Fallen From The Sky
14 Vamos para Uma Casa no Meio da Floresta! O Que Poderia Dar Errado?
Notas iniciais
Nico
A caminhada era mais longa do que o esperado.
Estava muito quente lá. Em poucos minutos, eu já estava suado. Meus óculos escorregavam pelo nariz a cada dois minutos, fazendo com que eu tivesse que tirá-los para poder secar o suor. De uma coisa eu tive certeza: quando saísse dessa, eu compraria lentes de contato.
— Então... – Começou Annabeth. – Você matou um troll.
— Matei. – Sorri de canto. – Ele mexeu com a namorada do cara errado. – Encarei Thalia, que sorriu, levemente corada.
— Gente, deixa eu fotografar esse momento em que meu querido primo não ficou vermelho! – Percy falou, fazendo com que os outros rissem.
— Tá falando do que, Cabeça de Algas? Quase nem olhou para Annabeth de novo no dia do seu primeiro beijo! Aposto que nem se beijaram mais.
Percy me encarou em sinal de desafio e puxou a cintura de Annabeth, tascando-lhe um beijo quase que feroz. Revirei os olhos.
— Acho que eu ganhei.
— Não quando eu contar para ela que você também está tendo um caso com os meus óculos enquanto beija ela. – Fingi estar decepcionado. – Tsc, tsc... Isso não se faz, priminho. Tem que decidir o que você quer da vida.
Percy revirou os olhos e jogou as mãos para o alto enquanto os outros riam.
— Para com isso, cara! Eu não tenho interesse nos seus óculos!
— Tem sim.
— Não tenho.
— Tem sim.
— Não tenho!
— Tem sim! – Annabeth entrou na conversa, rindo ao ver a expressão indignada de Percy.
— Chatos. – Reclamou. Sorri novamente.
— Nunca ataque alguém que sabe se defender, Jackson... – Isabelle avisou, encarando Percy por cima do ombro. Percy revirou os olhos e deu-lhe a língua.
Thalia sorriu e olhou para cima, para saber que horas eram (cara, ela sabe as horas olhando PRO CÉU! E eu até hoje me perco nos ponteiros do meu relógio de pulso!), e seu sorriso sumiu. Ela arregalou os olhos.
— SE ESCONDAM! – Gritou quando uma forma sobrevoou o ponto em que estávamos.
— Aquilo é um...
— Grifo! – Thalia segurou meu pulso e, com uma agilidade invejável, escalou uma árvore ao nosso lado, puxando-me abaixo de si até que estivéssemos entre as folhas mais altas, bem escondidos. – Não mova um músculo. E tente respirar o mais baixo possível. Eles podem ouvir a nossa respiração.
Assenti, grudando meu corpo junto ao dela e observando o grifo voar em círculos ao redor de onde estávamos. Olhei em volta e não encontrei os outros. Estavam escondidos. O grifo dava voltas ao redor da árvore. Como se soubesse que estávamos lá. Thalia agarrou meu pulso com força. Sua respiração era tão baixa que nem parecia estar respirando. Tentei fazer o mesmo, mas sentir sua pele grudada na minha não ajudava nem um pouco.
— Saiam da minha árvore. – Ouvi uma voz feminina. Olhei para trás e vi uma garota. Ela tinha a pele muito branca. Os cabelos eram verdes, com pequenas flores rosadas entrelaçadas no mesmo. Os olhos eram de um verde quase dourado. Thalia a encarou e ficou boquiaberta. – Não ouviram o que eu disse? Saiam da minha árvore!
— Sua árvore? – Eu a encarei. – Garota, eu não vi seu nome nela.
— Meu nome? – Ela ergueu uma sobrancelha. – Queridinho, ninfas não precisam escrever nomes em árvores. Isso machuca.
Ninfas?
— Olha... – Começou Thalia. – Nos desculpe pela intromissão. Mas precisamos de um lugar para nos esconder.
— São fugitivos? – Ela arregalou os olhos. – Não abrigo fugitivos na minha árvore! Saiam daqui agora!
— Cale a boca, garota! – Rosnei. – Vai acabar nos matando.
— Garota? Eu tenho um nome, ok?
— Eu não quero saber o seu nome! – Sussurrei/gritei.
— E eu não quero vocês na minha árvore! Saiam daqui!
— É o seguinte... – Comecei. – Ou você deixa a gente ficar aqui... Ou eu juro que vou colocar fogo nessa maldita árvore!
— Nico! – Repreendeu Thalia. A ninfa empalideceu. – Olha... Não era intenção dele te ofender...
