Fallout
3 The Elite Shooter
Notas iniciais
Laurel estava ansiosa, aquele era o primeiro dia dos depoimentos. Havia optado por começar com o Dinah e Rene. Dentre os muitos motivos que tinha, o fato de ela não possuir nenhum tipo de laço emocional ou familiar com os dois tinha sido levado em consideração quase que imediatamente. Além disso, ela gostaria de saber o que um homem que um dia foi atirador de elite do governo e uma mulher que um dia assumiu o posto de detetive da polícia de sua cidade natal faziam em uma organização tô suja quanto a ARGUS.
Andou apressada até a sala do interrogatório, um policial havia lhe entregado uma pasta com documentos e fotos que lhe seriam bem úteis para fazê-los falar. Abriu a porta e encontrou Rene sentado, com os braços cruzados e uma expressão que beirava a insubordinação. Laurel sabia que aquilo era apenas fachada, sabia que ele tinha mais a lhe oferecer que o comportamento de um adolescente rebelde.
E era verdade. Rene tinha muito a oferecer. Desde criança sempre fora um garoto extremamente focado e silencioso. Teve sua fase agitada e turbulenta na adolescência, era bem verdade, mas poderia colocar meia culpa em seus pais. Ou melhor, em seu pai. A cicatriz que tinha no rosto era um lembrete diário do homem que ele era.
Sua mãe culpava o álcool pela violência, mas Rene sempre soube que ele não precisava de motivos para espancar a mulher ou o filho. Ela era uma mulher religiosa que morreu pelas mãos de um homem que prometeu a ela uma vida digna e feliz. A revolta e o ódio que aquele adolescente sentiu ao ver a mãe morrer nos próprios braços não podiam ser medidos. Um antigo conhecido de seu avô o ensinou a lutar, o homem que já tinha servido ao exército incentivou o garoto a fazer o mesmo.
Rene se alistou, concluiu o treinamento, mas nunca chegou a ser um soldado. A maestria que ele demonstrou possuir com as armas chamou a atenção de gente que ele sequer sabia que existia. Foram mais de dez anos servindo ao FBI. O melhor dentre os melhores atiradores de elite que já foram a campo. Enfrentou todo o tipo de missão, as fáceis, as delicadas, as de importância extrema, até mesmo as diplomáticas. Ele possuía uma coleção de alvos que ele sempre acertava em cheio. Homens e mulheres que mereciam estar na sua mira. Que mereciam ter sua bala atravessando-lhes o peito.
Ele era um justiceiro. Fazia justiça em nome de sua pátria. Em nome de sua nação. Por que não fazer em nome de sua mãe? Para ele aquilo parecia o certo, e talvez fosse. Ele não se arrependeu do que fez. Se pudesse faria de novo.
— Foi no décimo aniversário de morte da minha mãe. — Rene encarou Laurel que o olhava confusa. — Eu sabia que ele estaria no mesmo lugar de sempre. Eu esperei em cima de um prédio que ficava do outro lado da rua. Um agente do FBI tem acesso a qualquer lugar. Assim que eu o vi passar pela porta eu atirei. Não foi apenas um tiro, limpo e certeiro como todos os outros que eu já havia dado na vida. Eu descarreguei um pente inteiro no peito daquele sujeito.
— Eu não estou entendendo o que isso tem a ver com o nosso interrogatório. — Laurel afirmou ainda séria.
— Você me perguntou como eu cheguei na ARGUS, eu estou lhe contando. — Rene respondeu simplesmente. — Eu perdi meu emprego no FBI porque eu atirei no meu próprio pai na porta de um bar. E se quer saber, eu não me arrependo. Eu quebrei o código de ética da organização, mas cumpri minha promessa a minha mãe. Minha mãe merecia ter justiça. Eu me entreguei, quase que imediatamente. Cheguei na mesa do meu superior, depositei minha arma, meu distintivo e o pente vazio. — Ele respirou fundo e encarou Laurel. — Eu olhei nos olhos dele e disse: “eu matei um homem que, para o senhor e para o resto do mundo, é inocente. Mas que para uma mulher que teve que lutar contra o preconceito por ser latina e para o filho dela que passaram a vida servindo de saco de pancadas para ele, era tão bandido quanto os outros que eu matei”.
Laurel se remexeu desconfortável na cadeira. Ela não sabia exatamente o que fazer com aquela declaração de Rene. Talvez porque ela tinha imaginado um cenário em que ele seria irônico, arrogante e daria voltas e voltas antes de lhe dar uma resposta concreta. Mas lá estava ele, sendo honesto, abrindo-se para ela de uma forma que ela não esperava. Ela via nele agora, o pai de uma garota de doze anos que estava nas fotos que ela tinha usado para pressioná-lo, e não mais um bandido que ela queria desesperadamente por atrás das grades.
