Fallen And Found
1 Fallen And Found
Yuki andava calmamente pelo apartamento de Towa, arrumando suas coisas no armário que o baixista havia gentilmente cedido para ele. Parando por um momento para se abanar e tentar ignorar o calor que fazia naquele mês de julho, o ex-herdeiro da família Toudou acabou prendendo seu longo cabelo roxo em um rabo de cavalo baixo, como usava geralmente nos seus antigos ensaios de Noh. Cruzando o quarto novamente até a sala onde mais caixas esperavam por um destino, o líder da banda que havia ficado em segundo lugar no concurso de Tokyo se deu alguns segundos para observar a paisagem do lado de fora da janela do apartamento, aproximando-se do vidro e fazendo com que o mesmo ficasse levemente enevoado por causa da sua respiração tão próxima àquela superfície gelada, mesmo no calor infernal.
Era interessante ver o mundo de cima. Durante toda a sua vida, Toudou Yukifumi havia morado em uma casa, a visão da sua janela no nível dos seus olhos e próxima dele, distante apenas alguns passos. Agora, do apartamento de Towa, a realidade parecia mais longe e até mesmo mais cruel para com ele. Ou talvez essas impressões fossem causadas pela recente derrota no torneio, aliada à sua expulsão de casa. O jovem fez uma careta inconscientemente quando se lembrou de que ele havia colocado quase tudo a perder quando não tomou as decisões que queria verdadeiramente e foi para Kyoto. Ele ainda se lembrava do jeito que o terno que seu pai o havia obrigado a vestir o apertava na viagem de avião, o modo como o leque parecia pesado demais para ele; não por conter todas as suas memórias e sim porque era o símbolo do abandono de um sonho. Suspirando e abaixando-se para pegar mais uma caixa, Yuki olhou o relógio e estranhou a demora de Towa; o baixista não havia especificado o que ele iria fazer pela cidade e o líder do Λucifer sabia que simplesmente não lhe cabia perguntar; estar morando ali enquanto não arrumava um lugar para ele mesmo já era um grande favor e o loiro certamente dispensaria invasões de privacidade. Sendo assim, ele decidiu desejar um bom passeio a Towa e organizar suas coisas. Dobrando suas roupas no armário, Yuki só interrompeu suas tarefas quando encontrou uma camisa que Atsuro havia se queixando de ter perdido, rindo sozinho ao constatar que o outro guitarrista era muito desligado, como vinha dizendo sua irmã há tempos. Voltando para a sala a fim de deixar a peça de roupa junto com sua guitarra para devolvê-la no próximo ensaio, o jovem de cabelos roxos correu em seguida para uma mesa, onde seu celular estava tocando. — Moshi moshi. — Sou eu. Detalhes nunca eram necessários depois daquela frase, feita na voz que ele melhor conhecia naquele mundo. — Boa noite, Sakuya. — Eu preciso da sua ajuda. O guitarrista ergueu as duas sobrancelhas do outro lado da linha, uma profunda expressão de descrédito no seu rosto. Desde quando Sakuya falava qualquer coisa parecida com \\"precisar de ajuda\\"? — Como assim? — O que você ouviu. Quero descobrir o que está faltando na música. — Ah, sou desu. Então o vocalista do Λucifer estivera pensando desde o final do concurso no motivo que os havia levado à derrota... Bem, não à derrota, mas ao segundo lugar. Que, para Sakuya, provavelmente tinha um gosto bem amargo, assim como para todos eles. — O que quer fazer, então? — Eu vou até onde você está. — o vocalista se adiantou, sua voz não dando margens à contestações e desligando. Yuki suspirou, olhando para o celular na sua mão e colocando-o de volta sobre a mesa. Examinando a sala, ele achou melhor só levar as caixas para o quarto e empilhá-las em algum canto, deixando o ambiente de visitas mais apresentável. Assim que tinha livrado a sala dos seus pertences, ele recolocou a mesa no centro e ajeitou as almofadas, trazendo sua guitarra para perto de onde sentariam e deixando que ela descansasse contra uma das paredes. Andando de um lado para o outro no pequeno apartamento de Towa, o homem de cabelos roxos não percebeu que garoava suavemente do lado de fora, ocupado em trocar de roupa. Era só Sakuya que estava vindo, mas não havia justificativa para se apresentar com as roupas velhas de ficar em casa que ele estava trajando no momento. Rapidamente, o ex-herdeiro da família Toudou tirou seu shorts e camiseta, dobrando-os e colocando os mesmos para dentro do armário e depois vestindo uma calça preta, simples e mais folgada na barra, apanhando depois uma camisa azul-claro. Yuki estava apenas com um dos braços dentro da camisa quando a campainha soou, fazendo com que ele corresse para a porta, dando dois passos para trás a fim de conseguir espaço antes de abri-la. Sakuya estava do lado de fora, o capacete que usava quando andava de moto na sua mão direita. Os olhos de Yuki notaram alguma coisa nas roupas pretas do vocalista que era mais evidente do que no pedaço de abdômen exposto: água. Pedindo para que o outro entrasse rapidamente, o guitarrista foi buscar uma toalha para o outro homem, sabendo que a última coisa que eles precisavam era de Sakuya sem voz.
