Família...
4 Re-Encontro
Certa vez, Kamila e Tatiane foram passar as férias na casa do tio de Kamila. Ele morava longe das jovens e isso seria bom para as férias serem despreocupadas. O tio de Kamila se chamava Kayan Truks. Um homem com dinheiro suficiente para não precisar trabalhar pelo resto da vida. Ele morava com as filhas em uma grande casa que tem espaço para pelo menos cinco casais de hóspedes.
Assim que as jovens chegaram à casa de Kayan, foram recebidas pela empregada que as esperava junto à porta. A empregada pegou as malas e as fez entrar, levando a bagagem para um dos quartos de visita.
– Prima!
Alexia gritou assim que as viu entrar na sala de estar, onde ela e sua irmã estavam assistindo televisão.
– Alexia! Quanto tempo!
Kamila a abraçou forte e elas deram um selinho uma na outra, deixando Tatiane com ciúmes e Alex desconfortável.
– Acho que você não deve conhecer direito ainda, mas essa aqui é minha gêmea. — Alexia apontou a irmã que estava ainda sentada no sofá. Alex levantou-se e as cumprimentou sem muito afeto, por não as conhecer.
– Alex, essa é nossa prima Kamila! E aquela ciumenta ali atrás é a namorada dela, Tati.
Alexia disse rindo e deixando Tati com mais ciúmes ainda.
– Não fica com ciúmes princesa. Já peguei muito essa minha prima! Mas agora só quero saber de você...
Kami pegou Tati pela cintura e beijou-lhe intensamente até Kayan entrar na sala gritando:
– Mas tão cedo! Mal chegaram e já tão de putaria na minha sala!
Kayan conhecia bem a sobrinha e sabia que ela respeitava sua casa. E todas ali sabiam que ele adorava exagerar nas brincadeiras.
– Tio!!! — Kami terminou o beijo e pulou no colo do tio. — Estava com tanta saudade, tio! Se não fosse o trabalho viria morar aqui...
– E porque não larga o trampo e vem?
– Aquela ciumenta ali não deixaria... Se bem que assim... Teríamos mais tempo juntas...
Kamila puxou a namorada que estava extremamente tímida e a abraçou.
– Para com isso, Kami... Tá me deixando envergonhada.
– Essa é sua namorada? Bem que você disse que ela é linda... Se não fosse sua...
– Tio!
Depois da recepção, Kamila e Tatiane foram para o quarto preparado para as duas. Tati ficara mais quieta que o normal e Kamila estranhara isso.
– O que houve, Tati? Não gostou da minha família?
– Gostei... Menos da sua prima.
– Qual delas? Não é incrível que eu só conheça a outra depois de mais de vinte anos?
Kamila estava feliz por rever o que sobrara de sua família. Mais feliz ainda porque ela aumentara de repente.
– Da Alexia. Não gostei de você ter beijado ela.
– Amor, nós fazemos isso desde a adolescência. E além disso, eu tenho minha gostosa comigo e ela tem o cara dela, eu acho.
– Jura que não vai mais fazer isso?
– Eu juro!
Enquanto isso, no quarto das gêmeas, elas conversavam sobre o que acontecera naquele dia.
– Você e a Kamila já namoraram?
Alex perguntou curiosa e abismada.
– Não foi exatamente um namoro. Ela morou conosco por um tempo, e como meu pai deixava-nos livre, nós acabamos ficando por um longo tempo. Mas era como se estivéssemos descobrindo o mundo.
– Então você é...
– Sim. — Alexia respondeu rindo. — E eu sei que você também é!
– C-como?!
– Um dia aí eu peguei seu celular e vi umas mensagens...
Como duas crianças, as gêmeas sairam correndo: Alexia fugindo de Alex que queria bater nela com um travesseiro.
– Quem mandou você mexer no meu celular?!
Enquanto Alex gritava, Alexia gargalhava. Até que no meio do corredor Kayan apareceu e Alexia foi para as costas dele.
– O que tá acontecendo?
Kayan perguntou pegando o travesseiro da mão de Alex.
