Version:1.0 StartHTML:000000235 EndHTML:000054667 StartFragment:000000344 EndFragment:000054635 StartSelection:000000344 EndSelection:000054631 SourceURL:https://www.fanfiction.net/story/story_download.php?storytextid=24796673

Lexie acordou com os raios de sol a entrarem pelas cortinas vermelhas. Grande parte das alunas já se estavam a vestir e a preparar os livros para o primeiro dia de aulas. O dormitório era grande e com janelas amplas, facilitando a entrada da luz natural.

Levantou-se da cama e despiu o pijama das riscas para vestir o uniforme. Enquanto se preparava, observava o dormitório com atenção, pois não tivera oportunidade na noite anterior. Muitas das meninas que estavam ao redor de Lexie pareciam já se conhecer, o que a fez sentir-se ainda mais isolada. Consultou mais uma vez o horário para se certificar que teria aula de transfiguração juntamente com os Slytherin.

Percorreu o caminho até ao salão principal com os livros nas mãos. O salão já estava apinhado de alunos e professores a tomarem o pequeno-almoço com satisfação. Lexie sentiu-se um pouco observada ao percorrer o caminho até à mesa dos Gryffindor e, interiormente, desejou estar a encaminhar-se para a mesa dos Slytherin. Com esse pensamento os seus olhos quase por instinto procuraram alguém na mesa dessa equipa e logo encontrou quem procurava, Draco Malfoy. Este observava-a discretamente, olhando-a com alguma intensidade. Mas ainda assim encarou Draco e pediu desculpa com o olhar, queria poder falar com ele, explicar-lhe que ele não queria mais do que ela que tivesse ficado nos Slytherin.

Pareceu-lhe uma eternidade até chegar à mesa da sua tão indesejada equipa. Hermione estava lá, esboçando o seu melhor sorriso com um espaço entre ela e outra aluna do primeiro ano. Lexie tentou parecer o mais simpática possível e sentou-se entre as duas. Pegou numa tosta de queijo e esforçou-se por comê-la, apesar de sentir um nó na garganta por causa da sensação de observação por parte do irmão.

— Só vais comer essa tosta, Lexie?

— Eu não tenho muita fome. – justificou-se com um sorriso fraco.

— Ainda assim acho que devias comer qualquer coisa. – insistiu Hermione.

Durante uns breves segundos, Lexie não ouviu Hermione porque estava a tentar interpretar o olhar de Draco. No entanto, só conseguiu perceber que era frio e distante como sempre. Hermione sacudiu-lhe o ombro e, antes de Lexie se voltar para ela, viu Draco estreitar o olhar na direcção de Hermione.

— Não te preocupes. Eu só estou nervosa por ser o primeiro dia.

— Não sofras por antecipação,mas confesso que também estava muito nervosa no primeiro dia.

— É… é normal. – Lexie estava a soar tão fria quanto Draco e isso assustou-a, pois Hermione não merecia.

— Hermione, podes dizer-me onde fica a sala de transfiguração?

— Fica na torre dos Gryffindor.

— Obrigada. – disse, levantando-se para ir em direcção à sala.

Lexie não conseguia deixar de ficar encantada com as figuras a moverem-se dos quadros. Sorriu para todas as que lhes davam os bons dias. Passou pelo fantasma da equipa dos Gryffindor que a cumprimentou entusiasticamente.

— Olha quem é ela… — disse alguém atrás de Lexie. – Dormiste bem naquela espelunca?

Lexie teve o cuidado de respirar fundo antes de se virar de frente para Charlotte.

— O que é que queres, Charlotte? – a briga ainda agora tinha começado e já se distinguia o cansaço no tom de voz de Lexie.

— É claro que dormiste bem. Tem tudo a ver contigo! A mentira e o sangue… — comentou com um sorriso arrogante que levou as colegas que estavam a acompanhar Charlotte rirem histericamente.

— Ouve bem Charlotte, eu não sou mentirosa e não percebo porquê que teimaste com o meu sangue.

— Tu és filha de muggles. – ripostou num tom azedo, simulando um vómito.

— Eu já te disse que a minha mãe é feiticeira! – gritou Lexie, furiosa.

— Ai sim? E então como é que se chama a tua mãe? – insistiu Charlotte, cruzando o braços.

— Não te diz respeito. – Lexie demorou a responder e por momentos acreditou que fosse dizer o nome da mãe já que era a única coisa que sabia a respeito dela.

Ao ver o ar divertido de Charlotte de quem tinha ganho um troféu, Lexie virou-lhe as costas mas sentiu os seus cabelos serem puxados para trás, obrigando-a a reprimir um gemido.

— Tu não me vires as costas, sangue de lama!

— Deixa-me… em… paz! – Lexie frisou cada palavra devagar.

Charlotte largou-lhe os cabelos, mas deixou o sorriso que Lexie odiava a dançar-lhe no rosto.

— Isto não fica assim. – garantiu Charlotte, dando-lhe um empurrão. Com o impacto os livros e a varinha de Lexie caíram ao chão.

Ao baixar-se para apanhar as suas coisas, Lexie viu Charlotte aproximar-se. Fitou-lhe os sapatos com a raiva a fervilhar dentro de sie, em poucos segundos, viu o sapato de Charlotte pisar a varinha e parti-la em duas.

— Sua estúpida, olha o que fizeste! – gritou Lexie, pegando na varinha e Charlotte riu-se juntamente com as amigas.

Seguiu em frente, deixando Lexie desolada a olhar para a varinha. Era a sua primeira varinha e ela já não a poderia usar. As lágrimas formaram-se de imediato nos olhos de Lexie que se esforçava por não chorar. Ficou durante breves instantes a fitar a varinha, furiosa por Charlotte a ter partido.

Quando olhou para o relógio de pulso reparou que já estava atrasada e então enfiou as metades da varinha no bolso do uniforme. Pegou nos livros e desatou a correr com as lágrimas a correrem-lhe pela face. Assim que chegou à torre dos Gryffindor não encontrou nenhum aluno do primeiro ano à porta da sala de transfiguração. Limpou as lágrimas à manga do manto e ganhou coragem para entrar.

A professora McGonagall já tinha dado início à aula e agitava a varinha no ar, apontando para um livro grosso que em poucos segundos se transformou num copo reluzente.

— Miss Allison, o que lhe aconteceu? – a rudeza na voz da professora fez muitos alunos se encolherem nos lugares.

— Desculpe, professora, eu… não me apercebi do passar das horas. – disse, fixando o olhar em Charlotte como se isso a fosse denunciar.

— Então sente-se e esteja atenta. Espero que não volte a acontecer. – a professora McGonagall procurou o olhar de Lexie para a repreender.

Lexie assentiu com a cabeça, odiando estar a ser o centro das atenções e sentou-se na primeira cadeira vaga que encontrou. Ouviu Charlotte rir-se baixinho com a colega de carteira e desejou apontar-lhe a varinha partida ainda que isso não a assustasse.

