Fallen

2 Perfeitos Estranhos - 1


Perfeitos Estranhos — 1


Sakura movimentou-se pesadamente para dentro de uma sala iluminada com lâmpadas fluorescentes do Colégio Sword & Cross dez minutos depois do que ela deveria. Um acompanhante com peito em formato de barril, bochechas vermelhas e uma prancheta presa sobre bíceps de ferro já estava dando ordens – o que significava que Sakura já estava atrasada. – Então se lembrem: são remédios, camas e vermelhos² – O acompanhante latiu para um grupo de três estudantes, todos de costas para Sakura. – Se lembrem do básico e ninguém se machuca – . Sakura escorregou rapidamente para trás do grupo.

Ela ainda estava tentando descobrir se ela tinha preenchido a gigante pilha de papel corretamente, se esse guia de cabeça raspada parado na frente deles era um homem ou uma mulher, se havia alguém para ajudá-la com sua enorme bolsa de tecido, se seus pais iriam se livrar de seu amado Plymouth Fury no minuto que eles chegassem em casa, depois que a deixaram ali.

Eles vinham ameaçando vender o carro durante todo o verão, e agora eles tinham uma razão que Sakura não poderia argumentar contra: ninguém podia ter um carro na nova escola de Sakura. Sua nova escola reformatória para ser preciso.

Ela ainda estava se acostumando com o termo. – Você poderia, hum, você poderia repetir isso? – Ela perguntou para o acompanhante. – O que era, remédios –

– Bem, olhe o que a tempestade trouxe, – o acompanhante disse em voz alta, então continuou, enunciando devagar. – Remédios. Se você é um dos alunos medicados, é onde você deve ir para manter-se dopada, sã, respirando, ou seja, lá o que for. – Mulher, Sakura decidiu, estudando a acompanhante. Nenhum homem poderia ser malicioso o suficiente para dizer tudo isso nesse tom de voz sacarina.

– Saquei. – Sakura sentiu seu estômago agitar-se – Remédios – .

Ela tinha se desligado dos remédios por anos agora. Depois do acidente no verão passado, Dr. Sanford, seu especialista em Hopkinton – e a razão de seus pais a mandarem para internatos lá em New Hampshire – havia considerado medicá-la mais uma vez. Embora ela o tenha convencido de sua quase estabilidade, isso a fez ter um mês extra de análise da parte dela, só para ficar longe daqueles terríveis antipsicóticos.

Este era o motivo pelo qual ela estava se registrando em seu último ano no Colégio Sword & Cross um mês depois das aulas começarem. Ser aluno novo já era ruim o suficiente, e Sakura estava muito nervosa para entrar em turmas onde todos já estavam fixados.

Mas pelo que parecia depois de sua excursão, ela não era a única novata chegando aquele dia. Ela deu uma olhadinha furtiva para os outros três alunos em meio círculo em volta dela. Em sua última escola, Dover Prep, na excursão pelo campus foi onde ela achou sua melhor amiga, Ino.

Em um campus onde todos os outros estudantes foram praticamente desmamados juntos, isso havia sido o suficiente que Sakura e Ino fossem às duas únicas crianças sem legado. Mas não demorou muito para elas perceberem que tinham a mesma obsessão pelos mesmos filmes antigos – especialmente os relacionados com Albert Finney. Após a descoberta delas no primeiro ano enquanto assistiam Two for the Road que elas não podiam fazer um saco de pipoca sem ativar o alarme de incêndio, Ino e Sakura nunca mais se separaram. Até... Até que elas tiveram que se separar.

Do lado de Sakura hoje havia dois caras e uma garota. A garota era bem fácil de enturmar, loira e com a beleza de comercial de Neutrogena*, com unhas feitas na cor rosa-pastel que combinava com sua pasta de plástico.

– Eu sou Shion, – Ela falou lentamente, lançando a Sakura um grande sorriso que desapareceu tão rápido quanto surgiu depois que Sakura não disse seu próprio nome. O desinteresse da menina lembrou-lhe mais uma versão sulista das meninas da Dover do que alguém que ela esperava na Sword & Cross. Sakura não conseguia se decidir se isso era reconfortante ou não, ainda mais imaginar o que uma menina como aquela fazia numa escola reformatória.

Á direita de Sakura havia um garoto com cabelo castanho curto, olhos castanhos e sardas em volta do nariz. Mas o jeito que ele não olhava nos olhos dela, escolhendo cutucar a cutícula de seu polegar, deu a ela a impressão de que ele provavelmente estava atordoado e com vergonha de encontrar-se aqui.

O garoto à sua esquerda, por outro lado, preenchia a imagem da Sakura deste lugar um pouco perto perfeitamente demais. Ele era alto, magro e musculoso, com uma bolsa de DJ a tiracolo, cabelo ruivo desgrenhado, e grandes e profundos olhos marrons avermelhados. Seus lábios eram carnudos e de um rosa natural que muitas garotas matariam para ter.

Na parte detrás de seu pescoço uma tatuagem preta com formato de nuvem parecia quase brilhar em sua pele clara, levantando-se a partir da borda de sua camiseta preta.

Diferente dos outros dois, quando esse cara se virou para encontrar seu olhar, ele o segurou e não deixou soltar.

Sua boca foi definida em uma linha reta, mas seus olhos eram quentes e vivos. Ele a contemplava, de pé como uma escultura, que fez Sakura se sentir enraizada em seu lugar também. Aqueles olhos eram intensos e sedutores, e bem, um pouco desarmantes.