— Na verdade era. – Falei. Thalia me fuzilou com o olhar. – Desculpe.
— Olha aqui, garota. Eu agradeço por você ser educada, mas quero ter uma conversa com o garoto no momento. – Ela me fuzilou com o olhar. Bufei e ergui a manga da jaqueta, mostrando a tatuagem de Necromante em meu pulso.
Se ela era pálida, agora estava mais do que pálida!
— O... O Anjo da Terra... O Necromante. – Ela me encarou. – Eu imaginava você mais heroico. E mais educado.
Revirei os olhos.
— Apenas nos deixe ficar aqui. – Pedi. – E eu não vou mais te incomodar. Fechado?
Ela me fuzilou com o olhar. A árvore estremeceu levemente.
— Sabe muito bem que, se eu quisesse, já teria atravessado todo o seu corpo com galhos. Não sabe?
— Sei disso. E, como eu sou bonito demais para morrer, você não vai me atravessar com um galho.
Thalia me deu um tabefe. Estranhei o silêncio absoluto do lado de fora. O que está acontecendo?
— Desculpe...
— Olivia. – Disse a ninfa. – Meu nome é Olivia.
Thalia assentiu.
— Desculpe pelo meu namorado, Olivia. Nós só queremos que deixe que usemos a sua árvore como um esconderijo. Só por alguns minutos.
Olivia a encarou e sorriu docemente. Depois me encarou com um olhar de repreensão.
— Viu só? Sua namorada é um exemplo de boa educação. Você devia seguir o exemplo dela e ser um cavalheiro.
Revirei os olhos.
— Mulheres... – Levantei-me e caminhei até onde eu e Thalia estávamos antes. Thalia trocou mais algumas palavras com Olivia e a ninfa assentiu, entrando no tronco como se ele fosse feito de manteiga. Depois ela sumiu. – Como você consegue?
Thalia me encarou com um sorrisinho, afagando meu cabelo.
— Um pouquinho de paciência, Nico. Só um pouquinho de paciência... – Ela espiou por entre as folhas. – O grifo se foi. Eu acho.
Saí logo depois dela, olhando em volta.
— Fique aí. – Falei. – Vou descer.
Thalia segurou meu pulso.
— Nico... Não... É perigoso demais.
— Eu vou ficar bem, Lia. Não se preocupe.
Thalia hesitou, mas soltou meu pulso, levantando-se em seguida.
— Eu vou com você.
Neguei.
— É perigoso demais. Não quero que você se machuque de novo.
— Mas quer que eu veja você se machucar. – Rebateu. – E eu não quero ver você se machucar.
Thalia quis se aproximar, mas eu recuei, já começando a descer.
— Por favor, Thalia... Fique. – Suspirei ao ver seu rosto. Teimosia era o que se via em seus olhos. – Desculpe por isso então... – Falei. – Olivia, por favor, não deixe Thalia sair daqui.
Olivia surgiu do tronco. Tinha um sorrisinho irritante.
— Viu só? É só pedir com educação.
Thalia quis vir até mim, mas grossos galhos da árvore prenderam seus pulsos junto à cintura, incapacitando-a de sair. Os galhos a ergueram a alguns centímetros do enorme galho em que nós dois estávamos.
— Nico! – Thalia protestou. – Quando eu sair daqui, eu vou acabar com você, seu anjo da Terra míope e fajuto!
— Desculpe, Thalia... – Pedi, sorrindo levemente ao ouvi-la me ameaçar. Thalia realmente era única. – Olivia, liberte-a quando eu disser que está seguro, ok?
Olivia assentiu de onde estava. Terminei de descer a árvore e olhei ao redor. Não havia nada. Nem mesmo uma única pena do grifo.
— Acho que está seguro aq... – Antes que eu completasse, algo pesado chocou-se contra meu corpo. Gritei de surpresa ao ser arremessado de encontro ao chão e cair de bruços. – Merda!
Era o grifo. Eu reconheci pela cabeça de águia e o corpo de leão quando olhei por cima do ombro. Ele era completamente negro. Menos os olhos. Eles eram vermelhos e pareciam sedentos por sangue. Ofeguei e tentei sair. Ouvi Thalia gritar. Se eu não morresse ali, ela me mataria pessoalmente.
— Tão fácil... – Ouvi a voz de Luke. – Acho que você não está sendo bem treinado, Anjo da Terra. – Ele riu debochadamente. Seu olhar se repousou sobre Umbra, que estava na forma de um cilindro. Luke apertou o botão na base do cilindro. Nada aconteceu.
