31 de Outubro de 2018 — Liverpool, Inglaterra

Lily achou que já tinha bebido o suficiente por aquela noite e somente percebeu isso quando estava arrastando James para fora da festa em que eles estavam, em direção ao jardim que era de longe o lugar mais calmo da casa de Benjy Fenwick.

Ela repassou a ideia de finalmente contar a Potter a coisa que escondia dele há quatro anos e naquele momento, com o cérebro nadando em vodka, a ideia lhe pareceu excelente. Lily só não contava que James também tinha algo para lhe falar.

— Pode falar primeiro — Ela disse meio embolada nas próprias palavras e constrangida após eles produzirem, sem querer, o clichê de falarem um o nome do outro ao mesmo tempo. Ele se sentou e parecia contemplar as estrelas, quase como se pudesse enxergar todo um universo novo surgir diante dos olhos. Em seu rosto, carregava um belo sorriso.

— Eu consegui, Lily… Quer dizer, nós conseguimos. Sirius, Remus, Peter e eu somos sucesso no mundo todo, um empresário nos achou e quer nos levar a Londres, Estados Unidos, França… — Suspirou pesado imerso naquele sonho tão lindo que durante toda a vida ele sonhou em realizar.

Ela não teve reação naquele momento, sua mente se esforçava para processar tudo e fazê-la perceber que aquele não era a hora. Se falasse para James tudo o que gostaria de revelar para ele, criaria uma situação muito complicada para os dois, porque:

Ela não tinha certeza nenhuma de que ele gostava dela também — embora suas amigas sempre lhe dissessem que sim —, porque ele nunca lhe disse isso com as exatas palavras, ou demonstrou de modo que ela pudesse notar Caso ele correspondesse os sentimentos como manteriam isso? Lily não podia ficar de um lado para o outro viajando atrás dele e da The Marauders. Ela tinha uma vida na Inglaterra e com certeza não poderia deixá-la assim por um cara.

Em conclusão, não valeria a pena contar e ela achou que definitivamente seria melhor deixar para lá e fingir que aquele assunto nunca passou por sua cabeça. Lily achava que superaria o sentimento e isso só se tornaria mais fácil com a ausência de James por aquele tempo em que estivesse com a banda.

— Uau James, parabéns! Eu nem acredito, caramba isso é demais — Ela se esforçou para ter uma reação muito positiva e não foi difícil, pois estava realmente feliz pela conquista dele..

— Os caras estão muito animados com isso. Sirius não para de fazer planos — Soltou uma risadinha. — Mas e o que você queria falar comigo?

Merda.

Ela precisava arranjar uma desculpa e tinha de ser rápida, mas o que falaria? Tinha de ser algo extraordinário que valesse seu aparente desespero em levá-lo para fora da festa às pressas. Foi então que lhe surgiu algo.

— Hm… eu só queria te contar que consegui um papel em uma peça em Manchester, é um musical e eles estão contando com um público grande. O melhor é que eu vou ser a personagem principal pela primeira vez — Lily sorriu largamente com a ansiedade correndo por cada célula de seu corpo, estava assim desde que recebeu o e-mail informando que tinha sido aprovada nas audições.

— Uou! Isso é demais, Lily é incrível mesmo! — Ele se levantou, gritando as palavras e parecendo tão animado quanto ela. — Caramba não dá pra acreditar que tantas coisas estão dando certo para a gente.

Lily sorriu e começou a reviver algumas memórias muito antigas, ela brincando de ser atriz quando tinha seis ou sete anos enquanto James queria brincar de ser cantor e na maioria das vezes a irritava com toda essa coisa, a fazendo expulsá-lo de casa aos berros. Ela compartilhou a lembrança com o garoto sentado no banco ao lado dela no jardim e ele riu em resposta.

— Você sempre queria ficar brincando disso, lembro da vez que você queria que fôssemos a pequena sereia e o cara lá. Você quase me fez te beijar, foi horrível — O riso escapou dos lábios de Lily e foi acompanhado por suas bochechas um pouco coradas, o que ela tentou disfarçar abaixando a cabeça. James de repente pegou a mão dela e entrelaçou os dedos como eles faziam há anos quando queriam dizer algo muito importante. Ele então começou a contar os nós de cada um dos dez dedos ali.

— Vou sentir sua falta — Ela disse por fim, antes que o sentimento pudesse consumi-la e levar a loucura. Erguendo a cabeça, Lily encontrou os olhos de James por trás dos óculos do garoto.

— E eu também vou, você nem imagina o quanto — Com a mão livre, ele colocou o cabelo dela atrás da orelha e puxou sua cabeça para lhe dar um beijo na testa. Lily repousou o rosto sobre o ombro de James enquanto o abraçava. — Acho que logo vou estar de volta e aí podemos passar uns dias em Londres, que tal?

— Seria ótimo — Ela tentou não demonstrar o leve desapontamento que sentia por saber que ele não voltaria logo e só estava dizendo aquilo para fazê-la se sentir melhor.

Lily não queria ficar triste com sua partida, era um ato egoísta demais e ela não era assim. Foi por isso que se levantou e esticou a mão para ele, como se convidando-o a se levantar, mas o que ela queria mesmo era se divertir com o melhor amigo pelo resto da noite como se aquela fosse a última de suas vidas.

Still into you do Paramore tocava em alto e bom som na sala de Benjy enquanto James girava Lily e eles cantavam a plenos pulmões como se suas existências dependessem daquilo.

— I should be over all the butterflies… — Ela se esforçava no refrão como se quisesse passar por um ritual de libertação de todas aquelas malditas borboletas que James Potter causou nela desde que percebeu que gostava dele. Ele jamais saberia e era isso que a motivava a cantar mais alto e deixar que ele continuasse guiando-a por aquela pista de dança improvisada como o melhor amigo que ele sempre seria para ela.

No dia seguinte ela foi a casa dele bem cedo, nem mesmo se permitindo tomar café embora a mãe tivesse insistido muito. Lily saiu em disparada pelas ruas de Hogsmeade fazendo o caminho que conhecia há dez anos, parou apenas quando chegou a bela casa pintada de um verde bem clarinho.

Ela podia ouvir as conversas altas mesmo do lado de fora e sabia perfeitamente que os marotos já estavam lá dentro se preparando para irem embora naquele dia primeiro de novembro. Lily tocou a campainha, sendo recebida em alguns instantes pela figura loira e sorridente de Remus Lupin, com suas sardas enfeitando o rosto e os olhos castanhos com pontinhos verdes se iluminando ao vê-la.

— Ei! Você veio, anda entra. — Falou enquanto a abraçava e lhe deu espaço para entrar naquela casa que ela já conhecia tão perfeitamente. As memórias que tinha pareciam ser de outra vida, eram tempos bons em que ela corria por essas escadas com seus amigos e não estava terrivelmente confusa com seus sentimentos pelo melhor amigo.

A figura ruiva, assim como ela mesma, de Euphemia Potter logo surgiu em seu campo de visão com o bom e velho sorriso largo e absurdamente acolhedor da mesma forma que o abraço que lhe deu ao recebê-la. Como sempre, ela comentou a respeito de Lily ter crescido tanto, quase como se elas não tivessem se visto na semana anterior.

Lily encontrou os outros na cozinha. James e Sirius estavam sobre a mesa ainda de pijamas e usando as vassouras da Sra Potter como se fossem instrumentos enquanto cantavam uma música que ela não conhecia. Peter queria derrubar Black a todo custo, porque aparentemente ele usava uma de suas samba-canção na cabeça, era uma cena de puro caos, mas que conseguiu lhe arrancar a primeira risada do dia.

— Oh, that boy’s a slag. The best you ever had…

— Ora, vamos. Desçam da minha mesa — Euphemia brigou com os filhos, Lily sabia que há um bom tempo ela tinha praticamente adotado Sirius, o que não era difícil de imaginar pois ele passava mais tempo na casa de James do que na dos próprios pais.

A Sra. Potter, apesar da ralhada, carregava um sorriso em seu rosto ao ver os filhos fazendo graça. Seu humor melhorou ainda mais quando Fleamont adentrou o cômodo e lhe recebeu com um adorável beijo de bom dia.

Lily achava que shippava esse casal antes mesmo de descobrir o significado da palavra. Eles eram de longe uma das inspirações para algo que a ruiva sonhava em ter algum dia.

— Está com fome? Acho que você não comeu hoje — Disse James empurrando um prato com alguns pedaços de bolo. O estômago de Lily fez barulho no mesmo instante quase como se tivesse ouvido a voz do garoto.

— Como sabe disso? — Se serviu de um dos pedaços e pegou uma xícara de café. James a analisou dos pés a cabeça e abriu um sorriso antes de respondê-la.

— Vocês calçou pares de tênis diferentes e não está usando seu relógio, o que me leva a concluir que saiu de casa correndo e nem tomou café. Eu te conheço, Evans — Sorriu largamente como se aquela fosse a resposta mais óbvia e brilhante do mundo. Ela soltou um riso nasalado e balançou a cabeça em negação.

— Vou sentir muito sua falta — Desfez o sorriso, James segurou sua mão e ficou brincando com os anéis em seus dedos.

— Eu poderia dizer o mesmo, mas acho que vamos nos encontrar antes que possamos nos dar conta.

A certeza de suas palavras a deixaram aliviada em certa medida, ela de permitiu acreditar naquilo para se sentir um pouco melhor.

Terminaram de arrumar algumas coisas e as malas logo foram espremidas no porta-malas do carro de Fleamont. Os quatro iriam atrás, Euphemia a frente com o marido, mas Lily decidiu que não iria e, de qualquer maneira, não haveria espaço.

Se despediu de cada um deles, um abraço demorado em cada um de seus velhos amigos que esperava reencontrar em breve. O veículo se afastou pela rua e ela apenas o perdeu de vista quando virou na terceira quadra a direita, agora tudo o que poderia fazer era tentar viver sua vida normalmente enquanto James vivia seu sonho. Quem sabe também pudesse se utilizar dessa distância física para esquecer a grande besteira que seria contar a ele sobre seus sentimentos.

Nos meses que se seguiram Lily se manteve completamente entregue a nova peça e ao emprego que tinha conseguido numa cafeteria no centro da cidade. Ela conseguiu um dinheiro extra e se mudou para Londres, onde alugou um apartamento, o qual dividia com um velho amigo que aparentemente precisava de companhia após sair da casa de seus pais abusivos.

— Regulus, não dá pra acreditar que você tomou todo o meu leite. — Ela gritou para ele da cozinha, de modo que ele pudesse escutar do outro lado do corredor em seu quarto mesmo com a porta fechada. Regulus abriu a porta, demonstrando que realmente ouvira e não estava disposto a irritá-la ainda mais fingindo o contrário.

— Você tem que sinalizar as coisas nessa geladeira, eu achei que fosse leite comum. — Disse com toda a naturalidade, como se não tivesse tomado toda a garrafa do único leite de amêndoas que satifizera seu paladar não tão versátil quanto ela pensara que seria quando decidiu aderir ao vegetarianismo há cerca de três meses.

— Você bebeu toda a caixa, Regulus. Essa coisa é cara pra cacete e só tem em um lugar específico, vou ter que sair de casa mais cedo amanhã só pra comprar. — Ela tirou o bule de dentro do armário e, após enchê-lo com certa quantidade de água, colocou sobre o fogão com um pouco de força.

Ele não a respondeu mais e Lily decidiu que talvez remoer aquele assunto não fosse a ideia mais sensata. Estava cansada, tivera um dia estressante no trabalho e estava com problemas para ensaiar as falas da peça que iria estrelar em duas semanas — era a mais importante entre as duas que estrelou no último ano, pois poderia dar-lhe a chance de conseguir algum papel, mesmo que pequeno, em algum filme ou série de TV, segundo a diretora do espetáculo.

Após um banho rápido enquanto o chá era preparado, permitiu-se atirar-se sobre o sofá envolta por almofadas e uma manta enquanto passava os canais da televisão atrás de algo que pudesse entrete-la minimamente. Foi nesse meio tempo que o emaranhado de cabelos cacheados e pretos que ela chamava de colega de quarto, adentrou o cômodo vestindo um suéter laranja abóbora que destoava de qualquer coisa que ele costumava usar — em geral seus visuais incluíam apenas cores neutras. Ele trazia uma xícara em suas mãos, na qual imaginou conter o chá que ela havia preparado, pois sobrou um pouco no bule.

