Elisa chegou no apartamento mais tarde que o habitual, o consultório odontológico, onde trabalhava, fez naquele dia, um atendimento especial a crianças com família de baixa renda. Não esperava que tantas pessoas aparecessem, mal teve tempo para almoçar ou descansar, estava morrendo de fome, porém sentia-se feliz com a boa ação. Tirou os sapatos e jogou as chaves em qualquer canto, andou preguiçosamente pelo pequeno corredor, esperando encontrar ao final dele, a esposa na sala assistindo Tv, como sempre fazia para espera-la. A Tv de fato estava ligada, porém Larissa não se encontrava ali.

- Cara mia? – Elisa chamou alto suficiente para que a loira pudesse ouvir dos outros cômodos. Não obteve resposta – Lari, eu cheguei! – Silencio foi sua resposta. Largou a bolsa no sofá dirigindo-se para o banheiro, queria lavar o rosto para tirar o suor, Larissa não gostava quando ela beijava seu rosto com a cara grudenta – Ainda sobrou comida do jantar ou você devorou tudo como tem feito esses dias? – Puxou conversa, notando que a luz do banheiro para onde se dirigia, estava acessa, provavelmente era lá que a lupina estava – Por favor, me diga que não precisamos repor o estoque de comida, fizemos compras duas vezes só essa semana e-... Larissa o que aconteceu?!

- Eu não to bem – Respondeu entre gemidos.

Larissa estava sentada com a cabeça apoiada no vaso sanitário, o rosto meio pálido e o cheiro de vômito pairando no ar. Elisa juntou todas as suas forças para não vomitar junto a esposa, aquele odor lhe dava náuseas. Controlando-se ao máximo, a górgona agachou-se ao lado da mulher, passando a mão delicadamente em suas costas, lhe confortando.

- Será intoxicação alimentar? – Comentou preocupada — Você tem comido tanto que cheguei a pensar que teria que caçar um servo para você se satisfazer.

- Olha que eu comeria em... – Larissa respondeu seriamente.

Faziam semanas que estava tendo enjoos matinais e fome extrema, tinha algumas ideias do que poderia estar acontecendo consigo, mas só teve certeza mesmo quando foi visitar suas mães hoje mais cedo, Enid comentou sobre o cheiro da filha estar diferente e isso assustou a Addams mais nova. Larissa saiu de lá as pressas, parando na primeira farmácia onde comprou um teste de gravidez, esperava que fosse só coisa de sua cabeça, mas desesperou-se quando viu ele marcar positivo.

- Quer que eu te leve ao médico? – Elisa forçou um sorriso de apoio, tentando jogar pro fundo da mente a vontade irritante de vomitar por causa do cheiro do banheiro.

- Não precisa eu já sei o que eu tenho.

- E o que é?

- Eu estou gravida Elisa...

A górgona procurou algum resquício de que aquilo era uma brincadeira e percebendo que a licantropo estava séria, arregalou os olhos em pânico. E então o inevitável aconteceu. Agora sem mais concentração, dada a recente notícia de que seria mãe, Elisa não pôde mais segurar, jogou o rosto para dentro do vaso sanitário e vomitou o pouco que havia comido no almoço.

[...]

Lúcifer carregava um cesto de roupas sujas em suas mãos, parando vez ou outra no caminho para jogar todas as peças de roupa que encontrava espalhadas pela casa. Parou nas escadas ao ver no corrimão uma parte de uma fantasia de fada, se perguntou como lavaria aquelas asas sujas de slime verde, quando aquele brinquedo grudento caia na roupa era um “Deus-nos-acude” para remover. Pegou o acessório melecado colocando-o no cesto. Lúcifer desceu as escadas com sentido a lavanderia, já eram oito da noite e o lupino não via a hora de poder finalmente sentar e descansar, bastava apenas lavar aquelas roupas.

- Oi papa – Wanda, sua filha de cabelos negros como os seus e olhos perolados como os de Joui, passou por si, usando uma fantasia de princesa, com direito a coroa e tudo.

- Oi... – Lúcifer respondeu atônito, parou no meio da sala para observar a pequena subir as escadas em direção ao seu quarto. O que ela estava fazendo com aquela roupa? Era para já estar de pijama. Joui não disse que faria isso? – Ô Joui! Você não ia dar banho nas-

O Addams parou sua fala ao avistar Jenna, sua filha de cabelos negros e olhos azuis como os seus, sentada no piso com os cabelos e sua fantasia extremamente colorida de unicórnio, completamente cobertos por aquela maldita slime que ele tanto abominava. Jurava que havia escondido mais cedo aquele brinquedo gosmento. Sentiu sua alma sair do corpo por breves segundos, ele mataria Joui!

- Meu amor, o que você ta fazendo? – O rapaz perguntou docemente, controlando ao máximo sua vontade de chorar pelo trabalho que teria em breve para limpar aquilo.

- Brincando – Respondeu a garotinha.

- Papa ta vendo – Sorriu forçadamente — Eu quero saber, quem deu a slime pra você?

- O papai.

A resposta fora o suficiente para Lúcifer soltar “fumaça” pelo nariz, partiu atrás do marido, pronto para lhe dizer poucas e boas. O encontrou na sala, dando tudo de si ao tentar fazer o penteado favorito de Naomi, sua filha de traços asiáticos, a perfeita cópia de Joui em cor de cabelo e olhos. Pelo menos ela estava com o pijama e aparentemente de banho tomado.

- Você deu a slime pras trigêmeas? – Lúcifer foi logo ao ponto, segurando a vontade de jogar as roupas sujas na cara dele.

- Não – Joui respondeu distraidamente, sua concentração estava totalmente no penteado que a filha pedirá, logo não percebia o rosto vermelho de raiva do marido – Dei apenas para a Jenna.

- Joui! Eu proibi todas as três de brincarem com aquilo depois do lanche! – Lúcifer jogou uma cueca no rosto do Tanaka, que assustou-se — Você não pode tirar uma ordem minha, sem antes me consultar!

- Mas ela só queria brincar – Joui fez biquinho, ele era um pai muito do babão, sempre cedia as vontades das filhas, o que acabava irritando Lúcifer.

- Joui, você ta mimando demais essas meninas – Lúcifer respirou fundo, se acalmando aos poucos. Deixou o cesto de roupas sujas de lado e sentou-se ao lado do asiático – Deixa que eu faço isso.

Joui entregou o pente e as presilhas para Lúcifer, admirando a rapidez e maestria que o lobisomem tinha para fazer aquele penteado, o Tanaka jurou que um dia pegaria o jeito. Naomi pareceu aliviada quando o pai lupino tomou controle da situação, ela estava desesperada com Joui bagunçando e puxando seus cabelos.

- Posso saber por que nossas filhas não estão prontas para irem para cama?

- Elas pediram pra brincarem mais um pouco – Respondeu envergonhado, mais uma vez cederá ao charme das menininhas.

- Joui... – Lúcifer parecia ao ponto de chorar, desde que as trigêmeas nasceram, o Tanaka sempre atendia a todos os pedidos delas.

Durante os primeiros anos foi ótimo ver o marido ser tão atencioso com as crianças, porém desde que elas começaram a falar, aquilo tornou-se um problema, aquele coração mole de Joui estava atrapalhando na educação que ambos tentavam dar as filhas. Quando um dos dois negava algo a elas, bastava um olhar de cachorrinho abandonado, que o asiático esquecia-se de tudo e atendia a qualquer pedido. Lúcifer percebia aos poucos o quão problemático aquilo se tornava, pois as pequenas estavam ficando muito mimadas – no pior sentido da palavra, claro.

- Mon cher, vai dar um banho nelas vai – Lúcifer pediu suplicante, se elas não dormissem logo, no dia seguinte seria uma batalha para acorda-las para irem à creche.

- O que eu faço se elas fizerem a carinha?

- Seja forte, ou eu coloco você para dormir no sofá – Ameaçou, viu o homem sair da sala nervoso de ter que dormir fora da cama. Respirou fundo e finalizou o penteado, sorrindo para seu trabalho bem feito, virou a filha para olhar para si e fez sinais com as mãos – O que achou?

- Gostei, obrigada papa – Naomi respondeu em língua de sinais.

A garotinha havia nascido surda, não era nada que atrapalhasse na vida deles, Naomi era uma criança como qualquer outra, gostava de brincar com as irmãs e desenhar, assistia desenhos na tv e entendia pelo contexto das cenas, embora perguntasse vez ou outra pra algum familiar que estava ao seu lado o que os personagens estavam conversando. Todos da família sabiam linguagem de sinais, então a comunicação com a garotinha nunca foi um problema, e na creche as crianças da sua turma estavam tendo aulas de língua de sinais, para uma melhor comunicação com Naomi.