— Sabe de uma coisa promotora? Ele me olhou, do mesmo jeito que você olha agora, tentando ser imparcial, fria, profissional, mas sem conseguir cobrir totalmente o olhar de pena. — Rene disse soltando um pequeno riso. — Então ele me disse: “era o seu pai?”. Eu confirmei, e ele simplesmente me dispensou, disse que eu não podia mais fazer parte da organização, e que eu jamais poderia voltar a qualquer cargo no governo. De acordo com a minha carta de dispensa eu tinha uma lesão permanente que me impedia de seguir no cargo. Ele fez isso para que a minha Zoe não ficasse sem o pai. Não acho que tenha sido de grande ajuda, afinal por mais que eu não tenha sido preso naquela época, eu estou atrás das grades hoje.
— E por quê você não tentou trabalhar em outra área? Podia ser instrutor de tiro, de luta, guarda-costas, chefe de segurança. As possibilidades são inúmeras, Rene. — Laurel o encarou. — Por que se juntar a ARGUS?
— Você diz como se eu tivesse tido outra opção — Rene respondeu sarcasticamente. — Eu não escolhi me juntar a ARGUS. Amanda Waller decidiu isso por mim. Seu amigo, Oliver, ele teve uma escolha. Eu não. Tudo o que eu tenho é a minha filha e tudo o que ela tem sou eu. Você sabe o que aconteceria a minha garotinha de oito anos se eu fosse preso? Ela iria para um orfanato, seria adotada por pais que nunca me deixariam vê-la novamente, isso se eu conseguisse sair da prisão. Amanda Waller ia me entregar, o meu chefe do FBI morreu em uma missão um ano depois que eu sai, eu não tinha ninguém a quem recorrer. Então quando ela me colocou contra a parede, eu cedi. Chame-me de covarde ou o que for. Nada nunca vai ser mais importante para mim do que a minha filha. Eu lhe dou o que quiser promotora: nomes, senhas, missões, endereços. Tudo o que eu lhe peço em troca é que você garanta que a minha Zoe vai continuar sendo minha.
— Não sei se tenho poder para de fazer isso Rene, mas posso lhe garantir uma pena menor, mais branda, tudo depende da sua colaboração — Laurel afirmou prontamente.
— O que quer saber?
— O que vocês faziam naquele galpão?
— Você não vai gostar de saber.
Nunca antes Laurel tinha dado razão para um acusado. Hoje, no entanto, após ouvir toda a história que Rene havia lhe contado ela lhe daria o crédito. Ela não gostou nem um pouco do que havia descoberto. Olhou para o copo de café em cima da mesa. A história de Rene havia mexido com ela. Ele era uma criança que teve uma infância difícil por não ser norte-americano e ainda teve que lidar com um pai abusivo e violento. Como se não bastasse, ainda assistiu a mãe morrer enquanto apanhava mais uma vez. Mas ele teve uma chance de se tornar melhor que o pai. Ele era melhor que o pai. Sua investigação minuciosa a respeito da filha dele tinha comprovado isso. A menina não poderia ter sido criada de forma melhor. Vindo de um pai solteiro aquilo era extremamente admirável.
Ainda assim, isso não diminuía sua culpa ou seus erros. Muito menos sua punição. Mas ela havia feito uma promessa, a única que ela iria fazer ao longo do caso, iria mover o que fosse preciso para que Zoe não perdesse o pai para sempre. Garantiria que Rene continuasse com a guarda da garota, iria encontrar um meio de mantê-los perto um do outro. Ela sabia bem como era assustador a possibilidade de se perder a única família que possuía. Quando sua mãe morreu, seu pai não estava nas melhores das condições. O problema com a bebida era preocupante, o juiz cogitou mandá-la juntamente com Sara para um orfanato. As duas passaram um mês naquele lugar, temendo que alguém as levasse dali, ou pior, que levasse apenas uma delas dali.
Felizmente Quentin havia se recuperado, não foi do dia para a noite, mas pelo menos era capaz de cuidar das duas garotas. Então ela podia sentir certa empatia e até mesmo pena pela história da pequena Zoe. Se fosse preciso ela mesma levaria a garota para casa. Tommy que lidasse com isso.
— Promotora? — um dos policiais chamou a atenção dela. — Sua próxima suspeita já está pronta para depor.
— Obrigada, oficial — Laurel sorriu para o homem e se pôs a caminhar de volta para a sala.
Dinah Drake não era exatamente uma desconhecida para Laurel. As duas trabalharam juntas em um caso em Coast City, cidade natal da mulher, há alguns anos, quando ela ainda era policial. Ela se lembrava de que sempre se confundiam, pois alguns havia alguns amigos de seu pai que trabalhavam por lá e a chamam de Dinah. Chegava a ser engraçado, mas não passou de um episódio isolado. As duas nunca mais se viram desde aquele dia.