— Como estava eu a dizer antes de ser interrompida… — continuou a professora, olhando por instantes para Lexie que abria o livro de transfiguração na página em que o seu colega de carteira lhe indicou. – Nesta aula iremos aprender um feitiço básico de transfiguração. Vamos começar por transfigurar objectos, como por exemplo um livro num copo.

Quase todos os alunos estavam atentos à explicação da directora dos Gryffindor. Lexie procurava o feitiço nas páginas do livro enquanto ouvia a professora proferir o feitiço para que este fosse bem dito pelos alunos.

— Agora repitam todos comigo. Vera verto.

— Vera verto. – repetiram os alunos.

— Muito bem. Agora vamos pegar nas nossas varinhas e eu preciso de um voluntário para demonstrar como se faz.

Charlotte pôs imediatamente o braço no ar.

— Miss Broad.

— Professora McGonagall eu só ia sugerir que fosse a Allison. Ela confessou-me que adorava mostrar os dotes mágicos. – Charlotte não se esforçou para esconder o sorriso malicioso no canto dos lábios.

Lexie sentiu o corpo ficar rígido e a vontade de amaldiçoar Charlotte apoderar-se novamente de si. A professora McGonagall olhou por segundos para Lexie que estreitava o olhar na direcção de Charlotte.

— Miss Allison?

— Eu teria todo o gosto em mostrar os meus óbvios dotes mágicos se a minha varinha não se tivesse quebrado esta manhã. – Lexie mostrou-se o mais orgulhosa e segura possível.

— Quebrou-se? Como assim? – interrogou a professora McGonagall.

Lexie suspirou e retirou a varinha para a exibir perante todos os alunos.

— Oh… — exclamou a professora McGonagall ao fitar a varinha. — Bem, temos de tratar disso. No final da aula falamos, miss Allison.

— Certo, professora. Já que a Broad tem tantas dúvidas acerca dos meus dotes mágicos, poderia ser ela a fazer o exercício. Com certeza que não terá dificuldades.

— Se têm atritos, estes terão de ficar fora das aulas. Um voluntário à força… miss Cooper?

A aluna dos Gryffindor pigarreou antes de agitar levemente a varinha e murmurar o feitiço. Automaticamente o livro transformou-se num copo de vidro.

— Muito bem. Dez pontos para os Gryffindor!

Os alunos dos Slytherin reclamaram entre si, mas logo foram silenciados pelo olhar duro de Minerva McGonagall. A aula pareceu demorar uma eternidade para Lexie, uma vez que estava constantemente a ser alvo de risos por parte de Charlotte e o grupo de amigas.

Assim que a directora dos Gryffindor ordenou que os alunos saíssem, Lexie deixou-se ficar a arrumar os livros com alguma lentidão arrastada. Não pretendia fazer queixinhas e dizer que foi Charlotte que lhe partira a varinha.

— Miss Allison quer me explicar como é que a sua varinha se quebrou?

— Eu sou uma desastrada, professora McGonagall. Esqueci-me que tinha a varinha no bolso do manto e sentei-me por cima dela. Foi um acidente. – justificou-se Lexie, esperando ter algum jeito para mentir naquele momento.

— Bom, sabe que a varinha é um instrumento fundamental para um feiticeiro. – disse a professora, esticando a mão para Lexie lhe passar a varinha para a mão. – Como não tem aulas da parte da tarde vou pedir a um dos monitores para acompanhá-la ao fabricante de varinhas.

— Ele vai consertá-la? – perguntou Lexie com os olhos cinzentos a brilharem de esperança.

— Querida, não há magia que consiga consertar uma varinha. – disse a professora com uma voz doce. – Essa varinha era universal, até vai ser melhor assim.

Lexie não percebeu o que a professora quis dizer com isso, mas fingiu ter entendido, pois já se tinha sentido suficientemente idiota por não saber que as varinhas jamais poderiam ser consertadas. Ao ver o constrangimento de Lexie, a professora continuou:

— Um dos monitores vai ter consigo depois do almoço. – sorriu levemente para Lexie e abandonou a sala.

x.x.x

Draco estava encostado à parede num dos corredores do castelo. Tinha um dos punhos cerrados e mordia o lábio inferior. Quem o visse não teria a menor dúvida de que estava nervoso ou até mesmo irritado.

Tinha acabado de assistir a uma discussão entre duas alunas do primeiro ano, mais propriamente a sua irmã e Charlotte Broad. Sentiu vontade de intervir e berrar com Charlotte. Detestou a atitude da Slytherin que tinha puxado os cabelos a Lexie com violência a mais. Sentiu vontade de ir atrás dela e dar-lhe uma advertência, mas apenas tinha ficado atrás do pilar a ver a discussão desenrolar-se de braços cruzados. Porém, Draco só o tinha feito porque daria muito nas vistas defender Lexie, uma aluna dos Gryffindor. Daria ainda mais nas vistas se aplicasse uma detenção a Charlotte, sendo esta uma Slytherin.

— Estamos a pensar ir treinar quidditch depois do almoço, vens? – perguntou Zabini, despertando Draco dos seus pensamentos.

— Eu apareço no campo. – disse, ainda a fitar o sítio onde Charlotte tinha partido a varinha de Lexie.

Draco e Zabini caminharam até à sala de poções a conversar sobre quidditch. Quando chegaram à sala já estavam todos os alunos dos Slytherin e dos Gryffindor atentos à explicação do professor Snape. Como era de esperar, Snape ignorou o barulho da porta a abrir e não deu nenhum raspanete pelo atraso. Draco viu Hermione na mesa da frente — ao lado de Neville – balançar a cabeça negativamente. Embora não a pudesse ver, teve a certeza que revirava os olhos. Isso fê-lo sorrir de lado.

Quando acabou a aula, Draco saiu da sala com Pansy atrás de si. Falava constantemente sobre alguma coisa que Draco fingia estar a ouvir. Por vezes as conversas de Pansy tornavam-se tão enfadonhas que não havia paciência que a aturasse.

— … E o que achas da ideia de fazer a festa? – perguntou Pansy, gesticulando com os braços num perfeito exagero.

— Festa? – perguntou Draco, admitindo de certa forma que não ouvira nada do que ela dissera.

— Draco, ouviste alguma coisa do que eu disse?

— Claro que ouvi. – disse, sem se preocupar em colocar um ar de inocência na face.

— Mr. Malfoy! – gritou alguém atrás deles.

Draco e Pansy viraram-se ao mesmo tempo para fitar Mr. Filch. O homem assim que os alcançou colocou as mãos nos joelhos e curvou o corpo para respirar fundo incessantemente.

— A professora McGonagall pretende falar consigo agora.

Draco revirou os olhos e bufou de impaciência. Draco murmurou um "até logo" a Pansy e caminhou em passos ligeiros até ao gabinete da directora dos Gryffindor. Suspeitou que só poderia ser algo relacionado com Lexie. Bateu à porta de madeira, sem terminar de especular sobre o que ela teria feito.