Lúcifer sorriu para a filha, ela era perfeita e ele a amava demais. Não culpava Joui por não resistir aos encantos das crianças, todas as três eram fofas e dava vontade de sempre as ter nos seus braços, enchendo-as de carinho.

[...]

Emma verificou quantas balas haviam no cartucho de sua arma. Achou que fosse suficiente para caso houvesse um confronto. Com seus vinte e três anos, a mulher estava a pouco menos de um ano, atuando como detetive na delegacia da cidade. Sempre gostou de mistérios e assassinatos, então juntou o útil ao agradável quando escolherá qual carreira seguir. Seus casos favoritos eram aqueles que envolviam muito sangue e vítimas, os seriais killers eram seus preferidos, pena que haviam poucos. Naquela noite, Emma estava pronta para acabar com um cartel de drogas que investigava a alguns dias. Não foi difícil encontrar o local onde atuavam, alguns processos de tortura bem aplicados, eram suficientes para fazer qualquer comparsa falar.

Escutou o rádio policial chiar segundos antes da voz de um agente lhe informar que todos estavam a postos, prontos para dar cobertura a Addams e efetuar as prisões. Esperou mais um pouco para ter certeza que teria o elemento surpresa ao seu lado. Como resposta, Thing apareceu sorrateiramente, explicando tudo que viu quando fora espiar o galpão isolado da cidade. Emma ligou o rádio e pediu para que todos ficassem atentos ao sinal dela.

Para irritação de alguns agentes, Emma liderava mais uma vez uma batida policial, não fazia nem um ano que ela entrará na delegacia e parecia que tinha muita experiencia, alguns dos agentes estavam ali a anos e nunca tiveram uma oportunidade como líderes de equipe. Eles torciam para que a Addams cometesse algum erro – não que isso fosse fazer algum deles receberem reconhecimento da delegada, porém agarravam-se nessa esperança fantasiosa.

Segundo Thing, todos no galpão estavam distraídos em seus respectivos trabalhos e os seguranças que deveriam estar na entrada do lugar, estavam já desmaiados, graças ao ataque rápido da mãozinha. O trabalho era simples, entrar, render todos e efetuar a prisão dos membros. Queria acabar logo com isso e voltar rapidamente para a Mansão Addams. Verificou se os policiais estavam preparados e em seguida arrombou a porta com um chute, homens e mulheres dentro da fábrica clandestina de drogas ficaram estáticos com a parição de Emma.

- Mãos aonde eu possa vê-las! – Ordenou, em voz firme – Se algum engraçadinho tentar alguma coisa, vai sofrer as consequências!

Policias entraram logo após a mestiça (falo da etnia), apontando suas armas e rendendo as pessoas. Um homem de cabelos raspados tentou puxar uma pistola que estava em sua cintura, porém a Addams fora mais rápida, acertando com extrema força, um chute no rosto dele. Sua bota amaçou o nariz, que rapidamente começou a sangrar quando o homem foi ao chão, desnorteado e com o nariz cheio de fraturas.

- Eu disse, sem gracinhas! – Gritou, causando medo nos demais. Até mesmo seus aliados ficavam nervosos com o quão fria e autoritária Emma poderia soar.

Horas depois, apenas a Addams e alguns policiais estavam no galpão, recolhendo provas e tirando fotos do lugar. David, um investigador novato, aproximou-se para relatar o que havia apurado do caso.

- Senhorita, todos já foram escoltados para a delegacia – Informou o investigador, ele era magro e usava óculos de grau – A senhorita conseguiu de novo, não houve nem um fugitivo.

- Ainda acho estranho que os seguranças estavam desacordados – Um policial invejoso reclamou irritado, imaginava que a mulher tinha algum tipo de ajuda externa, não era possível que alguém fosse tão eficiente assim, sozinho.

- Vamos fechar tudo e levar as provas para a delegacia – Emma ordenou aos demais que rapidamente obedeceram, e então virou-se para o policial que parecia bravo – Robert você fica e espera a equipe que vai montar guarda aqui, entregue as chaves a eles.

- Mas hoje é dia de eu pôr meu filho para dormir! – Robert pareceu mais irritado.

- Espere o pessoal e vá pra casa.

- Mas não vai dar tempo de colocar meu filho na cama!

- Não vou repetir – Emma ignorou o homem e começou a andar para fora do galpão, ela até consideraria ela mesma ficar esperando os policiais, para que o chato do Robert fosse para sua casa e brincasse de família feliz. Porém o homem estava lhe tirando do sério, sempre que havia oportunidades ele criticava algo sobre ela, Emma achava que ele merecia sofrer um pouco.

- Senhorita, tem uma coisa que preciso lhe dizer – O investigador apressou o passo atrás dela, sendo seguido por outros policiais carregando caixas e itens que comprovavam o que acontecia naquele galpão – Essa quadrilha que prendemos, estava mantendo uma pessoa presa em cativeiro.

- Cativeiro? – Emma estranhou, Thing não havia comentado nada com ela quando entrou para vigiar – Quem é essa pessoa?

- É uma criança, um garoto de oito anos – O homem tirou do bolso o celular, onde começou a procurar por algo – Acho que a senhorita se lembra dessa noticia aqui, não é?

O investigador lhe mostrou a tela do aparelho, onde a manchete dizia que certa gangue fora aniquilada durante a madrugada a algumas semanas atrás. Emma lembrava-se daquilo, aquela gangue seria o próximo alvo de sua investigação, porém eles foram mortos antes que pudesse provar o envolvimento deles com o tráfico de órgãos.

- Aparentemente essa criança era filho de um dos integrantes que foram mortos – Explicou, enquanto ainda a seguia, ambos já do lado de fora, caminharam em direção ao carro da morena.

- Por que o manteriam em cativeiro?

- É o que mais me deixa intrigado – Respondeu.

- Eu vou investigar sobre isso – Emma anunciou, também estava intrigada com a situação.

Os dois pararam na frente do carro de Emma, a mestiça notou a criança que havia sido mencionada, sentada no banco de trás do seu automóvel. O olhar de curiosidade foi logo capitado por David, que rapidamente explicou:

- Imaginei que a senhorita gostaria de investigar o caso do garoto. Então mandei colocarem ele dentro do seu carro – Deu o seu ponto — Se o mantinham em cativeiro, com certeza querem algo com ele, provavelmente vão vir atrás e a senhorita definitivamente é a melhor para tomar conta dele.

- Fez bem em pensar assim – Emma suspirou, cuidar de uma criança nunca esteve nos seus planos, mas era apenas por alguns dias, até entender o que estava acontecendo – Você aprende rápido David, logo mais vai estar tão bom quanto eu.

O investigador David não pôde conter o sorriso, ele entrou a poucas semanas no departamento de delegacia e logo ouvirá as histórias dos feitos de Emma. A mulher tornou-se sua inspiração, gostaria de chegar tão longe em pouco tempo assim como a Addams. Ouvir aquilo o alegrou, imaginando que estava no caminho certo. Emma entrou no carro e deu partida, deixando o homem para trás com seu sorriso bobo. Enquanto dirigia, olhou para o espelho e capitou o olhar assustado do garotinho. Talvez ela devesse falar algo para reconforta-lo, mas não era boa com as palavras, mesmo assim arriscou algo:

- Não tenha medo, eu não vou machucar você – Emma tentou soar gentil, mas achou que falhou, não era acostumada a usar um timbre de voz mais ameno – Estou aqui para te proteger e é o que farei.

O garoto não pareceu muito convencido, mas aparentava estar mais calmo. Para Emma aquilo foi o suficiente. Thing saiu do porta luvas, causando pânico na criança. A pequena mão tentou uma comunicação com o garoto, procurando saber seu nome ou o motivo de terem prendido ele. A criança apenas piscava apavorada, desacreditada que uma mão decepada, andava por aí sozinha e tinha consciência, não demorou para que ele desmaiasse pelo susto.

- Caralho Thing – Repreendeu a mulher.

- Não foi culpa minha – Rebateu a mãozinha.

Seguiram o trajeto até a Mansão Addams em silêncio, Emma preferia não desviar sua atenção da estrada, pois para dialogar com Thing, teria que observar os gestos que o membro fazia para entende-lo. Era tarde da noite quando estacionou o carro em frente a mansão, as luzes ainda estavam acesas, estranhou, a essa hora até mesmo Tropeço estaria dormindo.