— Eu vim em paz, Evans. — Ergueu uma mão no ar ao parar no meio do caminho, parecendo esperar uma permissão para que pudesse seguir adiante. Ela rolou os olhos e sorriu para ele largamente, batendo a mão nas almofadas ao seu lado, sobre as quais ele se sentou e abraçou, depositando um beijo na bochecha.

— Sinto muito pelo seu leite, não deveria ter bebido tudo. Vou te recompensar, prometo.

— Você sempre fala isso quando faz besteira, mas eu vou aceitar porque te amo. — Sorriu antes de voltar-se para o copo com o líquido quente sabor camomila.

Lily nem se deu conta em que canal havia deixado a televisão ligada, apenas voltou a prestar atenção quando as palavras “The Marauders” invadiram seus ouvidos e fizeram o aparelho entrar em foco novamente. Era uma entrevista no que parecia ser algum programa de TV estadunidense, o símbolo no canto direito do monitor indicava a transmissão ao vivo.

Ela passou os olhos por cada um deles, Peter parecia bem mais velho do que naquela última vez em que os vira, como se tivesse amadurecido muito; o cabelo de Sirius continuava na altura dos ombros, mas agora havia uma barba preenchendo o rosto; Remus abandonara os óculos de grau e mesmo com as lentes ainda era possível ver o brilho único em seus olhos; e James… bom, James estava do jeito que ela se lembrava, mas havia algo muito diferente ali que ela não sabia explicar. Fisicamente o cabelo parecia mais desajeitado do que antes, mas de um jeito muito adorável.

— Puxa, tinha um tempo que eu não via eles. Sabe, eu não fico exatamente acompanhando a vida das celebridades e acho que não é a mesma coisa quando você vê fotos no instagram — Comentou para Regulus que apenas assentiu enquanto ouvia com uma certa atenção ao programa.

“Então vocês estarão de volta a Londres neste mês de outubro?” A apresentadora perguntou sem especificar para qual dos quatro. Foi Remus quem respondeu “Estaremos finalizando a turnê e acreditamos que não existe lugar melhor do que nossa própria casa para acabar isso. Além do mais queremos estar perto das pessoas que a gente ama logo, não foi exatamente um ano fácil.” e James complementou “Somos muito gratos por tudo o que aconteceu, é claro. Mas estamos com muitas saudades de casa, a comida da minha mãe ainda é a melhor do mundo, faz muita falta” eles riram em coro.

Lily trocava mensagens com James algumas vezes, mas era muito difícil manter contato quando ele estava quase sempre em um fuso horário muito diferente do dela. Geralmente quando ela estava dormindo provavelmente ele estaria almoçando e vice-versa, então apenas pararam de se falar cada vez mais até pararem de uma vez. Não que estivesse contando, mas já fazia pouco mais de um mês desde a última mensagem.

— Espero que o Sirius lembre que tem um irmão meio abandonado pela cidade quando voltar — Regulus desabafou e repousou a cabeça sobre seu ombro. Ela esticou o braço um pouco para acariciar seus cabelos.

— Ele vai lembrar, nem que eu o obrigue a lembrar — Tranquilizou Lily com toda a confiança que podia. Sabia como Sirius se tornou dez vezes mais importante para Regulus depois que ele fugiu de casa por não aguentar mais tudo aquilo sozinho.

Os dias seguintes correram mais rápido do que ela podia imaginar e quando se deu conta já estava sobre o palco apresentando a peça sobre Little Women — ela era Jo March e para sua sorte Regulus tinha lido a história tantas vezes que a ajudou com a maioria das falas em que estava perdida.

Lily apenas conseguiu respirar quando as cortinas se fecharam e tudo o que podia ouvir eram os aplausos. Os colegas comemoraram o sucesso que parecia ter sido a apresentação e a elogiaram muito, principalmente a diretora.

— Lily você foi simplesmente perfeita — Ela a puxou pelos bastidores, o braço direito envolvendo-a. — Tive a oportunidade de conversar com alguns produtores de algumas séries no Reino Unido e eles ficaram muitíssimo interessados na sua performance. Passei seu contato, tudo bem?

— Tá brincando, Minerva? Isso é incrível! Muito obrigada, muito obrigada mesmo — Ela percebeu que talvez tivesse perdido o controle quando a abraçou. Minerva não era exatamente uma amante de contato físico, mas tentou disfarçar por ela. Lily logo se recompôs — Desculpa, acho que me empolguei.

— Tudo bem, Lily. Agora vá se trocar e aproveite para comemorar, aquele seu namorado está aí. — Ela arqueou a sobrancelha em dúvida, mas em questão de segundos entendeu de quem estava falando. Minerva tinha a mais pura certeza de que Regulus e ela eram um casal, ele fez expressão de nojo quando ela lhe contou pela primeira vez e acabou recebendo um tapa no rosto.

Lily trocou os figurinos um pouco pesados e gastou boa parte de seu demaquilante para se livrar do excesso de maquiagem que teve que usar. No momento em que soltava os grampos ela viu a figura esguia do Black mais novo surgir na porta com um buquê de margaridas, eram as favoritas dela.

— Com licença, aqui é o camarim da senhorita Lily Evans? Eu gostaria de um minuto, sou um grande fã e acho que daqui a pouco os seguranças vão me tirar daqui a força — Ela não pôde evitar sorrir, se levantou e foi até o melhor amigo com os braços abertos até envolverem um ao outro num abraço aconchegante.

— Ah, Regulus. Você é um bobo, por isso te amo tanto.

— Sei que talvez esteja cansada, mas amanhã é sua folga e eu queria propor uma coisa. — Se afastaram para poderem olhar um nos olhos do outro — Sirius me mandou ingressos para o show da The Marauders hoje, duas entradas VIP e pensei em te levar. Sei que você gostaria de revê-los, mas se quiser ir pra casa eu entendo.

— Não, eu vou. Sei como você quer rever o Sirius e também você veio até aqui me ver, eu seria bem filha da mãe se não te acompanhasse nisso. — Regulus não pôde evitar um sorriso, ele a abraçou e girou no ar fazendo Lily dar gritinhos e pequenos socos em seu ombro para que a colocasse no chão.

Ela se trocou em alguns minutos e fez uma maquiagem bem mais simples do que a anterior. Seu cabelo ainda tinha alguns grampos perdidos e que talvez ela nunca achasse, sem falar no spray fixador que a obrigou a prendê-lo num rabo de cavalo alto para se sentir minimamente confortável.

Por terem optado por comprar lanches e comer no caminho, Lily e Regulus tiveram de enfrentar o metrô de Londres já que pegar um Uber com molhos para sanduíches e refrigerante sabor uva com certeza não acabaria nada bem.

A rua do local em que ocorreria o show estava repleta de pessoas, a fila dava a volta no quarteirão e isso quase a fez querer voltar para casa. Levariam horas para entrar se não fossem as pulseiras VIP que Reg tinha conseguido. Eles foram para uma fila bem menor e ainda conseguiram passar na frente quando ele se apresentou como irmão de Sirius — provavelmente a terrível semelhança fez com que o segurança cedesse com mais facilidade.

Ele parecia saber para onde tinha que ir, pois a levou para trás do palco — deveriam estar nos bastidores. Toda a equipe andava para lá e para cá as pressas a deixando muito ansiosa, mas Lily sentiu um alívio quando ouviu o som de uma voz que não ouvia há muito tempo "Ei, vocês dois" Remus Lupin gritou e acenou do outro lado do corredor e veio correndo até eles. Deu um abraço apertado e muito prolongado em Lily, até mesmo a tirando do chão para isso.

— Não acredito que você veio, achei que não fosse convencê-la, Reg. — Eles se cumprimentaram com um abraço tão apertado quanto o de Lily. Tinham uma relação excelente há muito tempo, principalmente depois que ele soube sobre a paixonite de seu irmão em Remus.

— Foi só dar umas flores pra ela e tudo ficou bem — Ela lhe deu um tapinha em desaprovação, não era como se estivesse ali apenas porque foi mimada. Por um breve instante ela pensou se teria a sorte de encontrar as margaridas no camarim no dia seguinte, não teria como trazê-la ao show e muito menos mandá-las para casa e por isso teve de deixá-las.

— Isso é demais! Vamos, os meninos estão se preparando eles vão adorar ver vocês.

Eles chegaram ao camarim e mesmo antes de Remus abrir a porta já era possível ouvir a música alta e as conversas que apenas pararam quando eles perceberam os três parados na porta. Lily sentiu o coração bater um pouco mais rápido ao ver a felicidade genuína em suas expressões e não exitou em correr até o trio para abraçá-los, Lupin se juntou a eles e Regulus ficou assistindo a tudo até Sirius se soltar e ir receber o próprio irmão com quem não falava há tanto tempo. Eles tinham muito o que conversar.

Lily encarou James e teve uma sensação estranha na boca do estômago, como se fossem completos desconhecidos, mas que ao mesmo tempo despertavam um no outro uma sensação de familiaridade — era meio difícil de explicar, mas sabia perfeitamente do que se tratava.

Eles logo tiveram que ir para o show e Lily ficou muito perto do palco, mas num espaço separado dos demais fãs. Ela conhecia apenas algumas músicas que se permitiu salvar porque tinha realmente gostado, eles tocavam agora This must be my dream que ela sabia muito bem ser de Sirius para Remus — conhecia a história deles há tempo demais para ter concluído isso.

Quando acabou um som mais calmo de guitarra começou e a voz de James logo surgiu nos vocais um pouco rouca I wanna be your vacuum cleaner breathing in your dust.

Houve um momento em que seus olhos desceram bem para o lugar em que ela estava e uma impressão de que a olhava enquanto cantava passou por sua cabeça, mas era loucura. Por que estaria olhando para ela ao cantar uma música tão romântica? Era bobagem e logo a sensação se afastou junto ao seu olhar que retornou a plateia.

eles terminaram o show com Chocolate e se despediram muito animados com um “obrigado por virem hoje, somos a The Marauders”. Regulus a puxou em direção a parte de trás do palco e acabaram se encontrando com Sirius alguns minutos depois, ele ofereceu uma das SUVs para irem para a after party.

Ela agradeceu mentalmente por ser uma festa reservada, pois apenas a quantidade de fotógrafos e repórteres que havia na porta já a deixou suficientemente incomodada, ter que lidar com eles quando só queria passar um tempo com seus amigos de infância não era a ideia que ela tinha de uma boa sexta a noite.

Regulus lhes arranjou um ótimo lugar no bar e ficaram conversando até Peter surgir e levar Reg para apresentá-lo a algumas pessoas. Ela ficou sozinha até James aparecer com alguns botões da camisa abertos e um copo com líquido transparente, evidenciando que talvez já tivesse bebido demais.

— Olha só se não é a garota mais linda da cidade — Ele disse a envolvendo pelos ombros e depositou um beijo em sua bochecha. Lily riu de como Potter estava se enrolando nas próprias palavras, era adorável. — Gostou do show? — Se sentou no banco ao lado do dela e esqueceu o copo sobre o balcão. A olhava atentamente, os olhos castanhos tentando se manter muito fixos nos dela.

— Foi incrível, vocês estavam ótimos. Confesso que senti falta de vê-los tocar — Ela deu de ombros com um pequeno sorriso.

— Reg me contou sobre a sua apresentação de hoje. É verdade que têm pessoas interessadas no seu trabalho? — A mão dele escorregou até o encontro da dela e começou a brincar com seus dedos como nos velhos tempos.

— Não tem nada muito certo ainda, mas a diretora da peça me disse que sim. Já é alguma coisa né? Tipo, mesmo que eu não vá ser protagonista de um sucesso de Hollywood na semana que vem. — Ela tinha a esperança de que acabasse sendo chamada para algo muito importante em breve, mas tinha de manter seus pés no chão ou a queda seria dolorosa demais para que pudesse suportar.

Lily sonhava desde muito pequena em ser uma grande atriz, ter os holofotes sobre ela enquanto saía de um carro chique e pisava no tapete vermelho da Premiere de seu filme. Conseguia até ver a si mesma subindo ao palco do Dolby Theatre para receber seu Oscar — esperava apenas não cair nas escadas como a Jennifer Lawrence na cerimônia de 2013.

