Quando percebi que já estava chegando a casa, comecei a caminhar lentamente, sem pressa nenhuma de chegar, até que o vi. Victor, parado perto de um coqueiro em frente a minha casa. Assim que ele me vê corre até mim. Parei. Victor me deu um grande e reconfortante abraço, mas eu não o retribui.

— Por onde você esteve? Fiquei preocupado.

— Em lugar nenhum – disse com indiferença, quem me devia satisfações era ele.

— O que acontece Ali? Por que está assim? Agora quem não quer conversar é você – disse-me ele preocupado, achei estranho essa mudança repentina de comportamento dele, mas eu estava cansada de tanto andar então não quis perguntar.

— Só quero descansar – disse e comecei a andar para casa, mas ele pegou meu braço e me girou até ficarmos frente a frente.

— Ei, o que esta havendo? Por que não quer falar mais comigo?

— Me dê um tempo está bem? Só quero um tempo.

Victor me soltou e eu fui andando em direção a casa. Ele me olhou atordoado, quase como se estivesse com medo.

— Amanhã eu venho para conversarmos, desta vez, eu prometo – disse ele, acho que mais para si mesmo do que para mim.

— Tudo bem. Tanto faz – dei de ombros e entrei em casa.

Me joguei no sofá e respirei profundamente. Talvez fosse aquilo de que eu estava precisando. Um tempo. Será que ele aceitaria? Teria de aceitar. Respirei mais uma vez. Olhos cinzas. De repente me senti tonta e passei a ver olhos cinzas em todas as partes. Gabriel. Ele parecia ser um cara legal, atencioso, gentil, mas eu havia acabado de conhece-lo! Por que estava pensando nele? Eu tinha namorado. Mas eu não conseguia tirar aqueles olhos cinzentos de minha cabeça, eram lindos. Eu tinha a impressão de conhecer Gabriel de algum lugar. Será que eu já havia o visto na praia? Talvez.

— Ali! – cantarolou minha mãe e colocou a cabeça na porta da sala para que eu pudesse vê-la – Por que você não vem aqui ajudar sua linda mamãe a se arrumar em? – disse ela piscando freneticamente fazendo-a parecer uma criança pidona – Venha até aqui por favor.

Levantei do sofá de má vontade, mas era minha mãe, eu tinha que ajuda-la.

— Mais um encontro mãe? Ou uma reunião do trabalho? – desde que me entendo por gente, mamãe vivia marcando encontros pela internet, até porque eu não cheguei a conhecer meu pai, mamãe disse que em uma manhã de sol, quando eu tinha um ano de idade ele simplesmente arrumou as malas e se foi. Se bem que eu nunca acreditei nessa história, sempre achei que ela estivesse me escondendo algo mais por trás disso.

Ela disse que havia conhecido papai com dezoito anos e dois anos depois, me teve. Por mais que mamãe só tivesse 37 anos, tinha cara de ser mais jovem. Sempre a achei linda e... pelo visto muitos outros caras também. Ela vivia tendo encontros, mesmo que as escondidas, eu ficava sabendo da maioria.

— Sim Ali, um encontro, mas desta vez é um encontro duplo! Vou com uma colega do trabalho. Ai ai – mamãe suspirou, mas eu não soube identificar se era de ansiedade ou cansaço.

Ajudei-a a arrumar o cabelo, liso, solto e com franja caída para o lado esquerdo. Ela usava um vestido preto colado no corpo, com alças e uma sandália preta com um pequeno salto. Mamãe sempre se vestia bem, estava sempre bonita e radiante.

Alguém buzinou na frente de casa. Mamãe foi correndo pegar sua bolsa de mão.

— Se cuide dona Clarie! – gritei sorrindo.

Ela correu em minha direção e me deu um beijo na testa.

-Se cuide filha!

Fui atrás dela e a observei entrar no carro e se despedir mais uma vez com um aceno de cabeça.

Assim que o carro partiu fechei a porta e fui para meu quarto. Deitei-me para pensar um pouco, nunca entendi o porque ela não gostava de falar no papai, sempre soube que ele era lindo, jovem e se chamava Jason, mamãe nunca dizia mais nada sobre ele, quando eu tocava no assunto seus olhos se iluminavam, mas rapidamente seu rosto se fechava, ela dizia que foi o único homem realmente importante de sua vida e que não se arrependia de nada, só não queria tocar no assunto, minutos depois eu sempre a via cantarolando na cozinha, mais feliz do q estivera minutos antes. Fiquei um tempo deitada imaginando como ele seria, mas o cansaço me dominou e me arrastou para a escuridão.