Família Addams WENCLAIR
4 O desafio de estar presente
Notas iniciais

Quando os bebês já tinham percepção suficiente das coisas, Wednesday decidiu que ensinaria língua de sinais para eles se expressarem melhor. Então antes mesmo de balbuciarem qualquer palavra os gêmeos já sabiam pedir por alimento e outras necessidades básicas, tornando assim a tarefa de cuidar bem mais fácil. Toma essa Pugsley! Ponto em dobro, um para cada filho, novamente a primogênita estava na frente da “corrida de bebês” que o irmão insistia que existia – e talvez existisse mesmo tal competição para os filhos de Gomez e Mortícia, afinal em algum ponto Wednesday começou a se importar com o que o irmão falava.
A primeira a engatinhar foi Larissa, logo após sua melhora com a situação dos dentinhos que cresciam, depois ao observar a irmã arrastando-se pelo apartamento de forma que parecia ser divertido, Lúcifer resolvera aprender também e cuidar do pequeno se mostrou ser uma tarefa complicada. O bebê tinha muita energia, talvez por ser lobisomem, então precisavam ficar de olhos atentos já que movia-se rápido indo direto para as tomadas da casa. Wednesday tentou explicar que não precisavam se preocupar já que ela mesma quando criança gostava de brincar com as tomadas enfiando garfos nas mesmas para sentir o choque vibrar todo seu corpo. Enid ficou abismada em como a esposa não havia morrido todo esse tempo, as brincadeiras dos Addams eram mortíferas em sua maioria. De qualquer forma, preferia evitar mais uma possível cena do seu filho tremendo depois de enfiar o dedinho no buraco da tomada, os protetores já não ajudavam mais, visto que Larissa passava os arrancando, como se quisesse ver o irmão levar choques.
O primeiro a falar foi Lúcifer, já que Larissa não parecia estar tão interessada em se comunicar verbalmente. Ele proferiu mama pela primeira vez ao avistar Enid passando pela porta da cozinha dos Addams, em uma manhã de domingo. A licantropo havia passado à noite e madrugada na floresta próxima ao pântano nas proximidades da residência Addams, correndo e uivando para lua com tio Fester. Os ouvidos sensíveis da lupina capitaram rapidamente a primeira palavra do filho direcionada a si, o pequeno estava sentado em sua cadeirinha ao lado da irmã, Wednesday alimentava os dois com uma papinha, ela também parecia surpresa com o que escutará direcionando o seu olhar para o ponto específico que Lúcifer encarava ao balbuciar a tal palavrinha que fazia o coração de qualquer mãe pulsar em alegria, encontrando Enid parada na porta, ela tinha seus olhos marejados e as mãos cobrindo a boca emocionada. Gomez e Mortícia que degustavam de seus cafés da manhã juntos na mesa, sorriram dando as mãos e trocando olhares nostálgicos, lembrando com felicidade da primeira palavra de Wednesday: Morra. Mais do que feliz Enid aproximou-se dos gêmeos deixando beijos em cada bochecha e esfregando o nariz no local – coisa de lobo — fizera o mesmo com Wednesday com o acréscimo de um selinho.
— Você pode repetir Lúcifer? – Enid sentou-se no colo da latina que estava acomodada em uma cadeira posicionada na frente dos gêmeos, para assim dar melhor o alimento – Do que você chamou a mamãe?
— Mama! – Como se entendesse a pergunta o bebê prontamente respondeu animado com o sorriso contagiante da mais alta.
— Wed você ouviu? – Enid virou de relance, os olhos azuis brilhando em felicidade.
— Precisamente cara mia – Respondeu apertando a mão na cintura da loira sentada em seu colo, como em um meio abraço demonstrando compartilhar de sua felicidade, a seu modo, claro.
— Lúcifer, você pode chamar Wednesday também? – Enid voltou sua atenção ao pequeno que pareceu levemente confuso, apontou para a latina abaixo de si – Diga, mama!
— Não acho que ele esteja compreendendo cariño – Tentou explicar, porém Enid ignorou voltando a pedir que o filho chamasse a menor de mãe também – Tudo bem Enid, ele não vai fa-
— MAMA! – O gritinho agudo e a risadinha infantil no final pegaram Wednesday desprevenida.
Piscou algumas vezes, Lúcifer lhe encarava e apontava o dedinho para a morena como Enid fizera segundos atrás. Wednesday não esperava que seu coração acelerasse em êxtase daquela forma, sentiu um quentinho gostoso que a fazia querer sorrir largamente, havia escutado bem? Seu filho lhe chamara de mama?
— Muito bem Lúcifer! – Enid elogiou batendo palmas, o garoto imitou o ato rindo contente
— Lúcifer sorri tanto não é mesmo Tisha? – Gomez comentou com a esposa, baixinho para que não atrapalhassem o momento em família que presenciavam – Nunca vimos Wednesday ou Pugsley sorrir assim, a não ser quando um dos dois se machucavam.
