Família Addams WENCLAIR
16 Eu e Você - OneShot

Era uma noite estrelada, como em todos os clichês que Enid gosta. O vento estava gelado, logo começaria o inverno. Nas ruas haviam poucas pessoas por volta daquele horário. E naquele local, definitivamente o que não haviam eram pessoas, ao menos não as vivas. As velas agora derretidas pela metade — por causa tempo que passamos namorando ali — agora matinha chamas baixas, graças a brisa que um momento ou outro, passava pelo ambiente. Os sons da pá removendo pouco a pouco a terra do cemitério ecoava pela escuridão.
— Amor, vamos embora por favor – Enid pediu pela terceira vez – Está ficando cada vez mais frio.
— Você não tem problemas com temperaturas baixas, cara mia – Respondi, sem desfocar da função que fazia, logo daria para ver o caixão.
— Eu não, mas você sim – Rebateu preocupada com meu bem estar.
Não lhe respondi, deixando-a em silêncio por alguns minutos. A Sinclair ficou deitada nas cobertas que colocamos no chão, para um piquenique romântico a meia noite. Não havia celular para ela se distrair, lhe obriguei a deixar no quarto, então a loira apenas pôde observar o céu, notando que nuvens grossas e cinzentas se aproximavam lentamente.
— Parece que o tempo vai virar bruscamente – Comentou puxando conversa. Não lhe respondi novamente, estava focada no meu objetivo – Afinal, o que estamos fazendo aqui mesmo? – Questionou levemente irritada quando não sustentei sua conversa sobre o clima.
— Um piquenique – Larguei a pá em cima da cova e comecei a limpar a tampa do caixão, finalmente eu havia encontrado.
— Que acabou a horas – Complementou, agora já sentada observando distraidamente meu trabalho de abrir o caixão – O que eu quero saber é, o que estamos fazendo aqui, violando o túmulo da sua avó!
— Sou eu que estou “violando” – Fiz aspas com os dedos, Vovó não se importaria com o que estou fazendo, sendo que foi ela mesma que me pediu para fazer isto – Não se preocupe, vovó saberá que você não tocou um dedo nesta pá.
— Estamos juntas a mais de três anos, é claro que, “nós”, encaixa neste contexto – Explicou seu ponto, os olhos agora focados na lápide da Vovó Addams – Eu e você sempre, lembra? Seus problemas são meus problemas, e vise e versa.
— Eu não tenho problemas em escolher uma roupa para sair – Lhe alfineto, lembrando que mais cedo ela passou horas no nosso quarto na Mansão, procurando uma roupa para nosso piquenique – Não vejo como isso pode ser meu problema.
— É aí que se engana, Addams – Sorri triunfante, nossos olhares se encontram e eu já não mais encaro o cadáver da minha avó dentro do caixão – Se eu não encontro roupa para sair, logo você também não sai! Neste caso, sua única alternativa seria me ajudar a encontrar uma roupa para ocasião ou... Desistir de sair – Explica seu ponto de vista.
— Touché – Dou de ombros, percebendo que seu argumento está correto. Volto o olhar para o caixão e encontro o que vim procurar – Enid desce aqui.
— Descer aí? Do lado da sua Avó? – Ela parece assustada, seus olhos estão arregalados e hesitantes de olhar o cadáver.
— Desce logo Sinclair – Chamo novamente, me divertindo com o desconforto dela. Não demora muito e tenho ao meu lado o corpo da minha namorada, observando o caixão com as mãos na boca, quase vomitando – Fechei a tampa pra você não a ver, e ainda assim está passando mal?
— Sabe que não me sinto bem com essas coisas – Ela respira profundamente tentando não desmaiar – O que quer me mostrar?
— Veja o que encontrei – Aponto para uma caixinha que deixei em cima do caixão, Enid observa o objeto curiosa e o pega, esquecendo-se do seu enjoo – Abra.
— Que lindo amor! – Ela arregala os olhos, surpresa e encantada com o anel protegido na caixa de veludo. O anel era fino, incrustrado de diamantes com um rubi no meio – Isso é diamante de verdade?