— Acho que as coisas vão acontecer como elas têm de acontecer. Você é uma excelente atriz e eu sei disso desde sempre — Ele colocou uma mecha sua atrás da orelha e apertou sua bochecha levemente de forma carinhosa, Lily sentiu a região esquentar ao toque. Ainda era difícil dizer ao seu coração que James Potter tinha que ficar no passado. — Você sabe que já te ofereci milhares de vezes pra eu te indicar a alguém influente, a gente conhece umas pessoas.

— Eu realmente agradeço, mas tem que ser por mérito meu, James. Eu tenho que chegar ao topo porque me esforcei pra isso e não porque tenho amigos famosos que podem me ajudar, sem ofensas. — Disse soltando sua mão da dele e as juntando sobre seu colo, estalou os dedos devido a um nervosismo que lhe ocorreu momentaneamente.

— Não ofendeu. Na verdade eu tinha me esquecido que essa sua determinação é uma das coisas que sempre admirei em você. Vai chegar longe com isso, Evans — Ele sorriu de lado e ela sentiu o coração acelerar um pouco. Era ridículo como a simples maneira dele pronunciar seu sobrenome, ou sorrir para ela, ou entrelaçar seus dedos ainda a fazia ficar completamente imersa naquele turbilhão de sentimentos que já deveriam ter desaparecido há muito tempo.

Ela contou a Regulus certa vez que ainda pensava em James e tinha esperança de que pudessem se encontrar e ela pudesse lhe contar sobre seus sentimentos, mas que ao mesmo tempo se sentia uma completa tola por ainda sustentar aquilo. Ele lhe disse que há coisas nessa vida que não somos capazes de controlar, devemos apenas aceitá-las e seguir em frente, esperar que passem ou se resolvam da melhor maneira.

Assim era com o vocalista da The Marauders e tê-lo ali, diante de si, depois de todos aqueles anos a fazia achar que talvez ainda tivesse tempo de ver como as coisas poderiam acabar, como teria sido se ela tivesse dito a ele naquela noite de Halloween que estava apaixonada.

— James, eu queria te dizer uma coisa — Disse rápido e quase perdendo o ar. Ele ainda sustentava o olhar, sem desviar um segundo. — Deveria ter te dito há algum tempo, mas acho que não tive coragem. Só que agora eu vejo que se não disser eu… — Ela foi interrompida por uma voz feminina vinda de trás dele, braços o envolveram e cabelos castanhos surgiram em seu campo de visão.

— Finalmente te achei! Amor, você não imagina como as irmãs Hadid são legais. Você deveria ir falar com o Zayn, ele está aí, sabia? — A garota disse e virou o rosto de James para que pudesse beijar sua bochecha. Demorou um pouco, mas ela finalmente pareceu notar Lily. — Oh, eu estou atrapalhando alguma coisa? Você é a Lily, não é? Os meninos falam muito de você, é um prazer. Eu sou a Hestia, namorada do James. — Estendeu a mão para ela e ainda sorria, parecia ser muito simpática e divertida. Isso causou em Lily certo conforto e novamente Reg surgiu em sua mente com a coisa sobre esperar para que o sentimento fosse embora. Ela apertou a mão de Hestia.

— É um prazer, Hestia. Não está atrapalhando, na verdade você chegou em boa hora. — Se levantou e pendurou a bolsa sobre o ombro — Eu preciso ir encontrar o Regulus para avisar que vou para casa, tive um dia cheio e acho que preciso descansar. — Achou que tivesse visto um semblante triste no rosto de James, mas talvez estivesse só imaginando de novo.

— Ah, querida. É uma pena, porque os meninos falam tão bem de você que eu estava doida pra te conhecer. Convence ela a ficar, James — O remexeu pelos ombros, mas ele apenas riu e negou com a cabeça.

— Quando a Lily decide uma coisa ela já tem sua palavra como a final, amor. Mas relaxa, eu aposto que vocês vão ter a oportunidade de conversar depois. A gente pode marcar alguma coisa, o que acha Lily? — Forçar um sorriso nunca foi problema para ela e não era agora que viria a se tornar.

— Seria ótimo, você tem meu número então pode marcar. — Estava começando a ficar nervosa por estar ali, seus olhos já não estavam mais nos de James ou de Hestia, mas sim na multidão em uma busca frenética pelos cabelos pretos do seu colega de quarto. — Agora eu preciso ir mesmo, foi um prazer te conhecer, Hestia, e foi muito bom te rever, James — Se despediu da morena com um abraço rápido, mas com ele foi um pouco diferente até porque não se viam há meses.

Lily saiu pela multidão tentando achar Regulus e finalmente o encontrou no mezanino em uma conversa com Sirius num sofá. Ela não queria interromper, mas seria rápida. Eles se apoiaram no parapeito.

— Só queria te avisar que vou pra casa, eu tô meio cansada e… — Seu olhar chegou novamente a Hestia e James lá embaixo, eles estavam muito felizes dançando juntos, a forma como sorriam um para o outro era a mais bonita que ela já viu. — Acho que já me diverti o suficiente.

— Conheceu a Jones, não foi? — Perguntou descendo seus olhos para o mesmo lugar que els.

— Quem? — Lily não tinha certeza se ele falava de Hestia mesmo.

— Hestia Jones, é a namorada do James. Eu sinto muito por isso, florzinha, deveria ter te dito que ele estava namorando — Sua mão tocou a dela e apertou, mas a ruiva apenas negou com a cabeça e sorriu.

— Tá tudo bem, Reg. Não é sua culpa e, de qualquer forma, eu já deveria imaginar. Adiei demais toda essa coisa e agora vou ter que superar, só isso. — Sentiu sua garganta fechar, mas o sorriso continuou em seu rosto todo o tempo.

— Eu posso ir pra casa com você, não precisa ir sozinha. Vou dizer ao Sirius que… — Ele não teve a oportunidade de completar sua frase, pois ela o interrompeu.

— Nem pense nisso, você merece se divertir com seu irmão e não serei eu e meu coração partido que vamos te atrapalhar — Ela o segurou pelo braço e então finalmente o abraçou, não pôde resistir. Abraçar Regulus era um dos privilégios que apenas ela tinha, o melhor amigo tinha o melhor abraço do mundo, estar em seus braços era como estar no lugar mais seguro do universo. Ele afagou seus cabelos e beijou o topo da sua cabeça.

— Só me avisa quando chegar em casa, tá bom? E me manda a localização enquanto estiver no carro, tranca tudo quando chegar no apartamento e não abre a porta pra ninguém que não seja eu. Se você precisar tem um vinho na geladeira, aposto como vai — Passou todas as informações como se ela fosse uma criança que ficaria sozinha em casa, exceto, claro, pela parte do vinho.

Ele esperou até que o motorista chegasse e ela conseguiu vê-lo parado na calçada a acompanhando ir embora. Lily apenas o perdeu de vista quando o carro fez a curva e seguiu caminho até seu apartamento.

Após um merecido banho quente assim que chegou, ela apanhou a garrafa de vinho na geladeira e uma taça no armário. Colocou uma música qualquer no aparelho de som, triste o suficiente para que todo o cenário estivesse feito.

Lily não reprimiu seu choro ao trazer a tona todas as vezes em que olhou para James e pensou como estava terrivelmente apaixonada, mas não quis dizer nada por medo de estragar a amizade.

Mas teria valido a pena guardar esse segredo por tanto tempo e continuar sustentando os sentimentos mesmo depois dele ter ido embora? A resposta estava bem nítida na maneira como ele parecia perdidamente apaixonado por Hestia Jones, como olhava para ela na festa.

The 1 da Taylor Swift começou a tocar e por breves instantes ela teve vontade de rir por aquela ironia ridícula que seu aplicativo de músicas havia aprontado.

Lily caiu no sono bem tarde e apenas se lembra da sensação de Regulus a recolhendo da varanda do apartamento e a acomodando em sua cama com direito a um beijo na testa, ele era muito cuidadoso com ela e algum dia perder isso pelo motivo que fosse era como a morte por mil cortes.

A semana se arrastou, mas nada fugiu muito do padrão. Ela foi ao trabalho e teve que fazer algumas horas extras para conseguir um dinheiro a mais, as gorjetas não estavam mais ajudando tanto quanto antes.

Foi apenas na quinta-feira a noite, quando estava se trocando no vestiário que um pouco de emoção resolveu fazer parte daquela semana desastrosa em que ela perdera as contas de quantas vezes acabou chorando por motivos idiotas demais.

O celular vibrou no bolso do jeans e ela já estava pronta para xingar Regulus por ele ser tão impaciente ao esperá-la do lado de fora do Café. Mas parou assim que viu que não era Black, e sim uma mensagem em sua caixa de email cujo assunto praticamente saltava diante de si.

"Audições para Emily in Paris"

Ela poderia ter aberto para descobrir melhor o que era aquilo, se não era algum tipo de brincadeira de mal gosto ou um golpe. Mas tudo o que ela fez foi colocar a mochila nas costas e descer as escadas correndo de volta a parte da frente do estabelecimento.

Lily passou como um furacão pelas pessoas, quase derrubando um de seus colegas que carregava uma pilha de bandejas, mas não deu muita atenção a seja lá o que seu chefe lhe dizia.

— Regulus! — Ela gritou assim que atravessou a porta de vidro. Ele estava sentado em um ponto de ônibus, mas assim que a viu pareceu entender que algo havia acontecido e se colocou em pé. — Eu… acho… que… consegui… um… papel — Estava cada vez mais difícil respirar, tanto pela euforia quanto pelo ar frio daquele começo de noite.

— Você sempre consegue papéis, Lily — Disse indiferente.

— Não, você não entende. Olha — Mostrou a tela do celular ao rapaz e após alguns segundos de pausa ele arregalou seus olhos e tomou o aparelho de suas mãos, clicou na notificação para entender melhor do que se tratava — Leia em voz alta, eu não consegui abrir. — Pediu e assim ele o fez.

"Boa tarde, Srta Evans.

Me chamo Edward Tonks e venho por meio deste parabenizá-la por seu papel na peça dirigida pela Srta McGonagall. Estive presente na apresentação juntamente com uma amiga de longa data e a produtora de uma nova série promissora chamada Emily in Paris. Ela gostaria de conhecê-la melhor e observar um pouco mais de sua atuação.

att. Edward."

Ele terminou de ler e se encararam por um tempo que jamais saberiam definir qual foi, o silêncio tomando conta do espaço que ocupavam na calçada até que pularam de alegria e gritaram ao mesmo tempo. Reg a pegou no colo e girou no ar enquanto Lily ria e sentia as lágrimas se formarem.

— Reg, eu esperei tanto por isso. Eu… eu impressionei uma pessoa importante e… ah, meu Deus. Você tem noção? — Ela não tinha palavras, estava completamente atônita com a situação e tudo o que sabia era sorrir e agarrar o melhor amigo para um novo abraço.

Eles decidiram que iriam comemorar, ele deu a ideia de irem ao restaurante vegetariano favorito de Lily e tudo pago por ele. Era uma forma de se redimir pelo episódio com o leite vegetal há alguns disse também de mimá-la mais do que já costumava e amava fazer.

Lily passou todos os dias, até a data marcada para sua entrevista com a produtora da série, repassando falas e mais falas de papéis que ela já havia encenado ou dos filmes que amava. A ruiva se transformou em Nicole Kidman em Moulin Rouge, Meryl Streep em The Devil Wears Prada e até arriscou as letras do ABBA ao incorporar Donna Sheridan.

— Se você não estivesse tão feliz eu já a teria expulsado daqui — Regulus comentou assim que ela saiu do chuveiro cantarolando Dancing Queen.

— Pense que, se gostarem de mim, você vai estar livre de mim por muito tempo, pois estarei em Paris vivendo meu sonho.

— Como se isso fosse algum tipo de boa notícia, como eu vou ficar aqui sem você? — Encenou um tom manhoso. Ele era realmente um Black e não havia nada que provasse o contrário — Primeiro Sirius me abandona por sexo, drogas e Rock n' Roll e agora você vai partir pra ser uma estrela Hollywoodiana.

— A The Marauders é uma banda indie, docinho. E eu não estou partindo, nem fiz essa audição ainda. Posso não passar. — Deu de ombros, o dedo indicador dele surgiu em seus lábios de repente, a assustando.

— Não se atreva a ser negativa hoje, você vai ser a melhor Emily que Paris vai ter o privilégio de conhecer. — Ela sorriu e se encaixou em seus braços. A sensação de abraçá-lo era sempre a mais reconfortante do mundo todo.