— Você tem razão mon cher. Ele é tão alegre quanto nossa nora – Mortícia observou os netos mantendo seu tom de voz baixo, como o marido – Veja Larissa por exemplo, ela não só tem as sardas e os olhos da nossa menina, mas parece tão inexpressiva quanto.
— Se bem que Wednesday parece estar bem emocionada hoje não? – Thing que chegara a tempo de ouvir a conversa dos Addams mais velhos gesticulou ao observar o pequeno sorriso atípico na face da primogênita.
— Sim, ela tem feito muito isso desde que se casaram – Gomez suspirou contente pela filha experimentar o amor na sua forma mais pura.
Em paralelo a conversa dos sogros, Enid focava sua atenção em parabenizar Lúcifer pedindo para repetir mais uma vez, o garoto verbalizou para as duas dois ‘mamas’, um para cada, rindo animado logo em seguida. Larissa por outro lado, começava a se chatear com a demora da entrega de sua comida, Wednesday segurava com a destra o prato com a papinha e a colherzinha de plástico maleável e macia de cor preta, enquanto a outra mão repousava na cintura da lobisomem. Já haviam se passado alguns minutos desde que dera uma colherada da papinha para Larissa e esta estava faminta, com as bochechas infladas e um pequeno olhar mortal ela pronunciou irritada:
— Wed! – Larissa chamou pela latina, não pronunciando mamãe ou até mesmo seu nome, mas sim o apelido que ouvira Enid pronunciar várias vezes quando se referia a gótica.
— Vo-Você falou... – Os olhos de Enid arregalaram bem mais que quando escutará Lúcifer lhe chamar de mama – Você disse... Disse Wed?
— Wed! – Repetiu novamente, agora que já tinha atenção das mães para si a pequena fez o sinal de querer comida com as mãos, como Wednesday lhe ensinará. Ela tinha as bochechinhas levemente infladas e vermelhinhas de irritação pela demora da entrega da sua tão aguardada refeição.
Desta vez o sorriso de canto a canto não pode ser contido, Wednesday estava muito orgulhosa dos filhos, não se incomodou de ser chamada pelo apelido, pois além de soar extremamente perfeito ao ser proferido pela bebê de nove meses, também era uma palavra extremamente complexa para uma criança de tal idade. Isto mostrava o quão longe seus filhos estavam de compartilharem da falta de neurônios que os trigêmeos Sinclair pareciam possuir, era um medo genuíno da Addams que eles fossem parecidos. Volto a afirmar que, mesmo embora fosse o contrário, ela os amaria de forma igual, sem dúvidas.
— Você disse mesmo! – Enid ajeitou-se no colo de Wednesday, tomando uma postura melhor para encarar a loirinha a sua frente – Será que você consegue dizer mamãe?
Larissa ignorou as suplicas da mãe, continuando o movimento de pedir alimento, Wednesday tratou logo de tirar a mão da cintura da esposa e alimentar novamente os filhos. Agora satisfeita de receber sua papinha, Larissa voltou a expressão neutra, os grandes olhinhos ônix encarando Enid que ainda tentava fazê-la falar mamãe, mas a bebê não estava nem um pouco interessada em contribuir com o pedido.
— Isto não é justo, ela chamou você, mas não a mim – Após dez minutos Enid tinha uma expressão emburrada, sua voz levemente triste.
Ela sabia que a filha não fazia por mal, tudo no seu tempo afinal, porém gostaria de sentir novamente aquela sensação boa que foi ouvir Lúcifer lhe chamar de mama pela primeira vez. Wednesday não soube como confortar Enid, tinha medo de dizer algo que irritasse ou magoasse a esposa, por sorte Thing a distraiu oferecendo carne para repor as energias gastas na noite de lua cheia. No fim a latina distraiu-se por alguns segundos com a lupina que havia engatado em uma conversa animada com Gomez e Mortícia, vê-la sorrindo era a melhor parte do seu dia, talvez só disputando com os momentos ao lado dos filhos.
— Wed! – Larissa a chamou, mais uma vez irritada com a demora da morena. Wednesday voltou a dar a papinha, sentindo suas costas queimarem sob o olhar de Enid.
— É bom você parar de me chamar assim na frente da sua mãe – Sussurrou como quem conta um segredo – Ou ela vai ficar muito triste e acreditem, vocês não querem ver ela chorando, é de partir o coração.
Os gêmeos não entenderam, obviamente, mas Enid sim. Utilizando-se de sua super audição lupina, ela escutou o conselho que Wednesday dera aos filhos e não pode deixar de esboçar um pequeno sorriso apaixonado.
[...]
A pausa que Wednesday dera no livro finalmente acabara, sua rotina de escrita foi voltando aos poucos, na medida do possível, pois agora tinha os gêmeos para cuidar. Com isso, as reuniões que a matinha fora de casa por mais tempo que o habitual com as editoras voltaram, havia muita coisa para porem em dia, visto a longa pausa que a morena fizera. Quando chegava em casa era recebida não apenas por uma Enid animada que lhe enchia de beijos, mas sim também por duas pequeninas figuras que ao escutar a porta sendo destrancada logo a sua chegada, vinham engatinhando desesperados ao seu encontro, era sem duvidas a melhor recepção que poderia receber na vida.