Emma sempre achou que seus irmãos manchavam o nome da família e não faziam jus ao legado dos Addams – pelo menos não de forma tão firme quanto ela fazia. Ao apaixonarem-se, os gêmeos tornaram-se influentes pelos gostos e opiniões de seus respectivos cônjuges, logo não estavam aptos para assumir a responsabilidade pelo nome Addams. Emma pensava o mesmo sobre sua mãe, Wednesday tornou-se uma devota a Enid, seu primeiro erro foi sair da Mansão e ademais, foi abandonar aos poucos os eventos peculiares da família. Emma por outro lado, apreciava tudo aquilo, os passeios no cemitério, as festividades com caçadas, o medo e estranheza que a palavra Addams tinha sobre os outros.

Desde que seus avós morreram a alguns poucos anos atrás, ela assumira responsabilidade pela Mansão. Seu tio Pugsley era bobo demais na sua opinião, assim como tio Fester era – que os deuses o tenham. A família precisava de uma mente mais centrada e logo Emma tomou esse posto, se mudando para a residência e contratando um novo mordomo, para que Tropeço — já velho demais — pudesse ter seu merecido descanso, era uma grande conquista ele estar vivo e andando – mesmo que lentamente – nos dias de hoje, até onde sabia, o serviçal era alguns anos mais velho que seu avô Gomez.

Antes de sair do carro, Emma reparou que o garotinho ainda estava desacordado, imaginou que não era mais pelo desmaio, talvez ele estivesse dormindo profundamente, vai saber as coisas que ele passou naquele cativeiro, talvez esse fosse um momento de descanso. Abriu a porta e desceu do automóvel, Thing passou por ela indo em direção a porta da Mansão. Emma caminhou até o banco de trás do carro, tirando de lá o garoto dorminhoco. Percebeu o quão leve ele era e quão pequeno ele parecia em seus braços, era estranho na idade dele parecer tão magrelo e frágil. Fechou a porta do carro e foi em direção as escadas da mansão. A grande porta da entrada fora aberta, revelando um rapaz na facha-etária de Emma, vestindo um terno e sorrindo abobalhado.

- Cara mia, você chegou! – Abriu espaço para ela entrar, ignorando Thing que quase fora esmagado pela porta.

- Já falei pra parar de me chamar assim – Emma torceu o nariz, se não fosse sua lealdade para com ela, aquele rapaz já estaria morto a tempos.

- De quem é esse garoto? – O homem ignorou a morena.

- Ele vai passar uns dias aqui, prepare um quarto – Entregou a criança nos braços dele.

- Sim senhorita.

Mousa era um homem alto e gordinho, tinha cabelos negros ondulados, pele morena e de linhagem Indiana. Filho único de Eugene, um dos vários amigos das mães de Emma. A garota conheceu Mousa no ensino médio, onde a interferência dela em uma briga para proteger o menino das abelhas, fora o suficiente para fazer o moreno andar consigo. Segundo Emma, ele gostava de tentar a sorte, pois sempre que tinha oportunidade a chamava por algum apelido carinhoso, – geralmente apelidos que ele ouvira a família Addams falar em algum momento — testando a paciência da caçula, que vez ou outra já imaginou-se explodindo sua cabeça. Mas claro que, para ele ainda continuar vivo, significava que o garoto-abelha tinha algo de especial, e não pense que era por ele ser o único amigo de Emma — além de Thing -, mas sim porque Mousa cresceu muito na arte de combate – claro, Emma ensinou tudo que sabia para ele — aprendo a manusear vários tipos de armamentos e controlar melhor seus poderes, tudo para protege-la. A Addams achava loucura tanta devoção só por ter interferido em uma briguinha besta de escola, mas apreciava sua lealde, que já foi posta à prova diversas vezes. Atualmente eles moravam juntos na mansão, com o rapaz sendo seu mordomo e – na sua opinião: sem necessidades — guarda costas também.

- Esperei a senhorita voltar para esquentar seu jantar – Mousa comentou, antes de subir a escadaria em direção aos quartos – Ele já está posto na mesa.

Emma observou em silêncio o rapaz sair carregando a criança. Ainda não compreendia por que toda essa atenção, era para ele já estar dormindo àquela hora, porém mesmo assim, Mousa ficou lhe esperando para servir o jantar. Ele era mesmo um idiota, mas gostava da mordomia que o rapaz lhe proporcionava. Largou as chaves do carro em qualquer canto e foi em direção a sala de jantar.

[...]

Na noite anterior Elisa não jantou, passou boa parte do tempo vomitando ao lado de Larissa. E quando foram deitar, o sono chegou apenas para a de cabelos loiros. A górgona revirou-se na cama a madrugada toda, em uma crise de ansiedade silenciosa, não queria que a esposa acordasse. Acontece que ser mãe era algo distante na mente do casal, nem uma das duas haviam conversado sobre o assunto, além de que tomavam todos os cuidados possíveis, já que sabiam que lobisomens eram hermafroditas e podiam ser fecundados por pessoas do mesmo sexo.

Tudo bem, agora elas tinham uma gravidez não planejada e uma conversa indesejada para resolverem. Larissa não questionou a falta de “carinho” ou “felicidade” quando deu a notícia para Elisa, e a górgona agradeceu internamente por isto. Elisa também notará que a lupina não parecia muito contente com a ideia, pensava que, talvez Larissa estivesse tão insegura e assustada quanto ela. Quer dizer, Elisa tinha seus motivos para não ter saltitado pela casa ou rodopiado a mulher em seus braços. Afinal, a família da górgona nunca fora um bom exemplo a ser seguida, ela tinha diversos traumas que já estavam sendo tratados alguns anos na terapia. Chegou até a conversar com sua terapeuta sobre a maternidade e em como tinha pavor de pensar em ser como seus pais, ela gostaria de se preparar muito bem caso um dia quisesse filhos. E bem... Agora ela teria. Conhecia Larissa muito bem e abortar nunca, jamais, seria uma opção para elas, o que aumentava ainda mais sua ansiedade. Ela não seria uma boa mãe, seria? Oh Deuses! Elisa seria pior que seus pais!

- Já acordou? – Larissa murmurou sonolenta.

Elisa reparou só agora que os raios de sol entravam pela janela, iluminando levemente parte do quarto de casal. Ela não dormirá nada, estava extremamente cansada e ainda precisaria trabalhar dali a algumas horas.

- Bom dia mi amore – Elisa deixou um beijo em sua bochecha, sua ideia era agir normalmente, como se tivesse acabado de acordar, assim não deixaria a Addams preocupada.

- Bom dia cara mia – Larissa beijou as costas das mãos da esposa, com um leve sorriso nos lábios. Espreguiçou-se antes de levantar – Vou preparar um café da manhã reforçado para você, não comeu nada ontem.

- Na verdade, eu não estou com fome – Elisa confessou acanhada, ainda estava processando a ideia da maternidade de tal forma que aquilo tirava toda sua fome.

- Se não comer, não vai trabalhar bem – Alertou preocupada, Elisa tivera um dia cheio ontem no trabalho, comeu pouco no almoço e ainda vomitou tudo antes de deitar-se.

- Eu vou ficar bem, não se preocupe – A górgona sorriu, tentando passar tranquilidade.

- Então vou preparar um lanche pra você levar.

Larissa deixou o quarto sem esperar por uma resposta. A lupina não era burra, sabia muito bem que a esposa não dormirá nada, mas fingiu que não percebeu, pois parecia que Elisa não queria falar sobre o assunto que tirou seu sono. E não precisava de muito para descobrir, era apenas juntar dois mais dois que o resultado seria: medo. Elisa estava com medo de ser mãe. A Addams entendia, acompanhou de perto todos esses anos o drama familiar da esposa e não era preciso pensar muito para perceber que ela tinha assuntos não resolvidos. Precisavam conversar sobre a situação uma hora ou outra, mas por enquanto, deixaria Elisa com seus pensamentos e aproveitaria esse tempo para ela mesma processar a descoberta.

Enquanto preparava um sanduiche natural na cozinha do apartamento, Larissa deixou-se vagar por momentos íntimos, tentando entender o que ocorrerá para que aquilo tivesse acontecido. Elas sempre tomaram o maior cuidado para não engravidarem e agora isso? Realmente tudo foi em vão ou elas se descuidaram em algum momento? Era difícil de lembrar.

- Estou saindo – Elisa anunciou da porta da cozinha, vestindo roupas sociais e seu jaleco pendurado nos braços.

- Eu fiz sanduiche, para caso você sinta fome – Larissa embrulhou o alimento em papel-filme e entregou a esposa – Bom trabalho.

- Obrigada – Elisa deixou um beijo nos lábios da lupina e então partiu para fora do apartamento.