O motorista parou diante do enorme prédio em uma das avenidas mais movimentadas de Londres. Lily respirou fundo assim que seus saltos finos tocaram a calçada e ela estava basicamente diante de todo o seu futuro.

"Muita calma, Lily Evans. Você já chegou até aqui" repetia mentalmente a si mesma.

No elevador sua mão tremeu ao tocar o botão que a levaria ao andar, mas foi apenas o som de alguém gritando algo parecido com "espere" que a fez sair de todos seus devaneios sobre como estava nervosa.

Lily segurou a porta da cabine para que não se fechasse e o rapaz não tivesse que esperar pelo próximo. Ele sorriu para ela meio de lado e murmurou um obrigado, a porta voltou a se fechar e o tipo alto e bonitão se recostou na parede oposta a que ela estava.

— Caramba, eu estava bem atrasado. Esperar por outro estava fora de cogitação — Sua respiração ainda estava meio ofegante, ele deveria ter corrido um bocado — Obrigado de novo.

— Por nada, eu odeio quando peço para segurarem o elevador pra mim e simplesmente ignoram — Ela deu de ombros e riu minimamente, o "cara do elevador", como ela resolveu apelidar para facilitar as coisas a si mesma, a acompanhou e revelou um sorriso muito bonito que quase a fez se esquecer de descer em seu andar. Para sua sorte, ou uma peça do destino, ele também ia descer ali.

— Bom, te vejo por aí, se eu tiver essa sorte de novo — Lhe lançou uma piscadela e saiu pelo corredor em passos largos. Suas bochechas coraram, um sorriso meio envergonhado se formou em seus lábios e sua mente se encheu da sensação que talvez ele não estivesse errado, eles acabariam se vendo novamente.

A sala em que teve que aguardar para ser chamada estava cheia de garotas que eram tão lindas e pareciam ser muitíssimo talentosas. Sentiu-se insegura novamente e quando viu estava mandando mensagens para James.

[Lily]: Por favor me diga que você não está absurdamente ocupado.

Ele levou no máximo um ou dois minutos para enviar a resposta.

[James]: Olha só, quem é viva sempre aparece.

[James]: Não estou, hoje é nosso dia de folga. Amanhã temos um show importante em Berlim.

Ela revirou os olhos para o quão ridículo ele era.

[Lily]: Estou meio desesperada, precisava de alguém pra conversar.

[James]: Estou a seu dispor, Srta Evans.

[Lily]: Vou fazer uma audição hoje, provavelmente para o papel da minha vida, e acho que a única coisa que vou conseguir ao entrar lá é vomitar nos pés dos avaliadores.

[James]: Sério? Isso é incrível! Ah, relaxa, Evans. Você é boa e sabe disso, eles é que vão passar mal com a puta apresentação que vai fazer.

Sorriu minimamente para a tela, tombou a cabeça um pouco de lado e apoiou-a no braço apoiado na cadeira.

[Lily]: É… Foi meio inesperado, mas aqui estou. Queria confiar no meu potencial desse jeito.

— Lily Evans — Disse um rapaz, de cabelos castanhos e traços que lhe levaram a deduzir que deveria ter ascendência chinesa, parado na porta no final do corredor. Ela digitou uma mensagem rápida a James dizendo que estava na vez dela e pedindo para que lhe desejasse boa sorte.

O homem a recebeu com um breve sorriso e a guiou para dentro da sala onde havia, sentada diante de uma mesa, uma mulher ruiva e de aparência simpática — deveria ser uns dez anos mais velha que ela, talvez um pouco menos. O moreno que a chamou há instantes se sentou ao seu lado e na ponta direita da mesa havia um outro homem, de pele muito pálida e cabelos tão loiros que eram quase brancos, as maçãs do rosto marcadas.

— Seja bem vinda, senhorita Evans — Tornou a falar o rapaz. — Sou Edward Tonks, entrei em contato nos últimos dias a convidando para a audição. Esta é Molly Prewett, a produtora e diretora da obra para a qual a senhorita está concorrendo ao papel — Molly sorriu para ela e Lily quase perdeu o ar, seus musicais favoritos tinham sido escritos por aquela mulher bem ali diante de si. Em outras circunstâncias teria começado a chorar de tanta emoção.

"E este é o senhor Lucius Malfoy, ele é co-produtor de Emily in Paris e responsável por toda a parte do cenário" Malfoy moveu o lábio tão minimamente que Lily achou que tivesse imaginado o sorriso ali, mas ainda assim o cumprimentou com um sorriso tão amigável quanto o que usou para Molly e Edward. "E eu sou o responsável por toda a parte de comunicação, assessoria de imprensa e se precisar de algum conselho, posso tentar dar uma mão." Lhe lançou uma piscadela talvez como forma de descontrair, ela estava tão nervosa que talvez já estivesse começando a transparecer. Soltou uma risada mínima para a brincadeira.

— Pode deixar sua bolsa naquela cadeira, querida. — Molly indicou a única cadeira que havia no canto da sala. — McGonagall me falou muito sobre você e, pelo que conheço minha velha amiga, não são todos os dias que um artista a impressiona.

— É, ela é um pouco rígida, mas me deu inúmeras chances e acho que só cheguei até aqui graças a muita ajuda dela. — Respondeu sincera. Para Lily, Minerva era quase igual aquelas tias que se pode visitar no verão e sempre te recebem como se você fosse a pessoa mais importante do mundo. Não houve uma única vez em que ela foi realmente ruim para Lily, apenas lhe advertia como deveria fazer.

Lucius lhe orientou a respeito do que deveria encenar e não era nada difícil demais, na verdade se parecia muito com qualquer outro personagem que já tivesse feito.

Assim que acabou conseguiu respirar fundo de alívio, eles pareciam ter gostado da performance. No entanto ainda não transpareciam nada, apenas anotavam em seus blocos de folhas amarelas e faziam algumas perguntas a respeito de si própria.

— Lily, nós agradecemos a sua performance hoje e devo dizer que foi muito boa. Claro que temos muitas outras candidatas a serem avaliadas, mas aguarde um retorno através de Edward — A outra ruiva disse com um sorriso simpático, Lily agradeceu, recolheu seus pertences e os cumprimentou para então deixar a sala.

Todo o caminho de volta, no metrô, ela passou pensando que realmente tinha feito um ótimo trabalho e mesmo que não conseguisse dessa vez conseguia entender que novas oportunidade surgiriam. Lily sabia agora que havia pessoas olhando seu trabalho e, por um lado, isso a deixava incomodada, mas, por outro, a fazia se sentir talentosíssima.

23 de dezembro de 2019 — Liverpool, Inglaterra

A The Marauders estava de volta a sua terra natal depois de longas semanas de shows. Era natal e eles mereciam um bom descanso e um tempo com a família.

Sirius, como era de costume, passaria as festas na casa dos Potter, pois a ideia de voltar para a sua própria não estava nem um pouco em seus planos para um feliz natal.

— Regulus vai vir também, se você não se importar. — Comentou ele para James enquanto já se acomodava a cama do quarto de hóspedes.

— Nem um pouco, é sempre bom ter vocês dois por aqui — Por alguns instantes algo passou por sua cabeça, uma pergunta que parecia estar esperando para ser feita. — E a Lily? Ela vem?

Eles não se falavam há meses, a última vez foi quando ela telefonou para contar que tinha conseguido o papel principal em uma série que prometia ser um grande sucesso. Tinha ficado muito feliz por ela e estava realmente orgulhoso, mas ainda era estranho não tê-la ali por perto.

— Acho que não, Prongs. O Reg disse que ela vai ficar em Paris por conta das filmagens — James apenas assentiu. Não queria transparecer que estava chateado, pois não era nem um pouco justo, mas estava com saudades e aquela seria provavelmente uma rara oportunidade de se verem. — Não fica assim, cara. Você pode tentar ligar pra ela no feriado, tenho certeza que a Lily iria adorar entrar numa chamada de vídeo pra um feliz natal.

Ele pensou na sugestão de Sirius algumas vezes nos dois dias que se seguiram, mas acabou por decidir que não iria atrapalhá-la com uma chamada de vídeo idiota cheia de coisas que poderia dizer por mensagem.

Quando relógio marcou meia noite desejou feliz natal aos seus pais, aos amigos e a Hestia, que foi passar as comemorações em sua casa também. Ela sorriu para ele enquanto olhava no fundo de seus olhos com aquele par de olhos azuis tão lindos, James a amava e estar com Jones o fazia esquecer de todo o resto.

— Estava com a Lily no telefone — Regulus disse se jogando no sofá com o celular em uma mão e uma cerveja na outra. — Detesto quando ela fica bêbada com vinho, não desliga nunca. — Ele revirou os olhos e lhes arrancou uma risada.

— Coitada, ela deve estar trabalhando tanto — Hestia comentou — Mas imagino que esteja sendo incrível a experiência. Era o sonho dela, né?

— Eu nunca a vi tão feliz, ela me manda fotos e vídeos todos os dias — Ele disse sorrindo, mas ainda era possível ver algo em sua expressão que entregava as saudades que sentia da colega de quarto.

James passou tanto tempo sentindo a falta dela, principalmente nos primeiros dias em que estiveram longe um do outro, que, de certa maneira, se acostumou. Mas para o outro deveria estar sendo meio difícil lidar com isso já que ainda era meio recente.

O ano novo foi tão incrível quanto o natal, exceto pelo fato de que Sirius bebeu mais do que deveria e fez um estrago no banco do carro de Peter, que xingou até a última geração da mui antiga e nobre casa dos Black.

Passados alguns dias eles tiveram que voltar a ativa, com uma semana de shows direto nem sabiam quando teriam o luxo de um dia inteiro de descanso. Remus era quem sempre tentava mantê-los acordados, se não fosse por ele teriam caído no sono no palco mesmo.

A agenda estava tão lotada conforme a turnê se aproximava do final que ele mal via Hestia, trocavam mais mensagens e ligavam um para o outro quando os fusos horários não os atrapalhavam.

Foi apenas em meados de abril que uma bomba incapaz de ser segurada por James caiu em cima de sua própria cabeça. Para piorar ele recebeu a notícia como se não estivesse diretamente envolvido com tudo, foi avisado através de um print enviado por Sirius de uma reportagem no O Profeta Diário.

"A atriz Hestia Jones é vista em Bahamas se divertindo com um velho amigo enquanto o namorado James Potter está viajando o mundo com a The Marauders Map World Tour. Porém parece que ela não o avisou dessa nova aventura, haja vista que o cantor publicou, recentemente, em sua conta no Instagram um lindo #TBT do casal."

Ele não teve outra reação a não ser colocar seu celular em modo avião e se manter no quarto de hotel nas horas em que não estava no show. Cantar I Wanna Be Yours foi a tarefa mais difícil que teve que fazer e todos pareciam saber disso, mas ele ainda tentava.

Hestia tentava entrar em contato através do celular de seus amigos o tempo todo, mas nunca obtinha sucesso em conseguir falar com ele. James não estava disposto a ouví-la, pelo menos não naquele momento, pois ainda estava doendo um bocado.

Quase um mês se passou quando ele decidiu se reconectar com o mundo, o celular se reconectou à rede de Wi-Fi do apartamento e as mensagens começaram a subir. A maior parte eram de Hestia, mas tinham algumas dos meninos perguntando como ele estava, de seus pais, amigos próximos e no meio disso tudo dezenas de mensagens de Lily. A última dela inclusive tinha sido enviada há uma hora.

Ele clicou sobre seu nome e rolou a tela, era incrível como ela sempre se preocupava com ele e tentava dizer ou mostrar coisas que fossem acabar distraindo-o. Um exemplo disso era uma foto que ela tinha mandado em que estava alimentando patos num lago, disse que poderia fazê-lo sentir-se melhor.

Lily estava online, tinha acabado de entrar quando ele chegou a última mensagem. Ele se arriscou em dizer "olá" e se explicar sobre porque sumiu, por mais que ela já soubesse todos os motivos, mas que estava bem — ou pelo menos tentando ficar.

Ele não queria falar sobre nada daquilo então desviou o assunto para Paris, as gravações e como estava sendo morar fora do país e ainda realizar um sonho de tanto tempo.

Ela lhe respondeu com áudios longos e completamente detalhistas sobre sua rotina, como era incrível que algumas pessoas a reconhecessem na rua graças ao primeiro teaser que saiu da série, mas que mal podia esperar por um longo período de descanso assim que tudo aquilo acabasse.