— Exatamente – Dou um mínimo sorriso, feliz por ela apreciar o acessório. Seus olhos nem piscam quando continuo a falar – É uma joia de família, feita pela minha tataravó, dada de presente ao seu filho, para que ele pedisse a mão da namorada em casamento. Foi passada de geração, de pai pra filho e no meu caso, de avó pra neta.
— Não brinca, esse anel é seu?! – Mais uma vez, vejo seus olhos arregalarem surpresa – Caramba Wed, é realmente lindo.
— Na verdade ele não é mais meu – Expliquei, notando que a temperatura descia gradativamente – Vovó me fez um último pedido. Queria que eu retirasse do seu tumulo esse presente.
— Ela pediu pra que você cavasse a cova dela pra presentear alguém?
Enid pareceu descrente, mas meu olhar sério e a situação que nos encontrávamos foi suficiente para ela ceder a explicação. Pobre Enid, tantos anos convivendo juntas e há coisas que ainda não acostumou-se.
— Essa pessoa deve ser importante para a vovó Addams – Enid fechou a caixinha e me devolveu.
— Não tanto quanto é para mim.
Enid parece levemente irritada com minha fala, imagino que algo como “quem é essa pessoa que é mais importante do que eu”, se passa em sua mente. Porém toda sua raiva se dissipa tão rapidamente quanto surgiu, ao me ver ajoelhar na terra remexida da cova da minha avó. Abro a caixinha de veludo e estendo o anel em sua direção.
— Enid Sinclair, você é a pessoa mais insuportavelmente colorida que eu já conheci na vida. Somos opostos em muitas coisas, mas nos completamos em vários sentidos – Me sinto boba em dizer tais coisas, mas sei que ela ama essas declarações cafonas – Sou seu yin e você meu yang. Não haverá um dia que eu não te ame mais do que tudo, passamos por muitas coisas esses anos e todas elas, só me fizeram ter ainda mais certeza de que é com você, que quero passar o resto da minha sombria vida — Enid tem as bochechas rosadas, os olhos marejados e um sorriso encantador. Suas mãos parecem inquietas, ansiosas com minhas palavras, seus dedos entrelaçam a todo momento, seus pés não param quietos, dando alguns pulinhos alegres, posso notar que está se segurando para não deixar a calda aparecer e abana-la – Você me daria a maior honra do mundo, ao aceitar torna-se minha esposa e ao meu lado viver para todo o nosso sempre?
— Meu deus, é claro que aceito! – Sua voz embarga um pouco, pelo choro.
A lupina me puxa para um abraço e logo em seguida um beijo carinhoso e demorado. Quando nos separamos, noto que pequenas e discretas nuvens de vapor saem da nossa boca, a temperatura desceu bastante e o calor do momento me fez não perceber. Continuamos nos braços uma da outra, sorrindo bobas com nosso recente status de noivas, quando notamos um floco de neve passar entre nós. Olhamos para cima e percebemos que começará a nevar, a primeira neve do ano.
— Agora sim, eu e você sempre — Repito sua fala de mais cedo. Enid para de encarar o céu para sorrir para mim, não perco tempo em lhe roubar os lábios em um outro beijo.
Se pudesse, vovó se remexeria de felicidade no caixão abaixo de nós.
“Me procure novamente, quando precisar de ajuda com o pedido de casamento. Nisso eu tenho mais experiência.”
E então anos depois, lá estava Lúcifer, sentado na poltrona em frente a Wednesday. Com seus vinte e seis anos, sentia-se mais do que nunca, preparado para finalmente avançar para o próximo nível de relacionamento com Joui. Não que fosse uma competição, – tudo sempre era uma competição para os Addams – mas Lúcifer sempre imaginou que ele seria o primeiro a casar. Porém, para sua surpresa, Larissa e Elisa casaram-se meses depois de se formarem na faculdade, era realmente como diziam por aí, sapatão é tudo emocionada.
Quando questionou sua mãe, sobre o pedido de casamento que ela fizera para Enid. A morena lhe contou sua história, deixando Lúcifer surpreso com o local inusitado do pedido. Pensou que Enid deveria realmente amar sua mãe, para ela não se incomodar com o ambiente e a situação estranha, afinal estavam ao lado de um cadáver – com a tampa do caixão fechada, mas ainda assim, ao lado de um ser sem vida.