— Entre. – a voz ríspida da professora soou por todo o corredor. – Mr. Malfoy estava mesmo a precisar de falar consigo.

— O que é que ela fez? – perguntou Draco sem rodeios.

— Perdão?

— O que é que a Lexie fez? – insistiu Draco.

— Bem, a sua… irmã… — começou um pouco hesitante. – quebrou a varinha. Terá de comprar hoje uma nova. Vou falar com a monitora dos Gryffindor para ir com ela.

— A Granger? Mas porquê a Granger? – Draco estava irritado e pareceu esquecer por momentos que estava a falar com uma professora.

— É bom que se acalme, Mr. Malfoy. Quem esperaria que fosse? – a professora McGonagall também estava irritada com a ousadia de Draco e principalmente por ele tentar contornar as suas escolhas.

Draco riu-se sem vontade, concordando interiormente que não tinha outra escolha. Ou a Granger ou então o Weasley, entre os dois que viesse o diabo e escolhesse.

— Caso não se lembre não poderá ir, afinal, é monitor dos Slytherin e a Lexie está nos Gryffindor.

Draco arqueou a sobrancelha, mordendo a língua para não responder à professora.

— Será que posso dar umas palavrinhas à Lexie antes dela sair com a Granger?

— Vou mandar recado para que a Miss Allison vá ter consigo ao corujal dentro de quinze minutos. – disse a professora com um ar severo.

De seguida anotou num pergaminho amarelado uns rabiscos e pôs no bico da coruja que estava meia adormecida num poleiro ao lado da cadeira de McGonagall. Draco levantou-se da cadeira e abandonou a sala, perdido nos seus pensamentos.

Tudo o que lhe passava pela cabeça era que tinha de avisar Lexie em relação ao trio dos Gryffindor. Costumavam saber mais do que aquilo que deviam. Além disso, Draco andava desconfiado que Harry o andava a espiar de certa forma. Precisava de alertar Lexie quanto à perspicácia de Hermione e sobretudo exigir que ela não falasse mais do que aquilo que devia.

Acelerou o passo em direcção à torre das corujas que ficava do outro lado do castelo. Espreitou pelo ombro para se certificar que Pansy Parkinson não o seguia. Assim que chegou, sentou-se nas escadas de pedra mesmo no início da torre.

x.x.x

Ron estava tão deliciado com o almoço na mesa dos Gryffindor que nem dera por Hermione a contemplá-lo com reprovação. Depois de pegar noutra coxa de frango e beber um gole de sumo de abóbora reparou que Harry o olhava com um ar divertido.

— O que foi? – perguntou com a boca cheia, o que fez Hermione ficar ainda mais irritada.

— Não devias comer tanto.

— Ai não? E então porquê? Em que livro diz isso? – desafiou Ron.

— Ouve, não disseste que provavelmente ias jogar quidditch?

— Afirmativo. – disse Ron, limpando a boca ao guardanapo.

— Não te parece lógico que não te vá fazer bem comeres tanto e depois ires fazer exercício físico? – o tom de voz de Hermione era de quem estava a dizer que dois mais dois são quatro.

— Hermione…

— Miss Granger! Miss Granger! – chamou o Mr. Filch que corria desastrosamente pelo salão principal com Mrs. Noris ao colo.

Hermione fitou-o preocupada.

— A professora McGonagall… pediu… para lhe dizer que depois do almoço a quer no gabinete.

— Obrigada, Mr. Filch.

Mr. Filch começou novamente a correr na direcção oposta e metade do salão explodiu em gargalhadas sonoras, incluindo Harry, Hermione e Ron.

— Chamou por ti como se estivesses a fugir dele. – disse Harry.

— Se não te conhecêssemos, Hermione, diríamos que estavas em sarilhos com a professora McGonagall.

Hermione sorriu com o comentário de Ron e levantou-se da mesa. Já tinha acabado de almoçar e achou melhor ir saber o que é que a professora McGonagall precisava.

— Encontramo-nos na sala comum.

— Não te esqueças que temos de falar, Hermione. – disse Harry, lançando-lhe um olhar cúmplice.

Hermione acenou afirmativamente com a cabeça e abandonou o salão principal. Sabia perfeitamente a que Harry se referia e também sabia que não valia a pena voltar a contrariá-lo. Harry era demasiado teimoso para querer pensar nas consequências do plano que queria colocar em acção.

Estava a ir em direcção ao gabinete da professora McGonagall quando encontrou Draco Malfoy a sair de lá de dentro. Rapidamente concluiu que a professora a chamara por algum assunto relacionado com os monitores. Mas depois lembrou-se que Ron também era monitor. Sacudiu os ombros, mentalizando-se que ficaria já a saber o que era, não havia necessidade de estar ansiosa.

— Miss Granger! Estava mesmo à sua espera. – disse a professora McGonagall com um sorriso caloroso.

— Passou-se alguma coisa, professora? – perguntou Hermione, embora soubesse pelo sorriso de McGonagall que estava tudo bem.

— Uma aluna do primeiro ano partiu a varinha. Eu precisava que a acompanhasse durante a tarde de hoje ao Ollivander para comprar uma nova.

— Claro que sim, professora. Quem é a aluna?

— É a Lexie Allison.

— Já sei quem é, professora.

— Já comuniquei com a mãe dela. Até foi melhor assim, era uma daquelas varinhas universais. Tem aqui o dinheiro. – disse a professora, estendendo um saco de um branco imaculado com galeões lá dentro.

Hermione pegou no saco e colocou-o dentro da sua mala castanha de tiracolo. Sorriu para a professora de transfiguração e fechou a porta silenciosamente. Apressou o passo em direcção ao campo de quidditch, esperando encontrar Harry e Ron. Tinham combinado que depois do treino se iriam juntar para continuarem a esboçar o plano que Harry tinha em mente. No entanto, o pequeno incidente de Lexie tornara impossível, pois não sabia ao certo quanto tempo demoraria. Achou melhor avisar os amigos antes de ir procurar a aluna à sala comum dos Gryffindor.

— Harry! – gritou Hermione ao vê-lo erguer-se na vassoura.

Depois de avistar Hermione, Harry fez sinal aos da equipa dele para aguardarem um minuto. Voou até Hermione e deixou-se ficar no ar a uns dois metros do chão.

— Precisas de alguma coisa, Hermione? – perguntou Harry com o cabelo preto colado à testa.

— Vou ter de ir à Diagonalley com uma aluna. Não devo chegar a tempo.

— Hermione, mas nós tínhamos…

— Ouve, Harry, não penses que me estou a tentar esquivar. Já me mentalizei que queres mesmo traçar este plano. – disse Hermione quase num sussurro.

Alguns dos jogadores que estavam em cima das vassouras gritaram por Harry e assobiavam para chamar a sua atenção.

