Família
1 Capítulo I - Olhos
Notas iniciais
I.
Os olhos de sua mãe refletiam refletiam gentileza.
Ele nem precisava utilizar-se de toda a percepção que alcançara já em uma idade tão terna para percebê-lo; ela só tinha olhos para ele, naturalmente. A mulher de nome Fumiko era tranquila, distinta e superprotetora, e seus passos leves como plumas. Sempre, mesmo antes de a família diminuir um pouco, mostrou-se com nitidez na expressão estoica dela – a herdara mais do que tudo – que a força contida naquele corpo baixo e agora cansado era absolutamente imensurável. Olhos verdes muito prudentes que nunca vacilavam.
Iori podia jurar que eles também eram muito solitários.
Ouviu os choros precariamente abafados pelos travesseiros e a porta do quarto mais de uma vez durante a sua infância, mas lhe faltara, em todas as ocasiões, a ideia de perturbá-la em horas tão tristes. Também não lhe ocorrera que talvez ela quisesse conversar sobre aquela solidão excruciante, e torná-la menos dolorosa partilhando-a com ele até que não se sentissem mais sós. Iori cultivava um grande respeito por ela e tinha medo de que fosse um intruso num luto tão desgastante como os lutos costumavam ser; era, ainda, pequeno demais na época para que qualquer um depositasse qualquer peso sobre seus ombros.
Mas Iori se sentia pesado mesmo assim.
E o peso o puxava mais e mais e mais até ele estar abaixo do chão e sozinho também–
Porque, por mais que tentasse seguir em frente e cumprir os rígidos padrões que sua mente lhe dizia para cumprir a qualquer custo, Iori era astuto demais para perder os momentos quase invisíveis em que o olhar dela o tomava como a única coisa que ela ainda tinha no mundo. Não era bem verdade, o vovô estava no cômodo ao lado, porém ele tomava cuidado para não deixá-la preocupada demais com a segurança dele. O jovem não ficava até tarde fora de casa, respondia com paciência a enxurrada de perguntas que ia abrandando ao longo dos anos e vivia sendo o mais cuidadoso possível.
Iori não permitiria que ela o perdesse antes dela se perder.
II.
Os olhos de seu avô refletiam sabedoria.
Nas vezes em que ele não estava se entupindo de suco em caixinha até quase ter uma overdose, é verdade, mas o idoso era inquestionavelmente repleto de ensinamentos valiosos. Os quais, com muito amor e um tantinho generoso de paciência, ele dividia com o neto sempre que tinha a oportunidade; mais que isso, eles criavam oportunidades. Ele conseguia ser uma companhia maravilhosa e lia Iori como ninguém jamais conseguiu... e obteve pensamentos enterrados na mente do menor que ninguém foi capaz de alcançar.
Desde aulas — puxadas, porém divertidas — de artes marciais (o kendô era seu eterno favorito, até começara a ensiná-lo aos amigos nas horas vagas), a longas conversas em tardes chuvosas tomando chá, o silêncio não era algo comum entre eles. Para um menino tão criterioso, o senhor sabia que havia sempre algo a se debater, a se aprender, a se pesquisar e refletir, e nunca hesitava em estimulá-lo.
O seu avô era a lembrança de que as coisas precisavam ser vocalizadas.
– Como era o meu pai?
Foi a pergunta que ele mais fez,
a da qual ele mais se arrependeu,
e cujas respostas nunca conseguiu se esquecer.
E os olhos dele permaneciam os mesmos, uma mistura de pesar com orgulho, cada vez que ela era feita, por mais que Hida Chikara tivesse um repertório absolutamente variado de retornos, cada um com suas peculiaridades e nostalgias. Sim, eles estavam redescobrindo uma pessoa, desenrolando as histórias e jeitos de alguém já não mais tinha como andar pelo mundo, mas que andara – correra, voara, salvara, honrara – por muito tempo.
Não o suficiente.
–Em algum lugar, ele te vê crescendo, Iori.
III.
Os olhos do outro membro da família estavam fechados.
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