— Não tinha percebido que estava chovendo... — comentou o líder da banda, ao voltar para a sala e estender uma das suas toalhas para o outro, sentando-se ao lado do mesmo logo em seguida. — Só está garoando. Não molhou as letras. — Sakuya replicou, enxugando o seu top preto e logo depois sua barriga absurdamente invejável, os olhos escuros do guitarrista seguindo o movimento da toalha sem que ele percebesse até o outro falar de novo — Você estava no banho ou alguma coisa assim? Piscando, Yuki percebeu que ainda tinha sua camisa azul aberta, murmurando uma desculpa junto com uma negação: — Iya, iya. Eu estava terminando de fazer a minha mudança enquanto Towa não estava aqui. Mas já faz bastante tempo que ele saiu... — o ex-herdeiro dos Toudou comentou distraidamente, abotoando o final da sua camisa enquanto Sakuya observava os gestos do ator de Noh veladamente, colocando a toalha ao seu lado. Ele nunca havia visto Yuki com o cabelo preso daquela maneira antes. O guitarrista rolou as mangas da camisa para cima, apoiando o cotovelo na mesa: — Vamos ao serviço, então... — ele murmurou, abrindo suas próprias cópias de Datenshi BLUE na mesa e tirando a guitarra da sua capa protetora, dedilhando as primeiras notas da melodia — Não achou nada na letra que pudesse ser o motivo? — Iie. Senão não teria vindo até aqui. Yuki deu de ombros. — Parece razoável. Também não sei o que aconteceu... — o outro murmurou, colocando a guitarra em uma posição mais confortável e olhando fixamente para a letra, sua visão periférica registrando que Sakuya fazia o mesmo com as folhas que tinha tirado do seu bolso. Silêncio caiu sobre a dupla enquanto ambos trabalhavam. Yuki havia repassado as linhas dos instrumentos, e não tendo encontrado nada, suspirou antes de encarar Sakuya da sua posição: — Você acha que perdemos o primeiro lugar porque... Eu cheguei atrasado? O vocalista não respondeu de imediato, olhando para a folha que tinha à sua frente por mais alguns momentos antes de encarar o líder da banda, seus olhos se estreitando um pouco enquanto examinava a figura do homem de cabelos roxos. Yuki tinha um grande controle sobre suas emoções, movimentos corporais e expressões faciais, de modo que era complicado ler o semblante do ator de Noh. No entanto, Sakuya tinha um dom definitivo para decifrar pequenos sinais de todas as naturezas, e conseguia enxergar os pequenos traços de culpa e remorso no belo rosto do guitarrista. Curiosamente, o fato dele usar os cabelos presos naquele momento ajudava. O vocalista deixou seu corpo cair para trás, apoiando-se nos seus braços e encarando o teto branco do apartamento de Towa, expondo as curvas do seu abdômen para o outro. Ainda olhando para cima, ele moveu seus lábios para falar: — Talvez pudéssemos culpar você se você não tivesse chegado a tempo. Os olhos de Yuki se arregalaram ligeiramente com o modo que Sakuya havia falado. Deixando a cabeça pender para a direita, ele apoiou o seu queixo na mão daquele mesmo lado do corpo, pensativo. — Eu acho que tudo isso poderia ter sido evitado se eu tivesse sido mais firme e dito ao meu pai logo de início o que eu queria. Os olhos azuis-safira de Sakuya de repente estavam na figura do guitarrista, embora ele não tivesse se mexido muito, apenas o suficiente para encarar o outro homem da sua posição mais relaxada. Aquela atitude era quase típica de Yuki: chamar para si os problemas da banda de modo a não sobrecarregar os outros. — Você fez o que achava certo e não deveria se culpar por isso. O líder do Λucifer quase se