— Potter é melhor despachares-te! Não tirámos o campo aos Slytherin para ficarmos sem treinar… — disse um rapaz de ar impaciente que estava a atirar constantemente a quaffle ao ar para depois apanhá-la novamente.

Harry ignorou o comentário do colega e encarou Hermione.

— Desculpa, eu sei que não tens culpa. Mas logo à noite temos de falar. – disse Harry com um olhar severo.

— Avisa o Ron. Até logo. – disse Hermione com frieza.

Custava-lhe ser assim para o melhor amigo, mas a verdade é que nos últimos dias Harry andava impaciente. Estava excessivamente irritante e obcecado com o plano.

x.x.x

Draco já estava há alguns minutos à espera de Lexie. Logo após se ter sentado, levantou-se e andou de um lado para o outro, fitando os próprios pés. Bufava, cruzava e descruzava os braços. Sentiu uns passos atrás de si, apressados e certos. Não se virou imediatamente, embora fosse essa a sua vontade. Deixou Lexie aproximar-se e ouviu a respiração desregulada.

— Draco? – a voz tremida de Lexie fê-lo virar-se de frente. — Vais ralhar comigo, não vais? Mas antes que me digas alguma coisa, tens de me deixar falar. Foi uma aluna da tua equipa que a partiu, ela odeia-me, Draco. Tens de acreditar em mim. – Lexie atropelava as próprias palavras para tentar falar rápido.

— Eu vi o que aconteceu. – disse Draco tranquilamente.

— Ela chama-me de mentirosa. – disse Lexie, sentando-se na beira das escadas.

— Esquece a Broad. Ela não é grande ameaça. Além disso, estou aqui para falar contigo sobre outra coisa. – a voz de Draco estava neutra e Lexie não lhe conseguiu distinguir nenhum sentimento.

Suspirou pesadamente e piscou os olhos.

— Não vais ralhar comigo? – perguntou Lexie com admiração na voz.

— Não. – disse simplesmente, olhando para os dois lados do corredor. – Anda, ali ninguém nos ouve. – disse Draco, puxando Lexie pelo braço escadaacima.

— Toda a gente é má aqui. – disse Lexie, fitando Draco.

Draco retirou a varinha e Lexie esbugalhou os olhos. O Slytherin ignorou a expressão da irmã e lançou um feitiço:

— Abiffiato! – a voz de Draco saiu num sussurro. – Agora já podemos falar mais à vontade.

— O que tens para me dizer?

— Lexie, tens de ter cuidado com quem falas. Há pessoas que te parecem boas, mas não são.

— Estás a falar de quem? Eu não quero mais falar com a Charlotte. Não falo com pessoas que me chamam de mentirosa. – disse, rancorosamente.

— Já te disse para esqueceres a Broad. – disse Draco um tanto agressivo. – Não temos muito tempo para estarmos aqui a falar. Eu estou a falar da Granger.

— Da Hermione Granger? – perguntou numa oitava a cima.

Draco acenou afirmativamente com a cabeça.

— Sim. Lexie, tens de ter cuidado com o que lhe dizes.

— Mas ela… ela é muito simpática comigo. E parece-me ser das únicas pessoas que fala para mim sem ser por obrigação.

Draco soltou uma gargalhada.

— A Granger é estúpida. Afasta-te dela e dos amigos dela, Lexie.

Lexie viu a fúria no olhar de Draco. Não havia margens para dúvida, Draco odiava Hermione e Lexie não sabia porquê. Todavia, também tinha a certeza que Draco não lhe contaria de boa vontade. Por isso, decidiu deixar os porquês de lado e acenou com a cabeça.

— Hoje ela vai contigo comprar a tua nova varinha. Atenção ao que dizes. — Draco lançou um olhar de aviso a Lexie e desfez o feitiço para não deixar Lexie argumentar.

— Está bem. Eu já recebi um bilhete para ir ter à sala comum.

Lexie desceu as escadas em passo lento, apesar de saber que estava atrasada. Sentiu Draco agarrar-lhe no pulso quando estava a chegar aos últimos degraus.

— Sexta-feira às dez da noite aqui. – disse Draco com a voz rouca.

Apesar de ter vontade de se virar para trás e contemplar novamente os olhos cinzentos tão parecidos com os seus, Lexie seguiu em frente, soltando-se da mão de Draco. Como é que ele conseguia ficar tão indiferente à tristeza e melancolia dela? Não conseguia perceber que ela ainda agora tinha chegado ao castelo e já detestava toda a gente? Lexie estava indignada com a frieza de Draco. Mas, mesmo assim, não havia maneira de deixar de gostar dele como se ele tivesse sempre feito parte da vida dela. Não conseguia deixar de admirá-lo e vangloriar-se de tê-lo como irmão.

x.x.x

Lexie estava dez minutos atrasada quando chegou à sala comum dos Gryffindor. Tinha as bochechas avermelhadas e ofegava, o que levou Hermione a concluir que ela tivesse vindo a correr.

Hermione estava sentada numa poltrona a fitar as chamas na lareira. Apesar de lá fora não estar a chover, ultimamente estava a chegar o frio. Vestia umas calças de ganga justas e uma camisola de malha rosa. Sorriu para Lexie e fitou-a.

— É melhor trocares de roupa.

— Desculpa o atraso. Tive um contra-tempo. – justificou-se, sempre com as palavras do irmão a passarem-lhe na mente.

— Não te preocupes. Vai trocar-te, está frio lá fora. Parece que o Outono chegou. – disse Hermione com um sorriso a dançar-lhe nos lábios.

— Dá-me cinco minutos. – Lexie tentou colocar o tom de voz mais frio que conseguia, mas isso não combinava com ela.

Sentiu-se extremamente mal por tratar Hermione com frieza. Suspirou e dirigiu-se para o dormitório, onde vestiu umas calças e uma camisa. Pegou num casaco de malha e saiu porta fora.

— Estou pronta. – disse ainda no cimo das escadas.

Caminharam juntas em silêncio até ao gabinete da professora McGonagall. Juntamente com a professora iriam até Hogsmead, onde viajariam através da lareira de uma das lojas. Lexie nunca tinha viajado por pó de floo, o que a fez sentir-se mais uma vez à parte enquanto a professora falava com Hermione.

— Miss Granger, vocês vão sair precisamente numa das casas ao lado do Ollivander. A lareira dele está com um problema, por isso têm de sair um pouco mais ao lado.

— Tudo bem, professora. Estaremos de regresso em breve.

Lexie viu Hermione ir para a lareira e murmurar "Diagonalley" com precisão e clareza. A professora ordenou que fizesse exactamente o mesmo e então Lexie pegou com a mão direita um pouco do pó que estava no jarro. Murmurou a mesma palavra e viu as chamas verdes ofuscarem-na.

Aterrou em frente a Hermione que estava a sacudir as cinzas da roupa. Ajudou Lexie a sair da lareira e esta fez exactamente o mesmo.

— Bom, não é lá muito higiénico viajar pela lareira. Estás com a cara cheia de pó.

