Falling
7 De vez
Notas iniciais
Bati a porta da casa de Carie. Só depois me senti estúpido, pois a campainha estava do lado. Eu esperava que o pai, ou a mãe, ou até mesmo o irmão de Carie iriam abrir a porta, mas não a própria.
Ela estava com o cabelo um pouco preso, mas como era curto não prendia inteiro, ficava com mechas soltas. Ela estava corada. Estava com uma camisa minha e devia estar com um short por baixo, mas como a camisa ficava enorme nela não dava pra ver.
– Oi – foi o que consegui dizer.
Secretamente eu gostei do fato de ela estar com minha camisa. Eu olhava do seu rosto para a camisa, e ela percebeu isso. Olhou para baixo e corou mais ainda.
– O que faz aqui? – me cortou.
– Quero falar com você. Por favor, Carie.
Me olhou e fez uma careta, gemeu e depois me deixou entrar.
Olhei para os lados. A casa estava muito quieta.
– Onde estão Patrick e seus pais?
– Eles viajaram.
– Por que não foi também?
– Não estou no melhor clima. – me olho intensamente.
– Ah.
Aquela conversa não se parecia nada com o que era antes, como era antes, e aquilo me incomodava.
– O que quer Roland? Não é bom ficarmos sozinhos aqui – ela olhou para as janelas, parecia quase com medo.
– O que tem?
– É, hmmm, os vizinhos podem falar mal – olhou de volta.
– Você nunca foi uma boa mentirosa – disse, mas como não queria brigar, queria fazer as pazes, me apressei – Podemos nos sentar?
– Claro.
Fomos até a sala. Parecia muito vazia sem Patrick jogando vídeo game ou assistindo TV.
Eu não fazia ideia de como começar. Ela estava sentada do meu lado, mas não muito próxima. Minha camisa caia muito bem nela. Muito. Cheguei mais perto. Ela não se afastou, isso era um bom sinal, não era? Eu tinha que acreditar nisso.
Já que eu não sabia como começar a falar, e realmente queria fazer isso, a beijei. Docemente, lentamente, como tinham que ser os beijos mais apaixonados. Com aquele beijo eu queria expressar tudo o que eu sentia, mas não conseguia colocar em palavras. Ela não me empurrou, totalmente pelo contrario, ela me beijou de volta com urgência, como se sentisse tanta falta daquele beijo quanto eu. Isso me encorajou. A puxei para perto, num abraço e continuei a beijando.
Quando terminamos, ambos estávamos sem fôlego. Nos olhamos, os dois corados e sorrimos. Mas o sorriso de Carie não durou tanto quanto o meu.
– Roland... Nós não devíamos...
– O que? – a interrompi – Voltar? Claro que devíamos Carie... Você simplesmente não pode me falar isso depois desse beijo. Nós dois sabemos como você me beijou, você queria isso tanto quanto eu!
– Eu... Eu queria sim, mas não podemos voltar.
– Por quê?!
– Eu não quero voltar!
– Eu já disse que você é uma péssima mentirosa! Por que estaria com a minha camisa, então?
– Porque... Porque... Roland pare, eu não posso fazer isso.
– Isso o que?
Ela tinha começado a chorar.
– Por que você não me conta o que tá acontecendo? Me deixa te ajudar Carie! Você sempre dizia que eu te fazia muito bem, me deixa te fazer ficar bem de novo! – eu praticamente implorava.
– Não é simples assim. – ela ainda chorava.
– Pode ser!
– Não, não pode. Me desculpe Roland, nós não vamos voltar. Por favor, vá embora.
Eu simplesmente não entendia o comportamento de Carie. Há alguns minutos estava me beijando com desejo, e agora estava me mandando ir embora?
Tentei, realmente tentei voltar com Carie. Naquele momento decidi que já que ela tinha dito que não íamos voltar, eu iria desistir. Não adiantava eu forçar a barra, mesmo sabendo que no fundo ela ainda gostava de mim, forçar a barra nunca era legal, não importa qual fosse a situação, nessa menos ainda.
– Ok, você venceu Carie.
– O que? – estava confusa.
– Não vou mais insistir. Você disse que acabou, então acabou.
Me doeu dizer aquilo, porque não era no que eu acreditava.
Ela parecia decepcionada, mas parou de chorar.
– Isso é bom – disse séria.
– Ah, Carie... – eu queria abraça-la, mas não o fiz.
Estava decidido.
– Adeus.
– Adeus – disse, com os olhos ainda brilhando pelas lágrimas.
***
– Você fez o que?! – Leslie estava frenética.
– Eu fui falar com Carie, e aceitei de vez que terminamos, não vou mais tentar voltar com ela.
– Eu ouvi, eu só não consigo acreditar! – ela gesticulava sem parar, jogava as mãos para o alto e deixava cair em suas pernas. – E o que ela disse? – parecia uma criança curiosa.
Ri disso. Ela me olhava esperançosa, esperando que eu lhe contasse todos os detalhes.
– Pra te falar a verdade Leli, ela pareceu decepcionada.
Ela ainda não acreditava, estava bufando e suspirando.
– O que essa... O que ela quer, então? Que idiota.
– O que ela quer não importa mais – disse mesmo ainda querendo estar com ela – Não vou voltar na minha decisão, você sabe que sou decidido.
– É, eu sei, e fico feliz por isso – sorriu de um jeito muito amável e me abraçou – Você sabe o que eu achava sobre o relacionamento de vocês. E você também sabe que é quase impossível uma pessoa mudar minha opinião quando ela já está formada – ergueu as sobrancelhas para mim.