assustou quando a figura do vocalista ficou mais próxima dele, o corpo de Sakuya repentinamente inclinado para a frente e fazendo sombra na mesa e nas folhas de papel. Os olhos azuis dele, no entanto, faiscavam de um jeito que Yuki até então só havia visto em shows. O homem de cabelos roxos sentiu seu queixo cair um pouco com aquela atitude que era o mais próximo de altruísta que Sakuya demonstraria na frente dele. Piscando, ele concordou com a cabeça, olhando para as suas mãos antes de procurar os olhos azuis do outro: — Arigatou, Sakuya. — Não fiz nenhum favor para você me agradecer, Yuki. O outro sorriu, entendendo o que estava por detrás das palavras do vocalista da banda; já fazia um tempo que ele e os outros, talvez excluindo Santa, haviam aprendido a entender o jeito peculiar do mestiço de japonês com americano se expressar. — Como foi a mudança? Yuki teria caído se não estivesse sentado, pelo simples fato de Sakuya ter iniciado um tópico de conversação por livre e espontânea vontade. Engolindo a surpresa e voltando ao normal, ele correu uma das suas mãos pelos fios brilhantes de cabelo roxo, soltando o mesmo e balançando a cabeça para ajeitá-lo melhor. O guitarrista não percebeu, mas as safiras que cumpriam a função de olhos para Sakuya seguiram o movimento daqueles fios, transfixadas. Havia alguma coisa... Alguma coisa de diferente em Yuki. Além da sua óbvia nobreza, delicadeza e talento, tinha mais alguma coisa que ele simplesmente não sabia classificar e que encantava a ele e ao público dos shows. — Acho... Que ela está sendo pior para Towa que para meu pai. Ele tem mais problemas me aturando aqui do que meu pai provavelmente teve ao me expulsar de casa... — o guitarrista comentou, terminando sua frase com um suspiro triste. O vocalista trocou de posição, desconfortável. Ele não sabia como consolar pessoas ou agir direito nessas situações, embora ele acreditasse que a situação de Yuki pudesse ser pior que a dele em alguns aspectos; talvez fosse mais dolorido ter seu pai expulsando você do que perdê-lo para o álcool. — De qualquer jeito, não é nada que não passe. Tudo há de ficar bem. — Yuki sorriu de uma forma que era assustadoramente confiante e tranqüilizadora, mesmo sabendo que o futuro para eles ainda era incerto depois da derrota no concurso. Sakuya mordeu o lábio inferior, voltando a ler cada palavra escrita da própria música que havia composto. O mesmo fez o guitarrista, mas por algum motivo, quando ele olhava para o papel e as letras pretas, ele via os olhos faiscantes de Sakuya. Aquele azul tão intrigante e único nele, que sem dúvida prendia a atenção de cada pessoa que assistia um show e... Azuis. Olhos azuis. \\"Azul é a cor da solidão congelada\\", ou assim proclamavam os kanjis que dançavam na frente dos seus olhos. Olhando a letra desde o início, Yuki arregalou os olhos ao ver as semelhanças entre Sakuya e a própria letra, desde o fato dele ser \\"metade anjo e metade demônio\\" quando era mestiço de japonês com americano até o trecho que dizia que \\"o futuro só irá trazer tristeza\\", o que era basicamente a regra número um de Sakuya até ele encontrar na música um objetivo. E depois... \\"Os olhos cheios de lágrimas são azuis\\". — Sakuya... É você o anjo caído? O vocalista ergueu o rosto devagar, piscando ao fitar a face cheia de determinação do líder da banda. De repente, ele entendeu que era aquilo que o havia fascinado até então que ele não conseguira nomear: determinação. O homem de cabelos roxos era certamente a pessoa mais tenaz que ele