Fall to pieces
1 Não tão sozinha.
Notas iniciais
Ela permitiu-se sentar na escada, ainda ofegante e com a visão turva, a fadiga havia quase lhe vencido. À sua frente encontrava-se dezenas de homens desmaiados, derrotados por ela sozinha. Otose a chamou quando seu bar fora ameaçado, sendo um dos únicos comércios ainda funcionando em toda a Edo, os roubos tornaram-se frequentes, mas sempre evitados por um dos Yorozuyas. Naquele dia, a gangue decidiu atacar unida, o objetivo era terminar de uma vez por todas com aquele lugar e seus protetores. Kagura atendeu o pedido antes de Shinpachi e então passou por intermináveis minutos de luta. Agora, sentada na escada de sua antiga casa e trabalho, deixava que o suor escorresse por seu rosto, levando juntamente as lágrimas da dor de estar sozinha.
Há quatro anos ele os deixara e ela ainda tinha recaídas. A yato não podia deixar de imaginar em momentos como esse o quão diferente as coisas seriam se Gin-chan ainda estivesse com ela. Estar ali, onde um dia fora feliz, deixava-a angustiada.
Esfregou as costas da mão nos olhos com força, enxugando as lágrimas e escondendo sua fraqueza, ela iria até a velha dentro do bar e pediria por uma tigela de arroz como recompensa, isso ia certamente animá-la.
Ela desceu os poucos degraus que havia subido para sentar-se longe da gangue derrotada e antes mesmo que pisasse na rua, um som ensurdecedor preencheu o vácuo seguido de uma dor latejante em seu ombro.
Kagura levou instantes até recobrar os sentidos inibidos pelo tiro. Piscando ainda sem entender, trouxe a mão até o ombro ferido sentindo o sangue correr entre seus dedos. Ela procurou pelo responsável envolvida em uma aura assassina, achando-o camuflado entre os vários homens caídos. Ele tinha em mãos um revólver e parecia arrepender-se profundamente de ter disparado contra a yato.
Ela aproximou-se vendo-o tremer, aterrorizado demais para sequer fugir. Ao alcançá-lo, Kagura o levantou pelo colete e antes que ele implorasse clemência, socou-o. Desferindo seus golpes, ora acertando seu rosto ora o estômago, ela se deixou esvaziar-se não somente da raiva momentânea, mas também do rancor que sentia, bateu nele o suficiente para conseguir completar mais aquele dia.
Ao ter certificado-se de que ele havia sido mesmo apagado dessa vez, soltou o corpo inconsciente como se não lhe fosse nada, como costumava soltar o lixo que tirava para Gintoki alguns anos atrás.
Até então, ela sabia bem que vinha sendo vigiada desde o disparo do revólver.
— O que você quer? — Havia o evitado por meses, era quem menos esperava encontrar em um momento como aquele.
— Eu ouvi o som de um tiro, vim apenas verificar o local — respondeu em um suspiro, realmente esperava que ela não o visse detrás do muro.
— Não existe mais polícia em Kabukichou. — Sentou-se no primeiro degrau da escada, pressionando o ferimento a fim de estancá-lo. — Não há nada para você verificar aqui.
E ela estava certa. Mesmo que sempre investigasse algo que lhe parecesse suspeito, Sougo livrara-se de suas patrulhas há anos, não possuía qualquer responsabilidade ligada a Edo mais. Nada menos que o quartel da Shinsengumi restara, isso e sua aptidão em surgir em ocasiões importunas.
Embora não mais trocassem agressões físicas frequentes, eles continuavam não se tolerando. Kagura não era mais uma menina e não tão somente seu corpo agora desenvolvido mostrava isso, mas também suas atitudes eram as de uma mulher madura. Okita Sougo nunca correspondeu a sua real idade nos tempos do Yorozuya Gin-san, precisamente quando tratava-se de sua rival, contudo, era evidente sua mudança nos últimos quatro anos e Kagura recusava-se a admitir que havia sido para melhor.
— Não mesmo, mas vir aqui te rendeu esta oportunidade incrível de me ver. — Aproximou-se dela calmo, sem ao menos esconder o sorriso sarcástico. — Isso está bem feio. — Notou a seriedade de seu ferimento e comprimiu os lábios como se pudesse sentir a dor em si. — Espero que você morra.
Aquela falta de entonação dele lhe dava nos nervos.
A ruiva bufou sem saber como prosseguir, ainda não havia procurado onde passar a noite e com aquela ferida teria dificuldades em mover-se por pelo menos uma semana. Ela tirou a luva encharcada de sangue com os dentes, deixando assim que ele escorresse pelo braço. E estando tão ocupada em fingir não sentir nada, ela não ouviu o Okita falar. Seu campo de visão o captou estender-lhe a destra e a yato não reagiu.