Com um pigarro alto na garganta, a acompanhante interrompeu o transe. Sakura corou e fingiu estar muito ocupada coçando a cabeça. – Aqueles que entenderam o funcionamento são permitidos a sair depois que deixarem aqui seus pertences de risco –

A acompanhante apontou para uma grande caixa de papelão sob uma placa que dizia em grandes letras pretas MATERIAIS PROIBIDOS.

– E quando eu digo livre, Idate – — ela fechou a mão para baixo no ombro do garoto sardento, o que o fez pular. – Eu quis dizer limites do ginásio para encontrar o estudante predestinado para ser seu guia. Você – — ela apontou para Sakura – despeje seus pertences e fique comigo –

Quatro dos estudantes se juntaram em volta da caixa e Sakura assistiu perplexa, como os outros alunos começavam a esvaziar seus bolsos. A menina puxou um canivete suíço rosa de sete centímetros. O cara de olhos “vermelhos” relutantemente sacou uma lata de spray de tinta e um estilete. Até o infeliz Idate teve de deixar várias caixas de fósforos e um pequeno recipiente de fluído de luz. Sakura se sentiu quase estúpida por ela mesma não estar escondendo nada perigoso – mas quando ela viu os outros depositarem seus celulares dentro da caixa, ela engoliu em seco. Inclinando-se para ler a placa de MATERIAIS PROIBIDOS mais de perto, ela viu que celulares, pagers e todos os dispositivos de rádios bidirecionais estavam estritamente proibidos. Já era ruim o suficiente que ela não poderia ter o seu carro! E agora isso!?

Sakura fechou a mão suada em torno do celular em seu bolso, sua única ligação com o mundo exterior.

Quando a acompanhante viu a expressão em seu rosto, Sakura recebeu pequenos tapinhas na bochecha. – Não desmaie comigo, querida. Eles não me pagam o suficiente para fazer ressuscitação. Além disso, você tem direito a uma ligação telefônica por semana no átrio principal. – Uma ligação? Por semana? Mas –

Ela olhou para seu telefone mais uma vez e viu que havia recebido mais duas mensagens de texto. Não parecia possível que essas seriam suas duas últimas mensagens de texto. A primeira era de Ino.


Liga-me imediatamente! Estarei esperando ao lado do telefone a noite toda, então, esteja pronta. E se lembre do mantra que eu te ensinei: Você vai sobreviver! De qualquer forma, se isso importar, eu acho que todo mundo esqueceu sobre....

Do jeito típico de Ino, ela havia ido tão longe que o celular de Sakura cortou quatro linhas da mensagem. De qualquer forma, Sakura estava aliviada. Ela não queria ler sobre como todos em sua antiga escola haviam finalmente esquecido o que havia acontecido com ela. O que a fez vir parar nesse lugar

Ela suspirou e abriu sua segunda mensagem. Era de sua mãe, que só havia aprendido a enviar torpedos há algumas semanas e que certamente não sabia sobre aquela coisa de uma-ligação-por-semana.


Querida, nós estaremos sempre pensando em você. Seja boa e tente comer proteína o suficiente. Nos Falamos quando pudermos. Amor, M&P

Com um suspiro, Sakura percebeu que seus pais deveriam saber. O que mais poderia explicar suas expressões elaboradas quando ela deu um tchau do portão da escola essa manhã, com sua bolsa de tecido em mãos? No café da manhã, ela havia tentado fazer piada sobre finalmente perder esse terrível sotaque de New England que ela havia adquirido na Dover, mas os seus pais não esboçaram nenhum sorriso. Ela pensou que eles continuavam chateados com ela. Eles nunca haviam feito completamente aquela coisa de elevar a voz, então quando Sakura estragou tudo, eles deram a ela o tratamento do silêncio. Agora ela entendia o estranho comportamento dessa manhã: seus pais estavam de luto pela perda de contato com sua única filha.

– Nós estamos esperando apenas uma pessoa, – A acompanhante disse. – Eu me pergunto quem é. – A atenção de Sakura voltou para a caixa de riscos, que agora estava transbordando de itens contrabandeados que ela não conseguia reconhecer.

Ela podia sentir o cara de cabelos ruivos com seus olhos fixos nela. Ela olhou em volta e viu que todo mundo estava com os olhos fixos. Sua vez. Ela fechou seus olhos e lentamente abriu sua mão, deixando seu celular escorregar e ganhar terreno no topo da pilha. O som de ficar completamente sozinha.

Idate e a robótica Shion dirigiram-se para a porta sem nada além um olhar na direção de Sakura, mas o terceiro cara se virou para o acompanhante.

– Eu sou capaz de informá-la, – disse ele, assentindo para Sakura.

– Não faz parte do nosso acordo, – A acompanhante replicou automaticamente, como se estivesse esperando esse diálogo – Você é um novo estudante — de novo – o que significa restrições de aluno novo. De volta para o nível um. Se você não gosta disso, deveria ter pensado antes de quebrar a sua condicional. –

O garoto permaneceu imóvel, inexpressivo, quando a acompanhante rebocou Sakura – que endureceu com o – condicional – — até o fim de um corredor amarelo.

– Mexa-se, – ela disse, como se nada tivesse acontecido. – Camas, – Ela apontou para a janela oeste de um prédio de concreto cinza. Sakura podia ver Shion e Idate misturarem-se devagar em direção deles, com o terceiro garoto andando devagar, como se alcançá-los fosse à última coisa em sua lista de coisas a fazer.


Realmente; ficar aqui vai ser muito “complicado”.

Notas finais
comentem
* Neutrogena, marca muito conhecida de produtos para a pele, que por regra as modelos dos anúncios comerciais são sempre louras e de aspecto delicado.
* No original; meds, beds and reds, é uma rima.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.