Como nos velhos tempos eles passaram horas conversando e decidiram iniciar uma chamada de vídeo que apenas ficou em silêncio quando Lily adormeceu. James ficou alguns minutos encarando a tela, o som de sua respiração muito claro em seus ouvidos e, de repente, uma velha sensação que há muito tempo não lhe ocorria quando olhava para a ruiva.

Ele a conheceu no final do ensino fundamental e houve uma conexão quase instantânea entre os dois. A princípio todos diziam que eram claramente melhores amigos, mas, conforme a adolescência avançava, Potter percebeu que amava a maneira como Lily sorria e seus olhos verdes se enchiam de um brilho incomum, ou como ela sempre dia de suas piadas estúpidas e sem graça, ou então como vê-la dormir despertava nele a sensação de plena tranquilidade.

Tentou inúmeras vezes demonstrar tudo o que sentia, mas seu maior medo era que Lily jamais correspondesse os sentimentos e acabasse estragando toda sua amizade. Foi por isso que ele guardou tudo aquilo em uma letra de música que nunca chegou a terminar, mas que estava em um pequeno pedaço de papel perdido em sua carteira.

James só não sabia se agora, no auge de seus vinte e cinco anos de idade e com um término recente, era o melhor momento para trazer de volta sentimentos que atualmente lhe pareciam tão imaturos e incertos.

Lily continuava adormecida na tela, ele tocou a projeção de seu rosto com o dedo indicador e então desligou. Precisava de um cigarro e alguma bebida forte, com certeza aquilo o faria esquecer dessas lembranças sem fundamento.

A turnê terminou em algumas semanas e eles voltaram a ter mais tempo livre do que poderiam lidar. Isso foi um problema para James porque, em geral, o que o distraia dos acontecimentos dos últimos meses era toda a correria dos shows.

Ele esteve tão desocupado que até mesmo encontrou letras antigas de músicas que escreveu principalmente com Sirius. O caderno quase completo e uma delas estava destacada por alguma razão que apenas descobriu quando chegou até a página.

Era a letra que tinha escrito para Lily há uns 8 anos.

I'm rushing in a small town

I forgot to call you

Running low on know how

This beats made for two

Estava incompleta, cheia de pequenos pedaços que faltavam que ainda precisavam de alguma coisa para se encaixarem uns aos outros. Mas ele nunca conseguiu chegar ao fim, pois significaria continuar nutrindo esse sentimento por sua melhor amiga.

James saltou da cama e foi em direção ao celular sobre a cama, os dedos se movendo muito rapidamente sobre a tela em busca do número de Sirius. Ele não se importava que o amigo estivesse com Remus fazendo qualquer coisa que não é permitida para menores, precisava dele ali.

Três toques foram o suficiente para a voz rouca de Black invadir seus ouvidos com xingos sobre porque não deveria ser interrompido naquele momento.

— Preciso de você aqui, eu tenho que terminar uma música.

— Terminar uma música? James, por favor, vá descansar, assistir um filme. Eu quero férias, será que posso?

— Sirius estou falando sério, não é qualquer música. — Usou um tom que provavelmente faria com que ele entendesse e aceitasse ir até seu apartamento.

— Não me diga que encontrou o caderno. — Sua voz transparecia todo o descontentamento em não ter outra saída a não ser ir até lá ajudá-lo.

— Encontrei e quero terminar a música dela.

— James eu achei que já tivesse superado isso, olha cara eu não sei se é uma boa ficar pensando nisso.

— Eu só quero terminar a música, Pads. — Ele suspirou do outro lado da linha e pareceu afastar o telefone para murmurar alguma coisa a Remus. Quando voltou apenas disse que estava a caminho.

No tempo em que ficou esperando recebeu um vídeo de Lily como muitos outros que ela mandava quase todos os dias. Era muito estranho como um simples vídeo fazia com que ele se sentisse meio bobo.

— Tá mas e o que acha disso… — Sirius começou a bater os dedos e formular versos — cause I remembered when I found you, much younger than you are now

— E continua com...— A mente de James se perdia em meio as palavras que surgiam aos poucos — once it started I am friend zone, you created a television in your mouth.

— E então voltamos pro refrão, uma batida mais alegre. Que vai fazer as pessoas pularem no show. — Sirius se levantou da cadeira e começou a saltar pela sala como uma criança arteira — It's just you and I tonight, why don't you figure my heart out — Ele era muito bom com melodias e aquela parecia ser o que estavam procurando.

— E então repetimos mais uma vez esses versos e fica faltando uma última parte antes de finalizar com o refrão de novo.

— Tenho umas ideias, vamos lá. — Sirius apanhou a caneta e começou a rabiscar as anotações de James, puxava setas aqui e ali e fazia as próprias ressalvas.

Ao final daquela tarde eles tinham uma letra inteira pronta para ser gravada. Ele queria começar a gravar naquele mesmo dia, mas padfoot teve que contê-lo e disse que fariam isso num outro dia, pois teriam bastante tempo.

Os meses que se seguiram foram repletos de pelo menos mais umas duas ou três letras de músicas novas. Ele estava agora finalizando uma delas quando seu celular tocou indicando uma chamada de vídeo de Lily, clicou na tela e logo o rosto alegre da ruiva surgiu diante de seus olhos.

— Espero que não esteja ocupado, porque quero te dar uma notícia incrível.

— Toda a minha atenção é sua, Lírio — Ela rolou os olhos, sorriu de lado e balançou a cabeça. Tinha lhe dito certa vez que detestava esse apelido quando usado por ele.

— Vai haver uma espécie de premiere de Emily in Paris e eu consegui convites especiais pra você e os meninos — Bateu palmas rapidamente e soltou um pequeno grito de animação que fez com que James sorrisse.

Enquanto ela contava os detalhes e transparecia sua ansiedade pela estréia de seu primeiro grande trabalho, notificações de mensagens de Hestia subiam a tela e ele sabia que Lily era capaz de ouvir o som que o aparelho emitia. Foi então que ela parou de falar e ficou olhando para a tela um tanto quanto desconfortável.

— Tem certeza que não estou te atrapalhando? Seu celular não para de tocar.

— Desculpa, Lily. Você me dá um minuto? Eu já volto — Ela assentiu meio desapontada antes de desaparecer, pois ele tinha desligado a chamada. Respondeu as mensagens da ex pedindo para que o deixasse em paz, não queria mais nada com ela e se continuasse insisto ele iria bloqueá-la.

— Onde foi que paramos? — Perguntou ao reconectar-se, ela sorriu e voltou a falar com toda a empolgação de sempre. James não se lembra por quanto tempo ficaram ali conversando, mas de novo ela caiu no sono antes dele e então soube que já deveria estar tarde.

— Boa noite, Lírio — Desligou tudo e foi até seu quarto de onde podia ver boa parte da cidade pela janela ampla. James suspirou pesado e caiu sobre o colchão com um sorriso em seus lábios e todos os planos do que faria ao encontrar-se com Lily Evans em algumas semanas.



O ano de 2020 foi o mais intenso de toda a vida de Lily, já era quase outubro e ela mal podia acreditar que estava na capital francesa realizando seu maior sonho. Tinha aprendido muito durante o percurso e feito amigos incríveis, além da oportunidade que deu ao próprio coração de superar James Potter e, quem sabe, dar uma chance para um novo romance na Cidade do Amor.

Em meados de maio ela estava em um restaurante com Marlene, uma nova amiga que havia feito nos últimos meses e com quem teve uma conexão quase instantânea e que também tinha papel na série.

— Cherie, não acredito que você ainda fala com ele. Você precisa superar o James. — Comentou no momento em que seu celular vibrou sobre a mesa e mostrou uma nova mensagem de Potter.

— Eu superei, Lene. Mas antes de qualquer coisa ele é meu amigo e está passando por um momento difícil. — Disse com os olhos fixos na resposta que estava digitando para ele.

— Eu só não quero que você se machuque com a possibilidade de vocês ficarem juntos, precisa agir com a razão, florzinha. — Seus olhos azuis se desviaram para alguma coisa atrás dela, só percebeu para o que olhava quando se virou e o viu passar pela porta do estabelecimento. Como sempre alto e bonitão, o tipo de cara que arranca suspiros das garotas por onde passa e faz com que elas se sintam belas demais com seus elogios e flertes cafonas. — Ali está alguém a quem você deveria dar uma chance.

— Pare de bobagem, Amos Diggory jamais iria querer alguma coisa comigo. Além do mais, ele é um total clichê, os flertes dele... — Revirou os olhos apenas ao lembrar-se de como conseguia ser vergonhoso.

— Você é tão bobinha, nunca nota as coisas que estão bem embaixo do seu nariz. — Desviou o olhar de Marlene por tempo suficiente para encontrar o de Amos. Ele acenou e sorriu daquela forma charmosa de sempre, assim como sorriu no elevador na primeira vez em que se viram há alguns meses no dia de sua audição.

Foi meio engraçado encontrá-lo novamente algumas semanas depois do começo das gravações, era como se o destino estivesse lhe pregando uma peça. Mais divertido e estranho foi saber que eles seriam algum tipo de par romântico na série, o que lhe deu uma excelente oportunidade de descobrir se aquele cara tão bonito beijava bem ou ele só era charmoso mesmo.

Após a filmagem em que aconteceu o primeiro beijo ela se viu obrigada a mandar uma mensagem para Regulus com uma lista detalhada dos pontos negativos e positivos sobre Diggory. Eles riram ao notarem a maior quantidade dos positivos, mas isso a desconcertou um pouco.

Não é que ele fosse alguém ruim, na verdade ele era agradável quando não estava dando em cima dela. Mas Lily ainda pensava um pouco em James, ainda mais quando eles passaram a trocar mensagens quase todos os dias e quando aconteceu todo o escândalo envolvendo seu nome e o de Hestia, ela se colocou numa posição de melhor amiga preocupada que fez seus sentimentos serem alimentados, mesmo que apenas um pouco.

— Eu acho que vocês combinam — Marlene apontou. — E acho também que você está perdendo uma oportunidade, mas não vou perder meu precioso tempo. Vamos esperar até que ele a chame para sair, o que não deve levar muito tempo. — Sorriu convencida, se dando por vencida naquela disputa que tinha inventado na própria cabeça. Lily não queria alimentar mais ainda aquela versão obcecada por um casal que McKinnon interpretava naquele momento, por isso apenas riu e voltou sua atenção para as mensagens de Potter.

O problema foi que a loira não errou em suas previsões, e, dois dias após sua conversa no restaurante, Amos Diggory estava conversando com ela a sós após as gravações. Parecia meio nervoso e enrolado nas próprias palavras, pois já tinha falado sobre tantas coisas e nunca chegava ao ponto que aparentemente queria chegar.

— Amos, você quer me falar alguma coisa? — Perguntou decidida a arrancar alguma coisa dele ou se livrar de uma vez por todas. Não tinha exatamente todo o tempo do mundo para perder com alguém tão enrolado.

— Desculpe, Lily, mesmo. É que… caramba é estranho dizer que fico absurdamente nervoso quando estou perto de você? — Riu fraco e coçou a nuca. Ela ficou um pouco sem reação e acabou soltando uma pequena risada, para sua sorte ele continuou — Estou há um tempo querendo saber se você não gostaria de, sei lá, sair comigo. Paris é uma cidade maravilhosa e eu gostaria de levar uma garota linda como você para conhecê-la melhor. — Novamente se viu sem reação, sem saber nem mesmo o que dizer. Ela tinha segundos para pensar, pois ele a encarava com seus olhos cor de mel a espera de uma resposta.

— Seria uma boa — Sorriu sem mostrar os dentes e ele abriu seu sorriso brilhante.

— Ótimo! Eu te pego às 20h na sexta? Pode ser no seu hotel?

— Claro. Sexta às 20h. — Disse por fim e se despediu, apressando-se para trocar de roupa e ir encontrar-se com Marlene para uma sessão de filmes que estavam planejando há semanas. Ela tinha dito que daria uma chance de conhecer How To Lose a Guy in 10 Days contanto que Lily não se atrasasse.

A semana passou mais rápido do que ela gostaria e apenas veio à realidade sobre aquele encontro na sexta-feira quase a noite. Teve que ligar para Regulus antes que surtasse e desistisse de toda aquela besteira.