— Por que minha bisavó foi enterrada com o anel? – Perguntou curioso, a testa franzida – Não era mais fácil ela ter deixado com a senhora?
— Assim não seria romântico – Explicou Wednesday, como se fosse tão simples como pedir alguém em casamento numa praia ao pôr do sol.
Lúcifer resolveu ignorar a resposta, ele já deveria esperar por aquilo. Para o rapaz realmente não havia problemas de ser pedido em casamento em um cemitério. O problema era que Joui, definitivamente não gostaria. No fim, o conselho de sua mama sobre o pedido de namoro, havia sido melhor do que a sugestão de desenterrar o corpo de algum familiar, além de que, ele não tinha os anéis de família, que ainda estavam em uso com as mães. Toda aquela ideia estava fora de cogitação.
— Lúcifer! – Enid apareceu sorridente, trazia consigo uma sacola com compras do supermercado. Beijou o topo da cabeça do filho e deu um selinho na esposa – Vai ficar para almoçar com a gente?
— Sabe que não resisto a comida de vocês – O moreno respondeu, levantando-se para ajudar a mãe com as compras.
— Eu gosto quando vem nos visitar – Comentou a lupina, vendo o filho partir para a cozinha e voltar momentos depois – Pena que é só quando precisa de ajuda com algo.
— Que ultraje! Eu não faço isso – Lúcifer brincou, com uma falsa indignação. Embora estivesse realmente envergonhado de só visitar as mães quando precisava delas – Ando muito ocupado com o trabalho, vou tentar vir mais vezes.
— Acho bom mesmo! – A loira segurou a bochecha dele, puxando-a para o lado, deixando a região avermelhada e dolorida. Só soltou quando ele choramingou – Mas então, vocês conversavam sobre o que?
— O Lúcifer queria umas dicas – Wednesday explicou sem aprofundar-se muito, não tinha certeza se o filho queria partilhar suas dúvidas com a licantropo. Enid sabia ser bem escandalosa e poderia deixar escapar algum comentário para Joui e estragar a surpresa.
— E ainda diz que não vem aqui quando precisa da gente – Enid revirou os olhos, sentando-se ao lado da latina – Mas então, que dúvidas eram essas?
O lobisomem ponderou por um momento, a mãe poderia acabar dando com a língua nos dentes, era típico dela, não sabia guardar segredos, imaginava que era por conta da sua profissão de repórter, ela precisava sempre dos melhores furos. Mesmo assim, Lúcifer achou que seria uma boa ouvir um conselho da progenitora, ela sem dúvidas teria uma ideia melhor que Wednesday.
— Quero pedir o Joui em casamento, mas não sei como – Esclareceu.
O grito de Enid foi ecoado pela casa, ela bateu palmas e riu animada. Wednesday observou a esposa parabenizar o filho diversas vezes, já esperava que ela fizesse isso. Lúcifer sorriu envergonhado quando a mãe começou a lacrimejar, dizendo que os filhos já estavam grandes e criando suas próprias famílias, Emma logo terminaria a faculdade e embora a caçula não tivesse nem um interesse romântico esses anos todo, ela ainda assim poderia qualquer dia desses apaixonar-se e ir embora de casa, como os irmãos mais velhos. Essa hipótese fez Enid chorar.
— Mãe, calma por favor! – Segurou suas mãos com delicadeza – A senhora sempre soube que criaríamos nossos próprios caminhos.
— Eu sei, mas é que, é que – Soluçou, respirou um pouco e continuou tentando se acalmar – É que ainda assim, me dói ver vocês partindo, ao mesmo tempo que fico muito feliz de estar aqui pra ver isso acontecer. Vocês cresceram tão fortes filho, tão fortes – Segurou o rosto dele com as mãos, analisando com carinho a face do seu garotinho.
— E foi tudo graças a vocês – Lúcifer sorriu.
— Vamos cariño, deixe ele respirar – Wednesday puxou gentilmente a esposa para o seu lado, lhe confortando – Estive contando a ele sobre meu pedido de casamento – Confessou, afim de fazê-la acalmar-se ao trocar de assunto.