Larissa voltou para o balcão, a fim de fazer um sanduiche natural para si, porém assim como Elisa, ela estava sem fome, o que era estranho, pois nas últimas semanas ela comia o suficiente para uma equipe de pedreiros. Desistindo de se alimentar, a Addams foi até seu escritório, preferia ocupar a mente com o trabalho de historiadora, talvez assim o dia passasse mais rápido e a fome aparecesse.

[...]

Como havia imaginado, foi uma luta para acordar as trigêmeas. A demora de Joui em pôr elas na cama na noite anterior, resultou no que Lúcifer chamava de: “aqueles dias”. Um dia que se repetia algumas vezes no mês, visto que o meio vampiro e meio sereia acabava sempre cedendo as vontades das filhas. Para começar, as meninas não acordavam facilmente, sempre voltavam a dormir enquanto os pais distraiam-se ao arrumar suas mochilas ou a escolher roupas para saírem de casa. Depois, quando acordadas de fato, vinha o choro, suplicas para que não fossem para a creche ou qualquer compromisso que seja. Neste caso, era uma batalha quádrupla, pois Lúcifer precisava ser firme tanto com as filhas, quanto com o marido que nessas horas, tinha tendência a ficar com pena e deixarem elas fazer o que queriam. Depois, havia a barganha para o banho, onde os homens precisavam convencer as meninas a entrarem na banheira, colocavam brinquedos e diziam que a água estava morna, que elas se divertiriam, etc. Raro era o dia em que eles não precisavam correr atrás de uma delas pela casa, para que entrassem na banheira. Logo depois, existia para Joui, a pior parte: arruma-las. Para o asiático era complicado, pois nunca acertava os penteados dos cabelos, cada uma tinha um gosto especifico e o Tanaka era péssimo em fazer aquilo sem antes errar umas três ou cinco vezes. As roupas, elas conseguiam vestir sozinhas, porém os cabelos eram eles que tinham que pentear, com Lúcifer se dedicando a duas delas e Joui na luta para conseguir acertar o penteado de pelo menos uma. O momento de paz para os mais velhos, era a hora da comida. O café da manhã era servido na mesa de jantar e um tablet com desenhos ficava ao centro dela, as meninas assistiam em silêncio, hipnotizadas pelas cores e sons.

Os homens concordavam que, aparelhos eletrônicos na hora da refeição, não era uma coisa saudável na idade delas. Porém quando estavam “naqueles dias”, o tablet era liberado para mantê-las entretidas, enquanto eles finalizavam os afazeres da manhã, antes de saírem para o trabalho.

Aproveitando que as filhas estavam distraídas, Lúcifer decidiu mais uma vez, bronquear o marido para talvez assim, quem sabe, convence-lo a não fazer as vontades das pequenas nas próximas vezes. Foi para a cozinha, avistando lá, Joui terminar de embalar alguns lanches para as filhas comerem na creche.

- Sabe que isso é culpa sua, né? – Lúcifer definitivamente não era tão delicado nas palavras como Wednesday e Enid durante uma discussão – Essa agitação toda de manhã, estamos atrasados para deixá-las na creche, consequentemente, isso nos atrasa no trabalho!

- Se tem tempo pra brigar, então também pode ajudar a organizar os lanches – Joui também não era de ficar calado, acabará pegando isso de Yoko e Divina, que tinham discussões calorosas.

- Amor, estou falando sério – Lúcifer pegou os lanches já embalados e foi guardando nas lancheiras – Pode parecer repetitivo...

- E é repetitivo – O asiático cortou sua fala, lhe passando mais um lanche embalado.

- Mas só porque você continua repetindo as mesmas coisas! – Lúcifer explicou exasperado, santa lua dos lobinhos! O seu marido era um cabeça dura!

— Você dá importância demais pra coisas banais – Joui revirou os olhos e pegou as lancheiras já organizadas.

- Coisas banais?! – O Addams elevou a voz, desacreditado – Estamos falando na criação das nossas filhas. Isso – Ele apontou para a porta da cozinha, onde do outro lado as trigêmeas assistam desenhos enquanto tomavam café da manhã – Não é nada banal! É o que fará elas não serem adultas mimadas e supérfluas!

- Por que está tão irritado?! – Joui também elevou sua voz, largando as lancheiras novamente – Elas só têm 4 anos Luci! Elas não vão ficar adultas do dia pra noite!

- Vocês estão brigando? – Jenna, a pequena cópia física de Lúcifer, perguntou receosa.

- É nossa culpa? – Wanda, a misturinha física dos pais, complementou chorosa.

Ambos os homens ficaram apreensivos. Nunca tiveram uma discussão na frente das crianças, eles preferiam resolverem-se quando estavam sozinhos no carro, a caminho do trabalho ou voltando dele. Mas “naquele dia”, os nervos estavam a flor da pele, Lúcifer sentiu sua raiva transbordar quando teve dificuldades para acordar as meninas – não descontando nelas, claro. Alertava Joui a meses sobre o comportamento dele e aquela manhã havia sido a gota que fez seu copo chamado “paciência”, finalmente transbordar. Não mais conseguindo se segurar, tentou argumentar com o marido o que tanto reclamou por tempos e isso acabou alertando as crianças, que nunca viram os pais daquela forma. O desenho para as três, deixou de ser importante desde que Naomi, a pequena cópia física de Joui, pareceu sentir algo estranho no ar, quando Lúcifer passou por elas com cara de poucos amigos. Um tipo de sexto sentido? Talvez. O que importava era, que ao alertar as irmãs de que poderia estar ocorrendo algo, elas se levantaram juntas e foram sorrateiramente para a cozinha, ouvindo a conversa – com Wanda e Jenna traduzindo em libras para Naomi — e descobrindo que aquela discussão se tratava sobre elas.

- Não, claro que não! – Lúcifer apressou-se em responder, se martirizando por elas terem presenciado a cena.

- Estavam ouvindo escondidas? – Joui pareceu bravo com a atitude delas, algo que ele fazia quando estava nervoso, mudar o foco da conversa.

As meninas ficaram cabisbaixas, os mais velhos se entreolharam culpados. Precisavam conversar com elas, explicar a situação, para que assim não pensassem que elas eram o problema. Mas não havia tempo, estavam atrasados e seus respectivos chefes sempre descontavam no salário ou em horas extras. Com um grande suspiro, Joui recolheu novamente as lancheiras, enquanto Lúcifer falava, ao mesmo tempo que fazia sinais, para Naomi compreender.

- Vamos conversar sobre isso quando chegarmos em casa, entendido? – Esperou que as meninas concordassem e logo acrescentou – Nós dois amamos muito vocês, não se sintam culpadas por nada.

- Mas eu escutei quando-

- A noite conversamos Wanda – Joui cortou a filha, a fim de encerrar aquela conversa por agora – Peguem as mochilas, vamos para o carro.

- Tudo bem – Jenna respondeu ainda meio tristinha, sua mente infantil imaginava algumas situações do que poderia estar acontecendo e o medo dos pais se separarem passou rapidamente por sua mente. Já distantes dos pais, ela sussurrou para a irmã – Acho que eles vão se separar.

- Separar? Como os pais do Jeff? – Wanda ficou em choque, lembrando-se do quão mau ficou o coleguinha de turma delas.

Naomi cutucou as irmãs, curiosa com o que elas cochichavam, e em sua opinião, a resposta em libras poderia nunca ter sido dita. Naomi era a que mais estava confusa com a história, não compreendendo direito qual foi o motivo da briga – por mais que as irmãs tivessem lhe dito – mas deveria ser algo realmente muito grave, para os pais quererem separar. Segurou o choro, não queria acreditar naquilo, as irmãs estavam erradas! Por Lilith, elas tinham que estar erradas...

[...]

Quando acordou no dia seguinte, Emma havia quase que esquecido do garotinho que havia levado para casa. Esperava que fosse um serviço rápido e que entendesse logo qual era todo aquele mistério em relação àquela criança. Saiu do seu quarto utilizando roupas formais, que normalmente usaria no trabalho, calça lisa preta, camisa de botões branca — muito bem ensacada – dois coldres axilar — um de cada lado –, e por fim, um casaco de couro preto, pendurado no braço direito. Carregava o distintivo nas mãos, para anexa-lo mais tarde em seu cinto.

A Addams escutou risadas vindas da sala de jantar e imaginou que os tios estivessem acordados, eles riam muito, para desgosto dela. Entrou no cômodo em silencio, vendo os parentes interagindo animadamente com o garotinho magrelo, que se empanturrava com panquecas. O primeiro a notar sua presença foi Mousa, que sentava a mesa junto aos demais. Rapidamente o mordomo levantou-se, e com um gesto pediu o casaco que Emma carregava. A morena lhe entregou a peça de roupa e se encaminhou para seu assento, a cadeira na ponta da mesa, o lugar do “chefe” da casa. Mousa logo dobrou o casaco e o deixou guardado em um lugar seguro, longe de alimentos, em seguida foi para seu assento, ao lado de Emma.