— Eu disse que vamos ao quartel para tratar disso.
— O quê? — Ela piscou confusa, desviando o olhar entre a mão estendida e a expressão do sádico, esperava descobrir sinais de que aquilo fosse outra brincadeira de mal gosto.
— Você perdeu tanto sangue que já tá delirando. — Era sempre tão difícil lidar com ela, mesmo após anos de convivência.
— Por que diabos eu iria até o covil de ex-ladrões de impostos? — Semicerrou os olhos, preparando o tom para a próxima sentença. — E ainda por cima com você.
Kagura colocou-se de pé ao estalar a língua e passou por ele desprezando sua gentileza. Sougo sentiu uma veia saltar ao vê-la tirar o cabelo dos ombros, insinuando autossuficiência, ela não conseguia ao menos ser prestativa.
Ele entendia o quanto ela tornara-se independente, isso secretamente o deixava orgulhoso. A ruiva não era como outras mulheres, nunca fora. Entretanto, ela tinha a personalidade desvirtuada, convencida, era problemática demais. Em todas as vezes que o ex-capitão da primeira divisão da Shinsengumi tentara se aproximar dela nos últimos anos, acabou ganhando uma dor de cabeça diferente. Ainda que, o relacionamento deles tivesse relativamente evoluído ao ponto de conseguirem interagir feito pessoas em pleno juízo, eles não sequer haviam chegado a se considerar colegas.
Ele analisou a trilha de sangue que ela deixou ao passar, seguindo-a meramente de soslaio e sabendo o que sua teimosia lhe renderia.
A ruiva havia se levantado com certo esforço, seus membros superiores pulsavam dolorosamente em fadiga e era evidente que mal podia suportar-se de pé. Isso, somado a perca de sangue contínua, a fez ultrapassar Sougo por três passos antes de cair. Foi breve e indolor, sentiu tudo escurecer antes de ter de volta os sentidos ainda enfraquecidos. E estando no chão com a visão prejudicada pela tontura, tudo que ela ouviu foi o riso sádico do samurai.
— Eu poderia ter te segurado, mas seria muito clichê. Depois do como você me tratou, isso foi pouco para você! — Kagura murmurou algo incompreensível em resposta, possivelmente um xingamento.
Ela sustentou o peso do corpo com os braços arqueados, tentando reerguer-se, mas ao levantar o joelho para um melhor apoio, ela se desequilibrou e sentiu mais sangue jorrar do ombro com os esforços. Antes que apagasse de vez, entre suas longas piscadas, ela observou Sougo aproximar-se de si ao tirar o cachecol e então, ela viu mais nada.
Sougo fez o possível para estancar sua hemorragia, carregando-a até sua moto estacionada não muito longe dali em seguida. Seria complicado transportá-la segura naquele estado, mas seria realmente pior levá-la andando ao QG.
Os ex-policiais encararam boquiabertos Okita entrar no estabelecimento com a yato nos braços, eles esperavam não viver o suficiente para ver um absurdo daqueles. Ele, por outro lado, procurava passar entre os homens curiosos, perguntava-se a esse ponto se fora mesmo inteligente trazê-la ali. Hijikata parecia não estar lá, caso contrário, ele se oporia de imediato àquela situação. E aproveitando a ausência do ex-comandante, Sougo dirigiu-se ao quarto dele já com a intenção de tratar Kagura ali. Ele abriu e fechou a porta corrediça em um movimento e esperou o alvoroço do quartel diminuir.
[...]
A ruiva pressionou os olhos ainda fechados, incomodada com a claridade e sentindo fisgadas no ombro. Virou a cabeça tentando acostumar-se com o ambiente, até sentir outra vez algo lhe perfurar de leve. Não levou mais que alguns instantes para que ela despertasse em um estalo, encontrando-se sob os cuidados de Sougo. Ele não a percebeu acordar, tinha em mãos agulha e linha, e costurava o ferimento em seu ombro. Kagura avistou dali somente o cachecol dele, encharcado de sangue, obviamente seu.
Talvez estivesse febril, Kagura sentia-se quente, mas era confortável estar ali, melhor que muitos lugares em que já passara a noite. A luz de velas indicava não ser mais dia e o papel de parede desbotado lhe era familiar. Pouco mobiliado, ela enxergou somente uma cômoda velha e espadas penduradas no quarto. Notando depois uma mesa atrás do samurai, e sobre ela, uma garrafa de saquê e o que parecia ser uma caixa de primeiros-socorros.
