Falsa Impressão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu o vi, sentado naquela cadeira. Tudo o que eu imaginava era um bom amigo, nada mais. Ele me convidou para sentar perto dele, pois não havia mais assentos disponíveis na sala de aula. Seu sorriso bobo, como sempre, me chamou atenção. Ele realmente parecia uma boa pessoa.
O tempo passou, mas não muito rápido. Eu comecei a perceber singularidades, qualidades e defeitos, ou seja, coisas que só ele tinha. Aquele jeito que ele falava sobre as coisas que ele gostava, sempre me cativou. Quando eu menos percebi, estava me apaixonando. Eu não podia, mas era involuntário.
Cada vez que eu o via era um sorriso. Cada vez que ele se afastava de mim era uma tortura. Minha mente estava confusa, tudo que eu queria era ficar perto dele. E eu passei a odiá-lo secretamente. Sempre foi secretamente, para qualquer coisa. Eu tinha medo de contar a ele e descobrir a verdade.
A cada dia que passava, esse possessivo aumentava. Eu estava me tornando dependente dele. Ele se tornou uma espécie de droga para mim. Tudo o que eu queria era me aproximar dele.
O que eu mais gostava de fazer era citar suas características. Seu jeito despojado. Seu humor. Sua confiança. E também seus finos lábios cujo eu desejava mais que tudo.
Eu também não sinto ciúmes por ele, eu não entendo. Acho que queria demais que ele fosse feliz. Tanto até que já o coloquei tantas vezes acima de mim. Eu gostava de olhar ele. Qualquer coisa que ele fizesse, eu estava lá, olhando discretamente.
Cada vez que eu sou "obrigado", na verdade eu sempre quis, a me aproximar demais dele, eu me vejo numa verdadeira tentação. Aquele impulso de dar um passo a frente e o beijar, beijá-lo tão intensamente que compensaria todo esse tempo que eu me torturo por ele. Mas me contento apenas com seu cheiro e, as vezes, seu calor.
Sim, o seu calor. O melhor momento é quando o abraço. Sinto que toda a carga, todo o pesar que sinto todo dia ao vê-lo, é dividido entre nós. E eu esperava que durasse mais, que fosse mais intenso. Merda, eu esperava que fosse diferente. Todo dia me pergunto o porquê de não ser do jeito que eu quis. A vida é injusta. Amar é algo que eu não desejo para ninguém. Mas amar algo impossível, isso me quebra por dentro. Isso me quebra de tantas formas inimagináveis. E ao fim do dia, a cama é minha melhor amiga. Ela recompõe todos os pedaços, embora eles sejam quebrados novamente no dia seguinte. A dúvida me mata, o que ele pensa? Isso nunca vou saber, pois tenho medo da resposta.
Mas deixa disso, eu precisava contá-lo, necessitava saber a resposta. Então fui até a sala de aula e sentei-me na cadeira de sempre, no centro da sala. Não demorou muito e ele sentou ao meu lado. Me pareceu a hora perfeita de contá-lo. Sempre me disseram que eu tinha a impressão errada sobre as coisas, porém eu estava tão convicto dessa vez. Eu simplesmente sabia que iria dar certo.
Arrastei a cadeira para perto da dele. Então seu cheiro invadiu minhas narinas e eu me perdi nos pensamentos. Valeria a pena colocar essa amizade em risco? Mesmo que isso me machucasse ainda mais a cada dia. Eu sempre faria o melhor por ele.
– Sem duplas, Fernando. – a professora disse para mim. Isso de certa forma me aliviou, me tirou dos pensamentos e então me acalmei.
– Preciso contar algo a você. Depois da aula. – sussurrei para ele, e me afastei de volta ao meu lugar original.
– Sobre o que? – ele perguntou, sem demostrar curiosidade. Isso me pegou de jeito, não sabia como prosseguir. O que eu queria falar era "Sobre a gente".
– Trabalho de Geografia. – falei, como um impulso involuntário.
– Henrique e Fernando, por favor, a aula é de Biologia. Se quiser conversar sobre Geografia, espere o horário dele. Ambos concordamos com a cabeça e não falamos mais.
Era quase noite, estávamos todos voltando para casa. Por desculpa eu fingi amarrar meu cadarço e pedi que Henrique esperasse. Então o momento perfeito surgiu. Eu o vi lá, me olhando e esperando.
– O que você queria falar mesmo? – ele perguntou. Novamente não saiu nada, eu buscava as palavras corretas na mente, apenas um branco.
– Traz o lápis de colorir amanhã, porque o meu quebrou. – falei, com uma pontada no coração.
– Certo, então vou indo. Preciso resolver umas coisas lá em casa. – ele continuou a andar. Eu o observava, não conseguia mover um músculo. A força começou a surgir dentro de mim e então o puxei pelo braço.
– Henrique, eu gosto de você. – falei, senti todo o peso dentro de mim evaporar.
– Também gosto de você cara, você é um amigo de verdade. – ele sorriu para mim, então percebi que ele não entendeu.
– Eu realmente gosto de você, quero dizer, eu acho que... – antes de terminar a frase, Henrique me cortou.
– Putz cara, sério? Não... – ele tentou prender o riso ao perceber minha expressão desolada. Meus olhos começaram a ficar avermelhados e percebi que não aguentaria muito tempo.
– O que você quer dizer? – perguntei para ele, parecia que uma bola de baseball estava presa em minha garganta.
– Nunca vai rolar... Putz cara. – ele se afastou de mim. Eu não consegui acreditar, esse era meu melhor amigo? Duvido muito. Só sei que um grande peso foi tirado de minhas costas, mas um maior foi inserido. O peso de acabar com uma amizade.
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Faz uma semana que destruí a minha vida, também faz uma semana que a cama deixou de me ajudar. Ou ela tenta, apesar dos cacos estarem quebrados de forma irreversível. Como sempre me disseram: Eu costumo tirar a conclusão errada, sempre.
Faz uma semana que ele não fala comigo, assim como faz sete dias que todos me perguntam o que aconteceu. Eu sempre digo o mesmo:
– A vida é injusta. E ela apenas fez seu trabalho em mim.
Faz uma semana que não sinto o seu cheiro, que não sou envolvido por aquele calor. Faz sete dias que eu procuro uma nova vontade de viver, procuro ânimo.
Também faz sete dias que eu descobri que aquele que eu mais amei era um idiota. Apesar de ser um imbecil, ainda não consigo tirar ele da cabeça. Apenas espero que o tempo conserte tudo isso. Enquanto a solução não chega, eu sofro em silêncio.
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