Família

7 Capítulo VII - Incerteza


Notas iniciais
Saudações! A tradução - não o áudio - do mais novo track de CD Drama de Digimon já vazou! Não tem muita coisa, mas eu gostei de ler pelo simples fato de ser sobre o Wizardmon e a Tailmon (antes da Hikari). Aqui vai um capítulo mais longo, para compensar a ausência. Espero que possam aproveitá-lo, foi divertido escrever!

Ela tinha dúvidas.

Coisa mais normal naquela idade cheia de questões em horas inapropriadas – e que exigiam respostas. A coisa sobre as crianças é que elas não costumam se importar com quem as oferece, contanto que tenham suas cabecinhas esclarecidas ou ainda mais atiçadas por algo que desencadeia mais perguntas do que explicações. E aquela garota de cabelos cor de lavanda presos em marias-chiquinhas era sedenta pelo saber. Era barulhenta, esperta, agitada, sincera e cheia de desconfianças importantíssimas.

Miyako Inoue desconfiava, por exemplo, que não queria um irmão mais novo.

Alguma coisa dentro dela a incomodava quando pensava no assunto. Começava como uma pontada de estranhamento no estômago, ia subindo até apertar a garganta e então passar em forma de ardência para os olhos; logo vinham as lágrimas e os soluços, as acusações de que estava sendo birrenta e as vozes lhe dizendo que ela precisava parar com tanto exagero.

–Quer parar de chorar?! Fica quieta, vai!

A experiência dizia que irmãos não eram muito simpáticos, e de repente ela tinha certeza.

–MANTAROU! Não seja grosso com a Miyako-chan, ela só tem seis anos!

–A Momoe tem razão, seu tapado. (-É claro que tenho, Chizuru, eu sou a mais velha. Nunca se esqueça disso.) Vai deixar ela ainda mais triste!

–Ela é bonitinha e tudo o mais, não me entendam mal. Mas vamos combinar que, quando ela grita, não é nada agradável. Que voz!

–Ela vai ser um pesadelo quando crescer – Chizuku comentou, sobrancelhas erguidas. Miyako parecia irritada por estarem conversando em sua presença enquanto ela demandava atenção.

–Quando crescer? E já não é agora? – O garoto do grupo chutou uma boneca no chão. — Afinal, por que ela está fazendo esse drama todo? A mamãe só mandou ela fazer amizade com o vizinho novo e brincar com ele! Não é tão difícil, ele tem, tipo... três anos!

Bufando, Miyako parou de chorar e encarou os irmãos longamente, como que insinuando que fossem estúpidos. Eles eram. Reunidos num dos quartos, os pré-adolescentes da família Inoue rodeavam a caçula da casa, que se recusava a sair pela porta até o apartamento no final do corredor. Dotando de uma perspicácia um tanto quanto incomum, viu que estavam sem saber como interpretá-la, e que isso seria uma ótima oportunidade para convencê-los a tomar o lado dela. Resolveu explicar:

–Eu não quero mais de vocês!

Silêncio.

–Mais... de nós? – Mantarou deu o braço a torcer. Geralmente ignorava os estardalhaços das irmãs, mas aquilo deixou o garoto de dez anos intrigado. – Como assim?

–Não é tão difícil de entender, gente! – Ela fungou. – O menino tem três anos! Ele deve ser uma gracinha! Eu vou me af... afei... fi...

–Afeiçoar – Momoe ajudou, paciente.

–Obrigada, mas eu sabia. Enfim, eu vou me af...eu vou gostar muito dele, porque crianças são fofas!

–Você é uma criança – Chizuku debochou com um sorriso. Foi ignorada.

–E a mamãe quer mesmo que eu faça companhia para ele. O papai dele é super-herói , soldado ou algo assim(-Policial! Ele é um policial, Miyako...) e passa muito uns tempos fora, e ele só tem um vovô além da mãe. Nada de crianças da idade dele. – Ela suspirou, dramática. – E eu vou lá brincar, e o que vai acontecer?! Ele vai me adorar! É claro, normal isso, quem não adora?! No final, vou acabar ganhando um irmãozinho postiço!

–Exagero! Garotinha presunçosa – a mais velha dos quatro tentou abafar a risada. Bagunçou o penteado dela carinhosamente. – O menino pode acabar apenas sendo nosso vizinho. Só. Ele pode não gostar de você, sabe.

–Impossível! E eu não gosto de presunto!

–E eu não entendi o problema nisso tudo – Mantarou revirou os olhos.

–EU NÃO QUERO MAIS IRMÃOS!

