Falsas Aparências
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Ele chegou em casa exausto. Estava exausto física e emocionalmente. A explicação que dera para não aceitar sair com os amigos, estava longe de ser verdade. Há muito tempo deixara de sentir vontade de sair para qualquer que fosse o lugar, para se divertir. Preferia mil vezes ficar em casa desfrutando o doce som do silêncio. Fora forçado a aprender a conviver com ele.
Entrou em seu apartamento, deixando seus pertences em cima da mesinha de centro de madeira rústica, que havia no meio da sala. Silêncio. O apartamento estava imerso no tão desejado silêncio. Todos os que ele amara, que amara realmente, lhe haviam deixado, ele pensou amargurado. Primeiro Sara, depois Hank, seu fiel cachorro. Alguns anos depois da perda de Sara, Hank também se foi. Estava completamente só. O veterinário havia dito que a causa da morte de Hank fora a velhice mas Grissom suspeitava de que a razão para a morte do amigo canino se devia à falta que ele sentia da perita. Logo depois do acontecido, o cachorro começou a dar mostras da falta que sentia da morena: não comia, vivia apático, não queria brincar, uma cópia fiel do seu dono. Com o passar do tempo o quadro foi só piorando, até culminar em sua morte.
Grissom sentiu o peso do cansaço em seus ombros. Se jogou no sofá desejando que o dia acabasse rapidamente e que logo pudesse estar com Sara novamente. Nunca trabalhara tanto. Passou a mão pelas têmporas. Uma nova crise de enxaqueca parecia querer aflorar. E nesses últimos anos as crises eram cada vez mais freqüentes. Precisava esquecer. Esquecer seus problemas, seus fantasmas...
Levantou-se e aproximou-se do bar que havia em seu apartamento, pegou um copo, serviu-se de uma dose generosa de Wisky e voltou a sentar-se no sofá saboreando lentamente o gosto amargo da bebida. Ela descia queimando sua garganta, mas não o dilacerava tanto como a falta que sentia de Sara. A sua Sara.
Sentia-se sozinho, desamparado, com o coração endurecido. Durante os dez anos que se seguiram à morte de Sara, não se envolvera com mais ninguém. Nenhuma outra mulher lhe chamara a atenção como sua Sara. Ainda lembrava de cada detalhe do que o fizera ficar encantado com aquela beldade morena de dentinhos separados, cheia de perguntas e com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo. O sorriso dela era magnífico. Tudo nela era perfeito.
Ninguém lhe chamara a atenção, pelo menos até agora. Lembrou-se da nova perita que acabara de chegar. Como era mesmo o nome dela? Portman. Melaine Portman. Ele se perguntou e ele mesmo respondeu. Porque tinha a impressão de que ela escondia algo? Talvez pelo seu comportamento, ou seria por pura implicância? Não sabia dizer o que o incomodava, mas algo em seu íntimo lhe dizia que não deveria confiar naquela mulher e ao mesmo tempo algo o impelia a ela. Ele suspirou. Se ela não fosse tão parecida com Sara...
A menção do nome de Sara o fez ficar arrepiado. Sentia a falta dela.
— Sara... – ele disse baixinho – Como eu sinto a sua falta meu amor... Porque você me deixou? Porque você teve de partir, me deixando aqui sozinho?
Continuava sentado no sofá. O copo com a bebida âmbar ainda em suas mãos. Olhou para a foto dela em cima da mesinha de centro. Era uma foto que os dois estavam juntos. Felizes. Tudo na casa a lembrava. Embora seus amigos dissessem que não era bom para ele continuar naquele apartamento, que aquilo só o faria ficar mais triste, ele não conseguia se desfazer do imóvel. Ali vivera os melhores momentos da sua vida. Com ela.
Olhou um pouco mais detidamente para a foto, lembrou-se também de Melaine. Como, em nome de Deus, duas pessoas que não tinham nada a ver uma com a outra, podiam se parecer tanto? Seriam irmãs gêmeas? Refutou a idéia. Sara teria lhe dito se tivesse uma irmã gêmea, não teria? A falta de respostas para suas perguntas faziam com que ele se sentisse ainda pior. Passou o dedo pela imagem de Sara, como se assim pudesse afagá-la de verdade.
A imagem de Sara lhe veio novamente. Ele se culpava por ter proposto aquela maldita viagem. Fora nela que perdera Sara, o amor de sua vida. Se pudesse voltar atrás... mas naquela época julgava que era o melhor para ela. Ela precisava. Os dois precisavam. Deixou-se levar pelas lembranças dolorosas. A noite seria longa...
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