— Tens razão, mas é um dos meios mais rápidos. – disse, soltando uma gargalhada sincera.

Depois procurou na mala lenços e estendeu-lhe um.

— Obrigada. – disse Lexie, segurando no lenço e dirigindo-se para um espelho.

Assim que se encontraram no meio da Diagonalley, Lexie não conteve o entusiasmo e fixou tudo o que conseguia. Sentia-se maravilhada com o local que nunca tinha visitado. Parecia um shopping de rua muggle. No entanto, podiam-se ver vários feiticeiros, com vestes compridas e chapéus pontiagudos, circularem pelas ruas. Entravam em várias lojas que tinham montras chamativas. Viu uma loja de doces e ao avistar um rapazinho pequeno a sair com um gelado sentiu vontade de comer um. Estava frio, o que a fez ainda mais relembrar de momentos em que ia com o pai em pleno Inverno comer um gelado.

Reprimiu um pequeno suspiro a custo e sorriu para Hermione que a olhava com um sorriso genuíno. Cada vez que se lembrava das palavras do irmão sentia um peso em cima dela. Não podia ser sincera nem com Hermione. E por mais que Draco lhe alertasse sobre Hermione, ela continuaria a achar que ela era de confiança.

— Estava a pensar que depois de irmos comprar a tua varinha, podíamos ir lanchar.

— Isso seria óptimo! – disse num tom eufórico. – Quero dizer, tudo bem… se tu quiseres. – disse, procurando usar o tom frio e calculista de Draco.

Hermione não pôde deixar de sorrir com a espontaneidade de Lexie. Sentia que ainda não a podia compreender muito bem, pois tinha uma personalidade mista e forte. Mas não conseguia deixar de se rever nela quando era mais nova. Também teria gostado que alguém a tratasse da mesma maneira que ela estava a tratar Lexie.

— E então o que aconteceu à tua varinha?

— Simplesmente quebrou-se. – disse, ficando subitamente triste. – Já sei que não tem arranjo possível.

— Infelizmente nenhuma magia consegue restaurar uma varinha. Mas pelo que eu sei até foi melhor assim, Lexie... – disse Hermione, colocando a mão no ombro de Lexie.

— Eu nem sequer a tinha usado! – replicou Lexie, cruzando os braços.

— A tua varinha era daquelas universais. Agora vais ter uma varinha que te vai escolher.

— O que é isso da varinha ser universal?

— É uma varinha que serve para qualquer feiticeiro. Como as características são vulgares, os resultados dos feitiços são praticamente iguais, independentemente de ser utilizada por mim ou por ti.

— Acho que já entendi.

— Agora vais ter uma varinha com características muito mais invulgares. Aliás, vais ter uma varinha que te vai escolher.

— E se nenhuma me escolher? – perguntou genuinamente preocupada.

— É claro que alguma te há-de escolher. E assim que pegares nela vais sentir que aquela varinha já te estava destinada.

— Qual é a sensação, Hermione? – perguntou Lexie com curiosidade.

— É uma sensação de poder… como se pudesses fazer qualquer coisa com ela.

Lexie ficou pensativa até entrarem no Ollivander. A loja estava cheia de pó e muito escura, pois as janelas estavam tapadas, de modo que não entrava quase luz natural. O chão de madeira rangeu quando elas se aproximaram do balcão. Não conseguiam ver o fabricante das varinhas em lado nenhum, pelo que Lexie se sentiu um pouco desconfortável naquele sítio. Estava à espera de encontrar alguém atrás do balcão.

Hermione pigarreou para chamar a atenção. Um homem de cabelos brancos e de rugas surgiu com um sorriso extremamente amável nos lábios. Fixou o olhar na Lexie e depois pousou-o novamente sobre Hermione.

— Miss Granger, não contava vê-la por aqui tão cedo! Talvez daqui a uns aninhos com os filhos.

— Mr. Ollivander, que bom vê-lo! Vim mais cedo com uma aluna da minha equipa. – disse Hermione com um sorriso simpático.

— Ah, correcto. – disse com a voz rouca, sem deixar desvanecer o sorriso. — Não me lembro de te ver por aqui, minha querida. – continuou, direccionando-se para Lexie.

— Isso é porque eu realmente não estive aqui. – disse Lexie, sentindo-se contagiada pela simpatia do senhor.

— Não vieste comprar uma varinha?

— Eu estive fora do país até entrar em Hogwarts e não tive tempo de vir comprar a minha varinha. Mas a minha mãe tinha uma varinha universal. – Lexie estava surpreendida por não ter gaguejado uma única vez enquanto improvisava. Estava um pouco nervosa porque Hermione estava presente e não convinha ela se aperceber que estava a mentir. – Mas a varinha quebrou-se e agora vim comprar a minha varinha. – apressou-se em continuar.

— Dá-me um minuto. – pediu Mr. Ollivander, retirando-se com uma expressão indecifrável no rosto.

Lexie sentia-se mais nervosa do que nunca, mas o enorme sorriso de Hermione fê-la acalmar-se um pouco. Queria respirar fundo, mas sabia que qualquer som ecoaria por toda a sala. Controlou as emoções, assim como sabia que Draco faria. Ela queria ser como ele, pois achava que seria perfeita.

Mr. Ollivander regressou com três caixas de madeira na mão. Retirou a primeira varinha da caixa e estendeu-a para Lexie. Um pouco hesitante, Lexie estendeu a mão e segurou a varinha. Esperou sentir a sensação de poder que Hermione lhe falara, mas sentiu-se exactamente como das vezes em que pegou na varinha universal.

— Agita a varinha. – ordenou Mr. Ollivander.

Ao agitar a varinha as outras duas caixas que o senhor tinha na mão caíram ao chão e Lexie reprimiu um grito. Não queria estragar nada, mas ao menos teve a certeza de que aquela varinha não lhe pertencia.

— Desculpe, Mr. Ollivander, mas acho que esta varinha não me quer. – os olhos cinzentos de Lexie procuraram em Hermione algum incentivo.

— Experimenta esta, querida.

A segunda varinha que Lexie segurou era com certeza destinada para ela. Sentiu um poder incrível, tal como Hermione lhe dissera. Teve vontade de agitar a varinha só para testar, apesar de ter a certeza de que aquela varinha era dela. Ao agitá-la a varinha anterior agitou-se no ar e ela voltou a colocá-la dentro da caixa com um movimento.

— Muito bem, Lexie! – exclamou Hermione, distinguindo a felicidade nos olhos brilhantes da menina.

— Hermione? – Lexie tinha os olhos esbugalhados, o que fez Hermione deixar de sorrir para fitá-la com preocupação.

— O que se passa, Lexie?

— As varinhas custam dinheiro, não é?

— Sim, Lexie, custam… a professora McGonagall deu-me dinheiro para pagares. – disse Hermione aparentemente aliviada.