— Ela só funciona nas mãos do proprietário, idiota. – Rosnei, ainda tentando escapar das garras do grifo, que afundavam lentamente em meus ombros. Gemi baixo de dor.
Luke riu de maneira debochada.
— E acha que eu não sei? – Ele caminhou até mim, segurando meu pulso com força e pressionando o botão de Umbra contra a minha mão. Arregalei os olhos quando a lâmina de Umbra surgiu segundos depois. Luke sorriu cruelmente. – Infelizmente, ainda não posso manipulá-la da maneira correta. Nem mesmo você sabe usar todas as propriedades de Umbra. Não é merecedor dessa espada.
— Ela pertence à minha família! – Rosnei. Luke riu alto. A ponta de Umbra foi pressionada contra minha garganta, forçando-me a erguer o rosto.
— Sim, pertence. Sua mãezinha querida protegia essa espada a todo custo. E, há séculos, Lorde Cronos tenta obtê-la. – Ele pressionou mais a ponta da lâmina contra a minha garganta. Senti dor. Em seguida, um fio de sangue desceu pelo meu pescoço. – Mas eu estudei Umbra e todas as suas propriedades. Eu descobri como fazer a transferência de proprietário. E, para isso, precisarei de você com vida. Assim a espada será minha.
— Desgraçado! – Tentei me mover para atacá-lo, mas o grifo pressionou suas garras com mais força ainda contra os meus ombros. Gemi de dor. Olhei ao redor. Depois para baixo, fitando a sombra do grifo sobre a minha. Fechei os olhos com força.
Quando os abri, estava na frente do grifo. Luke me olhou em choque, deixando cair a espada. Abaixei-me e a peguei.
— Como conseguiu fazer isso?
— O que? Transformar meu corpo em sombras? – Sorri de canto, colocando-me em posição de luta. – Tive uma ótima professora.
Luke rosnou.
— Nightshade! Aquela maldita!
— A maldita está bem aqui! – Isabelle mergulhou da árvore em que estava, atacando Luke por trás. O grifo emitiu um som quase ensurdecedor e avançou para cima de mim. Coloquei Umbra à minha frente e ele desviou no último segundo. Rosnei, brandindo a espada novamente.
E consegui golpear sua asa, fazendo com que o grifo caísse. Ele já não podia voar. Ergui a espada. Ouvi Luke gritar algo que não entendi e, subitamente, meu ar sumiu. Eu simplesmente não conseguia respirar. Meus pulmões arderam. Caí de joelhos, tentando, a todo custo, recuperar meu ar. Era desesperadora a sensação de estar sem ar. Tentei puxar o ar, o que me causou dor. Minha garganta doía. Meus pulmões estavam praticamente em chamas. Pontos pretos dançavam em minha frente. Minha visão se escurecia devagar.
— Nico! – Ouvi a voz de Thalia. Estava logo atrás de mim. Olivia deixou que ela descesse?— Luke! Pare com isso!
— Faça-me parar! – Luke apenas riu de maneira debochada. E a dor em meu peito aumentou ainda mais. Agora era como se eu estivesse me afogando. Meus pulmões ardiam mais do que tudo.
Ouvi um baque. Depois um gemido de dor, que vinha de Luke. O ar voltou subitamente, fazendo com que eu tossisse. Minha visão voltou aos poucos, embaçada, mas estava de volta.
— Pelos anjos... – Ofeguei.
— Nico! – Ouvi a voz de Thalia novamente. Ela me ajudou a levantar. – Você está bem?
Tossi novamente, conseguindo recuperar o ar e a visão.
— Estou. – Respondi.
— Que ótimo. – Assim que Thalia disse isso, fui acertado por um tabefe.
— Ai! – Esfreguei o ponto onde ela bateu. – Que droga, Thalia!
— Isso foi por ter me deixado presa lá em cima! – Ela agarrou a gola da minha camiseta e eu fui surpreendido por um beijo. – E isso foi por estar vivo.
Sorri levemente.
— Que bom que sobrevivi então...
Thalia sorriu de volta e me passou Umbra.
— Vamos... Temos um Renegado para derrubar.