— Tenho um encontro — Disse assim que ele atendeu.

— Oi, Lily. Eu estou bem, obrigado por perguntar. E você, meu doce? Como foi seu dia? — Falou sarcástico.

— Regulus, é sério. Eu não sei nem o que vestir. — Abriu o armário e apenas se desesperou mais ainda por não encontrar nada de muito interessante. — Vou chamar a Marlene, continue na linha. Vou te colocar numa chamada de vídeo.

— Marlene é a sua amiga francesa completamente vulgar e que quase te fez se meter numa encrenca com a polícia? — Lily riu ao se lembrar do ocorrido. Não tinha sido nada demais, apenas um mal entendido na saída de uma boate, mas Reg tratava aquilo como se fosse o fim do mundo. No fundo os dois sabiam que era porque ele tinha desenvolvido uma paixonite pela loira desde a primeira vez em que ela apareceu numa das videoconferências dos dois.

Ela chamou pela amiga no quarto do outro lado do corredor e explicou seu gigantesco White People Problem na esperança de que pudesse ter mais uma ajuda além de Regulus, que não parecia levá-la muito a sério. McKinnon lhe arrumou algumas de suas peças e assim que o rapaz estava na linha elas começaram os trabalhos de escolherem algum visual bom o suficiente.

— Não sei, não. Acho que esse não tem nada a ver com você — Ele disse na pequena tela que Marlene mantinha virada em direção ao banheiro de onde Lily já saía trocada.

— Eu gostei — Contrariou McKinnon, fazendo com que ele revirasse seus olhos.

— É claro que gostou, são suas roupas. Têm tudo a ver com você, mas não com ela. — Ela virou o celular para si e pode falar com ele diretamente.

— Ah, Blackzinho. Relaxe, quando vier para Paris prometo que saio com você. Mas só porque seu irmão bonitão já tem namorado — Lily não pôde conter a risada. Sabia que a amiga estava só tentando irritá-lo, pois ela também tinha se interessado por Reg e, de acordo com si mesma, não era muito comum ela gostar de alguém com essa facilidade.

— Vá se foder, McKinnon. Vamos terminar isso logo, pelas minhas contas Lily já está atrasada.

Lily conseguiu se arrumar a tempo de estar nas escadas do hotel às 20h em ponto.

Amos chegou alguns minutos depois em seu carro e eles foram conversando e ouvindo música durante todo o caminho para ela-não-sabia-onde — ele não quis lhe dizer nada a respeito do destino e isso deveria tê-la preocupado, pois Diggory poderia ser facilmente alguém mal intencionado e, por via das dúvidas, enviou sua localização a Reg e Lene.

Por fim descobriu que o encontro aconteceria na Torre Eiffel — pois é, ele era um enorme clichê. Eles jantaram e conversaram por horas e horas, com uma vista privilegiada de toda a cidade. Lily diria que foram suas seis taças de vinho que a levaram a beijá-lo ali e depois se deixar ser levada para seu quarto de hotel onde acabou passando a noite.

Tiveram diversos outros encontros ao longo dos meses e foi no final de agosto que ele a pediu em namoro de uma maneira nem tão clichê assim. Estavam em sua cama, enrolados nos lençóis apenas com a luz da lua no céu os iluminando. Amos afastou seus cabelos ruivos, colocando-os atrás de sua orelha e então fez o pedido:

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— O que acharia da gente, não sei, começar a namorar? Quer dizer, estamos nessa há uns meses. — Ele a pegou um pouco desprevenida, mas tinha que concordar que tudo o que faltava era oficializar isso, pois, na teoria, já poderiam dizer que eram namorados. Apoiou a cabeça sobre seu peito e olhou bem fundo em seus olhos.

— Acho que você tem razão. — Sorriu de lado e passou o dedo indicador por seu peitoral, traçando desenhos imaginários.

— Isso é um "sim", então? — Perguntou esperançoso.

— É claro, Amos — Ela o puxou para um beijo lento e quente. Demorou, mas Lily enfim conseguiu colocar o coração no lugar.

02 de outubro de 2020 — Paris, França

James se olhou no espelho pela décima vez desde que chegaram ao quarto de hotel, ele achava todo o tempo que seu cabelo estava estranho demais, ou que a roupa estava amassada. Mas tudo isso se devia ao fato de que estava uma pilha de nervos para rever Lily e dizer a ela tudo o que estava sentindo.

— Parece até que você vai se casar com esse nervosismo todo — Comentou Peter sentado sobre a cama e com os braços apoiados sobre ela para sustentar o peso do corpo, fez com que Remus e Sirius rissem.

— E se tudo der errado? E se ela me rejeitar porque achou um bonitão francês? — Sirius se levantou e veio até ele, colocou as mãos sobre seus ombros para fazer com que parasse um pouco. Foi apenas por isso que notou que sua respiração já estava ficando mais rápida.

— Você tem que relaxar, é só a Lily. — Remus disse simples — Você a conhece há muito tempo, não tem como toda a situação se tornar desconfortável. — Os três sorriram para ele como se passassem um certo encorajamento. James suspirou e disse que estava pronto para irem.

O local do evento já estava cheio de fotógrafos, repórteres, celebridades e fãs da série. Eles foram recebidos por uma enxurrada de flashes de câmeras enquanto tentavam passar com a ajuda dos seguranças, até que conseguiram chegar ao interior do prédio e lá estava o tapete vermelho repleto de pessoas envolvidas com a série ou que foram convidadas para prestigiar a estreia.

Seus olhos varreram o local em busca de qualquer pista que fosse da ruiva, mas não tinha conseguido nada. Sirius indicou Regulus alguns metros adiante, acompanhado de uma garota loira um pouco mais baixa do que ele. Lembrou-se dele comentar alguma coisa sobre o irmão estar saindo com uma amiga que Lily fez em Paris.

— Ei, Reg. Chegamos — Peter anunciou e o Black mais novo se virou para eles com um sorriso nos lábios. A menina ao seu lado fez o mesmo, mas carregava uma expressão curiosa no rosto, os olhos azuis cintilando.

— Ei, caras. Quero apresentar a vocês a Marlene, Lene esses são os meninos. — Ela abriu um sorriso amigável na direção deles que a cumprimentaram.

— Puxa, então o que dizem sobre a genética da família Black é verdade mesmo — Disse ela num inglês muito carregado de sotaque francês, um tom malicioso e os olhos avaliando Sirius dos pés a cabeça. Se voltou para Remus, sorriu novamente e lhe deu uma piscadela — Você é um cara de sorte, Lupin. — O loiro riu e coçou a nuca.

— Bom, acho que devo dizer o mesmo de você. Os homens da família Black são uma coisa mesmo. — Regulus começou a ficar muito vermelho, já Sirius levava tudo aquilo numa boa. Eles estavam literalmente amaciando seu ego, era a coisa que mais amava na vida.

— Ah, não fique com vergonha. — Ela disse com uma risada e o beijou na bochecha. Eram um belo casal, James tinha que admitir. — Vamos achar a Lily. Ela está uma pilha de nervos e doida pra ver vocês.

O pequeno percurso até o ponto em que Lily estava pareceu durar uma eternidade para ele e durante todo o tempo foi repassando o que lhe diria, a mente voando para bem longe dali e reproduzindo centenas de reações diferentes dela. Foi apenas quando a avistou a alguns metros de onde estava que tudo aquilo se afastou e ele apenas conseguiu se concentrar numa única coisa.

Ela estava linda, trajada num vestido azul marinho que tinha alguns pontos brilhantes e a fizeram parecer uma constelação. Não conseguia desfazer o sorriso em seus lábios enquanto cumprimentava as pessoas ou sorria para os fotógrafos, mas foi a chegada de uma segunda pessoa que fez com que James sentisse uma dor na boca do estômago.

O rapaz vestido num terno muito elegante se aproximou e a abraçou pela cintura, abaixou-se para que pudesse beijá-la na bochecha, o que fez Lily corar um pouco antes de posarem para a foto. Quando terminaram seguraram um na mão do outro e com a mão livre ele a puxou para um beijo rápido e cheio de sorrisos, que deve ter durado uns cinco segundos, mas foi o suficiente para que ele sentisse tudo o que tinha planejado ir por água abaixo.

Lily estava muito vermelha quando veio até eles para cumprinetá-los e apresentar seu novo namorado, cujo nome James descobriu ser Amos Diggory. Ela estava tão radiante que ele se esqueceu completamente de qualquer traço de ciúmes que possa ter se instalado dentro de si, tudo o que conseguia se atentar era ao lindo sorriso da ruiva que não desaparecia de seus lábios por um segundo sequer. Se manteve assim durante todos os momentos seguintes, era a melhor coisa de se apreciar.

— Estou tão nervosa — Comentou se aproximando de James e pegando sua mão para contar os nós de seus dedos na intenção de se distrair. — E se as pessoas odiarem, James? E se me acharem uma péssima atriz?

— É impossível isso acontecer — Disse ele com os olhos bem fixos na imensidão esverdeada que eram os dela. Diminuiu seu tom de voz, pois estavam muito próximos e não seria necessário muito mais do que um sussurro para se dirigir a ela — As pessoas já amam seu trabalho, eu andei meio desocupado nessas férias e confesso que dei umas olhadas no Twitter. Você recebe muitos elogios e não acho que isso vá mudar. — Lily sorriu e num movimento rápido o puxou para um abraço apertado. Por alguns segundos, James não teve reação alguma, mas acabou abraçando-a e eles ficaram ali até ela ser chamada por um dos organizadores do evento.

Ele beijou o topo de sua cabeça e lhe encorajou. Lily se encontrou com Diggory no meio do caminho e ele a abraçou pelo ombro, mas seu olhar encontrou com o de James e ele foi capaz de enxergar ali que a sua presença era um incômodo muito grande.

James acordou no dia seguinte com o celular tocando na mesa de cabeceira e se xingou mentalmente por ter esquecido de desativar qualquer que fosse o alarme que tinha programado. Mas quando pegou o aparelho em mãos viu que na verdade era uma ligação de Sirius e agora ele xingava o amigo.

— O que você quer? — Perguntou assim que atendeu.

— Bonjour mon ami — Disse do outro lado da linha com o francês aprendido durante os anos que viveu com a própria família.

— Não me venha com bonjour, o que você quer? — Sirius riu alto.

— Eu amo seu humor matinal. Estamos do lado de fora do hotel pensando que dia incrível é hoje, por que não damos um passeio? E pensamentos em te chamar. Todo mundo vai, até a Lily. — A simples menção do nome da ruiva o fez saltar da cama e se adiantar em direção as malas no chão.

— Desço em cinco minutos, me esperem. — Disse apoiando o celular no ombro para poder usar as mãos em sua busca por uma roupa.

— Você não vai descer em cinco minutos, mas a gente te espera. — Finalizou a ligação, deixando James sozinho com suas roupas e o tempo limitado para conseguir encontrar uma roupa e arrumar o cabelo. Às vezes Remus tinha razão, ele se parecia com uma noiva no dia de seu casamento.

Quando chegou à entrada do hotel eles já estavam à sua espera, como um grupo de turistas que compraram um pacote de viagens exclusivo e agora iam fazer um tour incrível pela cidade guiado por um cara que dizia conhecer tudo sobre Paris, mas que na verdade não sabia nada.

Lily e Marlene os levaram por toda a cidade, por mais que os marotos já tivessem ido à capital francesa, toda a correria dos shows não os permitiu fazer um passeio tão calmo e divertido como aquele. Mas foi depois do almoço que as coisas desandaram um pouco e tudo ficou meio desconfortável.

Eles foram até o parque em que Lily esteve na maioria das fotos que enviou a James e os dois ficaram relembrando cada um desses registros da forma irritante que faziam desde que se tornaram melhores amigos. Quem os conhecia desde aquela época sabia que não era nada que não fosse comum a eles.

Porém, nem todos pareceram ter sido tão compreensíveis com isso e uma briga entre Amos e Lily decretou que talvez fosse hora de voltarem para o hotel.

— Você está sendo ridículo, ele é meu melhor amigo há anos — Ela tentava manter seu tom de voz inalterado, mas James a conhecia o suficiente para saber que bastaria algo mínimo para que começasse a chorar.