- Querida, aonde arrumou essa figurinha? – Tia Ophelia perguntou, se referindo ao garoto, entre risos.

- Esse é dos meus! – Tio Pugsley sorriu – Veja Ophelia, este é o terceiro prato dele!

Emma torceu o nariz, o que era tão engraçado em ver uma criança comendo mais que o estomago permitia abrigar? Se bem que analisando o caso dele, o garoto provavelmente estava sem ingerir alimento a dias. Ignorando os parentes risonhos e a criança esfomeada, Emma virou-se para Mousa e conversou em tom baixo com ele.

- Devo voltar do trabalho depois do almoço – Informou.

- Então a senhorita chegará cedo?! – Mousa sorriu, animado – Então iriei preparar um ótimo almoço!

- Já levou comida para Tropeço?

- Sim senhorita, Thing está no quarto com ele, fazendo companhia, logo irei busca-lo para ficar sentado na sala, ele gosta de ouvir músicas clássicas na vitrola, como bem sabe.

- Certo – Emma ficou alguns segundos em silencio, repassando em sua mente se não havia esquecido de algo. Como chefe da casa, ela precisava tomar conta de todos e não deixar faltar nada. Observou de relance a criança comendo na cadeira ao lado, então lembrou-se de algo – Se possível, leve o garoto para comprar roupas, essas estão muito velhas e sujas.

- Sim senhorita, eu já estava pensando em comentar isto – Mousa observou o garotinho rapidamente e logo após, voltou a olhar sua chefe – Nem se eu lavasse aquelas roupas, daria para usa-las, são apenas farrapos.

- Use meu cartão. E mais uma coisa, proteja-o.

- Algo de errado senhorita? – Mousa estranhou o olhar e tom sério de Emma, bem mais que os tons e olhares sérios que ela usa normalmente. Era diferente, ela realmente queria que o homem tivesse cautela.

- Algo sobre ele parece estranho – Emma observou de canto de olho o garoto e depois voltou-se para o descendente indiano ao seu lado – Espero que eu esteja errada.

- A senhorita nunca erra.

- Puxa saco – Emma revirou os olhos, porém gostando da resposta dada pelo amigo.

O café da manhã seguiu-se tranquilo, com conversas animadas entre os tios e o mordomo, e a atenção extrema da criança para com todos. O menino não falava uma palavra, mas observava cada gesto e interação, enquanto enchia a boca cada vez mais de alimento. Emma terminou sua refeição primeiro, como de praxe. Mousa levantou-se para lhe entregar o casaco de couro e Thing apareceu para lhe acompanhar. Sendo sua “mão direita”, era importante que ele estivesse consigo, vigiando todos que tentavam lhe passar a perna, principalmente aqueles a quem foi jurada de morte, já que Emma prendia muitos bandidos e acabava com suas organizações criminosas.

Prendendo seu distintivo no cinto, a Addams entrou no carro, dando partida e seguindo rumo a delegacia. Passou boa parte da manhã conversando com David, apurando todas as evidências e pistas que tinham recolhido sobre o cativeiro e a criança. Em um momento onde o investigador saiu para buscar café, Thing contou seu relato para Emma, do que havia visto dentro do galpão naquela noite, segundo ele, não achou que aquele cativeiro teria relevância, já que parecia vazio. Emma começou a imaginar se não havia algo relacionado a excluídos nesta história, talvez o garoto tivesse algum poder e isso despertou interesse na gangue. Antes que percebesse, já era hora do almoço, David saiu para almoçar deixando Emma com seus pensamentos. Se a linha de raciocínio dela estava certa, – e segundo Mousa, sempre estava – logo mais, alguém viria atrás do garoto excluído. Bastava saber onde ele se encaixava, poderes psíquicos talvez? Igual sua mãe e irmã? Era um bom palpite. Sua melhor opção, era buscar respostas com a própria criança, por isto tirou a tarde de “folga”. Pretendia interagir com ele e ganhar sua confiança para que lhe contasse tudo que sabia.

De volta a Mansão Addams, desarmou-se das pistolas, retirando os coldres. Pendurou o casaco em um cabideiro atrás da enorme porta de entrada e caminhou calmamente pela casa. Avistou tropeço sentado no sofá, o gigante homem estava tão velhinho, que não conseguia locomover-se sem ajuda de terceiros. Aproximou-se dele e perguntou como ele estava. O antigo mordomo lhe pediu para tocar um pouco de piano, uma atividade que ele sempre gostou de fazer. Sem demoras, a Addams lhe acompanhou até o piano no meio da sala, ajudando-o a sentar.

- Pronto – Emma murmurou ao levantar a tampa que protegia as teclas da poeira.

- Toca... Comigo? – Tropeço pediu, a voz grossa e baixa. Emma tinha respeito pelo homem, que por anos cuidou dos parentes, ela nunca negaria um pedido dele.

- Claro – Sentou-se ao seu lado, esperando que ele iniciasse a música de sua preferência.

Logo ouviu as primeiras notas da música tema de Interstellar soar. Achou interessante a escolha, geralmente Tropeço preferia as músicas clássicas, mas não poderia negar que aquela era ótima. Esperou um pouco para entrar com ele nas notas, utilizando-se das teclas mais graves. Momentos depois, notou os tios aparecerem no topo das escadas, observando-os sorridentes. Mousa veio da sala de jantar, junto a criança. O garotinho parecia encantado com o a performance dos dois. O pequeno show foi assistido em silencio, sendo admirado por todos. Ao fim da ultima nota, a dupla recebeu alguns aplausos.

- Obrigado... – Tropeço sorriu para a mais nova.

- Eu que agradeço, é uma honra tocar ao seu lado – Emma não sorriu, tinha o rosto e o tom de voz sérios, mas seus olhos mostravam que ela realmente estava feliz – Vou tocar, sempre que quiser.

Tropeço não respondeu, pareceu ficar emocionado por um momento, também agradecido por ser tão bem cuidado e tratado pela neta daqueles que ele jurou proteger e cuidar. Ele é que se sentia honrado por tamanho cuidado. Thing limpou as lágrimas do amigo, que nem havia notado que derramara algumas. Emma resolveu afastar-se, não sabia lidar muito bem com as emoções alheias.

- Senhorita Emma, você foi esplêndida como sempre! – Mousa aproximou-se encantado.

A resposta da Addams foi um aceno de cabeça, em seguida prestou atenção no garotinho. Ele usava um terno infantil preto – daqueles que a parte de baixo é tipo uma bermuda -, os cabelos cacheados estavam lavados e definidos, nos pés, lindos sapatos sociais e meias compridas, brancas e pretas.

- Achei que essas roupas, gritavam Addams – Mousa comentou, quando notou que a morena olhava demais para o menino.

- Mas olha só! O menino ta parecendo da família! – Ophelia expressou, surpresa.

- Elegante, igual um Addams – Pugsley concordou.

Emma torceu o nariz. De fato, os Addams eram elegantes, mas os tios deixavam a desejar neste quesito. Um garotinho estranho parecia mais um Addams do que a família, o mundo era mesmo uma piada.

- Vamos almoçar – Foi a única coisa que Emma falou.

Todos a seguiram até a sala de jantar, cada um tomando seu lugar costumeiro. O garotinho sentou-se na ponta ao lado de Emma, como mais cedo no café da manhã. Mousa serviu o almoço, o silencio era barrado pela melodia do piano que Tropeço tocava junto a Thing. Quando todos estavam com seus pratos servidos, Mousa sentou-se na outra ponta, ao lado de Emma, como sempre fazia.

- A proposito garotinho, você tem nome? – Ophelia perguntou enquanto cortava um pedaço de carne.

- É verdade, não escutei uma palavra vinda de você – Pugsley pareceu realmente surpreso por só ter notado agora este fato.

Emma prestou atenção naquela conversa. Se queria conquistar a confiança dele, deveria ao menos saber o nome. Se amaldiçoou por não ter pensando em perguntar, precisava mostrar mais interesse para que a criança confiasse nela.

- Isac – Mousa foi quem respondeu diante ao olhar envergonhado do garoto – O Isac é tímido, ele tem receio de algumas pessoas não serem legais com ele, mas ele vai descobrir que os Addams são os melhores e mais acolhedores do mundo – Piscou para o garoto, como quem já tivera aquela conversa antes. O garotinho sorriu antes de voltar a comer, mais relaxado, Emma notou.

