Falsas Aparências
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Ela caminhava a passos firmes pelos corredores do laboratório. Os passos eram firmes mas seu coração estava aos pulos. Estava nervosa. Como seria recepcionada? Não esperava festa, nem cogitara essa idéia. Mas também não estava preparada para ser totalmente rejeitada. Carregava suas coisas bem junto a si. Como se buscasse proteção. Um misto de ansiedade e medo lhe invadia a alma. Será que descobririam seu segredo? A fama daquele grupo era muito grande. Isso ela sabia. Todos comentavam sobre a perspicácia deles, principalmente do supervisor Gilbert Grissom. Faria de tudo para manter seu segredo bem guardado. Seria melhor assim. O que pensariam se descobrissem? Na certa não quereriam mais saber dela.
Quem a olhasse superficialmente, veria somente uma mulher de cabelos ruivos, na altura dos ombros, olhos verdes, aproximadamente 45 anos, bem conservada para a idade. Só isso nada mais. Seriam capazes de ver além? De ver a sua alma? Já sofrera tanto e ainda carregava consigo as conseqüências de suas escolhas como se fossem tatuagens. Tentou afastar esses pensamentos. Já fazia tanto tempo...
Olhou atentamente para cada aposento, para cada dependência do laboratório. Era ali que trabalharia. Se sentia em casa. Chegou à sala de seu supervisor. Estava muito ansiosa. Como seria recebida? Bateu na porta esperando que ele permitisse sua entrada.
— Entre! – ouviu a voz que veio de dentro.
Sentiu um arrepio ao ouvir aquela voz. Era uma voz muito bonita, grave. Com certeza o dono também seria. Ou estaria enganada?
Entrou. O ambiente era amplo, repleto de prateleiras com livros e quadros de insetos, além de conter um vidro com o que parecia um feto de porco. Ficou imaginando para que seria aquilo.
Não estava preparada para a visão que lhe esperava dentro daquela sala. A imagem daquele homem em questão chamou-lhe a atenção. Era um homem grisalho, na casa dos 60 anos, olhos azuis penetrantes, e por que não dizer? Extremamente charmoso. Mesmo com a barba por fazer ele não deixava de ser bonito. Olhou-o mais atentamente. E viu tristeza pairando sob aqueles maravilhosos olhos azuis. Sentiu o peito doer e o coração subir-lhe à boca.
— Com licença... Eu preciso falar com o supervisor do turno... – ela disse receosa.
Grissom permanecia com o olhar fixo nos relatórios que estavam em suas mãos. Precisava dar atenção a eles. Mas ao ouvir a voz da mulher que acabara de entrar em sua sala, ele levantou o olhar e teria caído se não estivesse sentado.
— Sara... – ele disse — Não é possível...
Ela empalideceu.
— Perdão! O senhor deve estar enganado... Nâo sou quem está pensando. Meu nome é Melaine Portman e eu sou nova aqui – ela estendeu a mão.
Ele a apertou. E sentiu uma corrente elétrica percorrer-lhe o corpo. Sentia que estava perdendo os sentidos. Aquela mulher... aquela voz... lhe lembrava uma pessoa muito querida. O tom da voz era um pouco diferente e a aparência física também, mas não podia ser. A dona da voz que ele imaginara morrera há muitos anos e com ela sua vontade de viver.
Ainda sentia a falta dela. Os anos não foram capazes de fazê-lo esquecer-se dela. Ainda tinha a esperança de que ela apareceria a qualquer momento. Como não acharam o corpo, era possível, não era? Ele se apegara a essa idéia.
Ele olhou mais detidamente para a mulher a sua frente. Ela lhe lembrava a mulher que sempre amou. Apenas algumas coisas eram diferentes, mas a essência era a mesma.
— Me desculpe! Senhorita...
— Portman. Melaine Portman.
— Me desculpe senhorita Portman, mas é que a senhora me lembra uma pessoa...
— Não se preocupe! Eu não ligo – ela mentiu – é a segunda vez que ouço isso, só hoje!
— Muito prazer senhorita Portman – ele disse, estendendo-lhe a mão.
Ela retribuiu o gesto e novamente ele sentiu uma nova corrente elétrica percorrer-lhe o corpo. Era estranho. Fazia tempo que não se sentia assim. Somente uma mulher o havia feito sentir-se assim...
Voltou a sua atenção novamente para a nova perita.
— Faz muito tempo que a senhorita chegou?
— Aqui no laboratório ou em Vegas?
— As duas coisas – ele respondeu sério. Nem sabia porque se dignara a perguntar.
— No laboratório, cheguei há alguns minutos e em Vegas cheguei há pouco mais de um mês.
— O que a senhorita está achando?
— Por favor, me chame de Melaine ou Mel. Deixe o formalismo de lado.
— Melaine... – ele repetiu o nome.
Se perguntou se seria capaz de tratá-la informalmente. Mas já sabia a resposta. Não. Tentaria, é claro.
— Respondendo a sua pergunta: eu ainda estou em fase de adaptação. No entanto tudo o que vi até agora, tanto da cidade quanto do laboratório, tem me agradado.
Grissom não tirava os olhos de Melaine. Estava como que enfeitiçado. A semelhança dela com Sara era muito grande. Ele sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao lembrar-se da perita. Ainda não havia se acostumado a idéia de que não a veria nunca mais. A amava tanto. Ainda a amava e mesmo nesses dez anos não fora capaz de envolver-se com outra mulher. Demorara tanto para entregar-se à mulher de sua vida, talvez até por medo de que algo assim pudesse acontecer, e quando por fim resolveu dedicar-se a ela de corpo e alma, o destino pregou-lhe uma peça. Sara se fora. E nunca mais voltaria. Julgara ter superado a dor. Pensara que conseguira dar a volta por cima. É claro que sua vida pessoal já não existia, toda sua atenção era voltada para o trabalho, como sempre fora. Mas mesmo assim, chegou a pensar que a dor que sentia há tanto tempo havia amenizado. Foi o que ele pensou. Pelo menos até agora. Até a chegada de Melaine Portman, no laboratório de Criminalística de Las Vegas.
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