Meu sorriso cresceu. Peguei Umbra e terminei meu trabalho com o grifo, cravando a lâmina em seu coração. Luke rosnou e avançou para cima de mim. Bloqueei seu golpe usando Umbra e fiz um corte em seu rosto. Luke rosnou de dor e tentou me golpear novamente. Desviei da lâmina de Mordecostas-Que-Não-Morde e consegui fazer um corte fundo em seu abdômen. Corri em sua direção, pronto para golpeá-lo com Umbra, mas Luke colocou Mordecostas-Que-Não-Tem-Dentes-Para-Morder à sua frente, fazendo com que cruzássemos as lâminas. E ele segurava a sua com uma só mão. Senti uma pontada de dor, mas ignorei. Consegui desviar a lâmina da espada de Luke e cravei Umbra em seu ombro. A energia vital que explodiu da lâmina para mim era tão grande que eu senti que ia explodir se não cortasse a conexão.
— Maldito! – Luke me chutou, afastando-me dele. Depois abriu as asas. – Isso não acabou, Anjo da Terra. Eu ainda vou te matar.
E Luke levantou voo rapidamente, erguendo algumas folhas no chão com a súbita velocidade. Tossi, sentindo tontura. A dor voltou com mais intensidade. Tateei pelo meu abdômen até encontrar uma pequena faca. Pequena o suficiente para causar uma dor quase insuportável. Prendi a respiração e puxei a faca de uma vez, gemendo alto de dor quando a lâmina saiu.
— Nico! – Thalia veio até mim. – Aguente firme, Nico! Você vai ficar bem! – Ela pegou um frasco de néctar da mochila. – Você tirou o dia de hoje para se arrebentar, não foi? – Ela sorria fracamente ao me encarar.
— Ah, qual é, Grace... – Comecei. – Acha mesmo que eu vou ser derrubado por uma faquinha? Eu sobrevivi àquela espada de nome ridículo, não se lembra?
Thalia riu baixo enquanto me ajudava a levantar até que estivesse sentado. Tossi, esperando minha visão voltar ao normal, e tentei não fazer muito esforço.
— Temos que achar um lugar para que você descanse.
— Não estou cansado.
— Mas vai ficar.
Ergui as mãos em sinal de rendição.
— Ok, mamãe.
Thalia revirou os olhos com um minúsculo sorriso no rosto. Sorri marotamente e dei-lhe um selinho antes de me levantar.
— Estão todos bem? – Leo saiu de trás de uma árvore. Travis e Connor saltaram de uma segunda árvore. Connor quase se espatifou no chão, mas Katie o segurou no ar. Annabeth desceu deslizando pelo tronco de uma terceira árvore e Percy desceu desajeitadamente pela mesma árvore.
— Estamos. – Thalia ofegou.
— Melhor impossível. – Sorri enquanto me apoiava em Umbra, pegando parte da força vital que havia sugado de Luke para poder me manter de pé. Juro que só precisei de uma pequena fração. Thalia tinha razão quando disse que Luke era forte demais. Eu não era páreo para todo o poder que ele tinha.
E olhe que ele é só o comandante! Nem quero imaginar como Cronos deve ser!
— Quisemos ajudar, mas Isabelle e Katie não deixaram. – Leo nos encarou. – Elas disseram que, se algo acontecesse, precisaríamos estar vivos para ter que salvar a pele de vocês.
— Imbecil. – Ri baixo enquanto transformava Umbra novamente num cilindro e a guardava em meu bolso.
— Vamos caminhar. – Disse Thalia. – E espero que não estejamos longe da cidade vizinha.
Ninguém protestou. Apenas nos juntamos novamente e começamos a caminhar.
[...]
— Nós já nos embrenhamos na floresta para ficarmos afastados da estrada. – Disse Leo. – A essa altura, já estamos muito... – Ele arregalou os olhos. – Um pomar!
Segui seu olhar e vi várias macieiras logo à frente. Leo sorriu, comemorando, e caminhou em direção ao pomar.
— Devagar, Valdez! – Avisou Isabelle. – Não sabemos o que tem lá...
— Eu sei o que tem lá. – Falei. – Uma velhinha bondosa vendendo maçãs envenenadas.
Thalia arregalou os olhos.
— De onde você tirou isso?
— Contos infantis. Nunca ouviu a história da Branca de Neve? Da Chapeuzinho Vermelho? Cinderela? Bela Adormecida?
— Claro que já ouvi falar! – Thalia disse. – Só não sabia que eram contos para crianças! Acho muito chocantes as versões mais antigas!
Ri baixo e segui Leo e os Stoll, que já caminhavam para o pomar. Quando avistamos um chalé simples, porém espaçoso o suficiente para nós, tive uma sensação estranha. A sensação de que, velhinha vendendo maçãs envenenadas ou não, o que tinha lá dentro não era coisa boa.
Apenas ignorei essa sensação estranha e bati na porta.
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