Horas depois, enquanto Isac se entretinha com tio Pugsley, que ensinava o pequeno a usar o seu velho estilingue de infância, no quintal da residência. Emma observava de longe, pensando em alguma forma de se aproximar. Seu objetivo era fazer aquela criança gostar de si o suficiente para falar o que sabia, porém como fazer isso quando ela mesma não se abria com os outros e muito menos interagia, ao menos não por livre espontânea vontade.

- Quer chá, senhorita?

Mousa aproximou a bandeja de prata em sua direção, duas xícaras e um pequeno bule jaziam ali em cima. Emma observou o mordomo, pensava como ele sabia sempre a hora certa de aparecer. Negou com a cabeça para o chá, porém o chamou para se acomodar ao seu lado, sentada em um dos degraus da escadaria de trás da mansão.

- Você é bom em se aproximar das pessoas – Iniciou a conversa, Mousa concordou com a cabeça deixando de lado a bandeja com os itens e prestando atenção na amiga – Como fez para o garoto falar com você?

- Eu apenas falei – Respondeu, simples.

- Sobre o que?

- Sobre mim, sobre ele, sobre os Addams – Deu de ombros – Coisas que achei que ele gostaria. Percebi que ele pareceu mais confortável com o tempo.

- Eu preciso que ele confie em mim – Emma especificou seu desejo.

Ottinger demorou alguns segundos observando o rosto da chefe antes de falar. Não perguntaria o motivo daquele desejo, Emma contaria se desejasse ou achasse necessário, confiava plenamente nela. E no fundo, tinha a esperança de que a Addams estivesse se afeiçoando de verdade ao garoto.

- Comece se apresentando – Sorriu, imaginando que ela nem havia ao menos dito seu nome a ele – Depois, fale sobre algum assunto que acha que seja do interesse dele.

- Não conheço o interesse de crianças e muito menos dos outros – Emma revirou os olhos – O que me interessa não é do agrado dos demais. Não consigo falar sobre o que não gosto.

- Então fale do que gosta, mas sem mortes ou terror! – Alertou vendo a descendente latina ficar pensativa.

- Não sou boa em me abrir com os outros...

- Mas está fazendo isso agora – Sorriu sob o olhar surpreso dela – Você sempre faz quando confia nos outros. Confie nele que ele também confiará de volta.

O rapaz levantou-se ao notar que a mulher ficará pensativa sobre o que foi dito. Pegou a bandeja de chá e foi em direção aos demais, oferecendo-lhes uma xícara.

[...]

Encostada no balcão de recepção, Elisa acenou para uma cliente quando está se despediu dela e do recepcionista ao seu lado. Respirou profundamente ao lembrar do seu pequeno problema materno. Balançando a cabeça para os lados a górgona tomou alguns papéis do balcão, a fim de ocupar a mente com qualquer outra coisa que não fosse a conversa que teria com Larissa dali a algumas horas.

- Tem mais algum paciente? – Perguntou ao passar os olhos em uma leitura rápida na lista de documentos que havia pego.

- Ah não! Já deu de pacientes para você hoje Addams – Reclamou Regina Barclay, sua melhor amiga desde a época que estudaram em Never More. A seria filha de Lucas e Bianca, conhecia os irmãos Addams desde muito nova, porém nunca tiveram intimidade suficiente para tornarem-se amigos, já que a família Barclay se mudou para a cidade Natal de Elisa quando Regina tinha por volta dos seus quatro anos – Amiga você não parou de trabalhar um minuto sequer.

- Imagina, é impressão sua – Elisa revirou os olhos largando os documentos dos pacientes que já foram atendidos.

- Querida, você nem parou para almoçar – Marlon, o recepcionista deu seu ponto, apoiando a fala da dentista.

- Eu almoço mais tarde, não se preocupem.

- Elisa, seu TDAH bateu novamente? – Regina perguntou preocupada – Almoçar só se for amanhã agora.

- Como assim? – Elisa piscou confusa.

- Querida, já está na hora de fechar a clínica – Respondeu Marlon mostrando o relógio de pulso marcar quase 19h.

- Teríamos fechado antes, inclusive – Regina continuo, percebendo que a melhor amiga estava surpresa com o fato de já terem passado do horário de fechar – Mas você continuava pegando mais pacientes, um atrás do outro...

- Eu... Não vi o tempo passar – Murmurou Elisa atônita. Não tinha mais escapatória, voltaria para casa em breve para ter a conversa e ainda nem havia de fato parado para pensar no assunto, ou entender quais medidas tomaria.

- Ta bom, diga pra gente, o que ta rolando? – Marlon pediu, indo girar a plaquinha pendurada na porta de vidro de open, para close – Você ta bem estranha.

Elisa olhou para a dupla. Marlon era um rapaz fofoqueiro, mas que também estava sempre disposto a ajudar os amigos. Se conheceram na entrevista de emprego para o consultório a dois anos atrás, desde então vinham nutrindo uma amizade verdadeira. Regina, a cópia da mãe quando mais jovem – também adotando o estilo cabelo raspado – era bem rigorosa com quem os amigos se relacionavam, este sendo um dos motivos para ela e Larissa não se “bicarem”, afinal na adolescência a Addams teve comportamentos que beirava o tóxico com a Petropulos – claro, antes de namorarem. De qualquer forma, Regina era uma ótima conselheira, o tipo de pessoa que talvez devesse ter seguido a carreira de psicóloga e não dentista.

Respirando fundo, a górgona decidiu que eles eram confiáveis suficiente para lhe ajudar a ter uma luz do que fazer.

- Larissa está grávida.

- O que?! – O choque de Marlon parecia ser maior que o de Regina, afinal, como um humano, ele não tinha conhecimento da anatomia dos lobisomens e suas capacidades.

Depois de uma breve explicação de Regina de como era possível sim, Larissa gerar um filho biológico de Elisa – tirando a possibilidade de uma traição por parte da loira, como Marlon achou que fosse o caso -, foi que Elisa enfim pôde escutar a opinião dos amigos.

— Como você está se sentindo em relação a isso? – Barclay perguntou, percebendo rapidamente que abraçar e pular comemorando com Elisa não era uma opção, visto que a mesma parecia incomodada com o assunto.

- Ansiosa. Não dormi a noite toda, não comi nada e ainda vomitei algumas vezes ontem à noite – Ela nem sabia dizer como ainda se mantinha em pé até aquele momento – Vocês sabem dos meus problemas com meus pais, eu não acho que estou apta para ser mãe.

- Ninguém está pronto querida – Marlon sorriu acolhedor – Se aprende com o tempo. No fim, você só pode tentar dar o melhor de si.

- Com as referências que tive, eu duvido muito – Elisa segurou o choro, ela seria péssima naquilo, tinha certeza.

— Você não é seus pais Elisa – Regina deu seu ponto – Você tem muito mais consciência que eles, vai dar tudo certo, você tem Larissa ao seu lado e as suas sogras, você mesmo disse que aprendeu muito com elas.

- No fim seus pais te deram um ótimo exemplo de como não agir – Marlon reforçou o comentário da Barclay – Você vai se sair bem, afinal tem a gente. Eu vou ser um ótimo padrinho, vou mimar muito!

- E quem disse que você será o padrinho?

Regina provocou iniciando uma pequena briga amistosa, causando risos em Elisa, que agora sentia-se mais calma. Talvez ela só estivesse precisando ouvir palavras afirmativas, e saber que teria uma rede de apoio lhe acalmava de certa forma.

No caminho para casa, comeu os sanduiches que Larissa preparou naquela manhã, estavam quentes por ter esquecido no carro, mas ainda estavam gostosos – ou talvez a sua fome fosse tanta que ela nem notará o gosto de comida estragada. Enquanto esperava o semáforo abrir, notou uma loja de brinquedos com uma pelúcia na vitrine que chamará sua atenção, uma ideia se passou em sua mente.

Quando adentrou o apartamento, foi recebida pelos sons da Tv, supondo que Larissa desta vez estava assistindo como sempre fazia e não vomitando no banheiro, ela rumou para a sala com um embrulho em mãos, a fim de cumprimentar apropriadamente a esposa.

Sentada no sofá, agarrada a um pequeno balde com vômito, Larissa tentava ignorar os enjoos enquanto focava-se em um documentário sobre um período da era medieval. Só notou que não estava mais só no cômodo, quando sentiu um beijo no topo de sua cabeça. Elisa sorria carinhosamente, ao tirar delicadamente o balde de suas mãos, o cheiro estava insuportável. A górgona levou o balde para limpa-lo e não muito depois voltou com ele já sem o aroma ruim e lavado.

- Aqui – Entregou novamente, sentando-se ao lado da lupina.

