Falso Perfeito
1 Capítulo 1: Primeiro Olhar
Notas iniciais
10 de Janeiro de 2016
Lucas passou a língua nos lábios e sorriu de canto. Ele era um canalha mesmo, pensou relembrando a noite anterior. Mas ele só era um canalha, porque lá no fundo, as mulheres gostam de um canalha. Não é um pensamento machista! E se parecer, não foi no intuito de generalizar. Mas é que ser canalha...
Ser canalha era o que ele sabia fazer de melhor depois da sua profissão. E ele gostava de não ter ninguém, de ser de ninguém. De viver a vida de modo despreocupado. De passar o dia todo na cama de cueca no seu dia de folga. De ter que dar presentes apenas para si e sua família. De não dever satisfações para ninguém. Ele gostava dessa liberdade e necessitava dela, por isso que estudou as mulheres por muito tempo e hoje, verdadeiramente, apenas um olhar bastava. E sim, ele sabia quando uma mulher estava carente. A carência nos faz alvos fáceis. Quando estamos carentes, só queremos o conforto que o abraço de alguém nos dá. Nós nos abrimos mais; Falamos mais; Confiamos mais, porque ficamos desesperados por atenção. Por alguém; Por carinho; Por ocupar o nosso tempo. E é isso. É esse o problema. Nós queremos tanto esquecer o quanto estamos nos sentindo sozinhos, que nos ocupamos com passatempos sem nos importarmos com as consequências. A vida é uma doideira só. Sabe, na realidade, a gente se acostuma a canalhas. Principalmente com aqueles que nos fazem pensar em fazer sexo no banheiro sujo de um bar qualquer. Lucas era esse tipo. Bonito, bem vestido, autoconfiante.
— Lucas? Lucas? Man? PORRA MULEQUE — grita Daniel chamando atenção de algumas pessoas em volta. — Sério mesmo que você me chamou aqui só porque não sabe o que dar de presente para sua irmã de cinco anos? E ainda por cima fica aí no mundo da lua. — Daniel questionou irritado depois de seu primo explicar o porquê do chamado urgente.
— Foi mal, estava meio avoado, estava pensando na noite de ontem. — sorri com seu famoso sorriso cafajeste — Eu sei o que dar. Mais ou menos. É que a minha irmã tá crescendo, sabe? Chega de bonecas e roupas. Queria inovar!
— O engraçado é que você inova em tudo, menos no gosto pelas mulheres.
— Quale primo?! Desde quando meu gosto referente à mulheres entrou em questão? — Daniel riu. — Além do mais, eu serei seu padrinho de casamento e a gente mal se vê. Isso é mais como uma desculpa. — justificou trocando de assunto.
— Sei... Que tipo de presente tu pensou?
— Um filme?
— Sério? A menina já não sai da frente da TV e você quer dar a ela um filme? Seja mais original.
— Tem razão — Lucas concordou — E como anda sua relação com a Beatriz?
— Ela está tão tensa com os preparativos, passa o dia todo com as madrinhas, não para em minuto algum. Quando deita para dormir, não quer saber de nada além de dormir. Faz umas duas semanas que não fazemos nada. — desabafou.
— Você não pensa em voltar atrás? Desistir? Sabe... A ideia de passar o resto da sua vida com uma pessoa só, não lhe assusta? — Lucas perguntou curioso. Esse era um dos medos dele. Enjoar da pessoa que ele escolheu para dividir as conquistas, construir uma família, edificar os sonhos, amar, sofrer, ser fiel, morrer lado a lado.
— Desistir? Olha, não vou mentir para você primo. Às vezes, quando a situação fica difícil demais e eu penso que não teremos como superar, a Bia me surpreende e me reconquista. Ela não me deixa desanimar. Ela merece o meu amor. É por isso que não desisto. Porque tenho certeza absoluta que fiz a escolha certa e que a amarei até o fim das nossas vidas, mesmo que isso leve muito tempo. Um dia isso ainda vai acontecer com você e será mágico.
— Só que não primo. Comigo não. Deus me defende de algo assim. — responde bem humorado, mas falando sério sobre o assunto.
— Eu dizia a mesma coisa. Vem. Acho que sei o que você pode dar para a Manu. — ele disse puxando o primo pelo braço para dentro de uma livraria.
— Um livro? Jura? Ela nem sabe ler! — Daniel soltou um riso frouxo. — Primo, uma mulher jamais esquece as primeiras coisas de sua vida.