— Eu estou sendo ridículo? Vocês dois ficam por aí se abraçando e pegando um na mão do outro. O que é que os outros vão pensar? — Sirius o encarou com as sobrancelhas arqueadas, esperando qualquer reação possível, mas ele apenas deu de ombros e ajeitou os óculos de sol. Não faria nada nem que tivesse permissão para isso, pois ele era o aparente motivo daquele conflito tão entediante.

— Então o problema está com o que os outros vão pensar? Você percebe como está sendo infantil e completamente idiota? — James se esticou no banco em que estava sentado, se espreguiçou, cruzou as pernas e apanhou um cigarro no bolso. Peter o encarou com expressão de “que merda você pensa que está fazendo?” mas novamente não deu atenção.

— Lily, não é isso. Você não entende… — Ela não permitiu que ele concluísse sua fala, pois não havia o que concluir.

— Tem razão, eu não compreendo — Se afastou dele e voltou para onde os outros estavam para apanhar sua bolsa e sair em passos acelerados pelo parque. Amos tentou ir atrás dela e puxá-la para uma nova conversa, mas quase foi espancado por Lily cinco vezes.

— Isso é tudo sua culpa. Você tinha que aparecer, não é? — Se aproximou de James e o puxou pela frente da camiseta. Marlene interviu, mandando Amos se afastar e não começar nada que fosse se arrepender depois.

— Cigarro? — Ofereceu ele com um sorriso sarcástico nos lábios e se arrependeu apenas 1% daquilo quando o gosto de sangue invadiu sua boca após um soco que recebeu ali. Os marotos avançaram no mesmo instante na direção de Diggory e se não fosse por Reg e Lene teriam tornado tudo aquilo um grande problema.

— Parem, não vale a pena — Disse James se levantando por fim. — Não faz bem sujar as mãos com alguém como ele. Você percebe, não é Diggory? Percebe que não é e nem nunca será bom o suficiente para a Lily, porque uma garota como ela merece mais do que um idiota que quer afastá-la das próprias amizades. — Amos estava pronto para avançar novamente contra ele, mas Remus o segurou e arrastou em direção a saída com os outros atrás.

Marlene tentava ajudar James com o corte, mas não tinha tanto sucesso quanto esperava com o pequeno lenço que carregava na bolsa. De qualquer maneira ele acabou agradecendo o gesto, pois sempre tinha a sensação de que era uma das pessoas menos favoritas no mundo para a loira.

— Sei que algumas vezes dei a entender que não gostava muito de você — Confessou como se estivesse lendo sua mente. — Mas concordo com o que disse hoje. Amos não a merece, acho que nunca mereceu e nem nunca vai. — Abaixou os olhos azuis e suspirou, então o encarou novamente e sorriu.

“É muito nítido como você gosta da Lily, dá pra ver até na forma como sorri para ela. Por isso acho que deveria ir atrás dela, não para dizer tudo o que sente, ela ainda gosta dele. Mas acho que a minha amiga precisa de alguém que a faça bem, por mais que não se dê conta disso.”

— Eu não sei nem para onde ela foi

— É claro que sabe, você a conhece. Quando a Lily está triste o que é que costuma fazer? — Forçou-se a tentar pensar em todas as vezes que presenciou um momento triste seu.

— Ela… ela costuma querer ficar sozinha em algum lugar que se sinta confortável. — Era como se uma lâmpada tivesse se acendido dentro de sua cabeça de tão óbvio que lhe parecia agora.

— Vou te mandar o endereço do hotel pelo celular do Reg, agora vai.

O Uber chegou em menos de cinco minutos e como as ruas da cidade estavam calmas naquele sábado ele conseguiu estar no endereço que Marlene enviou em menos de 15 minutos.

James chegou ao décimo andar do prédio após a recepcionista ter liberado a entrada, imaginou que Marlene já tivesse tomado conta de tudo para que ele não tivesse problemas.

O corredor era largo e estava quase completamente silencioso, se não fosse por uma música meio abafada que vinha do quarto de número 505 e que era seu local de destino.

Ele deu duas batidas na porta branca com detalhes em dourado e encostou bem a orelha para que pudesse ouvir lá dentro. Achava que ela estava andando e conforme seus passos se aproximaram da porta ele desencostou a cabeça e arrumou a postura.

— Quem é? — A voz de choro de Lily era muito óbvia para ele, a conhecia bem demais para confundir com qualquer outra coisa.

— Serviço de quarto. — Brincou, mas sem perder a seriedade em sua voz — Me informaram que a senhorita Lily Evans não está se sentindo muito bem, então vim verificar se ela precisa de alguma coisa — O som da tranca se abrindo o fez sorrir. A figura ruiva logo surgiu na porta, os olhos e a ponta do nariz muito vermelhos, e não disse absolutamente nada apenas se atirou em seus braços e o abraçou por quase um minuto. O coração muito acelerado contra o dele.

— Você é muito idiota — Murmurou ela com um riso nasalado e então o puxou para o interior da suíte, trancando a porta logo em seguida. James ficou parado no meio do cômodo esperando que ela lhe dissesse o que fazer, onde se sentar ou se poderia pegar uma bebida no mini bar.

Mas Lily não pronunciou uma palavra durante seu percurso até o banheiro onde havia um monte de coisas espalhadas sobre a pia. Apenas quando se aproximou um pouco mais em silêncio percebeu do que se tratava e conseguiu juntar tudo ao fato dela estar passando a mão no nariz repetidas vezes e de sua frequência cardíaca alterada.

— O que é isso? — Perguntou sem hesitar e Lily deu um salto, como se tivesse se esquecido de sua presença ali. Ela tentou guardar tudo numa velocidade bem maior que já estava fazendo, mas foi em vão porque James foi mais rápido em interceptá-la e abrir a gaveta da pia novamente para retirar dali uma pequena lata circular que ao ser aberta revelou seu conteúdo.

Ele arqueou uma sobrancelha em sua direção e afrouxou o aperto em seu braço, mas não desviou o olhar um único segundo, pois tinha a esperança de que em algum momento ela fosse encará-lo e se explicar. Acabou demorando um pouco até que finalmente fixasse suas pupilas dilatadas nele.

— O quê? Veio aqui para brigar comigo também? — Disse irritada e inquieta, novamente na iminência de chorar e quando as lágrimas já não se sustentavam mais dentro dos olhos ela os desviou e esfregou o rosto com as mãos. James se aproximou e segurou sua mão gelada, os dedos finos e trêmulos.

— Eu não vim para isso, seria um hipócrita se tivesse. Mas agora eu quero entender porque, essa não é você. — Um silêncio quase interminável pairou entre os dois até Lily responder:

— É mais fácil pra conseguir lidar com algumas coisas, ou só fingir que elas não estão acontecendo. — No fundo sabia que tinha algum envolvimento de Amos Diggory nessa merda toda e isso despertou nele uma vontade inexplicável de sair dali para retribuir aquele soco. — O que foi isso no seu rosto? — Desviou totalmente do assunto e alcançou o canto de sua boca com a ponta dos dedos, fazendo-o estremecer e fechar seus olhos.

— Acho que seu namorado não gosta muito de mim — Deu de ombros com um sorriso.

— Eu sinto muito por isso, infelizmente não é a primeira vez que acontece. Ele é um pouco difícil de lidar às vezes — Confessou mantendo o olhar meio distante e triste. James segurou seu queixo e a forçou a encará-lo.

— Façamos o seguinte: você promete que vai resolver essa coisa toda aqui — Levantou o objeto metálico entre os dedos — E eu juro solenemente não quebrar a cara do Diggory. Duas promessas meio difíceis, hein? Mas aposto como você vai conseguir manter a sua, a minha não sei por quanto tempo sou capaz de me controlar — Lily deixou o riso lhe escapar pelos lábios como sempre muito rosados e que pareciam atraí-lo num impulso forte demais, mas que tinha que controlar, de beijá-la.

— Acha que por enquanto existe a possibilidade da gente só esquecer isso e aproveitar nossos últimos momentos em Paris? — O sorriso de Lily foi o suficiente para deixar o grande babaca Diggory e o pequeno objeto em suas mãos.

Ele deixou que ela tomasse um banho e nesse meio tempo teve a ideia de arrastar a cama até o meio do quarto, de onde era possível ter, pelas enormes janelas, uma vista incrível da cidade que já começava a se iluminar conforme a noite se aproximava. Lily pediu comida para eles assim que saiu do chuveiro com uma toalha enrolada na cabeça e vestida numa antiga camiseta que provavelmente adquiriu no show da cantora Lorde.

Pela primeira vez em muitos anos de amizade, James permitiu que ela escolhesse logo de cara um de seus filmes favoritos e isso foi o suficiente para que a ruiva se apressasse em colocar 10 Things That I Hate About You. Ele protestou, obviamente, já tinham assistido aquele centenas de vezes com ela ficava um pouco mais irritante porque sabia todas as falas.

— Você disse que eu poderia escolher, agora fique quieto e vamos apreciar o Heath Ledger.

— Ele nem apareceu ain… — Concluir sua frase se tornou uma missão impossível, pois Lily colocou a mão sobre sua boca para mantê-lo quieto.

Ele a respeitou durante todo o resto do filme e até se pegou tão preso aos acontecimentos que apenas se deu conta de que ela tinha dormido quando Kat Stratford já estava recitando seu poema para Patrick na aula de literatura.

James a acomodou em seus travesseiros e recolheu os restos das embalagens de comida, acomodando-as numa pequena mesa que havia perto da porta e onde os funcionários do hotel poderiam vir buscar. Puxou o cobertor sobre Lily e afastou com calma os cabelos que caíam sobre seu rosto.

— Até mais, Lírio — Sussurrou antes de beijar sua testa e se levantou para então deixar o quarto escuro com uma decisão importante que vinha processando nas últimas horas.

Lily estava com seu coração completamente fora de lugar, a saúde mental uma completa bagunça. Já ele seguia sustentando um sentimento quase incontrolável por ela, seu coração pertencia a Lily Evans e naquele momento isso era um problema, pois a garota não estava em momento de retribuir nada disso.

Era por isso que ele esqueceria isso, a deixaria lidar com seus problemas que já eram grandes demais e, quem sabe, nesse meio tempo não acabaria superando tudo e eles voltariam a ser como antes? apenas dois melhores amigos.

31 de outubro de 2021 — Los Angeles, California

Lily rolou na cama pela milésima vez naquela manhã. Não conseguia parar de pensar em todos os acontecimentos dos últimos meses, mesmo que já estivesse acostumada a ficar remoendo cada uma das coisas que a levou a aceitar o papel numa obra de Hollywood.

Ela sustentou o relacionamento com Amos Diggory por pelo menos mais três meses após o último reencontro que teve com James. Lily o amava, o que poderia fazer? Mas foi em seu aniversário que percebeu que tudo aquilo já não fazia mais sentido e estava apenas lhe fazendo mal. Tiveram uma briga terrível que a fez perder a cabeça e encontrar, bem no fundo de seus pertences, aquilo que a fazia viajar para outro planeta e se esquecer dele.

Mas não era nada correto que fizesse isso a si mesma, principalmente motivada por uma dor causa por alguém como Amos. Ela ligou para James na noite em que teve essa crise, mas ele não podia estar ali, pois estava viajando com a banda. Ainda assim ficou na linha até que conseguisse acalmá-la e fazê-la chamar por alguém.

Foi a partir desse dia que ela iniciou um tratamento para se livrar de toda aquela merda e voltar a ser a Lily de antes. Foi com a ajuda constante de Regulus e Marlene, que agora morava no apartamento com eles em Londres e infelizmente proporcionava a ruiva a sensação de que vivia num filme pornô quase todos os dias. De qualquer forma era bom tê-los ali para lhe dar o apoio que precisava.

E então, no mês de junho, surgiu a oportunidade de participar de um filme nos Estados Unidos. Obviamente não negou o convite tão inesperado, ainda mais quando tinha um ex namorado meio que a perseguindo todo o tempo e apenas não lhe fazendo nada porque recebeu ameaças sérias dos melhores amigos.

Lá estava ela agora, com um apartamento em Los Angeles, mais uma parte de seu sonho se concretizando e todo o peso de um turbilhão de acontecimentos. Mas não sentia que era muito bom continuar pensando naquilo, especialmente naquele dia que deveria ser divertido e especial.

Era 31 de outubro, feriado de Halloween e o dia em que iria conseguir rever seus amigos após tantos meses sobrevivendo entre mensagens e videoconferências. Eles foram todos convidados para uma festa organizada por Alice e seu namorado Frank, amigos que Lily tinha feito quando chegou a Califórnia.