- Obrigada – Larissa sussurrou acanhada. Não esperava que Elisa fizesse aquilo, foi pega de surpresa. Esperava inclusive, que a górgona nem conversasse com ela esta noite, imaginou que ela iria querer mais tempo para si, para pensar.

- E então...

Elisa iniciou sem saber por onde começar. Um silêncio desconfortável preencheu a sala, os sons da tv, baixinho ao fundo, eram ignorados pelo casal, as duas não sabiam o que dizer. Larissa tinha receio que a mulher pedisse a separação, que aquilo fosse demais para ela depois dos anos que sofreu com a família Petropulos. Se fosse o caso de Elisa se afastar, a Addams tinha dúvidas de que conseguiria seguir em frente, um imprinting aconteceria por não estarem mais juntas e Larissa eventualmente morreria – literalmente, morreria de amor, neste caso, a falta dele.

- E então... – Larissa repetiu a fala, esfregou as mãos no estofado do sofá, tentando disfarçar o suor que brotava das palmas, estava ansiosa, nervosa.

- Eu tô com medo Lari... – Confessou em um suspiro, os olhos vacilando, não conseguia sustentar o olhar, não queria ver a cara de decepção de Larissa ao não sorrir feliz com a notícia, focou-se no embrulho que ainda carregava – ...Muito medo. Eu não dormi a noite toda, eu não comi nada, eu... Eu não sou a pessoa certa para ser mãe – Seus olhos queimavam, tentava a todo custo segurar o choro, mas foi inevitável quando ouviu um soluço escapar dos lábios da lupina. Elisa tinha decepcionado sua amada – Me perdoa Lari, eu deveria ta feliz, é o fruto do nosso amor! Mas não acho que consigo...

Larissa tentou segurar mais um soluço, as lágrimas já banhavam suas bochechas. Era definitivo, Elisa pediria a separação.

- Eu não consigo fazer isso sozinha – Elisa complementou, também em lágrimas. Não percebeu o olhar surpreso de Larissa que esperava outro tipo de fala – Eu preciso de ajuda, provavelmente vou estragar muita coisa, mas se você estiver comigo, se não desistir de mim eu-

- Vo- Você... – Larissa interrompeu, o soluçar de ambas mais alto que os sons da TV – Você não ta pedindo separação?

- Separação? – Elisa arregalou os olhos – Jamais, nunca, nem passou pela cabeça!

- Que bom – Addams soluçou mais alto, o corpo prendendo-se ao da górgona em um abraço. Alivio era o que sentia.

- Ta tudo bem? Você ta legal? – Elisa apertou a lupina contra si, percebendo seu corpo relaxar.

- Vamos fazer isso juntas – Foi o que Larissa respondeu antes de vomitar na pelúcia de unicórnio devidamente embrulhada em um papel presente.

[...]

Sabrina era uma mulher alta, cabelos curtos e olhos castanhos, sempre com um sorriso no rosto, ela carregava uma alegria genuína que encantava as crianças, por isto sempre se deu bem com elas. Era a professora favorita da creche, sempre tão atenciosa com os pequenos, isso aliviava o coração dos pais, sabiam que os filhos estavam em boas mãos. Por isso quando Lúcifer recebeu uma ligação da professora, ficou preocupado, será que uma das meninas ficará doente? Ou se machucou?

“O senhor e seu marido, poderiam vir aqui?”

Essa frase ecoava na mente do Addams enquanto ele dirigia ansioso pela estrada, Joui ao seu lado no banco do passageiro, parecia tão preocupado quanto ele. Os dois imaginavam que algo muito grave tivesse acontecido, caso contrário não precisariam da presença deles durante o horário de trabalho. De qualquer forma, foram liberados do serviço aquele dia, mas teriam que recompensar no próximo feriado – claro, os respectivos chefes nunca seriam tão generosos.

- Tem certeza que ela não disse o motivo? – Joui questionou assim que Lúcifer estacionou em frente ao prédio.

- Tenho certeza – Lúcifer controlou o tom de voz, responderá aquela pergunta várias vezes, já estava irritando. Porém o lupino entendia o nervosismo do marido.

A passos rápidos, atravessaram o portão da creche. Sabrina conversava com uma outra professora que fazia estágio na instituição. Sabrina logo percebeu os pais aproximando-se, apreensivos, deu uma última instrução a mulher que ficaria responsável pela sua turma durante aquele tempo e voltou-se sorrindo para os homens.

- Bom dia, as meninas estão na sala da psicóloga – Anunciou já sabendo que eles perguntariam sobre o paradeiro das filhas – Me acompanhem.

- Aconteceu alguma coisa grave? – Lúcifer perguntou, aflito.

- Foi Bullying com a Naomi? – Joui pareceu irritado, pronto para reclamar com quem tivesse feito mau a sua garotinha.

- Acho que sou em quem deveria fazer as perguntas – Sabrina respondeu parando no corredor, mais atrás dela, a porta fechada com os dizeres “psicóloga” denunciava que eles chegaram ao destino – Não nos diz respeito, a relação de vocês pais. Porém quando afeta as crianças, precisamos ao menos pedir para que conversem com a psicóloga.

- O que você quer dizer? – Joui parecia confuso e não mais irritado.

- As meninas contaram sobre a separação de vocês – Sabrina usou um tom suave, que soou como as trombetas do apocalipse para o casal – Chegaram muito mal, quando questionei elas caíram em lágrimas.

- Separação? – Lúcifer estava pálido, mais que o habitual.

- Tivemos um caso parecido com um aluno recentemente, a relação dele com os pais melhorou muito depois que conversaram com a psicóloga, então eu pen-

- Quem vai separar? De onde elas tiraram isso? – Joui voltou a parecer irritado, interrompendo a mulher. Ele estava na realidade, desesperado. Aquela ideia era absurda demais.

- Os senhores, não vão se separar? – Sabrina piscou, confusa.

- Pelo amor do Dracula, claro que não!

- Deve ter acontecido um mal entendido – Lúcifer se apressou em dizer, agora recuperado do susto – Podemos falar com elas?

- Em particular – Acrescentou o Tanaka.

A porta fora aberta e a professora Sabrina apareceu, sussurrando algo para a psicóloga que com um olhar confuso, se retirou da sala, deixando as meninas sozinhas com alguns blocos que empilhavam juntas. As irmãs se encararam brevemente, curiosas. Momentos depois a porta fora aberta novamente e dessa vez, elas viram os pais passarem por ela, fechando logo depois. As trigêmeas desviaram o olhar envergonhadas, sabiam o motivo dos mais velhos estarem ali, provavelmente teriam atrapalhado o trabalho deles novamente, como hoje mais cedo.

— Oi – Lúcifer tentou soar amigável, tentando deixar de lado sua mente se perguntando furiosa de onde as filhas tiraram aquela ideia absurda de separação.

- Olá – Responderam e Naomi acenou, todas acanhadas.

- Seu pai e eu soubemos da separação – Joui sentou-se calmamente em uma das cadeiras, sendo acompanhado pelo marido – Por que acham que vamos nos separar?

- Porque vocês estavam brigando, igual os pais do Jeff – Wanda confessou exasperada. Os olhinhos enchendo-se de lágrimas segundos depois – Eles começaram brigando... E então...

Logo a pequena começou a chorar, sentindo o desespero de não ter sua família unida. Naomi chorou junto, de uma forma um pouco mais controlada, sua mente infantil viajando por várias situações, tentando entender como tudo aquilo aconteceu, quais os grandes motivos para uma separação tão repentina.

Os mais velhos desesperaram-se, ajoelhando em frente as crianças. O Asiático limpou carinhosamente as lágrimas das filhas, enquanto Lúcifer repetia palavras de conforto. Quando mais calmas, eles retornaram a conversa.

- Meus amores, nós não vamos nos separar – Lúcifer afirmou, para alivio das trigêmeas – Os pais do seu amiguinho, podem ter iniciado a separação por causa de brigas, mas cada caso é um caso, não sabemos como era o relacionamento deles.

- Entendam que separações infelizmente ocorrem -Joui continuou – Mas da para se encontrar um equilíbrio nesses casos. Soube que o relacionamento do Jeff com seus pais tem estado bem melhor – Lembrou-se do comentário da professora mais cedo – Isso não é algo bom?

- Acho que sim – Jenna concordou incerta, de fato o colega de classe estava mais feliz com o passar do tempo.

- Os adultos brigam – Lúcifer chamou novamente a atenção.

- Assim como as crianças e os adolescentes? – Naomi questionou.