— Ela não é uma mulher, é uma menina!
— Sem dramas Lucas. Um livro pode mudar vidas sabe, trazer esperança e sorrisos. O meu primeiro livro fez isso. — fala pegando um livro, depois de alguns minutos o procurando. — O Pequeno Príncipe. Ela vai amar.
— Sério? Essa história é tão antiga.
— Sim. Concordo. Mas essa edição é super atual e ilustrativa. A Manu vai adorar. Você pode ler para ela.
— Tá bom priminho. Eu levo... Opa! Olha aquela loira — Daniel virou instantaneamente, procurando a loira.
— Cadê?
— Ali. Lendo a contra capa daquele livro todo rosa. Que linda. Que culta. Que delícia.
— Lucas, pelo amor! É uma mulher e não um pedaço de doce na vitrine de uma padaria. Mais respeito.
— Menos Daniel. Vou lá. — Lucas estava admirado.
Ali, bem na frente dele, encontrava-se a pessoa mais encantadora que já tinha visto, não a mais linda, mas a mais encantadora, sem dúvidas. Havia algo nela que o puxava para ela. Devia ser influência do cabelo tão loira que quase era branco, parecia uma Barbie. Era real, verdadeira, perfeita, natural, única. Lucas estava encantado mesmo. Uma livraria não era bem a sua área de ataque, mas ele estava fascinado. A moça tinha um rosto expressivo, as bochechas coradas, ao contrário do resto do seu corpo que era branco como as nuvens num céu límpido e azulzinho. Dona de uma pele tão clara, que se fosse exposta a um sol de 35 graus, com certeza ela brilharia, como um autêntico vampiro da Saga Crepúsculo. Traços delicados, e lábios tão rosas que pareciam ter sido vítimas de algum batom, mas era a cor natural. Lucas imaginou o gosto peculiar que haveria aqueles lábios. Ele queria conhecer aquela loira. Estava curioso, intrigado e excitado, como o lobo olhando sua presa.
— Com licença, desculpe atrapalhar a sua leitura. — a mulher levantou a cabeça do livro, que agora Lucas reparara ser um romance erótico, o que explicava as bochechas coradas.
— Eu não posso ler o livro antes de comprar. — ela rebateu. — Não era uma leitura.
— De todo modo — tentou falar. Não estava acostumado com cara séria e coice. — Desculpe.
— Eu não sou funcionária. Não tenho nada para lhe indicar.
— Eu não quero dica de livro, na verdade gostaria que você me recomendasse um restaurante, sou meio novo na área. — um sorriso nasceu na boca dela e Lucas tinha certeza que havia ganhado mais uma.
— Claro, você é tão novo na cidade quanto a existência do papel noel — retrucou com um sorriso sarcástico, que de alguma forma a deixava ainda mais encantadora.
— Fico feliz que você não seja ingênua — sussurrou Lucas — Isso apenas torna tudo isso mais divertido. — e novamente lá estava aquele sorriso cafajeste, aquele que deixava qualquer garota louca — Bem, já que estamos sendo sincero, eu quero o seu número.
— Confiante, não? Mas para o seu azar, sou mais do tipo que vai pegar seu nome e número, apenas pra depois apaga-los, então que tal pouparmos o tempo de ambos com essa conversa inútil? E antes que pense em dizer qualquer coisa, eu já conheço o seu tipo e sei justamente do que precisa — diz andando entre as prateleiras e logo voltou com um livro pequeno que cabia no bolso de uma calça. Entregou a ele.
— Mil cantadas para ganhar uma mulher? Jura?
— Tá enferrujado, meu amigo. Quem sabe não aprende alguma coisa com esse livro? Se eu tivesse tempo até que parava para dar umas aulinhas, e talvez você entendesse que jamais sou a presa— A loira saiu após dar um maravilhoso sorriso. Daniel, que já havia voltado, desatou a rir.
— Tá enferrujado — gozou gargalhando. — Será que acabei de ver uma mulher imune a você?
— Mano, ela pode ter me esnobado hoje, mas ela vai se derreter por mim. Anota aí.
— E por que você não anota nesse livrinho aí? — Lucas deu um soco no ombro de seu primo e jogou o livro em qualquer lugar por cima dos outros, foi quando notou que um pedaço de papel caiu de entre o livro.
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