— Não acredito que me arrastou até seu quarto, nojento — sua voz soou rouca, chamando a atenção dele.
— Seja um pouco mais grata. — Ele passou a agulha por sua pele outra vez, fazendo-a murmurar com a pontada. — E este não é meu quarto, é do Hijikata.
Ela o assistiu aproximar a boca de seu ombro nu, rasgando a linha nos dentes. Eles cruzaram os olhares e Sougo a evitou, buscando a agulha em seu colo para guardar. Sem o cachecol enrolado ao pescoço, seu kimono largo deixava a clavícula e um pouco de seu rígido peitoral exposto.
— Você vai cobrar pelos serviços? — perguntou irônica.
Há meses eles não se viam, a yato sumia como se fosse algum tipo de justiceira e o dever a chamasse. Eles nunca resolviam um desentendimento e quando ela aparecia, começavam outro. Era difícil estarem juntos, quando estarem juntos significava desencadear uma série de sentimentos duvidosos que eles mesmos ainda não sabiam como lidar.
Okita Sougo a ignorou, dando-lhe as costas por um instante para guardar o que tinha usado. Ela aproveitou para levantar-se com dificuldade do futon e alcançar as botas que estavam próximas. O sadista virou e deparou-se irritado com aquilo, pegando-a pelos ombros e deitando a ruiva à força. Ela grunhiu com a pressão na ferida.
— Eu não vou ficar aqui! Me solta! — Fragilizada, ela não conseguia livrar-se do samurai.
— Não seja idiota, China. — Sua voz cobriu a dela e quando enfim obteve a atenção desejada, ele diminuiu o aperto em seu ombro. — Você não precisa fazer nada por esse distrito, como eu não preciso, você vai morrer se continuar agindo assim. — dizia em seu tom habitual, mas no fundo parecia incomodado.
— Como se você se importasse.
Kagura tornou-se uma mulher de fases e Sougo odiava ter de lidar com ela. Complicada, ele nunca entendia o que passava-se pela sua mente e suas reações eram sempre irritantes demais.
— Realmente, não me importo. — Saiu de cima dela, estalando a língua em irritação.
Ela analisou a expressão de descaso do ex-capitão da Shinsengumi em silêncio, lembrando-se da única pessoa que um dia se importou de fato com ela, ele era também a única pessoa que ela não tinha mais por perto. Outra vez naquele dia, lágrimas involuntárias escorreram pelo seu rosto, Kagura não as evitou.
Ter visitado o Yorozuya depois de tanto tempo a deixou sentimental, trouxe à tona toda a dor que ela custava esconder.
E Okita era achegado daquela dor, ele convivia com ela desde a morte de Mitsuba. Também visitava Otae no hospital com frequência e sabia que aquela dor também destruía pessoas próximas como Kondou e Shinpachi. Os quatro anos passados lhe renderam empatia, ele tomou causas como suas, amadureceu como homem. A questão era que, isso valia para sua rival, ele mentiu dizendo que não se importava, na verdade Kagura era a pessoa que ele mais tomara apreço durante aqueles anos.
A relação deles era confusa porque ambos não sabiam ser sinceros. Entretanto, vendo-a sofrer diante de si, Sougo cansou daquele orgulho. Ele era um sádico, não um insensível. Seu prazer não estava em ver seus amigos com o psicológico aos pedaços.
Kagura cobria os olhos encharcados com as costas da mão quando sentiu o braço ser afastado. Ela arregalou os olhos vendo Sougo curvar-se vagarosamente, seu cabelo comprido contornou o rosto dela, só parou ao sentir sua respiração irregular. Aquela não era a primeira vez deles próximos assim, mas talvez fosse a primeira vez com um real significado. O curto tempo que se encararam pareceu durar intermináveis minutos, o silêncio entre eles dizia muito, dizia que iria ficar tudo bem e que ele se importava sim com a yato. Okita juntou sua testa a dela, permitindo-se fechar os olhos.
Ele encontrava-se arqueado sobre ela, desajeitado, e então ela rodeou os braços sobre suas costas, desequilibrando-o. Kagura enterrou o rosto na curva de seu pescoço e agradeceu baixo, ele não ouviu, mas entendeu o gesto.
Separou-se dela desconcertado, levantou e dirigiu-se à saída. Desejou uma boa noite e foi para seu quarto.
Sem Gintoki, Kagura encontrava-se aos pedaços. E diferente do tiro que tomou, aquela era uma ferida que jamais iria sarar-se por completo. Entretanto, pelo menos durante aquela noite ela poderia dormir em paz sabendo que não estava tão sozinha quanto imaginara.
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