Cravei minhas unhas nas palmas de minhas mãos suadas e me dei conta de que inconscientemente, estava em minha forma lupina. Xinguei baixinho minha falta de controle sobre mim mesma e senti a mão fria de Ann no meu antebraço.

- Respire fundo. – ele parecia preocupado então eu fiz o que ele disse e fechei os olhos para segundos depois abrir e estar mais relaxada.

Sorri agradecida. Bastet me observava em silêncio, e me dei conta de que ela não dissera uma palavra durante o caminho todo e permaneceu quieta, apenas observando. Aquilo era medonho, mas Anúbis era um chacal, enquanto sou uma loba, o que poderia esperar de uma gata entre nós?

Ela pareceu saber no que estava pensando e deu um quase sorriso. Acho que ela quis dizer que tudo bem. Respondi dando de ombros, tímida.

- Vou na frente para anunciar que você está aqui – disse Tânatos.

- Não pode ser assim tão ruim, eu vou e explico tudo. Além do mais, Perséfone já deve ter contado. – suspirei.

- Não devíamos estar perdendo tempo aqui, deveríamos ter seguido adiante. – resmungou Bast.

- O meu pai foi a única pessoa que me quis por perto quando o Egito me renegou, o mínimo que posso fazer pra ele agora é avisar quando eu for partir em missão suicida. – argumentei irritada me virando.

- Eu salvei você. – disse Hórus baixinho, amuado.

Aquilo pareceu afetar Tânatos, pois ele ficou estático. Franzi o cenho sem entender.

- O que você disse? – perguntou ele friamente, se recuperando.

- Disse que a salvei. – respondeu Hórus, firme desta vez.

- Se você acha que jogá-la nos limites de outros deuses e fugir alegando que havia cumprido a tarefa é salvar alguém, sim você salvou parabéns, herói. – disse Tânatos com um sorriso sarcástico e maligno no rosto.

Se Hórus tinha alguma tolerância a provocações, não a usou naquele instante. Sacou a kopesh e investiu contra Tânatos, que desviou. Se algum deles atingisse o outro, poderia desencadear uma guerra. Havia um pacto para evitar aquilo: um egípcio/grego jamais poderia atacar um grego/egípcio.

Fui tentar impedir, mas Bastet segurou meu antebraço balançando a cabeça negativamente.

- Eles precisam resolver as diferenças e assumir suas igualdades. – disse ela somente.

Anúbis assistia a tudo aquilo com interesse súbito, e Sadie olhava emburrada para ele, desaprovando sua atitude. Carter estava espantado e Isis torcia para que o filho depenasse Tânatos. Depená-lo? Nem que fosse possível, eu não queria aquilo. Horrorizada, olhei para os dois. Hórus investia e Tânatos desviava, o deixando ainda mais irritado.

Hórus conseguiu arrancar uma pena das asas de Tânatos, e aquilo sim o tirou do sério. Com sua mão totalmente negra, pegou o guerreiro falcão pelo pescoço fazendo-o ficar completamente roxo. Seus olhos dourados brilhavam mais ameaçadoramente enquanto os olhos prateados de Hórus ficavam embaçados. Eu conhecia aquele olhar de Tânatos. Não era ele. Soltei-me das garras de Bast, sem perceber os inúmeros arranhões que recebera e fui impedir que se matassem.

- Pare Tânatos! Você vai mata-lo! – implorei.

- Mas acho que é essa a minha intenção – respondeu ele numa voz raivosa.

- Por favor, solte. – pedi puxando-o pelo braço.

Aquilo pareceu chamar sua atenção, mas por pouco tempo, pois Hórus se mexera.

- Este porco com asas não pode me matar, não se preocupe Kamilah – grunhiu Hórus.

Quando Tânatos entrava em transe assim, a única coisa que o parava era a visão de sangue. Aquilo o despertava para seu verdadeiro eu, pois ele era o deus da morte sem dor. Pensando nisso, saquei minha espada e enfiei em minha barriga. Ninguém ali sabia que eu me curava instantaneamente, então todos arfaram e ficaram paralisados. Menos Bastet, ela me olhava com uma curiosidade sem fim e inclinava a cabeça, observando a tudo, calma. A única coisa que indicava que ela também ficara chocada foi o arrepio de seus cabelos emaranhados.

Anúbis correu ao meu socorro enquanto eu me ajoelhava e rangia os dentes de dor, meu sangue dourado escorreu pelo chão até chegar aos pés descalços de Tânatos e chamar a atenção do olhar de Hórus, que entrou em desespero e conseguiu se soltar.

Tânatos olhou para seus pés negros molhado, que em contato com meu sangue ficaram brancos. Eu sempre tivera esse efeito nele, sua pele era negra, mas com meu toque, ficava branca como a de um humano normal. Saindo de transe, ele procurou a fonte do sangue dourado, que significava que era grego e seus olhos encontraram os meus. Nem em mil anos eu admitiria que faria aquilo para trazê-lo de volta à lucidez. Nem em mil anos eu admitiria que queria ele vivo.

Ele abriu a boca, mas não saiu nada e foi aí que o buraco começou a se fechar, deixando todos incrédulos. Quando me curei totalmente, me levantei com a ajuda de não-me-lembro quem, pois nesse momento, minha visão ficou turva e tudo escureceu.