— Você não sabe o que aconteceu hoje mi amore — Enid falou empolgada logo após afastar seus lábios da mais baixa, Wednesday havia acabado de chegar de uma ultima reunião com as editoras, faltava pouco para a conclusão do próximo volume da série do romance investigativo.
Wednesday abaixou-se para beijar o topo da cabeça de Larissa que estava sentada próximo à porta do apartamento, como se estivesse lhe esperando chegar. Diferente de Lúcifer que vinha desesperado em sua direção quando chegava na residência, Larissa sempre engatinhava de forma calma ou já estava próximo do lugar. Talvez a bebê não quisesse demonstrar que sentirá tantas saudades da mãe quanto o irmão, por isso aparentava indiferença, porém sempre estava a sua espera e muitas vezes era a primeira “coisinha” que Wednesday via quando chegava em casa. Enquanto não recebesse seu beijinho de boas-vindas Larissa permanecia parada esperando uma aproximação da mãe de cabelos pretos, já que a pequena loirinha parecia orgulhosa demais para fazer isto por si mesma. Após receber seu beijinho Larissa ergueu-se com certa dificuldade, ficando em pé. Wednesday que já estava pronta para pegar Lúcifer nos braços – o bebê diferente da irmã gostava de muito contato, principalmente se uma das mães passará tempo suficiente longe de si – parou no segundo seguinte ao que a pequena loirinha saiu andando de forma desajeitada.
— Ela... – Wednesday piscou algumas vezes travada – Desde quando ela faz isso?
— Desde hoje! Era isso que eu ia te contar – Enid puxou do bolso o celular, ao desbloqueá-lo ela entrou na galeria buscando por algo em específico – Eu estava na sala organizando a lista para a festinha de aniversário deles quando ela segurou no sofá e ficou em pé, sozinha, sem que ninguém precisasse lhe segurar!
Aproximando a tela do celular da face de Wednesday ela deu play em um vídeo que logo emitiu a voz da lupina chamando pela filha, em um incentivo de que ela caminhasse em sua direção. Larissa parecia super concentrada em equilibrar-se sozinha mal dando atenção para a mãe que já murmurava um “ai meu deus Wed, ainda bem que tô gravando isso” para a câmera. Depois de alguns longos segundos a bebê deu seu primeiro passo, de forma desengonçada ela deu o segundo, o gritinho fino de felicidade de Enid pôde ser ouvido saindo do aparelho junto a alguns sons que indicavam que ela estava chorando. De forma lenta e desengonçada Larissa deu seus primeiros quatro passinhos antes de cair para frente quase de cara no carpete da sala-de-estar. A Enid do vídeo soltou um suspiro assustado pronta para ir lhe amparar, porém não foi preciso, a pequena levantou-se tão rápido quanto caiu e desta vez parecia ter mais equilíbrio, chamando-a novamente para si, Enid fungou mais um pouco emocionada quando a filha veio em sua direção, dava para ver toda a determinação no rostinho concentrado da loirinha de olhos pretos. Houveram mais duas quedas antes dela finalmente alcançar Enid que largou o celular de qualquer jeito. A gravação mostrava agora o teto da sala-de-estar, depois de alguns segundos pôde ser visto no vídeo de forma torta a lupina pulando e rodopiando animada, enquanto enchia a bebê de beijinhos ao que lhe parabenizava com palavras doces.
Quando terminou o conteúdo da gravação que havia parado com Lúcifer pondo o celular na boca e Enid desesperada pedindo para ele tirar, Wednesday devolveu o celular a esposa.
— Ainda bem que gravei, não é? – Enid sorria genuinamente, observando novamente o conteúdo do vídeo que fizera mais cedo.
— Eu queria ter presenciado, pessoalmente – Wednesday soltou um pouco frustrada, malditas reuniões que lhe tiravam o tempo com os filhos.
— Não fique assim mon cher, terá muitos outros momentos que vamos presenciar – A lobisomem tentou confortar a morena puxando-a para um abraço. Achou de certa forma fofo a frustração de Wednesday, mostrava que ela se importava e se interessava com os filhos.
— Mama! – Lúcifer chamou a atenção delas, o pequeno estava irritado, os bracinhos pra cima pedindo colo a latina que havia parado no meio do caminho quando avistou Larissa sair andando pela casa e depois esqueceu-se completamente de si ao analisar o vídeo que Enid lhe mostrará.
— Ainda podemos ver os primeiros passos do Lúcifer! – Enid comentou animada de que ela poderia presenciar um dos momentos que a loira considerava lindo e importante para uma mãe.
— Sim – Limitou-se a responder apenas.
Pegando o filho nos braços finalmente dando a atenção que ele queria, beijou-lhe a bochecha recebendo uma risada gostosa como resposta, aquilo aquecia seu coração sempre, o som mais lindo que já ouvirá, disputando talvez só com as risadas de Enid.
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