De seguida pegou no saquinho que a professora lhe tinha dado e passou-o para as mãos. Mr. Ollivander pediu a quantia e acrescentou com um sorriso:

— Creio que essa não se vai quebrar tão facilmente. Pena de Fénix, azevinho, 20cm.

— Obrigada, Mr. Ollivander.

Hermione ajudou Lexie a tirar os galeões para pagar ao fabricante das varinhas e saíram porta fora com um saco de papel muito discreto. Lexie teve vontade de guardar a varinha no bolso e testá-la em alguém, principalmente se essa pessoa fosse Charlotte Broad.

— Vamos lanchar? – perguntou Hermione, quase tão entusiasmada como Lexie.

Lexie fez um sorriso de orelha a orelha, não deixando margem para dúvidas de que queria ir lanchar. Teve vontade de conversar com Hermione, fazer-lhe perguntas e tentar saber por que motivo o irmão a odiava tanto e aos amigos.

Quando entraram no estabelecimento o cheiro a bolachas e doces impregnou-se no nariz das duas que expiraram o ar com vontade. Lexie sorriu de lado ao aperceber-se que Hermione era tão louca por doces como ela. Sentaram-se numa das mesas de um dos cantos, mais acolhedora e privada do que as outras.

— Às tantas é melhor comermos um crepe, está muito frio para o gelado, não é? – perguntou Hermione.

— Eu já estou habituada a comer gelados no Inverno. E nós ainda nem no Outono estamos…

— Então vamos comer um gelado. – concordou Hermione. – Olá, boa tarde. Queria uma bola de gelado de baunilha com pepitas de chocolate. – Hermione fitava o empregado enquanto fazia o pedido com uma expressão pensativa.

— Tem sabor a limão? – perguntou Lexie com os olhos a brilharem de esperança.

— Limão, tangerina, frutos silvestres…

— Limão.

— Vai querer alguma coisa por cima? – perguntou o senhor que tinha uma pena a levitar que apontava os pedidos.

— Não. Obrigada. – disse, fingindo não estar espantada com a magia.

Enquanto o senhor não regressou com os gelados instalou-se um silêncio perturbador. Apesar de Hermione querer conhecer melhor a personalidade cativante de Lexie, não tencionava pressioná-la ou parecer demasiado interessada, pois podia incomodá-la. Quando as taças foram postas em cima da mesa, Lexie ficou a olhar para o gelado com um ar melancólico.

— Não era isso que querias? – preocupou-se Hermione.

Lexie sorriu fracamente.

— Era exactamente isto que eu pretendia. Mas deixa-me triste, sabes? – confessou, mexendo no gelado com a colher.

— Então porquê? – Hermione soube usar o tom exacto para fazer com que Lexie deixasse de olhar para o gelado e a fitasse tristemente.

— Porque enquanto estiver em Hogwarts não vou poder ir comer mais gelados com o meu pai.

— Lexie, o tempo passa tão depressa aqui em Hogwarts…

— Não é bem assim quando não temos amigos.

— Eu posso ser tua amiga.

— Não estás a perceber, Hermione. Eu precisava de amigas da minha idade… era saudável, se é que me faço entender… — continuou um pouco agressiva.

Hermione sentiu vontade de rir, pois sabia que era exactamente assim quando era criança. Lexie era uma criança especial e Hermione percebeu isso logo da primeira vez que a viu. Era frontal, espontânea e uma autêntica caixinha de surpresas.

— Mas vais ter tempo para fazeres amigas. Eu andei algum tempo sozinha pela escola até me tornar amiga do Harry e do Ron.

— A sério? É estranho, porque vocês estão sempre juntos e é difícil imaginar que algum dia não foi assim.

Hermione riu com vontade dessa vez.

— Pois, mas não foi. E acredita o Ron conseguia ser muito desagradável. Estava sempre a chamar-me chata. E o Harry parecia estar tão satisfeito com a amizade do Ron que acabou por esquecer que podia fazer outros amigos.

Geraram-se mais uns minutos de silêncio, enquanto Lexie tentava imaginar como perguntar alguma coisa relacionada com o irmão sem levantar suspeitas. Até que se lembrou que Charlotte Broad podia ser útil.

— Há pouco disseste que podias ser minha amiga.

— E continuo a dizê-lo. – disse, assentindo positivamente com a cabeça.

— Se vamos ser amigas temos de prometer que daremos espaço uma à outra. Não precisamos de andar sempre a ver o que a outra está a fazer, está bem?

Hermione mordeu o lábio inferior para não rir. Era difícil fazer amizade com uma criança de onze anos, era quase como se ela lhe fosse pedir que fizessem um contrato mágico.

— Está prometido.

Lexie sorriu vitoriosa. Tencionava deixar ainda mais claro que não podiam tornar-se muito cúmplices em público, mas pensou deixar isso para depois. Agora o importante era começar a desvendar o mistério de Draco e Hermione. Ajeitou-se na cadeira e respirou fundo, antes de começar:

— Já que somos amigas, vou contar-te uma coisa. No dia 1 de Setembro quando vim de comboio para Hogwarts conheci uma rapariga. Senti que nos poderíamos tornar boas amigas, mas enganei-me, Hermione. Depois da selecção do chapéu, eu fiquei numa equipa e ela noutra. Isso impossibilitou a amizade que íamos criar. – disse, cautelosa e com o olhar distante.

— Lexie, não devemos simplesmente quebrar laços de amizade só porque as pessoas são de outra equipa.

— Então vai-lhe dizer isso. – disse, irritada.

Isso também era o que ela achava. No entanto, Charlotte não, para ela uma Gryffindor e uma Slytherin não poderiam conviver, muito menos ter laços de amizade.

— Qual é a equipa dela? – perguntou Hermione, já suspeitando.

— Slytherin.

Hermione deixou fluir uma gargalhada sarcástica. Teve vontade de dizer que os Slytherin eram demasiado mesquinhas para quererem ser amigos dos Gryffindor. Contudo, não quis já implementar um espírito preconceituoso em Lexie, até porque os Gryffindor não eram assim.

— Onde está a piada? – a arrogância de Lexie despertou Hermione do seu devaneio.

— Os Slytherin têm uma personalidade muito peculiar.

— Queres dizer que devemos odiá-los por isso?

Hermione estreitou o olhar na direcção da menina e suspirou.

— Não disse isso, Lexie. – o tom reprovador de Hermione desagradou a Lexie. – Já acabaste de comer o gelado? Prometi à professora que regressaríamos cedo.

— As amigas não fogem do assunto quando não lhes agrada.

— Escreve o que disseste, Lexie. – disse Hermione quando já estava a pagar ao senhor da gelataria.

— Não gostas dos Slytherin?

— Não tenho nada contra eles. Mas quando eles não nos tratam bem, eu não posso simplesmente adorá-los.

— Concordo contigo. Eu acho que eles são todos uns convencidos, arrogantes e autoritários.