— Você contou sobre aquilo? – Enid parecia surpresa, embora risse nostálgica. Enxugou as lágrimas e agora mais centrada olhou para o filho – Nossa história inusitada ajudou você?
— Na realidade, não muito – Confessou envergonhado – É que eu acho que o Joui não vai curtir de ir ao cemitério.
— É, ele não vai mesmo — A loira riu.
— Não sabe o que está perdendo – Comentou a latina.
— Bem... A senhora teria algum conselho, mãe?
— Precisa ser algo romântico e que os dois gostem – Explicou Enid pensativa.
— Joui gosta da Coreia – Lúcifer lembrou-se do período que seu namorado ficou fora para fazer intercambio, depois disso o Tanaka não havia mais voltado para o país asiático – Ele sempre diz que quer voltar, me mostrar alguns lugares que ele gosta.
— Bem, vocês podem fazer uma viagem romântica e quando chegar o momento certo, peça ele em casamento – Enid sorriu – Quero que saiba que não precisa ser uma mega produção digna de estar em um filme, ou que vá viralizar na internet. Qualquer coisa que você fizer, vai ser especial. Eu nunca imaginei que teria um cadáver me assistindo quando Wed me pedisse em casamento.
— Mas deveria suspeitar – Wednesday interrompeu momentaneamente.
— Pelo seu histórico cara mia, deveria ser a primeira coisa que eu deveria imaginar – Respondeu Enid entre risos – Mas voltando ao assunto. Mesmo não sendo o que imaginei, foi algo muito especial – E bizarro, quis acrescentar, mas preferiu deixar o comentário de lado – E importante para mim, porque foi sua mãe que planejou. Eu amo ela e ela me ama, é isso o que importa no final.
— Obrigado mãe.
— Bem, vou fazer o almoço – Wednesday anunciou – Vocês me ajudam?
— Claro.
[...]
No carro, voltando para o seu apartamento, Lúcifer ria sozinho com a lembrança do pedido de casamento das mães. Foi uma boa história realmente. Ao chegar no prédio residencial, estacionou o carro na garagem e pegou o elevador apertando o número do seu andar. Quando aproximou-se da porta enumerada, notou que ela estava apenas encostada. Imaginou que Joui estaria no apartamento, visto que o homem tinha a cópia das chaves, embora não morassem juntos, passavam maior parte dos dias juntos, chegando a ficarem na casa um do outro por semanas seguidas.
— Amor? – Lúcifer abriu a porta a espera de uma resposta. E o que teve fez seu coração errar uma batida – Mas o que?
Um caminho de pétalas de rosas seguia-se até a sala de jantar. Velas enfeitavam o caminho que foi percorrido calmamente. Quando o Addams chegou no local, deparou-se com um Joui de terno, sorrindo sem os costumeiros óculos escuros – que evitavam que os outros vissem seus olhos vermelhos.
— O que você ta fazendo, seu bobo? – Choramingou, os olhos já marejados. Lúcifer era emotivo igual a mãe.
— Estou tentando ser romântico – Respondeu o Tanaka, sorrindo apaixonadamente revelou uma caixinha de veludo e se ajoelhou. Lúcifer prendeu a respiração, desacreditado que o namorado havia sido mais rápido que ele com o pedido – Lúcifer Addams, nos conhecemos desde que nos entendemos por gente. Você esteve ao meu lado minha vida toda, participamos dos momentos mais importantes um do outro. Fomos amigos, amantes e hoje gostaria que você aceitasse ser algo maior, seriamos um do outro, para sempre. Aceita casar comigo?
— Sim! Sim! – Repetiu mais algumas vezes, enquanto lágrimas começavam a rolar por sua face.
Joui colocou o anel de noivado em seu dedo e beijou sua mão com delicadeza – Desculpe não ser uma mega produção, eu fiz meu melhor com esse pedido, minhas mães me deram essa dica do jantar – Riu envergonhado.
“Qualquer coisa que você fizer, vai ser especial”— As palavras de Enid ecoaram em sua mente – “Foi importante para mim, porque foi sua mãe que planejou”
— Foi perfeito – Lúcifer respondeu, puxando-lhe para um abraço longo – Eu te amo, muito.
— Eu também te amo – Joui sorriu, um pouco das presas aparecendo.
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