Notas iniciais
Qual é a diferença entre os verdadeiros amigos e os meros conhecidos? Um conhecido te acompanha nos melhores momentos da sua existência, mas o verdadeiro amigo se conhece nas crises da vida. Os maiores amigos são aqueles que apesar das diferenças, permanecem ao seu lado pra te ajudar até nos piores momentos.
Tomoyo Doudoji
*Frase da novela Rebelde

Falling In Love

Capítulo 11

Sakura

O corredor que levava a UTI era gelado e estava vazio. Apesar de já ser de madrugada o sol ainda não nascera e o vestido leve que eu usava não ajudou. Segui a enfermeira por uma entrada a minha esquerda. Passei por diversos leitos. Alguns estavam vazios, outros ocupados. A maioria das pessoas usavam uma camisola verde, havia muitos tubos e barulhos de aparelhos bipavam a cada segundo.

Tomoyo estava no leito ao lado da janela, me encaminhei até o lado de sua cama e sentei num banquinho dado a mim pela enfermeira. A aurora do dia já raiava lá fora, e observo as pequenas gotas de condensação na janela. Olho para o rosto de Tomoyo-chan e eu ouvi o ressoar de sua respiração difícil, mesmo com o balão de oxigênio. Eu queria chorar novamente, entretanto acho que minhas lagrimas já tinham secado. Não acreditei que horas atrás ela estava pintando meu rosto para a peça, ou que estava me arrumando para o baile, ou que estávamos simplesmente conversando. Eu queria que tudo tivesse sido diferente.

Inúmeras perguntas vieram a minha cabeça. Mas a principal delas era por quê? Por que ela? Os minutos se passaram rápidos de mais, e logo o Doutor Fujioki apareceu para me chamar. Levantei-me para segui-lo, mas não sem antes lançar um olhar para ela. No fundo eu sabia o quanto eu me importava, mesmo durante a nossa briga. Sempre... Sempre pensei nela como minha melhor amiga. E eu me senti injustiçada pelos anos que nos foram roubados.

Realmente minhas lagrimas não haviam secado. Elas estavam lá quando deixei Tomoyo naquele lugar horrível.

Shaoram

Chego em casa e tudo o que mais quero é dormir, cair no sono e esquecer aquela noite, àquelas horas. E quando acordar, eu queria que tudo estivesse como antes. Eu seria o velho Shaoram Li briguento, rebelde e galinha. E ela a Kinomoto, a rainha do gelo, certinha e chata. E Doudoji-san, bem ela estaria sentada a meu lado no colégio com seu sorriso doce e suas provocações irritantes. Esse mundo era perfeito!

Mas não era a verdade...

Nenhum de nós três jamais voltaria a ser o mesmo. Aquela noite nos mudara completamente.

Primeiro inevitavelmente, eu teria de enfrentar meu passado. E isso incluía todas as escolhas que fiz desde que eu me afastei de Sakura-chan, e todas as marcas que elas deixariam.

Segundo, agora que sei o que Tomoyo está passando não posso mais usar minha velha máscara. Ser idiota, malcriado, rebelde e infantil é bem mais fácil que ter de encarar as coisas de frente. Porém minha melhor amiga está gravemente doente e ela precisa de mim.

Engraçado tanta ironia, O Baile de Mascaras de Usagi foi o que desmascarou a todos nós.

Ouvi uma leve batida na porta, pedi para quem estava lá fora entrar. Era minha Mãe. Ela se senta na cama e me olha com o olhar aflito que só uma mãe pode dar...

_Como ela está?

_ Não sei Mamãe, ela está estável... E os remédios que ela toma não fazem mais efeito. A Sra. Doudoji estava conversando com o médico dela. Mas como eu e Sakura-chan passamos toda a noite lá decidimos ir embora para descansar...

_Sakura-chan? Quer dizer Kinomoto Sakura?

Senti meu rosto corar.

_ É mamãe... O baile de ontem era da prima dela...

Ele sorriu de modo meio irônico e disse.

_ Quer dizer que vocês voltaram a se falar... Você já superou aquela sua quedinha por ela, huh?

Mães é incrível a capacidade que elas tem de fazer um filho corar.

_ Mama!

Falei em chinês para que ela soubesse que eu estava nervoso. Era como um código entre nós.

_ Irei ligar para Sonomi-san, ela deve precisar de um ombro amigo, e por falar nisso... O mocinho está de castigo até segunda ordem ouviu? Pelo tempo que sumiu de minhas vistas...

