Falsas Aparências
1 Prólogo
Notas iniciais
Las Vegas – dias atuais
O toque insistente do despertador lhe informava que era hora de levantar. O calor de sua cama, de suas cobertas, e o frio que fazia nessa estação a convidava para que permanecesse deitada um pouco mais. No entanto não podia permanecer ali. Tinha que se levantar, afinal quem queria chegar atrasada em sua entrevista de emprego? Com certeza um atraso não seria visto com bons olhos. Ainda mais quando se tratava de um local tão conceituado como o Laboratório de Criminalística de Las Vegas. Ela não queria que isso acontecesse. Definitivamente isso estava fora de questão. Melhor não arriscar. Tratou de levantar-se e seguir para o banheiro, a fim de tomar um bom banho.
Sob a água morna de seu chuveiro deixou seu pensamento vagar. Ainda não acreditava que estava em Vegas: a Cidade do Pecado e que trabalharia no mais famoso Laboratório de Criminalística do país. Parecia bom demais para ser verdade. Pensara que seria mais difícil. Chegara a pouco mais de um mês na cidade. Mandara seu currículo para o Laboratório de Las Vegas sem a esperança de ser chamada e qual não foi a sua surpresa ao receber a ligação do Departamento de Recursos Humanos de lá lhe informando de que seria entrevistada.
A conversa com a chefe do Departamento de Recursos Humanos ainda estava bem nítida em sua mente. Ainda podia ouvir claramente as palavras que lhe trouxeram grande felicidade, esperança e medo. Felicidade por ter conseguido a entrevista dos sonhos, esperança por ter a chance de recomeçar e medo de ser descoberta.
O telefone tocou quando ela ainda estava deitada. Deu um pulo ao ouvir a chamada. Atendeu assustada.
— Gostaria de falar com a senhorita Portman! – disse a voz do outro lado da linha.
— Sou eu – ela respondeu ainda sonolenta.
— Senhorita Melaine Portman?
— Exatamente!
— Senhorita, eu sou Claire Millan, chefe do Departamento de Recursos Humanos do Laboratório de Criminalística de Las Vegas. A senhorita enviou seu currículo para nós, correto?
Melaine prendeu a respiração por alguns segundos.
— Correto.
— Bem, analisamos o seu currículo e ficamos impressionados com ele. Aqui diz que a senhorita trabalhou na sede do FBI em Quântico, em Washignton por sete anos...
— Está correto.
— A senhorita tem ótimas recomendações... bem, estou ligando para lhe informar que o nosso diretor quer fazer uma entrevista com a senhorita. Esteja aqui às 9 horas na quarta feira. Sem falta.
— Ok.
A ligação foi encerrada.
Isso aconteceu há dois dias. Agora enquanto se arrumava para a entrevista, Melaine não podia deixar de se sentir nervosa. Será que passaria nessa entrevista? E quem a faria? Ela se perguntava. Saiu do banho. Enxugou-se e colocou uma calça jeans, uma blusa estampada e uma sandália de salto baixo. Não se esqueceu de colocar os brincos e de passar um perfume. Olhou-se no espelho. Pronto estava arrumada. As vezes nem ela se reconhecia. Agora só precisava ir para o laboratório e ver o que a esperava. Pegou as chaves do carro e dirigiu-se para lá. Torcia para que tudo desse certo.
—o-
Ela já se encontrava na sala em que ocorreria a sua entrevista. Estava ansiosa. As mãos inquietas e suando frio davam mostras disso. Ouviu a porta ser aberta e por ela entrou um homem alto, calvo e sério.
— Bom dia! Meu nome é Conrad Ecklie – disse enquanto se dirigia para a cadeira atrás da mesa e sentando – se — E a senhorita se chama...
— Portman. Melaine Portman. – ela respondeu.
— Muito bem, senhorita Portman – ele olhou detidamente para ela – é senhorita, não é?
Ela sentiu-se inquieta. Tinha consciência de sua aparência e sabia que alguns homens ficavam loucos com o que viam. E pelo visto Conrad Ecklie não era diferente. Umedeceu os lábios, que de súbito sentia secos.
— Sim – respondeu receosa.
— Analisamos seu currículo e confesso que fiquei impressionado. Aqui diz que a senhorita trabalhou no FBI por sete anos. É um emprego e tanto. Porque a senhorita saiu?
Ela pensou bem antes de responder. Seu futuro dependia da resposta que daria.
— Bem, eu queria outras emoções. E ouvi falar muito bem desse laboratório. Fiquei muito entusiasmada com a idéia de trabalhar aqui. Mas não foi fácil deixar o meu trabalho em Washington. Aquele ambiente era minha vida.
— Morou por quanto tempo em Washington?
— Dez anos.
— Dez anos é muito tempo.
— É verdade. Por isso quis vir para cá. Gostaria de conhecer Las Vegas e surgiu a oportunidade. E aqui estou eu.
Ecklie não tirava os olhos de Melaine. Ele não sabia explicar, mas havia algo naquela mulher que o deixava intrigado. Devia ser impressão sua. Mal conhecia a mulher. Continuou a entrevista.
— Como a senhorita se comporta ante seus superiores? – ele perguntou. “isso é uma pergunta importante. Não quero outra como a Sidle. Ela me deu problemas demais. Não cometerei o mesmo erro” pensou.
— Para mim, o superior deve ter o meu total respeito. O que ele diz deve ser obedecido sem questionamentos.
Foi a vez de Melaine observar Ecklie. Ele parecia satisfeito com a resposta. E assim seguiu uma série de perguntas que visavam saber como seria o comportamento de Melaine dentro do laboratório. Depois de concluída a entrevista, Ecklie lhe falou:
— Parabéns senhorita Portman! A vaga é sua – disse estendendo-lhe a mão -A senhorita é a mais nova integrante da nossa equipe.
— Obrigada! – ela realmente estava feliz – em que turno vou trabalhar?
— No noturno. O seu supervisor será Gilbert Grissom.
— Certo.
— Mais uma coisa.
— Pode dizer.
— Não espere uma festa de boas vindas dessa equipe.
— Sei que um novo integrante nem sempre é bem visto... mas se me permite perguntar, porque não serei bem vinda na equipe? – perguntou cautelosa.
— Eu não deveria lhe falar isso, mas gostei da senhorita. A senhorita me passou confiança. Bem há alguns anos, dez para ser mais exato, essa equipe perdeu um membro muito querido, um membro a quem estimavam muito.
— Não é da minha conta, mas posso saber quem era essa pessoa? – perguntou curiosa.
— O nome dela era Sara Sidle. Aliás, a sua fisionomia me faz lembrar dela... Não sei... A semelhança é impressionante... bom, talvez seja impressão minha...
Ela empalideceu. Ecklie percebeu.
— A senhorita está bem?
— Estou sim – ela disfarsou – eu só estou imaginando que eles pensarão que eu quero tomar o lugar dela.
— Não se preocupe. Logo eles se acostumam.
— E quando eu começo?
— Hoje mesmo. Esteja aqui no início do turno às 18 horas.
Ela riu para ele.
— Pode deixar. Estarei aqui. Sem falta.
— Até logo!
— Até logo!
Ela deixou o laboratório totalmente satisfeita. Conseguira a vaga com que tanto sonhara. A primeira parte já estava concluída. Agora faltava a mais difícil. Conquistar a confiança de seus colegas de trabalho. Se conseguiria só o tempo diria.
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