Fallen
4 Capítulo 4
Vitor estava parado na porta de casa, com os braços cruzados e o pé na parede. Ele estava com uma regata branca, bermuda jeans e chinelos. Ele viu o carro na garagem, por isso não entrou. Ele e minha mãe se conheciam, mas ele não se dava bem com ela, dizia que ela desconfiava dele, mas quando eu perguntava o porque ele mudava de assunto, então não dava mais importância.
Me aproximei dele.
— Oi – ele me disse e deu um beijo em minha testa.
— Oi – retribui o sorriso e peguei sua mão, puxando-o junto comigo para dentro de casa.
Entrei em casa e o puxei atrás de mim.
— Alice? – gritou minha mãe, ela deveria estar no quarto – É você?
— Sim mãe! Estou com o Vic! – gritei de volta.
— Ah, olá Victor. Como vai?
— Olá Sra. Price, vou muito bem e a senhora?
— Vou bem, mas você não precisa me chamar de senhora, já não combinamos sobre isso?
— Tudo bem, me desculpe, ham... Claire – revirei os olhos e o puxei até meu quarto.
Tranquei a porta logo atrás de mim. Quando me virei, Victor estava sentado em minha cama, deu um tapinha no sugar ao seu lado, me convidando a sentar. Deu um suspiro e fui até ele.
Victor levantou meu queixo até que eu o olhasse.
— Victor nós precisamos...
— Shhh – ele me cortou e prensou seus lábios contra os meus, no começo foi suave, mas rapidamente seus lábios ficaram mais vorazes, puxando meu corpo contra o dele. Como sempre, seus lábios me desconcentravam. Seu beijo sempre havia sido quente, prazeroso e reconfortante, mas desta vez havia algo faltando. Amor.
Será que eu havia deixado de ama-lo? Não sei.
Com a mão em seu peito, me afastei.
— Victor, temos que conversar, é sério.
— Então diga, sou todo ouvidos – disse ele me dando um sorriso enquanto apertava minha cintura. Isso só tornava as coisas mais difíceis.
— Olha, Vic, isso não é fácil para mim, mas creio que não seja também para você – suspirei – Eu... Eu... Quero um tempo.
— Como disse? – disse ele com os olhos arregalados.
— Eu quero um tempo Vic, eu preciso de um tempo – mordi o lábio – olha, não é que eu não goste mais de você... É que, eu só não sei mais o que estou sentindo, estou confusa! Você me entende?
Ele me olhou como se estivesse com raiva e ao mesmo tempo como se tivesse acabado de levar um tiro.
— Eu... Eu... – Victor se levantou, se virou para me olhar, ele estava prestes a chorar, era isso? Eu nunca havia visto tanta dor em seus olhos, aquilo quase me fez repensar, porque assim como ele, meu coração também estava partido.
Victor foi até a janela e logo em seguida voltou com as mãos nas costas.
— Fique com isto – e me estendeu uma tulipa vermelha, não eram as minhas preferidas, mas ele sabia que eu as admirava por simbolizar o amor verdadeiro.
— Vic, eu...
Ele destrancou a porta do quarto e saiu. Olhei para a flor e não pude resistir, joguei-a sobre a cama e corri atrás dele.
— Victor! Espere! – gritei desesperada, a porta estava escancarada – Victor! – sai desesperada, mas ele já havia desaparecido na multidão de turistas e moradores locais a beira da praia.
Voltei para casa. Acho que tem horas que as mães são videntes, pois assim que fechei a porta, mamãe veio me abraçar. Não sei o que estava acontecendo, fora eu quem decidira pedir um tempo, fora eu quem tomara essa decisão, porque era tão difícil?
Mamãe me arrastou até meu quarto, deitou comigo na cama e ficou me fazendo cafuné, sem dizer uma só palavra. Era reconfortante e irritante ao mesmo tempo. Reconfortante porque eu sabia que ela estava ali para me apoiar e irritante porque ela não me dizia nada para me fazer sentir melhor. Mas depois de tanto chorar, acabei adormecendo.
No outro dia, acordei com os olhos inchados da noite anterior.
Mamãe estava na cozinha preparando seu café da manhã para mais um dia de trabalho.
— Bom dia meu anjo – disse ela quando me viu entrando pela cozinha – quer ovos mexidos também?
Assenti com a cabeça. Sentei-me na mesa redonda de vidro no centro da cozinha enquanto ela servia o café da manhã. Ainda estava um pouco sonolenta e triste. Seria uma boa ir na praia novamente para esfriar a cabeça. Mamãe me acordou do transe quando disse:
— E então? Quer me contar o que aconteceu ontem?
Balancei a cabeça, mas mesmo assim falei:
— Pedi um tempo. Ele saiu chateado e eu mais chateada ainda por ele estar chateado.
— Entendo querida, — mamãe assentiu – também já passei por esta fase.
Enquanto tomávamos o café abordei-a com o assunto ‘escola’.
— Mamãe, eu quero ir estudar na escola Primer.