Ela usou do mesmo artificio que eu, e parecia estar brava. Eu não liguei, ela já tinha ficado brava antes e eu já fiz coisas piores. Fechei a persiana do meu quarto, já que o sol já começava a ficar alto e me atirei em minha cama. Pelo menos por enquanto eu quero esquecer de tudo.

Tomoyo

Quando acordei, senti a rigidez do meu corpo quase que imediatamente. Tentei me mover ou me levantar porem eu estava tão fraca. Fui aos poucos abrindo as minhas pálpebras, e senti o desconforto nas narinas. Tive dificuldade para sugar o ar, mas o alivio veio instantaneamente com o sopro do que quer que seja que estava no meu nariz. A claridade era tão forte que mal pude ver o que estava acima de mim, ouvi vozes. Minha garganta estava anormalmente seca, alguém tocou meu pulso, e vi uma luz forte em meus olhos.

_ Senhorita Tomoyo? Senhorita Tomoyo pode me ouvir?

Era o Doutor Fujioki, então eu estava mesmo no hospital? Aquilo queria dizer que...

_ Filha, se estiver ouvindo, aperte minha mão...

Mamãe? O que ela faria ali, tudo não passou de um sonho no fim? Eu estava tão confusa. Tentei alcançar forças para apertar aquele ponto quente que deveria ser a mão de minha mãe. Estava tudo tão errado. Parecia que tudo estava coberto por uma agua lamacenta. Limitei-me a fechar meus dedos em torno do que eu julgava ser os dedos dela e pude sentir o leve tremor.

_ Ela está aqui, está consciente...

A voz dela estava embargada.

_ Ahh Tomoyo eu tive tanto medo...

Senti algo macio e molhado nas palmas de minha mão e em meu braço. Tentei encontrar minha voz, mas o que saiu pareceu um resmungo quase inaudível.

_ Não... Chore... Ma-mã-eee... Eu... Est... Bem...

O esforço me deixou exausta, o pouco ar que eu tinha se foi com aquilo.

_ Shii, meu amor, não fale mais nada. Ainda está fraca. Não se recuperou da crise...

Crise, sim a crise. O baile, Sakura-chan, Usagi-chan, Shaoram-kun, minha cabeça, o celular, Mairi-chan... Meus olhos, o gosto do sangue. De repente eu estava aflita. Senti falta de ar.

_ Ela está nervosa vou sedá-la novamente...

_ Mas ela acabou de acordar...

Eu respirava com dificuldade, mas eu não queria dormir de novo... Não antes... Até quanto todos descobriram sobre mim.

_ Pronto, ela vai dormir em alguns minutos.

Eu queria gritar e me debater mas, o remédio intravenoso já fora aplicado. Assim eu mal consegui me mexer...

_ M... Shao..-k...Sak.. an.

_ Eles estão bem filha, logo eles virão ver v...

Não escutei muita coisa depois disso. Apenas me entreguei ao torpor que o remédio já me causava até que adormeço completamente.

Sakura

Shaoram-kun me deixou na porta de minha casa, quando abro a porta cinco pares de olhos se voltam para mim. Lá estavam meu pai, Yukito-san, Usagi-chan e meus avós.

_ Taidama! _ Disse segurando as lagrimas e subi as escadas até meu quarto, fechando a porta.

Eu não estava com vontade de falar com nenhum deles, na verdade eu não tinha vontade de falar com ninguém. Artêmis miou uma ou duas vezes, mas acho que percebendo meu desamparo, ele se deitou em meu travesseiro e ficou lá quietinho me observando chorar.

Chorei, chorei até as lagrimas secarem, até meus olhos arderem, chorei alto até não ter voz, chorei até cair no sono.

Quando eu acordei, o sol já estava bem alto. Senti minha cabeça dolorida e meus olhos ainda estavam vermelhos. Levantei-me depressa olhando as horas, era o meio da tarde. Afundei-me em meu travesseiro olhando para o teto, e observo um pequeno movimento no tapete. Giro na cama para olhar pra baixo e vejo Luna e Artêmis se enroscando nos fiapos rosados. Usagi-chan ainda estava aqui? Sai da minha cama e percebi que eu ainda estava com o vestido de Tomoyo-chan. Foi só me lembrar dela que minha garganta novamente pareceu apertar. Mas eu não chorei novamente, eu tinha conseguido um alivio temporário.

Fui até meu banheiro e tomei uma ducha, lavei e penteei os cabelos, escovei os dentes. Quando sai do banheiro Usagi estava sentada em minha cama. Ela também tinha os olhos muito vermelhos e pareceu apreensiva quando me viu. Acho que ela ficou com medo que eu a expulsasse dali. Ela me lançou um olhar triste e perguntou.