— Há pessoas assim em todas as equipas. – disse Hermione, olhando directamente para Lexie. Não queria mesmo que ela os rotulasse de imediato, pois ainda tinha esperança que alguns deles valessem a pena.

— No outro dia cruzei-me com um do sexto ano num corredor. Estava perdida e ele não foi nada agradável.

— Era monitor? – perguntou Hermione.

— Acho que sim, ele tinha aquele distintivo que tu também usas.

— Draco Malfoy. – suspirou Hermione com um ar pesado.

Lexie sentiu o corpo vibrar ao ouvir o nome do irmão ser proferido. Não sabia se queria continuar a desvendar mais, pois não suportaria ouvir Hermione falar mal do irmão.

— Estou a ver que ele é popular.

— Um pouco. – disse Hermione, atrapalhada.

Desejou que Lexie mudasse de assunto imediatamente, se não seria obrigada a fazê-lo.

— Isso é bom ou é mau?

— Depende do ponto de vista. Se contares as raparigas que suspiram por ele, és capaz de concluir que é bom ele ser popular. Se te juntares ao grupo a quem ele já infernizou a vida de alguma maneira…

— Estás em minoria desta vez, Hermione Granger. – disse Lexie com um ar divertido.

Hermione riu-se juntamente com Lexie. Sem repararem, já estavam na lareira, prontas para voltarem para Hogsmead. Lexie foi a primeira a ir, pois desta vez não tinha ninguém para a supervisionar. Já eram cerca de cinco horas da tarde quando estavam novamente em Hogwarts. A professora McGonagall tinha ficado por Hogsmead enquanto esperava pelas duas, pois tinha uns assuntos a tratar por lá.

— Então correu tudo bem? – perguntou a professora com a voz ríspida, embora estivesse genuinamente interessada.

— Sim, professora. Até fomos comer um gelado! – disse Lexie a sorrir.

— Fizeram muito bem.

— Bem, eu tenho de passar na biblioteca. – disse Hermione com um sorriso de desculpas.

— E eu vou ter de ir fazer uma composição.

Ambas retiraram-se do gabinete da professora e seguiram o caminho até perto do salão principal. Muitos alunos estavam lá a estudar e Hermione procurou com o olhar por Harry e Ron, mas era óbvio que eles não estavam a estudar. Lexie viu Draco de pena na mão a conversar com Pansy sem qualquer entusiasmo.

— Vejo-te logo, Hermione.

— Até logo!

— Hermione? – chamou Lexie, quando esta já estava de costas.

Hermione virou ligeiramente o pescoço para ver Lexie.

— Obrigada por teres ido comigo.

— De nada. As amigas servem para isso, não é verdade?

Lexie não respondeu, simplesmente sorriu, exibindo os dentes brancos e certos. Caminhou em passos lentos até ao salão comum dos Gryffindor, perdida nos seus pensamentos. Tentava perceber como é que Draco achava que Hermione não era de confiança.

Acenou para os quadros que lhe cumprimentavam animadamente. Assustou-se levemente quando sentiu as armaduras mexerem-se nos seus lugares. Ao fundo do corredor avistou três figuras do seu tamanho. Charlotte estava entre duas das suas amigas e vinha ligeiramente mais à frente, o que era típico de uma líder.

— Já não se pode andar à vontade neste castelo, encontra-se sempre lixo pelo caminho! – disse Charlotte com desdém.

Lexie controlou-se ao máximo para não responder, continuando a andar com a cabeça erguida. Charlotte não gostou da atitude de Lexie, não suportava ser ignorada, pelo que entre dentes ordenou as duas amigas que se colocassem à frente de Lexie.

— Saiam da frente! – ordenou Lexie com os olhos cinzentos a transbordarem de fúria.

— Há uma coisa que tens de aprender, Allison: as pessoas de sangue sujo não me ignoram.

— Não se aprende nada de jeito contigo. Só tens preconceitos e és uma mimada! – o tom frio igual ao de Draco fez Lexie ficar surpreendida com ela mesma.

— Como te atreves? Garanto que te vou fazer a vida num inferno. Vais desejar nunca ter conhecido a magia.

— Deixa-me em paz! – gritou Lexie furiosa.

— Quando eu provar a toda a gente que a tua mãe é uma muggle tu vais ver…

— Deixa a minha mãe fora do assunto. – murmurou entre dentes.

— Vais desejar nunca ter vindo…

Lexie respirou fundo e decidiu seguir em frente, indo directamente contra uma das amigas de Charlotte. Segundos depois, Charlotte fez-lhe uma rasteira e ela caiu para a frente, esmurrando um braço. Arregaçou a manga e viu um grande arranhão. As raparigas que estavam com Charlotte riram-se perante a situação. Quando viram ao fundo um grupo de alunos mais velhos aproximarem-se, desataram a correr. Lexie levantou-se com vontade de gritar e tapou o arranhão que sangrava com a manga do casaco. Ignorou os olhares dos alunos e desatou a correr para o dormitório.

x.x.x

Já passava uma hora desde que todos os alunos tinham ido para o salão principal jantar. Lexie estava sentada à janela do dormitório feminino com uma fotografia de família – ela, o pai e o Azkar – que olhavam para a objectiva com um sorriso genuinamente feliz.

Os olhos de Lexie estavam vermelhos de tanto chorar e a tristeza era visível só de olhar para ela. Estava aliviada por nenhuma das raparigas ter decidido ficar no dormitório, pelo que podia estar sozinha a desfrutar plenamente da solidão que por vezes se tornava desejável.

Esperava que em Hogwarts não fosse como em casa quando fazia uma birra e não queria jantar. Depois de chamar três vezes, John ia de sorrateiro até à porta do quarto e entrava de rompante com Azkar atrás dele a ladrar como se estivessem a assaltar a casa. Era automaticamente obrigada a descer para a refeição ou então morria com os tímpanos furados de tanto barulho desagradável.

Ao ouvir um barulho do lado de fora, guardou instintivamente a fotografia debaixo da almofada. Limpou as lágrimas à manga do casaco e deixou-se ficar a fitar a lua como se fosse um hábito.

— Lexie? – sussurrou uma voz já familiar para Lexie. – Eu sei que estás aí…

— Também não estou propriamente escondida, Hermione. – disse, revirando os olhos de impaciência.

Começava a achar que ter amigas mais velhas podia tornar-se chato. Estavam sempre demasiado preocupadas e não conseguiam compreender que as mais novas se desenrascavam muito bem.

Ao deparar-se com Lexie perto da janela, Hermione aproximou-se e sentou-se ao seu lado, embora um pouco mais aninhada. Pensou em ficar em silêncio, apenas ficar a fazer companhia, mas achou que ela precisava de desabafar. E apesar de acreditar que muitas vezes as palavras eram ditas em silêncio, optou por falar:

— O que se passa? Pensei que estavas contente com a nova varinha.

— E eu estou.

— Não apareceste para jantar…

Lexie sacudiu os ombros.