– Ela invadiu minha privacidade!
– Vocês dividem o quarto, onde que tem privacidade aí? — Kayan disse rindo, mas Alex o olhava séria. — Tudo bem, tudo bem... Será que vocês não podem se resolver como duas adultas que vocês são?
– Manda ela ficar longe do meu celular! — Alex falou apontando para a irmã.
– Alexia... — Kayan olhou para a filha, que concordou com a cabeça. — Ótimo, agora quero ver o abraço de vocês.
– Mas pai! — as duas reclamaram.
– Agora! — elas se abraçaram e iam para o quarto, mas Kayan as chamou: — Cadê meu beijo?
As gêmeas o beijou e foram para o quarto.
– Não mexe mais nas minhas coisas!
– Tá... Desculpa... — ficaram um tempo em silêncio e Alexia voltou a falar: — Sabe... Estamos parecendo criança... Ou melhor, estamos vivendo a infância que não tivemos juntas.
– E eu tô gostando dessa história...
As irmãs riram juntas com isso.
No dia seguinte, no dejejum, os cinco estavam à mesa se alimentando silenciosamente e isso os incomodava.
– Sério que vamos ficar nesse silêncio? — Kamila reclamou.
– Podemos ouvir você falar de sua vida na cidade grande. — Alexia propôs sorrindo à prima.
– Pode ser, mas vou logo avisando: não tem tanta agitação quanto você pensa que tem. — respondeu rindo. — Vamos ver... Terminei a faculdade no último semestre, estou trabalhando e morando na casa da minha sogrinha linda. — terminou gargalhando e colocando a mão na coxa da namorada que estava do seu lado.
Eles conversaram sobre suas vidas durante duas horas até que Alexia lembrou que tinha que ir trabalhar.
– Tenho que ir pro trabalho, infelizmente. Conversamos mais quando eu voltar.
Ela então se retirou da mesa, se arrumou rápido e foi-se.
– Que tal a Alex mostrar a cidade pra vocês? Tem algum problema? — Kayan sugeriu, olhando para a filha e para as visitantes.
– Sem problema. Só preciso me arrumar. — Alex respondeu se retirando da mesa.
– Vamos também, amor?
Meia hora depois, as três já estavam andando pela cidade. Foram ao Shopping, visitaram o Museu Municipal e terminaram o dia na praça próxima à casa de Kayan. Por volta das oito horas da noite, Alexia passou de carro pela praça e as avistando chamou-as.
– Como foi o dia? — perguntou à prima e à 'cunhada' olhando pelo retrovisor.
– Foi bom. Estou exausta. Andamos tanto... — Kamila respondeu apoiando a cabeça no ombro de Tati.
– E como foi pra você? — Alexia questionou rindo enquanto olhava para a irmã que estava do seu lado.
– Foi bom, mas dia ter sido melhor...
– Ih, não encontrou sua amiga não?
– Esquece isso Alexia!
Alexia estacionou o carro dentro de casa e todas sairam. Entraram na casa e cada uma foi para um canto: Alexia foi para a cozinha, Alex para seu quarto, Kamila para a sala e Tati para o quarto. As duas últimas ficaram tão exaustas que dormiram rapidamente onde estavam.
– Cadê sua irmã? Chegou um pacote grande para ela...
– Deve estar no quarto.
Kayan saia da cozinha, mas Alexia o chamou de volta.
– Pai, posso chamar uma amiga para vir passar o fim de semana aqui?
– Claro filha, você sabe que pode.
– Te amo pai!
– Alex? — Kayan batia na porta do quarto das gêmeas segurando uma caixa de tamanho médio nas mãos.
– Pode entrar pai!
Kayan entrou e colocou a caixa ao lado da cama de Alex.
– O que é isso? — a jovem questionou antes que ele pudesse falar algo.
– Chegou para você mais cedo. Acho que é da sua mãe.
Alex abriu a caixa com medo do que teria ali dentro, mas não era nada demais. Apesar de grande só tinha um bicho de pelúcia ali dentro. O preferido de Alex quando era criança. Era um urso branco com um colete vermelho que dava para deitar em cima, mesmo ela já tendo crescido muito desde a última vez que o fizera.