Não chegou a ver as expressões chocadas que dirigiram a ela; disparou quarto a fora, pisando forte e sem olhar para trás. Miyako, que de uns anos dali para frente teria sindo construída firme e forte daquele caos incrível que aprendeu a amar, apertou os olhinhos para cessar as lágrimas. Será que eles não conseguiam entender? Por mais que amasse a companhia dos irmãos – afinal, as garotas ajudavam-na a pentear as madeixas rebeldes, brincavam de casinha com ela quando insistia e Mantarou era o mais divertido na hora de pregar peças – , aquilo era confusão de mais. Eles monopolizavam a atenção dos pais, tinham mais direito por serem mais velhos e bagunçavam muito com ela.

Não precisava do menininho encarando-a naquele momento, aliás.

Cega pela frustração, havia cruzado a sala e aberto a porta. Deparara-se de imediato com um pingo de gente e ficaram se olhando, perplexos. Cabelos castanhos, olhos verdes, um tamanduá amarelo de pelúcia agarrado pelos dedinhos rechonchudos. Miyako engasgou; ele tinha, pelo visto, por pura curiosidade – talvez se dessem bem –, arranjado um jeito de sair do próprio apartamento para explorar timidamente o lugar.

–Iori — a garota lembrou-se. Tinha sido o nome que a mãe falara de manhã.

–Hi...da – balbuciou o garoto. Sorriu. – Iori Hida. Pr...azer em conhe...cê-la!

Algo começou.

E em todos os outros dias em que brincou com ele, surpreendia-se ao ver o quanto a doçura podia se mesclar com o silêncio e ainda assim parecer vívida, estonteante. Completava a personalidade dela. Não havia gritos, perturbações ou brigas, apenas as mãozinhas pálidas de Iori empilhando os blocos de madeira com ela, pintando o livro de colorir, segurando a colher na vez em que ela tentara ensiná-lo a fazer biscoitos. Havia duas crianças se revezando no balanço, tentando entender como a estrutura das coisas funcionava, pisando em poças d’água e contando histórias de noite. Não tardou, Miyako sentia-se tão responsável por ele quanto o pai que o deixou alguns meses depois do dia em que se conheceram.

E, quando os irmãos de sangue dela fizeram um bolo de desculpas, quando Momoe levou-a para passear no parque, quando Chizuko ajudou-a na nomeação de todos os seus bichos de pelúcia, quando Mantarou a ensinou a mexer no computador – quando eles a lembravam que estariam ali, dispostos a fazer aquilo e muito mais, Miyako decidiu que eles não eram tão ruins assim. Ela estava crescendo feliz – e nunca sozinha. As dúvidas não incomodavam mais.

Tinha gente para buscar as respostas junto com ela.

Notas finais
Foi isso! Gostaram da mini-Miyako? Tentei retratá-la do jeito mais fiel possível. Ela me parece o tipo de criança esperta, cheia de gracinhas, impetuosa e ligada no mundo que entende mais do que os outros lhe dão crédito. Sei que exagerei um pouco falando da reação dela ao pedido da mãe de ir fazer companhia para o novo vizinho, mas esse foi o ponto. Se a Miyako encana com algo, pensa demais, faz a coisa virar um monstro de sete cabeças. Ela vai lá, preparada para SANGUE E MORTE, acaba saindo na situação como a maluca paranócia e ligeiramente homicida, mas ela só está nervosa xD A coisa com os irmãos pareceu fazer sentido enquanto eu escrevia (?) Ela reclama disso no final de 02, afinal. Algo que surgiu na infância, fê-la sentir sufocada, irritada, com a necessidade de se afastar uma vez ou outra deles, colocar-se num confronto desnecessário unicamente por não entender o motivo de ela ter nascido como a mais nova num lugar com tanta gente. Exigo uma série de flasbacks da vida da Miyako e do Iori antes de conhecerem Takeru e os outros!! Eles claramente têm uma ligação especial; afinal, uma garota de 12 e um garoto de 9 com personalidades super opostas PRECISAM ter algo que os una com força para passarem tanto tempo juntos como pareceu-me que eles passam. Eu acredito que a Miyako o vê como o irmãozinho pelo qual ela nunca pediu e nunca se arrependeu de ter conhecido. Imagino ela ficando meio super-protetora Yamato/Taichi style, por mais que o Iori e toda a qualidade precoce dele fossem dispensar a atitude sem mais nem menos lol Se bem que tem uma cena super hiper mega rápida, no filme dos Digimentals de Ouro, em que o Iori está meio abraçado à cintura dela e ela está com os braços pelos ombros dele. É uma graça. Queria que tivessem colocado mais foco na relação dos dois, blé. Nessa one-shot, improvisei e disse que o Iori chegou no prédio dela com três anos, ela com seis, e eu honestamente não ligo muito pra idade dos irmãos dela. Ou para os pais em si? Vi muito pouco deles. Acho que coloquei o Mantarou - eu VIVO trocando o nome dele por Momotaru lol - velho demais. É a vida. Até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.