Ela passou o dia dando alguns toques finais a fantasia que tinha feito para usar a noite e depois ficou livre para finalizar um livro que tinha começado naquela semana.

Regulus e Marlene chegaram quando o sol já estava se pondo e eles se abraçaram tão forte que quase fundiram seus corpos uns aos outros. Estava com tantas saudades deles que poderia chorar alí mesmo.

Ele a ajudou com sua maquiagem e Marlene fechou o zíper do vestido. Lily se olhou no espelho e sorriu com o resultado que definitivamente era o que estava esperando.

— Então Sally, está esperando encontrar seu Jack na festa de hoje? — Brincou Marlene cheia de referências ao filme O Estranho Mundo de Jack do Tim Burton. A ruiva apenas revirou os olhos, mas sorriu.

— A Sally aqui só quer curtir a noite com seus amigos. Sem romance por essa noite.

— É assim que se fala, agora vamos — Disse Regulus em sua cômica fantasia de coelho cor de rosa, ele deveria estar cozinhando ali dentro. Mas prometeu a Marlene que eles iriam vestidos de "Chandler e Mônica no Halloween" e lá estavam, ele com sua roupa excêntrica e ela com uma fantasia toda preta e orelhas de gato.

Ao chegarem na casa de Alice e Frank a música já estava tão alta que era impossível se comunicarem a não ser que gritassem um no ouvido do outro.

A amiga a recebeu com um abraço apertado, estava fantasiada de "diabinho" e quando olhou para seu parceiro ele usava uma de "anjinho" para combinar. Eles eram seu casal favorito da vida depois de Reg e Lene, ambos combinavam tão perfeitamente que se tornaram uma espécie de meta de relacionamento para Lily.

Já deveria ter passado da meia noite quando Lily finalizou o segundo copo de um líquido colorido e com cheiro meio forte, as coisas já estavam girando um pouco e ela rua das coisas que Marlene lhe dizia.

— Tenho uma péssima notícia pra te dar — Regulus disse com a voz enrolada pela quantidade de álcool que havia em seu organismo. — Sally vai encontrar seu Jack hoje a noite, dê uma olhada atrás de você.

Ela fez o que lhe foi pedido e além da multidão avistou uma figura mais alta que ela, magra e com os cabelos bagunçados. O terno impecavelmente igual ao personagem original e os óculos de sol de armação redonda combinando com todo o visual e lhe dando um ar mais moderno.

James Potter era um grande filho da puta por estar despertando nela aquela sensação estranha e por tê-la feito achá-lo tão fodidamente gostoso naquela roupa.

— Tem que admitir, florzinha. Ele está uma beleza — Marlene comentou com um riso, mas Lily não estava prestando tanta atenção. Seus olhos seguiam cada passo de James, em outras circunstâncias se repreenderia por ser tão inconveniente, mas sua parte racional não estava exatamente funcionando.

Ela voltou a realidade quando ele já estava próximo o suficiente para notá-la encarando e desviou o olhar para fingir que estava interessada em qualquer outra coisa.

— Ei, vocês vieram! — Marlene exclamou e foi cumprimentá-los. Em pouquíssimo tempo eles criaram um vínculo forte com ela, o que não era difícil já que a loira era uma das pessoas mais incríveis que Lily teve o prazer de conhecer.

Todos se cumprimentaram e James pareceu finalmente notá-la, mesmo por trás de seus óculos pretos ela conseguia enxergar a expressão marota em seu rosto apenas pelo sorriso esboçado em seus lábios.

— Sally, então? — Questionou com o que ela pensou ser um pouco de malícia, mas talvez fosse só o seu cérebro nadando no álcool que estivesse imaginando coisas.

— Se a gente tivesse combinado não teria dado certo — Comentou com um riso e ele acabou rindo também.

— Eu acabei concluindo recentemente, Evans, que as coisas entre você e eu funcionam apenas ao acaso. — Retirou os óculos e finalmente ela conseguiu encontrar os olhos cor de avelã, o globo ocular avermelhado entregando o recente uso de maconha.

James pediu por uma cerveja e Lily se arriscou mais um pouco nos destilados de coloração duvidosa, mas que a deixaram ainda mais agitada que antes e quando se deu conta estava dançando com Remus que parecia estar em outro planeta sob o efeito das substâncias que tinha usado naquela noite.

Estava começando a ficar abafado demais ali e talvez isso se devesse ao fato de que cada vez mais parecia que a quantidade de pessoas aumentava. Ela precisava de ar antes que acabasse passando mal, por isso avisou o amigo e se esquivou na multidão em busca da porta de saída para o jardim.

Tudo girava ao seu entorno, mas quando a brisa fria da madrugada foi ao encontro de seu rosto ela se sentiu bem melhor do que há segundos. Se acomodou numa parte do gramado e ficou admirando uma parte de Los Angeles que era possível ter acesso já que a casa de Alice ficava num ponto mais alto da cidade.

— Por que sempre que estamos em festas juntos eu acabo te encontrando do lado de fora sozinha? — Perguntou uma voz rouca e embriagada atrás de si, que a fez se virar e encontrar justamente quem ela achou que fosse o dono dela.

— Não sei, como você mesmo disse as coisas acontecem meio ao acaso com a gente — Deu de ombros enquanto olhava cada um de seus movimentos até ele se sentar ao seu lado e ficar encarando-a até deixá-la desconfortável e desviar seu olhar, suas bochechas queimavam. Lily esticou o braço até o cigarro que ele tinha entre os dedos e o tomou para si, James a olhou com um olhar de repreensão.

— Não deveria fazer isso — Se esticou para pegá-lo de volta, mas ela afastou a mão para longe.

— Relaxa, Potter. Eu estou bem, já falamos sobre isso. — Tragou pela segunda vez e liberou a fumaça no ar. Seus olhos estavam começando a pesar e ela teve de fechá-los por alguns instantes, mas ainda era capaz de ouvir tudo à sua volta, até mesmo a forma como James parecia querer lhe dizer alguma coisa. Foi então que ele disse:

— Lily. — Chamou por ela e foi respondido com um murmúrio que lhe indicava que poderia continuar a falar. — É meio idiota perguntar isso, mas lembra-se daquela noite na casa do Benjy em que eu lhe disse que tinha algo pra te contar. — O problema era que ela se lembrava e isso despertou nela quase a mesma quantidade de sensações que naquele dia, por mais que três anos já tivessem se passado e a única coisa que ela achava que James Potter ainda fosse capaz de fazer era despertar nela algum tipo de tesão meio esquisito.

— O que tem? — Abriu os olhos e encontrou os dele.

— Acontece que o que eu tinha pra te dizer naquela noite não tinha nada a ver com a The Marauders. Eu só não tive muita coragem pra falar então acabei mudando de assunto rapidamente. — Confessou e riu pelo nariz, mas uma pergunta ficou pairando no espaço entre eles.

— O que você queria me dizer? E por que está tocando nesse assunto agora? — Lily já sentia a garganta seca, o coração aumentando a velocidade de suas batidas e as mãos ficando suadas.

— Não sei, só veio à minha mente. — Fez uma pausa de suspirou pesado. — Quer saber o que eu meio que planejava que fosse acontecer? — Ela assentiu, mesmo um pouco receosa.

James pediu para que fechasse seus olhos, mas cada mínimo movimento de seu corpo foi capturado por seus outros sentidos. Ela soube quando ele estava perto demais pelo som de sua respiração e a sensação desta batendo em seu rosto, além do cheiro de cigarro e menta que exalava de sua boca.

A mão dele a tocou no pescoço e a puxou até que seus lábios se tocassem, suas bocas se abriram dando início a um beijo quente, lento e intenso que há muito tempo parecia estar ali esperando para vir à tona. Lily envolveu as mãos em seu pescoço e o puxou para mais perto, quase os derrubando na grama se James não estivesse apoiando seu peso em um de seus braços sobre a grama.

Eles tiveram que parar quando o ar se fez necessário, mas não desviaram o olhar por um único segundo. Ali estava, o que ela teve certo medo de fazer quando era mais nova: beijar seu melhor amigo. Era bem provável que há alguns anos a reação a tudo aquilo teria sido bem diferente, de ambas as partes, mas ali agora as coisas pareciam certas demais.

— Achei que você e a Hestia estivessem saindo de novo — Disse ela por fim, foi a primeira coisa que veio a sua mente.

— É, a gente estava. Mas acabou ficando tudo uma grande merda de novo, a gente começou a brigar um pouco. Não estava dando mais certo e eu suspeito que ela estava me traindo de novo — Deu de ombros como se isso não o afetasse mais.

— Sinto muito.

— Não sinta, na verdade foi bom isso ter acontecido. Vai parecer meio babaca da minha parte, mas todo o tempo em que estava com ela de novo eu só conseguia pensar que queria que fosse você ali. — Lily não estava esperando nem um pouco por aquilo, não tinha nem palavras.

“Viajamos para Paris e foi uma droga, porque o tempo todo eu ficava pensando que aquela cidade só tinha um significado especial por sua causa, porque quando eu fui pra lá ano passado estava terrivelmente apaixonado por você e com toda uma ideia de lhe dizer isso. Mas meio que tinha o Diggory no meu caminho.”

James fez uma careta que arrancou um riso de Lily, ela ficou muito sorridente com cada uma de suas palavras. Tinha cometido um terrível engano ao achar que não sentia mais nada, pois em algum lugar bem escondido do seu inconsciente estava tudo ali ainda apenas esperando pela oportunidade de que pudesse voltar a sentir sem que acabasse se machucando.

— Tem uma outra coisa que preciso dizer, na verdade é mais pedir — Ele voltou a falar e agora Lily franziu o cenho. — A gente vai lançar um álbum novo da banda amanhã e, bom, ele é quase todo sobre… você… e eu, claro. E queria saber se tem algum problema nisso. — Ela não resistiu em rir com um pedido tão idiota como aquele e que só poderia ter vindo de James.

— Se eu disser que não você vai cancelar tudo e reescrever o álbum? — Ele desviou o olhar e semicerrou os olhos, como se estivesse pensando a respeito. Então se voltou para ela e sorriu.

— Nah, não vou. — Ela balançou a cabeça negativamente e então o puxou para outro beijo como o outro, mas ainda mais demorado, pois queriam aproveitar o que tivessem o direito.

31 de outubro de 2022 — Paris, França

A arena já estava lotada, os fãs gritavam ao redor de Lily e a sensação de tanta gente perto dela lhe despertava uma sensação horrível de claustrofobia. Ela tentou se distrair diversas numa conversa com Regulus, mas sempre voltava a prestar atenção em como aquilo a incomodava.

Conseguiu relaxar apenas quando o show finalmente começou, a The Marauders surgiu no palco e a multidão os recebeu com gritos animados. Eles iniciaram com uma música que ela conhecia bem e que era quase sua favorita do álbum, pois contava exatamente como as coisas meio que aconteceram.

— We fell in love in October, that’s why I love fall… — James disse com a boca muito próxima do microfone e os olhos fixos nela todo o tempo. Dessa vez ela sabia que estavam realmente sobre ela. — … My girl, my girl, my girl, my girl. You will be my world, my world, my world, my world…

A primeira música chegou ao fim e James, junto a Sirius no outro microfone, cumprimentou a plateia e interagiu com alguns fãs. Então ele se sentou na beira do palco e cruzou as pernas, parecia que ia começar a contar uma história.

— Sabem, essa cidade é provavelmente a mais especial pra mim. E pode parecer um tanto clichê, mas isso se deve ao fato de que foi na bela Paris que eu percebi que estava perdidamente apaixonado pela garota que me inspirou a escrever não apenas essa música, mas quase todas as outras do álbum. — Se levantou e voltou o microfone ao tripé, de lá a encontrou na plateia e então sorriu e lhe deu uma piscada. — Essa é para Lily Evans, aquela por quem eu voltaria a Paris de novo, e de novo, e de novo...

Ela não pode conter seu sorriso e teve que abraçar Regulus para que não começasse a chorar ali mesmo. Era estranho demais ser a garota para quem ele escrevia músicas, era íntimo demais, ainda mais quando achou por tanto tempo que James jamais retribuiria seus sentimentos. De qualquer forma era uma sensação boa, tão boa que quase sufocava, mas não pretendia trocar aquilo por nada.

She said “hello”, she was letting me know

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