_ Você quer conversar?

_ Não tenho nada... Para falar...

_ Como... Como ela está?

Sem perceber me sentei ao lado da minha prima. Olhei para ela com o rosto cansado.

_ Sinceramente eu... Eu não sei. Ela está muito doente. Parece que ela se esqueceu de tomar seus remédios e foi por isso que aconteceu...

_ É grave? _ Ouvi a voz dela tremer de receio, as mesmas notas que eu ouvia em minha voz sempre que eu pensava que...

_ Sim, sim Usagi-chan... É muito grave.

Engoli o nó que estava travado na minha garganta.

_ Li-kun ligou aqui a sua procura. Mas você parecia tão cansada que deixei você dormindo. Ele me pediu para que ligasse quando você acordasse, disse que quer saber como você está.

Ela se levantou e foi se encaminhando até a porta.

_ Vou te preparar uma xicara de chá com bolachas...

Quando ela alcançava a porta eu corri até ela e abracei. Precisava daquilo, de desabafar. Choramos juntas durante algum tempo até que eu me recuperei para dizer.

_ Usagi-chan, sinto muito pela sua festa.

Usagi sorriu e segurou minha mão.

_ Festas eu tenho todos os anos... Tomoyo-chan é mais importante.

Shaoram

O sobrado amarelo tornou-se visível quando contornei a esquina, eu estava acostumado a passar por ali, era bem próximo do colégio. A nostalgia invadiu-me quando de frente aos portões olhei para o quintal onde passei grande parte de minha infância.

A casa ainda conservava o ar rústico e antigo de que eu lembrava. O velho carvalho ainda espalhava suas folhas pelo jardim. E no galho mais alto da árvore preso por uma grossa corda estava o balanço de pneu onde costumávamos nos balançar. Em apenas um minuto com a mão na grade pude ver três crianças brincando juntas. Meus olhos lacrimejaram me lembrando dos motivos de termos nos perdido um do outro daquele jeito. É tão frustrante descobrir um erro quando se é tarde demais.

Subi os degraus que separavam-me da porta e toquei a campainha. Eu estava apreensivo já que não tinha a visto desde a noite anterior. Tinha medo de que as reações delas não tivessem passado de emoção por ver Tomoyo naquele estado. Mas me lembrei dos momentos de antes, do leve brilho em seu olhar na peça e mais ainda de quando dançamos . Me concentrei em apenas trata-la com o máximo de carinho possível, afinal ainda estávamos sofrendo por nossa amiga. Mas eu não pude evitar a minha ansiedade de fitar aqueles olhos esmeralda por quem eu era completamente louco. Um homem alto de cabelos castanhos e óculos de grau atendeu a porta.

_ Ohayo meu jovem em que posso ajuda-lo?

_ Kinomoto-sensei, pode ser que não se lembre de mim mas eu só...

_Mas é claro, Shaoram Li, como pude não reconhece-lo. Como você cresceu. Entre... Sakura-chan está com Usagi-chan na cozinha.

Entrei na conhecida casa percebendo que poucas coisas mudaram desde que eu parei de frequenta-la. Olhei para a velha poltrona vermelha escorada no canto ao lado do piano da mãe dela algumas das partes ainda conservavam queimaduras, o porta-retratos com a foto de Nadeshisko ainda estava em cima da mesa. Sorri ao ver um gato branco estirado em cima do tapete brincando com um rolo de lã enquanto o outro ronronava a seu lado se lambendo. Ergui os olhos para o balcão em frente à sala de jantar. Ela estava sentada em um banco alto observando a prima fazer o que parecia ser chá. Elas riam de alguma piada perdida. A loira olhou-me intrigada e surgiu-lhe na face um sorriso de deboche.

_ O que vemos aqui? O encrenqueiro da escola...

Sakura pareceu congelar no banco. Ela usava shorts jeans e uma blusa branca de botão, o cabelo estava molhado preso em um nó mal feito já que este não era cumprido como o da prima. Ela se virou devagar me dando uma perfeita visão de seus olhos.

_ Shaoram-kun...

Sua voz saiu tão doce que mal acreditei tê-la ouvido chamar-me daquele jeito, eu imaginei as varias vezes em que ela tinha se referido a mim apenas como “você “ou “Li “naqueles últimos anos. Nada se comparava a sensação de tê-la me chamando pelo nome, a não ser talvez a sensação daqueles lábios nos meus.

