussurros e mentiras. Elas tinham vindo para regar e fazer brotar o que não deveria ser cultivado jamais.
Tinha uma flor dentro dele que precisava de sombras para crescer e ela era venenosa.
Mas ele não estava sozinho.
“Ken, meu querido, eu estou tão orgulhosa de você!”
“Nunca te vi tão feliz e tão ativo, hein, filho. Daqui pra frente são só melhoras!”
(...)
“Você quer ir soprar bolhas de sabão na varanda?”
(...)
Ele tinha uma mãe, um pai e um irmão.
Seus pais lhe deram a resposta sem uma única palavra (nós não morremos quando o sol vai embora, fazemos de outra estrela o nosso próprio), arrancaram a flor e deixaram a luz entrar. Seus pais não sabiam bem o que havia acontecido com ele em todo o tempo dedicado a lidar com o seu abandono abandonando a realidade, seus pais estavam confusos e preocupados e profundamente tristes, seus pais estavam arrependidos de não terem notado-o antes pelo que ele era e não pelo que ele deveria ser.
Seus pais não desistiram dele nem quando ele desistiu de si mesmo.
Podia ver tudo aquilo em seus olhos, mas principalmente nas ações. A mãe dele andava cozinhando mais bolos e biscoitos, felicíssima com o fato de que agora o filho estava contente o suficiente para trazer à casa mais boquinhas famintas, falantes e risonhas para comê-los. “Ken, você anda rindo e comendo mais, não é? São esses seus amigos, umas graças... Eles parecem uma turma divertida! Fazem tão bem a você!.” Ela era uma mulher muito doce. Ken, portanto, considerava-se muito sortudo por tê-la como mãe, e se esforçava para ser um filho merecedor de toda essa gentileza.
O pai, por sua vez, nunca havia se mostrado uma companhia tão presente. Passou a levar o filho mais novo para jogos de futebol, torneios de xadrez, peças, musicais, passeios no parque e afins, além de ajudá-lo em casa com deveres de casa. “Sei que você não está acostumado a pedir ajuda nessas coisas, mas sempre tem uma primeira fez, tranquilo!” Mais do que isso, mantinha-se ao lado do filho quando ele estava quieto e perdido em pensamentos mórbidos. Ajudava-o, com uma boa conversa e um abraço, a sair daquilo para um lugar infinitamente menos escuro, sem arrependimentos ou dor.
Seu irmão não fez nada, naturalmente.
***
║Ichijouji Osamu: 1989-2000║
Um túmulo é algo estranho, ele decidiu ao depositar as flores azuladas sobre a superfície de pedra. A lápide não era ele, mas era o objeto com qual Ken conversava toda vez que queria trocar algumas palavras com Osamu. O vento frio proporcionou-lhe calafrios e ser filho único era algo com o qual ele demoraria muito para se acostumar. Curvou-se em agradecimento.
Afinal, Osamu podia não tê-lo ajudado a se recuperar, mas as memórias dele ajudaram.
Eu tinha uma família estranha. Nós tínhamos.
Era trágico que Osamu tinha sido membro da família quando ela apenas focada na imagem que ele mesmo detestava e mantinha a contragosto, e, quando ele deixou de ser – fisicamente, pois o retrato dele jamais deixaria seu lugar de honra na sala de estar –, deixou para trás uma família ainda mais estranha. Uma deprimida, vivendo num passado que não pertencia mais a ninguém.
Não se preocupe, já melhorou. Estamos bem. Eu estou bem. Sinto muito que você não está aqui pra ver...
Durante os anos que seguiram a partida do irmão, Ken estivera amargo demais para ter sentimentos nostálgicos ou ir rezar para ele no cemitério. Era apenas uma tristeza excruciante que se transformou em raiva, desgosto e ressentimento. A imagem dele era escurecida e disforme. Entretanto, agora o menino vivia brilhante em suas memórias, colorido, barulhento, quente.
Osamu deixara de ser uma só sombra há muito tempo.
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