— Agora merecias que eu dissesse que "as amigas não fogem do assunto quando não lhes agrada", mas eu já percebi que não queres falar. Mas se precisares de alguma coisa estarei mesmo lá em baixo na sala comum.

Lexie achou que Hermione tinha razão, mas não podia simplesmente contar-lhe que Charlotte lhe andava a massacrar. Como monitora, ela tentaria fazer alguma coisa para a deter.

Hermione levantou-se e saiu do dormitório em passos lentos, esperando interiormente que Lexie a chamasse para falar um pouco. Mas como não o fez, decidiu descer e deixá-la ficar sozinha. Estava mesmo preocupada com ela, mas não queria estar sempre em cima dela, procurando saber tudo o que se passava com ela. Dar-lhe-ia espaço como ela mesma tinha pedido nessa tarde.

Pegou num dos livros que estava na estante e instalou-se confortavelmente no sofá perto das chamas que crepitavam lentamente. Desfolhou as páginas até à parte em que tinha ficado na noite anterior e tentou concentrar-se na leitura.

— Hermione? – chamou Lexie que descia as escadas.

— Sim? – perguntou, virando-se completamente de frente para Lexie, mostrando toda a disponibilidade.

— O que é que tu fazes quando estás com saudades de casa? – perguntou com a voz a tremer ligeiramente.

— Escrevo uma carta para os meus pais e envio imediatamente.

Lexie subiu as escadas tão rapidamente que Hermione ficou perplexa a olhar para ela. Ao chegar ao cimo das escadas, gritou:

— Vou tratar disso. Obrigada!

Hermione sorriu e viu a menina dirigir-se novamente ao quarto, onde certamente escreveria uma carta ao pai.

x.x.x

"Olá paizinho,

As coisas por aqui estão óptimas. Nunca pensei que a minha escola fosse um castelo tão grande e tivesse tantos alunos. Os professores foram todos muito simpáticos e a comida é quase tão boa como a tua.

Mas estou ansiosa por chegar a casa para poder abraçar-te e ver se o Azkar está bem. Não te esqueças de levá-lo sempre ao jardim a meio da noite, se não quando acordares de manhã fazes logo patinagem.

Estou com muitas saudades vossas. Diz isso ao Azkar.

Amo-vos,

Mel Allison."

Depois de reler a carta percebeu que estava a mentir ao pai. Não era justo, mas também se lhe dissesse a verdade John iria ficar tão preocupado que certamente mandaria uma carta a Narcisa. Preferiu optar pela mentira já que era por uma boa causa. Até a assinatura já não combinava com ela. Não se lembrava da última vez em que a tinham chamado Mel. Selou o envelope amarelado e quando estava prestes a sair do quarto, uma coruja picou o vidro seguidamente para que Lexie lhe abrisse a janela. Correu até à janela e pegou no envelope que estava no bico da coruja.

"Lexie,

Precisamos de falar. No mesmo local que hoje dentro de dez minutos.

D."

A letra perfeita não deixava margens para dúvidas que era de Draco. Amarrotou o pergaminho e ao mesmo tempo sentiu uma picada da coruja na mão. Queixou-se e afastou a coruja com a mão.

— Eu mato-o quando estiver com ele. – disse com um sorriso maldoso.

Desceu a escadaria numa correria doida, passando por Hermione e gritando um "até já" quase imperceptível. Correu até ao corujal com o envelope na mão, ignorando as poucas pessoas que passavam por ela.

Quando tinha estado de tarde com Draco no corujal, as corujas estavam todas a dormir profundamente nos poleiros. No entanto, agora que já era de noite os olhos de várias cores olhavam atentamente para Lexie.

— Envia isto ao meu pai. – disse Lexie, colocando o envelope agarrado à pata da coruja.

Ficou a ver a coruja partir, até que já não a conseguia distinguir no meio da escuridão. Passados alguns segundos, Lexie sentiu alguém atrás de si. Virou-se de frente e viu Draco que estava com o uniforme, mas sem a gravata e a manta. Estava perfeito iluminado pela luz do luar.

— Já compraste a varinha? – perguntou com a voz rouca, sem um pouco de curiosidade.

— Sim, já a tenho comigo.

— Foste com a Granger?

— Se queres saber se disse alguma coisa que não devia, podes ficar descansado. Apesar de detestar, ainda sei ser submissa.

Lexie não reparou, mas Draco conteve uma gargalhada. Passou a mão nos cabelos e sorriu levemente.

— Mas conta-me lá como correu…

O súbito interesse de Draco fez Lexie arquear uma sobrancelha.

— Fomos comprar a varinha e depois fomos lanchar.

— Lanchaste com a sangue… com a Granger? – Draco ficou um pouco atrapalhado por quase chamar sangue de lama a Hermione em frente à irmã.

— O que é que lhe ias chamar? – perguntou Lexie, indignada.

— Lanchaste com a Granger?

— Draco, tu ias-lhe chamar sangue sujo, não era? – insistiu de braços cruzados.

Draco revirou os olhos, chateado com a persistência de Lexie.

— Isso é o que a Charlotte me chama!

— O quê? – perguntou Draco tão furioso que Lexie achava que nunca o tinha visto assim.

— Porquê que vocês chamam isso às pessoas? O que significa afinal?

— Da próxima vez que a Broad te chamar isso lança-lhe um stupefy.

— Um quê? – o olhar de Lexie transparecia a confusão que sentia.

Draco suspirou, não queria ter de explicar tudo à irmã. Tinha uma falta de paciência incrível e já estava suficientemente chateado para ao menos tentar explicar.

— Ela trata-te mal? A Broad… — Draco perguntou com desdém na voz, evitando mostrar algum tipo de preocupação.

— Escusas de fingir que não te preocupas comigo, Draco. Despe essa máscara quando estamos só os dois. Eu sei que no fundo até gostas de mim… — Lexie falou tão rápido que Draco a olhava perplexo.

Lexie estava cansada que ele fingisse que não se preocupava com ela. E o pior de tudo era que Draco sabia disfarçar tão bem que Lexie estava com medo de acreditar na farsa dele. Bem lá no fundo, Draco sabia que a irmã mais nova tinha razão. Ele preocupava-se com ela, afinal de contas era a irmã mais nova dele.

Os dois pares de olhos cinzentos cruzaram-se, revelando os sentimentos que estavam escondidos. O Slytherin quase não teve tempo de ver os olhos cinzentos de Lexie transbordarem de lágrimas, os lábios carnudos e finos numa linha recta e o corpo frágil a tremer, pois Lexie lançou-se para os braços de Draco. Era um abraço forte para uma menina de onze anos e Draco sentiu compaixão pela irmã. Lexie deixou-se ficar enrolada na cintura do irmão, apertando-lhe com força as costas. Draco apenas estava a ser abraçado, pois nem reacção para retribuir tinha perante o acto tão inesperado de Lexie.

Notas finais
Espero que ainda possa ter a atenção de alguém após tantos anos.