Tinha um bilhete preso ao braço dele. Dizia: "Não pude jogá-lo fora. Então estou te devolvendo seu urso e que você faça o que quiser com ele."
– Essa letra é da mamãe, mas não tem assinatura...
– E o que você vai fazer com esse urso de pelúcia? — Kayan perguntou, já sentado ao lado da filha.
– Quero ficar com ele. É a única lembrança que tenho da minha infância. — Alex falou sentindo nostalgia.
– Quer ver uma coisa? — Kayan sugeriu e sem esperar resposta, foi até o guarda-roupa de Alexia.
Tirou de lá um pequeno urso pardo de pelúcia que era usado para segurar o controle da televisão do quarto por ter as mãos grudadas como se estivesse abraçando o nada.
– Esse aqui foi o presente que Alexia escolheu quando tinha sete anos.
– Foi com sete anos que eu escolhi esse ursão branco...
– Vocês têm mais em comum do que pensam. Mas antes que a dona encrenca chegue, vou deixar as coisas dela no lugar e você nem sabe que eu mexi. Estamos combinado, minha filha?
– Você mexeu em algo? — Alex respondeu rindo.
Por volta das cinco horas da manhã seguinte, Kamila despertou percebendo que dormira no sofá e alguém lhe cobrira no meio da noite. Levantou-se e foi para o quarto onde Tati estava dormindo. Deitou-se ao lado da namorada e começou a fazer carinho na cabeça dela.
– Kami? — Tati perguntou, um pouco sonolenta ainda.
– Desculpa... — Kamila falou-lhe, mesmo sabendo que a outra não lhe escutaria. — Eu sei que não devia estar assim, distante de ti, mas eu me sinto outra de volta à essa casa.
– Eu sei disso. — Tati respondeu, olhando-a nos olhos. — Não lhe culpo por isso. Eu sabia que isso ia acontecer quando viéssemos.
Ambas, poucos minutos depois, voltaram a dormir por um longe tempo.
– Alexia, me dá uma carona hoje? Preciso ir à um lugar... — Alex quase implorou enquanto elas se arrumavam para o dejejum.
– Vai encontrar sua amiga? Não é meio cedo não? — Alexia questionou rindo.
A jovem tinha armado tudo para a irmã. Tinha convidado a amiga de Alex para passar o final de semana na casa pelo celular da própria Alex, que não sabia do plano. Mas que estava feliz que a amiga ia visitá-la.
– Pode ou não me dar carona?
– Posso... Só que eu não vou trabalhar hoje... Sabe, véspera de ação de graças...
– Eu tinha esquecido... Então esquece, eu vou andando.
– Claro que não! Não vou deixar você sair com toda essa neve na rua.
– Não sabia que você se importava tanto...
– Não muito, mas o papai não me deixaria ser uma irmã malvada. — Alexia disse rindo. — Eu não sou louca de perder minha irmã no meio dessa neve toda!
E rindo, as gêmeas foram para o dejejum com o pai. As visitantes ainda dormiam quando todos terminaram. Logo em seguida Alex e Alexia colocaram seus sobretudos e saíram.
Não foi difícil encontrar a amiga de Alex; ela vestia um sobretudo de uma cor bem chamativa.
– Sophia... — Alexia chamou-a quando passava pelo quarto onde a garota estava hospedada.
– Pode entrar...
– Bem... Você sabe que fui eu que a chamei aqui, não sabe?
– Sei. Alex não tem coragem para me chamar assim do nada.
Sophia respondeu-lhe sorrindo.
– Me desculpa por isso...
– Que nada. Eu queria vê-la, estava com saudade sabe...
– Alex ficava falando de você, principalmente durante a noite. Ela fala baixinho antes de dormir, mas eu sempre consigo escutar.
– Eu sei. A Alex...
Antes que Sophia pudesse terminar a frase, Alex entrou no quarto surpreendendo-as.