- Exatamente! – O lupino sorriu – Todos brigam em algum momento, é algo natural, nem sempre entramos em concordância, não é? – As filhas assentiram – Não é uma briguinha que vai nos afastar. Nesses casos, precisamos refletir sobre nossas atitudes, entender o lado do outro e encontrar um equilíbrio. Quando vocês brigam pela boneca, o que vocês fazem?

- Dividimos – Wanda respondeu – Cada uma fica com ela um pouquinho.

- Vocês encontram um equilíbrio – Lúcifer explicou seu raciocínio – Seria ótimo que todos conseguissem entrar em acordo não é mesmo? Por sorte, somos maduros suficientes pra isso – Olhou de relance para Joui que prontamente concordou – Nossa briga, foi só nossa. Acontece as vezes, não é culpa de vocês, por favor, não sintam esse peso.

- Vocês não são responsáveis por nada. Tudo bem? – Reforçou o hibrido sereia e vampiro.

- Tudo bem.

- Ótimo. Agora vamos para casa jogar RPG? – Lúcifer sugeriu vendo os rostos das três se iluminarem.

As meninas saíram da sala indo até sua classe buscar suas mochilas. Não havia cabeça ou clima para ficarem na escola ou voltarem ao trabalho. Foi um baita susto que a família levou. Joui fez uma nota mental de se policiar, toda aquela confusão poderia ter sido evitada se ele fosse mais firme como Lúcifer tanto pedia. Talvez ele devesse, como o marido falou, achar o equilíbrio.

- Podemos tomar sorvete? – Wanda perguntou ao Tanaka, sabendo que ele cederia facilmente.

O homem olhou para criança antes de encarar o marido. Lúcifer tinha uma expressão de suplica, afinal aquela não era a hora para aquilo. Quando voltou a olhar para a filha, ela tinha seus olhinhos perolados suplicantes.

- Hoje não Wanda – Respondeu temeroso de que ela o odiasse – Está cedo demais para sorvetes, quem sabe no fim de semana? – Fez uma outra proposta.

A pequena respondeu um “okay”, antes de voltar sua atenção as irmãs que conversavam sobre o jogo que teriam. Lúcifer sorriu orgulhoso e Joiu retribuiu. Achava que seu mundo iria ruir ao ter uma das filhas com raiva de algo que ele negasse, mas na realidade, era só sua ansiedade falando alto. Ela entendeu muito bem a situação, de tal forma que pareceu até não se importar.

- Pensei que seria mais difícil – Murmurou aliviado.

- Fez um ótimo trabalho – Lúcife deixou um rápido selinho em seus lábios antes de seguir para o carro.

- Eu só escutei meu marido e achei o equilíbrio – Justificou-se andando ao seu lado, suas presas aparentes por causa do sorriso.

[...]

Os sons dos cascalhos sendo pisoteados era a única coisa que quebrava o silencio no cemitério Addams. Emma ao lado de Isac e Mousa, caminhavam pelo caminho de pedras em um silencio estranhamente confortável. Cinco dias haviam se passado e a mulher já tinha estabelecido uma boa relação com a criança, descobrindo mais sobre a relação dele com a antiga gangue que o prendera. Ela estava certa sobre suas suspeitas, o garoto era um excluído, do tipo raro, uma maldição no sangue ou algo assim. Seu sangue petrificava a ponto de virar âmbar, a pedra valiosa era vendida e tornava-se a maior renda das gangues, sendo utilizada para comprar mais armamentos e maquinários para o cartel, além de ser negociada entre os chefes do crime, que agiam como agiotas para viciados que faziam dividas.

O passeio no cemitério daquele dia, não era algo do acaso, como um lazer ou algo do tipo – embora os Addams de fato gostassem desta atividade. Dois dias atrás, todos na mansão identificaram rapidamente a presença de espiões, sabiam que estavam atrás do garoto, então estabeleceram uma rotina para que os olheiros tivessem confiança em criar um plano de ataque. De posse dos horários, os espiões informaram a mercenários contratados por líderes de facções qual a melhor hora de atacar, mal sabendo que eles foram manipulados para a hora e local que Emma mais achou apropriado. Fingindo que não sabia da presença dos inimigos espreitando por trás dos arbustos, Emma prestou atenção na conversa que se iniciava entre o mordomo e a criança.

- Vocês são marido e mulher? – Isac questionou algo que sempre passou pela sua cabeça, desde que chegará na mansão.

- Não somos – Emma esclareceu.

- É que ele sempre está a elogiando – Pontuou, parando brevemente para pegar um cascalho e posicionar em seu estilingue, item que ganhou de Pugsley, segundo o homem gordo, aquele brinquedo pertenceu a ele, depois ao seu filho e agora era de Isac.

- E continuarei até o fim de minha vida – Mousa sorriu revelando seus sentimentos.

- Mas você não parece ser correspondido – Isac acertou um pássaro que voou desesperado para longe.

- De fato, não sou e nem serei – Explicou como se fosse algo banal – Senhorita Emma é arromantica e assexual, não terei chances, jamais.

- O que é isso?

- Significa que sinto pouca, ou nem uma atração romântica ou sexual – Addams esclareceu pensando momentaneamente que “jamais” era uma palavra muito forte.

- E está tudo bem por você? – A criança voltou seu olhar curioso para o mordomo. Parecia uma conversa complexa sobre sentimentos, mas o pequeno entendia muito bem a situação.

- Sim, pois sou assexual e me conforto em saber que estou ao lado dela todos os dias – Ottinger foi claro em suas palavras, nem ele ou Emma tinham intenção de enrolar o garoto, sabiam que crianças conseguiam entender bem uma situação se fosse explicada francamente – Não é uma questão para mim, não sou dependente dela, senhorita Emma não me prende ou me dá esperanças. Essa foi a forma que escolhi viver, ao lado dela para sempre. E isso me basta.

- Entendi.

Emma também entendeu. Ali estava sua resposta a tamanha devoção. Ficou agradecida por seu melhor amigo ser sincero em suas palavras e por ter escolhido ficar ao lado dela. Pois como ele mesmo disse, ela não o prende e nunca o obrigaria a fazer algo contra sua vontade. Um estalo foi ouvido, o som tão sutil que se não fossem pelas habilidades treinadas de Emma e Mousa ele não teria sido notado.

- Ta na hora – Quem anunciou num sussurro entediado foi o de linhagem Indiana. Mousa dobrou as mangas da camisa social que usava, enquanto Emma puxava suas armas do coldre.

Isac já ciente – pois os Addmas nunca lhe esconderam nada – da situação, agachou-se atrás de uma lápide, com uma arma de choque em mãos para defesa. A batalha teve início quando os mercenários surpresos pelo preparo da dupla, saíram dos esconderijos apontando suas armas. Os primeiros disparos, vindos do casal, espantaram os corvos das árvores, deixando rastros de penas para trás. Não demorou para que todos os homens estivessem ao chão, com alguns ossos quebrados e corpos perfurados por balas.

- Uau! – Foi a única coisa que Isac conseguiu dizer, os olhos brilhantes de empolgação ao ver seus heróis lutando para lhe proteger.

O cenário de corpos mortos não pareceu lhe atingir e ele muito menos esboçou alguma reação para o sangue nas roupas e cabelos da dupla. O casal de amigos notou rapidamente este fato.

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- Patéticos, nunca foram páreos – Cuspiu Mousa irritado.

- Eles não serão os únicos a virem até aqui – Analisou Emma. Um comentário perspicaz para quem sabia da situação da excluída criança, porém com um significado muito maior por trás.

- Então o que acontece agora? – Isca tombou para o lado a cabeça preocupado e confuso, parecia que ele nunca teria descanso.

- Agora você fica com a gente – A mulher deu de ombros, chutando um corpo morto para o lado, abrindo espaço para voltar a mansão. Deixaria a limpeza com o mordomo.

- Bem vindo a família Addams — Mousa sorriu para o novo membro, algo que Emma não era capaz de fazer com facilidade.

[...]

Dois meses depois...

Batidas foram ouvidas na porta. A loira apressou-se para atender, empolgada demais com a chegada dos visitantes, a festa estava para começar! Quando a porta fora aberta, os olhos azuis capitaram os três filhos e suas respectivas famílias. Enid piscou algumas vezes, surpresa com algumas mudanças. Larissa estava com uma barriga de gravidez aparente, suas netas estavam extremamente comportadas e sorridentes e Emma tinha ao lado um Mousa sorridente, junto a um garotinho que nunca viu.

- Feliz natal! – Falaram em uníssono.

- Quanta gente – Wednesday, que passava por ali com alguns embrulhos, resmungou sem dar grande importância.

- Vocês precisam me contar tudo! – Enid recuperada do susto, se empolgou em saber as novidades, convidando todos a entrarem.