— Dinah Laurel Lance — Dinah pronunciou assim que Laurel passou pela porta. — Quanto tempo.
— Gostaria de dizer que fico feliz em revê-la, mas as circunstâncias não me permitem tal coisa — Laurel respondeu se sentando de frente para a mulher. — Eu falei com o seu… O seu namorado? Eu realmente não entendi muito bem o relacionamento de vocês. Ele me disse coisas interessantes. Colaborou bastante eu diria. Espero que nossa conversa seja tão agradável quanto a que eu tive com ele.
— Rene tem mais a perder do que eu — Dinah respondeu simplesmente. — Zoe é a prioridade dele. Ele fará qualquer coisa por ela. Mas veja Laurel, eu já perdi tudo o que tinha de mais importante. Seja lá qual for o seu jogo, saiba que eu não estou disposta a jogar.
— Dinah, dificultar essa investigação só vai piorar seu julgamento — Laurel explicou pacientemente. — Eu não preciso de muito.
— Vocês nunca precisam não é mesmo? — Dinah retrucou debochando. — Qualquer meia palavra serve para sustentar um veredito cruel e precipitado. Não seria a primeira vez que isso acontece comigo. A diferença é que desta vez eu já sei como termina e sei como retardar isso o máximo possível.
— O que isso quer dizer?
— Você não é a promotora? Você tem essa pasta em mãos, tenho certeza de que você sabe o que eu quero dizer.
— O seu julgamento por corrupção. — Laurel constatou instantaneamente. — A razão pela qual você perdeu o distintivo.
— Eu não perdi só o meu distintivo! — Dinah esbravejou. — Eu perdi a minha liberdade! A minha carreira, a minha credibilidade. Eu perdi o meu nome, as minhas crenças. E tudo isso por que eu confiei em alguém. Apenas para que você saiba, eu e Rene não somos um casal. Por mais bem intencionado que ele seja, por mais digno que ele seja, eu não sou capaz de confiar nele.
— Eu li o seu caso, ficou mais do que claro que houveram falhas no processo. Erros no julgamento. Eu estou tentando não cometer erros aqui — Laurel argumentou. — Eu preciso que você me ajude. É óbvio que, hoje, você é culpada Dinah, mas até os culpados merecem um julgamento digno. Tenha em mente que me esconder informações só vai piorar a sua situação. Você foi acusada de corrupção, depois é pega trabalhando para uma das organizações mais perigosas do país. O seu passado vai pesar na decisão do juiz. Mas se você colaborar, talvez eu consiga até provar que você era inocente no passado. E talvez isso signifique que você ainda tenha uma chance.
— O que quer saber, Laurel?
— O que você faz na ARGUS e o que vocês faziam naquele galpão.
Dinah suspirou. Contar o que ela fazia na ARGUS não era tão simples quanto quando perguntavam em que ela trabalhava há alguns anos. Antes ela apenas respondia que era policial. Hoje ela mal sabia por onde começar a explicar sua função dentro da organização. Ela era uma agente de campo, mas também era uma estrategista. Ela lutava e lidava com armas, mas também lidava com papeis e burocracia.
Não podia negar que sentia falta daquela vida que levava. E pensar que tinha colocado tudo a perder por confiar de corpo e alma em um homem que arruinou tudo o que ela havia batalhado para construir. Vince não havia traído apenas a corporação, havia traído Dinah. Talvez fosse por isso que ela não conseguia se envolver mais profundamente com Rene, por mais que ela soubesse que ele era um homem digno, mesmo que dentro dos padrões limitados para um agente da ARGUS, ela ainda esperava pelo momento em que ele iria apunhalá-la pelas costas. Mas se isso acontecesse ela não seria covarde como da outra vez.
Anos atrás quando começou a suspeitar que Vince estava agindo à margem das leis, ela deveria ter contado a alguém. Deveria ter pedido ajuda para investigá-lo, assim quando descobriu todo o esquema de tráfico de armas seria muito mais fácil entregá-lo. Mas ela não fez isso, preferiu confrontá-lo por conta própria, chegou a acreditar que ele não tinha tido escolha. Mas a verdade era que ele tinha tido uma escolha, e havia escolhido o lado errado, havia escolhido prejudicar a pessoa que mais o apoiou na vida. Despois de ser pega com uma quantidade significativa de propina, nada do que Dinah dissesse seria levado a sério, nem mesmo uma acusação gravíssima contra vários membros da corporação.
Dinah descobriu da maneira mais dura que a única pessoa em que se pode confiar é você mesmo. Por isso nada do que Laurel dissesse seria suficiente para convencê-la a dizer o que não deveria ser dito. Ela já havia sido enganada uma vez, não deixaria que isso acontecesse novamente.
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