Leslie achava que Carie sempre se aproveitava da minha bondade, e que ela não merecia nenhum minuto do meu tempo. Sempre disse isso.
Nós estávamos no bosque perto da minha casa. Gostamos de ficar lá. Depois que fui embora da casa de Carie eu liguei para Leslie e ela veio rápido. Sentamos no gramado, que estava úmido, e estava frio, mas ali era o nosso lugar, não importava a estação. Para afastar o frio nós estávamos abraçados.
***
Voltei para casa depois de conversar um pouco mais sobre bandas e os seriados preferidos de Leslie.
Minha mãe parecia querer conversar agora, mas eu não estava bem para isso, e eu não consigo mentir para minha mãe, não queria mentir, então fui direto para o meu quarto. Coloquei o CD que já estava no computador para tocar, o que deixou tudo mais dramático. Minha trilha sonora para chorar. Era um artista desconhecido, que minha mãe gostava. Ela tinha um disco dele, que eu converti para colocar no CD. Nem eu me lembro de como, e quando, mas eram minhas musicas favoritas. Eram blues muito... Profundos.
Deitei na cama e fitei o teto. Aos poucos minha respiração foi acelerando, ficando irregular, até eu não conseguir mais respirar pelo nariz. As lágrimas que escorreram lentamente pelas laterais do meu rosto estavam quentes. Foi um choro silencioso, o mais sentido de todos. Acho que agora que a decisão foi minha é que finalmente percebi que era real. Antes eu ainda tinha uma centelha de esperança, uma chama aqui dentro que alimentava a meu coração apaixonado. Agora quem jogou um balde d’água fria naquela chama fui eu.
Eu nunca mais terei Carie em meus braços, nunca mais terei seus lábios macios nos meus. Não vou sentir seu cheiro suave de rosas, que só dava pra sentir quando estava realmente perto. Mexer em seus cabelos até a fazer dormir. Cuidar dela quando fosse preciso, e tirar sarro dela quando tivesse oportunidade. Aquilo machucava. Machucava saber disso.
Mas chega. Chega de se lamentar por isso. Ela fez a sua escolha, e eu nem ninguém poderíamos mudar o que ela sentia, e eu também tomei minha decisão. Desistir dela. Só Deus e eu sabemos o quanto me custou essa decisão.
***
Acordei com o corpo dolorido por não ter me mexido enquanto dormia. Estava do mesmo jeito, e o CD estava tocando, quem sabe por qual vez seguida.
Estava com aquela sensação de quem dormiu por muitas horas. Parecia que eu havia perdido muita coisa.
Peguei meu celular da mesinha de cabeceira, tinha uma ligação de Leslie. Liguei de volta.
– Oi Leli.
– Roland?! Por que não foi para aula?
– O que? Mas eu...
Olhei para o relógio do celular. Marcava 17h30. Eu dormi mais de 16h seguidas.
– EU DORMI DEMAIS!
– Pensei que não tinha vindo porque não quis mesmo...
Eu estava com os olhos arregalados. Por que minha mãe não me acordou?
– Espera só um pouco Leli.
– Ok...
Abri a porta do quarto e gritei pela escada:
– MÃE! POR QUE NÃO ME ACORDOU?!
– Porque eu pensei que você precisava de um tempo – disse atrás de mim, o que me fez dar um pulo e derrubar o celular no chão. – Alias, por que tá gritando? – me olhou confusa.
– Ah, sim. Porque pensei que você estivesse lá embaixo – disse envergonhado.
Peguei o celular e entrei no quarto de novo.
Leli estava rindo do outro lado da linha.
– Você ouviu?
– Sim, tudo – riu ainda mais – Acho que alguém levou um sustinho ai, hein?
– Como você é engraçadona Leslie. Enfim, perdi muita coisa?
– Olha, na verdade, sim.
Seu tom de voz foi estranho.
– O que? O que eu perdi?
– Não no colégio. Mas Carie me procurou.
– O que ela queria?!
– Não quero falar isso por telefone. Pode vir aqui?
– Já estou indo – desliguei.
Troquei de roupas e desci.
– Mãe, Leslie quer conversar. Posso ir?
– Pode. – ela estava mesmo pegando leve.
Eu que não ia reclamar.
***
Nós estávamos sentados nos pufes que ficavam no quarto de Leslie.
– O que ela queria com você?
– Ela queria que eu te dissesse que ela pede perdão. E que um dia você vai entender os motivos dela.
– O que você falou? O que você fez na hora?
– Eu só ouvi o que ela disse e sai. Você pediu pra eu não fazer nada com ela, se não eu juro pra você, eu tinha dado uns tapas nela.
Fiquei pensando naquilo por um tempo. É mesmo Carie, quem sabe um dia eu te entenda. E te perdoe. Mas não agora.
– Ah, Roland... Você não tem nem uma noção do quanto eu odeio te ver assim!
Ela fazia cafuné em meus dreads. Começou a brincar com eles. Era uma coisa que ela gostava de fazer. Ficamos em silencio por um tempo. Às vezes nossos silêncios falavam muito. Ela fazia cócegas com meus dreads na minha orelha ou nariz, e riamos. E aquele era meu momento de paz. Em meio a toda aquela dor e sofrimento, ela era quem me mantia ali, sorrindo, de cabeça erguida.
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