Merda, estou perdidamente maluco pela Sta. Perfeita Kinomoto.

Tomoyo

Quando recuperei novamente a consciência eu já sabia onde estava e porque estava ali. Eu me vi mais tranquila do que antes porem ainda me sentia um pouco tonta, acho que era por causa da medicação. Ouvi vozes sussurrando a meu lado e decidi abrir os olhos. Estava numa cama muito parecida com a que acordei antes, mas não estava no mesmo lugar. Deduzi que eu deveria ter sido transferida para o quarto.

_ Ohayo minha princesa.

Aquela voz, não era possível que... Virei-me de vagar e tive dificuldade de focar minha visão em algo.

_ PA... pa...

Um resmungo grave saiu de minha garganta, eu ainda não tinha me acostumado com isso. Tentei balbuciar algo mais porem as lagrimas não deixaram. Fazia dois anos que não o via, olhei desfocadamente para os olhos negros expressivos e preocupados. Fiquei tão emocionada de tê-lo ali que o aparelho denunciou uma pequena taquicardia por causa do meu coração acelerado.

_ Os médicos me disseram que você ainda não pode falar. Eu trouxe isso pra você. _ Ouvi sua voz embargada. Em suas mãos estava algo que identifiquei como uma caderneta e um hidrocor. Minha visão estava turva e eu via através de sombras era uma sensação horrível.

_ Me...Olh..os...

Papai se endireitou na cadeira passando as mãos no rosto e pelos cabelos azulados como os meus.

_ Os médicos disseram que foi devido ao derrame que você teve querida. Romperam-se varias veias, algumas em seu globo ocular. E devido a sua... Bem, o sangramento é mais fácil. Eles me disseram que logo você voltará a enxergar.

O tom de desespero em sua voz me levava-a a uma agonia profunda e inimaginável. Essa maldita doença, porque não me levava de uma vez, porque eu além de estar doente era obrigada a ver meus entes queridos passar por isso. Era tão injusto. Ouvi a tranca da porta se mexer e os passos se aproximarem da cama.

_ Ohayo filha... _ Disse minha mãe ignorando como de costume a presença de meu pai e me dando um beijo na testa. _ Como era muito incomodo manter os olhos abertos cerrei-os e fiz um sinal afirmativo para a direção de que vinha sua voz.

_ Já que estamos todos aqui. Está na hora de discutir sobre o tratamento de Tomoyo.

Reconheci a voz do Dr. Fujioki um pouco afastada de minha cama. Suspirei deixando claro que aquele assunto me incomodava. Eu já estava conformada com minha doença mas meus pais ainda não tinham entendido que uma hora ou outra eu... Eu iria...

_ Sugiro a quimioterapia. Já que os coquetéis para retardar o câncer não funcionaram. Mas os efeitos colaterais são...

Parei de ouvir naquele instante, eu já conhecia de cor aquela conversa. Apenas deixei meus pensamentos flutuarem até o baile de Usagi. E desejei que tudo tivesse sido diferente pra variar.

Notas finais
Ohiyo Gozaimassu... Pessoinhas estou de volta com mais um capítulo. *.* Espero que não fiquem chateados se eu demorar um pouquinho pra postar é que fim de semestre da facu, fim de ano, inspiração tem sumido por causa das provas T.T Mas ta ai... Muitooooooooo obrigada pelos reviews e pelos parabéns do ultimo capitulo. Fiquei sagtão feliz!!! hanyan *.* Ameie considerei cada review um presente, podem ter certeza. Notas seguindo--->:
* Esse capitulo não foi um dos mais reveladores, na verdade ele foi mais pra que vocês entendessem a mente de cada um deles após o acontecido do ultimo capitulo.
* Uma das piores sensações do mundo e dexar uma pessoa que você ama muito na UTI.Na minha opinião é o lugar mais triste do hospital.
*Que o Shaoram-kun esta mais maduro isso e bem nitido, mas nao quer dizer que ele queira isso. É normal quando somos adolescentes fugir do problema fingindo ser quem não somos. Mas ele teve de aceitar que fazer cena não o ajuda mais.
* Ai como me doi ver a Tomoyo nesse estado, fraca e confusa... Pelo menos os pais dela resolveram aparecer né? Será que eles finalmente vão prestar atenção na filha?
E então amorzinhos o que vocês acharam? Tenho tentado passar o mais fielmente possivel o sentimento de cada um deles. Bem, desculpe algum errinho e aguardo ansiosamente os reviews de vocês. Obrigada por estarem aqui mais uma vez... Até o capitulo 12!