– Eu o quê? Já tá explanando nosso passado?
Alex brincou, sentando-se na frente da amiga.
– Então vocês...
– Sim, Alexia. Nós já estivemos juntas e se você não atrapalhar, eu consigo reconquistar ela.
Alex falou rindo e abanando a mão para a irmã sair do quarto. Alexia saiu, deixando as duas sozinhas.
– Sabe... Eu falei a verdade. Vou aproveitar que ela te trouxe aqui e vou tentar te reconquistar... — Alex disse olhando dentro dos olhos de Sophia, deixando-a um pouco sem graça.
– Você sabe que eu nunca deixei de gostar de você. Nesses três anos eu não fiquei com ninguém esperando essa oportunidade aparecer...
– Amanhã vamos à um lugar depois que eu voltar do trabalho... Você vai gostar.
Alex saiu do quarto, não querendo o modo fácil de reconquistar a primeira mulher de sua vida. Deixou-lhe com um beijo rápido aos lábios e foi-se para seu quarto.
Levaria Sophia à um restaurante que tinha um lugar reservado e ninguém as incomodaria. E assim o fez, no dia seguinte, depois que chegou do trabalho, tomando apenas um banho rápido e saindo com a mulher.
Enquanto isso, as hóspedes de Kayan estavam tão interessadas em si mesmas que aparentava que estavam sozinhas naquela casa. No quarto que foram acomodadas, as jovens passavam a maior parte do tempo. Kamila e Tatiane estavam inseparaveis, mas havia algo que Tati tentava esconder em vão da namorada.
– Tati... Quer falar alguma coisa?
– Eu? Por que eu teria algo para falar?
– Você está me olhando há um tempo e só me olha assim quando quer falar alguma coisa e não consegue.
– Você me conhece bem. Mas é besteira minha. Nada importante... — Tati tentou enrolar a outra, sem muito sucesso.
Mas como Kamila sabe que a namorada sempre acaba falando, não forçou para saber qual era o assunto, mesmo já tendo uma pequena ideia do que poderia ser.
Não foi preciso esperar muito, naquela mesma noite, Tatiane contou-lhe:
– São suas primas...
– O que tem elas?
Kamila não queria ouvir o que veio a seguir.
– Er... Eu... To com ciúme delas...
– Ciúme por que? Quase não as vejo...
– Sim... Mas... Você sabe... Você e a Alexia...
– Amor, eu já disse que não tive nada com ela. Foi só coisa de criança.
Apesar da explicação, Tati não aceitou muito bem e continuou com o ciúme que durou apenas mais poucos dias.
Enquanto isso, Alex estava ocupada com Sophia e Alexia com seu namorado, deixando as visitantes sozinhas com o tio de Kamila.
– Vocês vão ficar até quando mesmo, meninas? — Kayan perguntou durante a janta dois dias depois da confissão de Tatiane.
– Estou pensando em ficar até o final do verão. Mas se ela quiser voltar antes, eu também volto... — Kamila respondeu.
– Ótimo, amanhã vamos sair.
– E as gêmeas, tio?
– Elas estão ocupadas, não vão se importar de não irem.
– Então tudo bem.
Mais tarde naquele mesmo dia, Kayan levou sua sobrinha e a namorada ao local mais romântico da cidade. Era um simples córrego que possuía uma passagem por uma gruta. Nesta gruta estavam marcados nas paredes os mais diversos pedidos e desejos amorosos. Usando um bote alugado, as namoradas foram visitar a gruta enquanto Kayan ficou sentado próximo ao córrego.
As duas saltaram do trenó e olharam admiradas para o que estava nas paredes. Eram poucas as desenhadas, mas ali estavam histórias de amor verdadeiro. Algumas estavam dentro de caixinhas espalhadas por toda a gruta.
Ficaram quase uma hora lá dentro e, quando saíram, encontraram um Kayan adormecido embaixo de uma árvore. Estavam mais felizes e Tatiane não desconfiava mais de Kamila. Voltaram para casa e o final das férias de verão chegou com extrema velocidade para as visitantes.
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