Ela se engasgou com o suco de laranja e tossiu por um momento. Quando finalmente se recuperou, ficou alguns segundos paralisada me encarando. Encarei-a de volta enquanto esperava uma resposta.
— Então quer dizer que você quer estudar na Primer? – assenti – tem certeza minha filha?
— Tenho sim mamãe – a fitei, um pouco desconfiada – o que tem de errado lá?
— Nada, nada mesmo – disse ela rapidamente – é uma boa escolha, aposto que você se daria muito bem lá.
— Bem, em seu horário de almoço, poderíamos sair para ver a escola – abri um sorriso para que ficasse mais convincente a minha felicidade.
— Tudo bem então – mamãe deu um risinho um pouco nervoso e bebeu seu suco novamente, percebi que suas mãos estavam tremendo um pouco, mas não questionei. Queria mesmo era observá-la.
Faltavam três horas até o horário de almoço de mamãe. Me arrumei rapidamente, uma roupa adequada para ir a praia e ao mesmo tempo para ir ao shopping, shorts, uma regata preta e meus All Star pretos inseparáveis. Peguei meus óculos de sol que havia deixado jogado no chão da sala no dia anterior e fui à praia. Na esperança de encontra-lo.
Encontrar quem? Eu não sei. Victor ou Gabriel?
Qualquer um dos dois. Porém quando percebi, estava caminhando em direção a parte da praia onde Gabriel ficava. Então era para lá que eu iria.
Eu o vi saindo da água e logo fui em sua direção.
Quando me viu abriu um grande sorriso.
— Não diria que é mais uma coincidência nos encontrarmos novamente aqui – ele veio em minha direção com a intenção de me abraçar, mas me afastei rapidamente.
— Não encosta em mim. Eu aceitei sua oferta. Vou estudar com você este ano – antes que eu pudesse terminar de falar ele já estava me girando no ar, seus braços contra as minhas costas me traziam uma sensação de conforto e formigamento. Era tão bom sentir o toque dele, mas éramos somente amigos, não éramos? De qualquer modo, era ótimo ver aquele sorriso que me deixava com as pernas bambas – hoje a tarde vou à escola com minha mãe e acertaremos tudo.
— Isso é perfeito! –disse ao me colocar no chão.
— Ah, que bom que você gostou, mas acho que minhas roupas não estão muito felizes – dei de ombros enquanto ele sorria.
— Desculpe.
— Mas e então, tudo bem com você?
Fechei a cara e despenquei na areia.
— Quer conversar sobre isso? – assenti e ele se sentou ao meu lado – É o seu namorado não é?
— Sim – disse com a voz falhando, meus olhos se encheram de lágrimas – Demos um tempo. E ele se foi sem nem se despedir. Foi... Doloroso.
Gabriel me abraçou. Seu abraço era quente e aconchegante e sem que ele dissesse uma única palavra percebi que tudo ficaria bem. Senti o calor daquele braço por todo meu corpo, esquentando meu coração gelado. Ficamos por um longo tempo, abraçados sem dizer uma palavra.
— Obrigada – sussurrei.
— Obrigada pelo que? Eu não fiz nada – disse ele um pouco confuso.
— Pelo abraço.
— Ah, mas é só um abraço, não é nada de mais – disse ele dando de ombros.
— As vezes um abraço vale mais que mil palavras.
— Um beijo também vale mais que mil palavras – Gabriel inclinou sua cabeça em direção a minha, seus maravilhosos e brilhantes olhos cinzas me fitavam e nossos lábios se encontraram. Vi várias imagens em minha mente, um casal abraçados, um anjo, guerras e mais anjos, por todas as partes. Mas tão rapidamente como ai imagens entraram saíram de foco. Estava hipnotizada pelos seus lábios, eles eram quentes e doces, suaves, era um beijo acolhedor. Seus lábios se moviam lentamente, perfeitamente com os meus, como se houvessem sido feitos um para o outro.
Quando nos afastamos, senti como se o mundo ao meu redor tivesse desaparecido. Éramos só eu e Gabriel agora.
Meu celular vibrou no bolso de trás do shorts. Mamãe havia mandado uma mensagem.
“Estou chegando em casa para te buscar.”
— Tenho que ir – me virei para Gabriel que estava sorrindo.
— Não vá! – ele tentou segurar meu braço, parecendo ficar triste de repente.
— Se quiser que eu realmente estude com você, é melhor me soltar.
Mesmo relutante ele aceitou.
— Espere! – quando me virei, Gabriel estava segurando uma peônia branca, fiquei espantada, como ele sabia que aquelas eram minhas flores prediletas? Fui puxada rapidamente pela cintura para mais um beijo, desta vez fora rápido e com uma tristeza de despedida. Aquilo me cortou o coração. Queria ficar ali e passar mais um tempo com ele.
Me virei para acenar um último adeus. E no caminho para casa, só conseguia pensar no beijo e no que aquelas imagens representariam.
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