conhecia, e ele nem estaria ali discutindo letras de uma música da sua banda com Yuki porque... Sem Yuki, simplesmente não haveria Λucifer. Fora ele que o descobrira no hotel, assim como também havia sido o ex-herdeiro da família Toudou que havia exercido toda a sua persuasão, algumas vezes beirando o inconveniente, para que ele se juntasse ao grupo. De fato, a presença do guitarrista foi definitiva para a construção de tudo. — É você na letra, não é? A voz calma do outro homem soou novamente no aposento, porém mais baixa e quase melancólica dessa vez. Sakuya desviou os olhos de Yuki e moveu-os para a folha que tinha à sua frente com as palavras que ele mesmo havia escrito há tanto tempo, olhando para a parede branca do outro lado da sala em seguida. — Talvez eu seja... O que faz de mim o vocalista perfeito para o Λucifer. O homem de cabelos roxos sorriu de leve ao ouvir o outro dizer isso, mesmo que o seu gesto não fosse percebido. Ele mesmo então deixou seu corpo cair para trás, do mesmo jeito que Sakuya havia feito antes. — Então eu sei porque não ganhamos aquele concurso. Porque se é de você que fala a música, a partir do momento que você deixou de ser sozinho no mundo... A letra não era mais verdadeira e você não conseguia se expressar como antes. Os olhares dos dois homens se encontraram de novo, e Yuki viu de novo a intensidade de momentos antes, uma luz naqueles olhos incomuns que fazia com que você tivesse vontade de se afogar nos mesmos ou ser envolto por aquele sentimento tão forte até o ponto de você não conseguir mais respirar.
— Você não está mais sozinho, Sakuya. — completou o líder da banda lançando seu corpo de volta para a frente e apoiando sua cabeça nas duas mãos, sorrindo. Piscando por um momento, Yuki ficou realmente surpreso quando sentiu a boca do vocalista contra a sua, insinuando-se firmemente antes que a língua de Sakuya deslizasse por entre os lábios do outro e abusasse gentilmente do guitarrista. O beijo terminou tão rápido quanto havia começado, Sakuya ficando de pé e reunindo as suas cópias da música para colocá-las de volta ao bolso. Apanhando o seu capacete que havia ficado no tatami, próximo deles, o vocalista se virou para o líder da banda e deu um pequeno sorriso. — Eu ainda vou descobrir como você faz isso... — Isso? — Yuki repetiu, ainda sentindo o gosto provocador que era Sakuya nos seus lábios, ligeiramente atordoado porém no entanto... Agradavelmente surpreso. Havia sido um ato no estilo do vocalista: rápido, intenso e inesperado. — Sim. Essa coisa de ser perfeito. Yuki riu e também se levantou, ajeitando sua camisa por costume enquanto andava atrás do outro para abrir a porta e permitir que ele saísse: — Simples... Se eu criei Lúcifer, significa que eu sou Deus. E Deus é teoricamente a única criatura perfeita. Puxando Sakuya pelos anéis da calça do mesmo que permitiam a passagem de um cinto, ele iniciou um segundo beijo, dessa vez tomando todas as liberdades e experimentando o outro. O vocalista piscou várias vezes quando tudo terminou, parecendo aturdido mas nada incomodado. O brilho dos seus olhos ainda estava lá, ainda mais intenso. Despediram-se rapidamente e voltaram aos seus afazeres de antes. O homem de cabelos roxos, no entanto, sentia que muito em breve Sakuya apareceria com uma nova música para eles tocarem, que com certeza os levaria ao primeiro lugar. Porque ninguém consegue chegar ao topo sozinho. Mas o obstáculo da solidão... Ah, esse já havia sido superado.FIM
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